BOA VONTADE E DEVER NA IMPUTABILIDADE MORAL EM KANT

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Transcrição:

BOA VONTADE E DEVER NA IMPUTABILIDADE MORAL EM KANT Everton Souza Ponce Prof. Dr. Aguinaldo Pavão (Orientador) Meu objetivo na seguinte argumentação é expor e analisar a importância da boa vontade e do dever em se tratando da imputabilidade moral com base na Fundamentação da Metafísica dos Costumes de Kant. Irei discutir tal importância fazendo a reconstrução do prefácio e da primeira seção da obra expondo meu ponto de vista no decorrer da mesma e ao fim argumentar uma breve conclusão. Logo no prefácio da obra, Kant expõe as distinções do conhecimento racional tal como se dividia a velha filosofia grega, em três ciências: a física, a ética e a lógica. Segundo ele, um conhecimento racional, ou é material, que se ocupa de certos objetos e das leis nas quais estão submetidos, ou é formal, que se ocupa da forma do entendimento e da razão sem levar em consideração a distinção dos objetos, a lógica. O conhecimento racional material, por sua vez, é dividido em dois, e essa divisão se dá por conta das leis nas quais os objetos estão submetidos. Se essas leis são leis da natureza, essa ciência é a física, ou teoria da natureza, se são leis da liberdade, a ética, ou teoria dos costumes. O conhecimento racional poder ser puro, ou seja, apoiado em princípios a priori, ou empírico, baseado em princípios da experiência. Quando um conhecimento racional puro é focado apenas na forma temos a lógica, mas quando se limita a certos objetos do entendimento temos a metafísica, por sua vez dividida em: metafísica da natureza e metafísica 655

dos costumes. Sendo assim, a física e a ética terão sua parte empírica e sua parte racional. No caso da ética, a parte empírica se chamará antropologia prática, e a racional a moral propriamente dita. Mais adiante, Kant questiona se não seria da natureza da ciência que se dividisse a parte empírica da parte racional de um conhecimento. O objetivo dessa divisão, além de sugerir que alguém que investigasse a parte racional tivesse de possuir características específicas distintas de alguém que o fizesse na parte empírica, seria saber o quanto é capaz a razão pura e de que fontes retira seus princípios a priori. Como o interesse é com relação à ética, Kant ressalta a importância de uma filosofia moral que trate do dever e das leis morais e que não tenha vínculo algum com a antropologia. Desde que apoiado na experiência, mesmo que se estabeleça uma regra prática de acordo com um preceito em certa medida universal, esta não será uma lei moral. Uma lei moral estará sempre de acordo com a razão pura e destituída de princípios empíricos. Segundo o autor, a filosofia moral sustenta-se na parte pura da razão, e mesmo quando aplicada ao homem não carrega consigo parte alguma da antropologia, embora lhe forneça leis morais. Somente aqui existe alguma relevância quanto à experiência, pois é com ela que a faculdade de julgar a aplicabilidade dessas leis pode ser aprimorada. A metafísica dos costumes se torna indispensável não apenas pelo caráter especulativo com relação às investigações dos princípios práticos a priori na nossa razão, mas também para orientar os costumes quando com relação às leis morais enquanto carecer do fio condutor para um exato julgamento, ou seja, nos orientará quando ainda não estivermos 656

amparados pela faculdade de julgar, uma vez que, como já dito, só pode ser aprimorada pela experiência. O fato de algo ser de acordo com a lei moral não implica necessariamente que aquilo seja moralmente bom. Na verdade, uma ação cuja motivação seja imoral, pode certas vezes ocorrer de acordo com as leis morais. Para que algo seja moralmente bom, não basta que seja de acordo da lei moral, mas deve-se cumprir por causa da lei moral. Segundo Kant, com relação ao campo moral, a razão humana, mesmo quando com relação ao entendimento comum, pode se desenvolver a ponto de atingir graus elevados, e esta fundamentação tem por objetivo explicitar as características do entendimento nas etapas desse processo, e com isso exercer a busca e a fixação do princípio supremo da moralidade. A exposição nessa investigação é feita, a princípio, através do método analítico, no qual percorre o caminho do conhecimento comum para o princípio supremo da moralidade e em seguida, através do método sintético, percorrendo o caminho inverso, ou seja, desse princípio supremo e de suas fontes para o conhecimento comum e suas aplicações. No início da primeira seção, Kant mostra como a boa vontade é necessária ao caráter para que os talentos do espírito (discernimento e capacidade de julgar, por exemplo), as qualidades do temperamento (coragem e decisão, por exemplo) e os dons da fortuna (riqueza e honra, por exemplo), assim como as ações, sejam pensados como bom. Sem ela, os resultados das ações, bem como das qualidades citadas podem se tornar maus ou desastrosos. Mais adiante, Kant explica que mesmo que certas qualidades pareçam boas por si só, como por exemplo, autodomínio, calma e 657

reflexão, falta algo que possa caracterizá-las como tal. O que falta no caso é a boa vontade, e sem ela, no exemplo do autor, um facínora provido destas qualidades seria mais abominável do que sem elas. A boa vontade não é boa pelo que pode vir a trazer, mas pelo simples querer, justamente por isso esse querer deve ser analisado em uma esfera superior ao de suas conseqüências, e sua utilidade serve apenas para atrair a atenção daqueles que ainda não a conhecem. Na seqüência, o autor mostra como a razão não tem o poder de executar as intenções da felicidade. Uma vez que uma criatura seja constituída de razão e vontade e a finalidade de sua natureza seja sua preservação e seu bem-estar, parece razoável que as decisões acerca de suas ações e de seu comportamento caibam ao instinto, uma vez que realizar os desejos é uma condição necessária para se alcançar o bemestar. De outro modo a razão direcionaria a vontade através de um curso distinto do curso da natureza, o que não procede, e parece mais claro quando Kant conclui da seguinte forma:...a natureza teria evitado que a razão caísse no uso prático e se atrevesse a engendrar com suas fracas luzes o plano da felicidade e dos meios de a alcançar; a natureza teria não somente chamado a si a escolha dos fins, mas também a dos meios, e teria com sábia prudência confiado ambas as coisas simplesmente ao instinto... (FMC I 5, p.110-111). Quanto mais a razão se dedica à felicidade, mais o homem se afasta do contentamento. Uma vez feita uma análise das vantagens adquiridas nessa condição da razão constata-se que os desfavores superam os ganhos e que, por esse motivo, invejam-se aqueles de condição inferior, cuja razão não tem muita influência sobre suas ações, e 658

sim algo próximo do instinto. Dessa forma, encontra-se oculta a idéia de uma intenção mais digna da existência da razão, na qual a intenção privada do homem é subordinada. A razão não tem o poder de guiar a vontade a respeito de seus objetos, entretanto é uma faculdade prática, e seu emprego se dá na influência que exerce sobre a vontade, criando uma vontade não somente boa ou, de certa forma um meio para outras intenções, mas uma vontade boa em si mesma, em outras palavras, uma boa vontade de ser boa vontade, e para desenvolver melhor esse conceito, Kant encara o conceito do dever, conceito que carrega consigo o conceito de uma boa vontade estimável em si mesma e que, diante de certas limitações e adversidades que a poderiam ofuscar, ao invés disso tornam-na mais facilmente distinguível. Em se tratando do dever, Kant deixa de lado em sua análise as ações que são praticadas contrariamente ao dever, pois mesmo que possam ser úteis em determinadas circunstâncias, não se pode pôr em questão se foram praticadas por dever simplesmente pela óbvia contradição. Deixa de lado também as ações conformes ao dever, são praticadas sem nenhuma inclinação imediata, mas que são praticadas pelo sujeito submetido a outras tendências, como por exemplo, uma intenção egoísta, explicada pelo próprio autor na seguinte citação: -É na verdade conforme ao dever que o merceeiro não suba os preços ao comprador inexperiente, e quando o movimento do negócio é grande, o comerciante esperto também não faz semelhante coisa, mas mantêm um preço fixo geral para toda a gente, de forma que uma criança pode comprar em sua casa tão bem como qualquer outra pessoa. É-se, pois servido 659

honradamente; mas isso ainda não é o bastante para acreditar que o comerciante tenha assim procedido por dever e princípios de honradez; o seu interesse assim o exigia; mas não é de aceitar que ele tenha tido uma inclinação imediata para os seus fregueses, de maneira a não fazer, por amor deles, preço mais vantajoso a um do que a outro. A ação não foi, portanto, praticada nem por dever nem por inclinação imediata, mas somente com intenção egoísta. (FMC I 9, p.112) Tendo em vista, portanto, as ações por dever e as ações conformes ao dever provenientes de alguma inclinação imediata, Kant, através da análise de alguns exemplos de ações, explicita três proposições, sendo a primeira que o valor do caráter consiste em fazer o bem, não por inclinação, mas por dever. Conservar a vida, por exemplo, é um dever no qual todos temos uma inclinação imediata e, justamente pelo fato dessa inclinação, tal ação não suscita nenhum valor moral. Conservamos nossas vidas conforme o dever, mas não por dever, em outras palavras, é certo conservarmos nossas vidas e o fazemos porque queremos, e não somente pelo fato de ser um dever. Entretanto, segundo o exemplo de Kant, um sujeito cuja vontade de viver fora arrancada pelos infortúnios e o mesmo deseja a morte, porém ainda assim conserva a sua vida, estará agindo por dever e a máxima da sua ação tem conteúdo moral. Em outras palavras, o sujeito não conserva a vida porque deseja (tem inclinação), mas porque deve. Ser caritativo quando se pode sê-lo também é um dever, e mesmo assim, muitos que o são não carregam valor moral algum nessas suas ações, pois por mais amáveis e honrosas que sejam essas ações, se praticadas sob qualquer inclinação imediata, são ações meramente conformes ao dever. Por outro lado, no caso de um filantropo cuja 660

desgraça alheia não tocasse mais seu coração e as honras dessas ações pouco lhe importassem, ainda assim se colocasse à disposição para fazer bem aos desgraçados quando possível, esta ação, por sua vez, carregaria valor moral, pois o mesmo não a estaria fazendo por inclinação alguma, mas por dever. Para melhor fixação da idéia das ações passíveis de moralidade, ou seja, por dever e das ações por inclinação imediata, Kant dá o seguinte exemplo: - Se a natureza tivesse posto no coração deste ou daquele homem pouca simpatia, se ele (homem honrado de resto) fosse por temperamento frio e indiferente às dores dos outros por ser ele mesmo dotado especialmente de paciência e capacidade de resistência às suas próprias dores e por isso pressupusesse e exigisse as mesmas qualidades dos outros; se a natureza não tivesse feito de um tal homem (que em boa vontade não seria o seu pior produto) propriamente um filantropo, - não poderia ele encontrar ainda dentro de si um manancial que lhe pudesse dar um valor muito mais elevado do que o dum temperamento bondoso? Sem dúvida! e exatamente aí é que começa o valor do caráter, que é moralmente sem qualquer comparação o mais alto, e que consiste em fazer o bem, não por inclinação, mas por dever. (FMC I 11, p.113) Mesmo que bem explicitadas as características das ações por dever e das ações por inclinação imediata e, segundo os exemplos, ambas não podem ocorrer simultaneamente, é justamente neste ponto que certa interpretação pode fazer com que esta primeira proposição pareça não proceder totalmente. Segundo exemplos do autor, uma ação por dever carrega sempre valor moral enquanto uma ação por inclinação, mesmo 661

que proceda conforme ao dever, não o faz, entretanto, as explicações que Kant faz sugere que uma ação cujo móbil seja por dever, apenas por conter também uma inclinação, faz com que o valor moral da ação se perca. Por exemplo: Um viajante encontra uma pessoa ferida há poucos metros do hospital e, com a máxima de ajudar as pessoas quando necessitadas, o viajante se dispõe a ajudar. Tal ação ocorreu por dever, pois o princípio motor da ação foi o dever de ajudar as pessoas e nenhuma inclinação foi envolvida, logo tal ação carrega valor moral. Esta interpretação conclui que Kant parece estar sugerindo que caso a pessoa ferida fosse alguém próximo do viajante, um familiar ou um amigo, tal ação perderia seu valor moral. É evidente que por envolver um ente querido tal ação carregaria inclinação, porém esse fato não parece suficiente para negar a moralidade da mesma, uma vez que seu princípio motor continuaria sendo o dever (Interpretação discutida em aula com base no artigo O papel das inclinações na filosofia moral de Kant (2008) do professor Aguinaldo Pavão). Portanto, a possível falha nesta objeção estaria em não se explicitar o móbil da ação, pois que uma ação praticada conforme o dever e sob efeito de uma inclinação imediata não carregue necessariamente valor moral fica claro com os exemplos, mas quando se diz respeito a uma ação por dever, ou seja, cujo móbil é o próprio dever, é possível que hajam inclinações relacionadas à mesma, entretanto, uma vez que o móbil da ação é o dever, essas inclinações em nada a alteram moralmente. A segunda proposição do dever diz que uma ação praticada por dever tem o seu valor moral, não no propósito que com ela se quer atingir, mas na máxima que a determina, ou seja, o valor moral de uma ação não se dá pela motivação relacionada ao resultado esperado, mas sim na motivação relacionada aos princípios a priori. Não se atribui valor moral a uma ação levando em conta a realidade dos objetos da mesma, 662

mas somente o princípio do querer. Nesta proposição, Kant sugere uma pergunta quanto ao valor moral residir na vontade:...em que é que reside pois este valor, se ele se não encontra na vontade considerada em relação com efeito esperado dessas ações? Não pode residir em mais parte alguma senão no princípio da vontade, abstraindo dos fins que possam ser realizados por uma tal ação; pois que a vontade está colocada entre seu princípio a priori, que é formal, e seu móbil a posteriori, que é material, por assim dizer numa encruzilhada; e, uma vez que ela tem de ser determinada por qualquer coisa, terá de ser determinada pelo princípio formal do querer em geral quando a ação seja praticada por dever, pois lhe foi tirado todo o princípio material. (FMC I 14, p.114) Nesta citação, é possível imaginar duas espécies de vontade. Uma, citada no início, como uma espécie de inclinação referente aos fins das ações, ou mesmo desejo gerado pelas conseqüências delas, a qual Kant, na própria pergunta, exprime não ter o poder de imputar moralidade às ações. E a segunda, situada na encruzilhada dos princípios formais a priori e o móbil material a posteriori, resultado do princípio da vontade após dele ter sido abstraído toda a inclinação com respeito aos fins, restando todo o princípio formal, ou melhor, uma espécie de desejo por si mesmo de agir corretamente, é aqui que se encontra o valor moral. Em resumo, o valor moral de uma ação não se encontra na motivação relacionada aos objetivos, mas nos princípios a priori, e este por sua vez se encontra no princípio da vontade, uma vez que este se encontrar ausente de inclinações imediatas e, por conseguinte, tender na mesma direção das leis morais e da boa vontade. 663

A terceira e última proposição, derivada das duas primeiras, e segundo a formulação de Kant ficaria da seguinte forma: Dever é a necessidade de uma ação por respeito à lei (FMC I 15, p.114). Kant explica que com relação ao objeto da ação pode-se ter inclinação, mas nunca respeito, uma vez que o objeto da ação é efeito de uma vontade e não a atividade em si, noutros termos, o dever consiste em um princípio ligado à vontade capaz de direcionar a ação para que a mesma ocorra de acordo com as leis morais, não sendo suscetível às inclinações, mas dominando essas inclinações quando não excluindo-as do cálculo na escolha. Dessa forma, o que resta à razão para determinar uma ação por dever são, objetivamente as leis morais e subjetivamente o puro respeito por estas leis, ou seja, a máxima de obedecer as leis mesmo que estas possam estar contrariando todas as inclinações. O valor moral de uma ação não pode ser encontrado em suas conseqüências, tampouco em princípios cuja motivação resida nessas conseqüências, pois tais conseqüências poderiam ser alcançadas por meios cujas motivações poderiam ser outras, essas, sem compromisso algum com as leis morais. Somente no ser racional é que se encontra a representação da lei em si mesma, que determina a vontade sem levar em consideração os fins da ação, mas tão somente por respeito à lei, o bem supremo, como dito pelo próprio Kant. Com base nisso o autor prossegue com uma reflexão que chega ao imperativo categórico: Mas que lei pode ser então essa, cuja representação, mesmo sem tomar em consideração o efeito que dela se espera, tem que determinar a vontade para que esta se possa chamar boa absolutamente sem restrição? Uma vez que despojei a vontade de todos os estímulos que lhe poderiam advir de obediência a qualquer lei, nada mais resta do que a conformidade a uma lei universal das ações em geral que possa servir de único 664

princípio à vontade, isto é: devo proceder sempre de maneira que eu possa querer também que a minha máxima se torne uma lei universal. Aqui é pois a simples conformidade à lei em geral...( FMC I 17, p.115) Na minha interpretação, concluí que em se tratando da ação, no campo moral, ela se dispõe em uma estrutura que tem seus alicerces nas leis morais e, em um mesmo nível, a boa vontade, ambas relacionadas à vontade, esta tratada como faculdade aliada da razão quanto aos princípios a priori, estes determinantes das leis morais. No segundo nível, encontra-se uma outra espécie de vontade, esta como faculdade de desejar, que pode sofrer influência das inclinações imediatas, tal como pode sofrer influências da boa vontade, neste caso, apropriando-se do imperativo categórico para a formulação da máxima da ação. É neste nível que se explicitarão as motivações da ação. No terceiro nível desta estrutura pode-se encontrar a máxima da ação, esta decorrente da deliberação da vontade encontrada no segundo nível, que será uma vontade boa se decorrente da influência da boa vontade e má se decorrente da influência das inclinações imediatas. E no último nível desta estrutura se encontra a ação em si, que será moralmente má se decorrente de uma vontade má e moralmente boa se decorrente de uma vontade boa. Diante desta estrutura, pode-se partir tanto da ação quanto da vontade presente no segundo nível para se verificar o valor moral da ação. No primeiro caso, suponhamos uma determinada ação, em seguida analisemos a máxima que a determinou e neste ponto, se esta máxima for compatível com o imperativo categórico, podemos concluir que esta máxima foi decorrente de uma vontade boa, esta por sua vez resultado da influência da boa vontade sobre a vontade presente no segundo nível, por conseguinte pode ser caracterizada como moralmente boa. E caso a 665

máxima dessa ação não fosse compatível com o imperativo categórico, a mesma seria decorrente do resultado da influência das inclinações sobre a vontade do segundo nível, logo uma vontade má, por conseguinte uma ação moralmente má. No caminho inverso, se a vontade presente no segundo nível determina a máxima da ação baseando-se no imperativo categórico, logo, com base na boa vontade, esta ação será certamente moralmente boa, porém se a vontade do segundo nível determina a máxima da ação baseada em inclinações, esta ação será moralmente má. Em resumo, o dever explicita a importância da boa vontade na imputação de moralidade das ações e a boa vontade, por sua vez, é a responsável por tornar a vontade, enquanto faculdade de desejar, boa e esta, formular uma máxima de acordo com o imperativo categórico, lei a priori ausente de qualquer ligação com o fim da ação e assim decorrer uma ação moralmente boa. Bibliografia KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. Tradução de Paulo Quintela. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1980. PAVÃO, Aguinaldo (2008): O papel das inclinações na filosofia moral de Kant. Veritas (Porto Alegre), v. 53, p. 07-12. 666