Ansiedade

Documentos relacionados
Ansiedade

Ansiedade

Ansiedade Generalizada. Sintomas e Tratamentos

Profa. Ana Carolina Schmidt de Oliveira Psicóloga CRP 06/99198 Especialista em Dependência Química (UNIFESP) Doutoranda (UNIFESP)

Núcleo de Estudos e Intervenção em Psicologia

Prof. Dra. Aline Henriques Reis

O menor F.P., de 08 anos, foi submetido a avaliação psiquiátrica à pedido da psicopedagoga que o acompanha. Segundo a genitora, desde os 04 anos de

Entenda sua ansiedade. Novembro

Patricia Barros Mestre e Doutora em Psicologia Social UERJ Coordenadora Acadêmica Curso Extensão em TCC Infantil Santa Casa Misericórdia RJ

PLANO AFETIVO CONSCIÊNCIA DO EU CONCEITO CONSCIÊNCIA DO EU HUMOR NEXOS AFETIVOS. Consciência da própria valia. Impressão de plenitude presente vivida

Profa. Ana Carolina Schmidt de Oliveira Psicóloga CRP 06/99198 Especialista em Dependência Química (UNIFESP) Doutoranda (UNIFESP)

Trabalhando a ansiedade do paciente

Síndromes Psíquicas. Prof: Enfermeiro Diogo Jacintho

Quando o Pânico domina

DUPLO DIAGNÓSTICO: Transtornos Mentais na Síndrome de Down

2 Ansiedade / Insegurança Comportamento de busca de atenção, medo / ansiedade, roer unhas, fala excessiva

PROJETO DE ATENDIMENTO PSICOLóGICO AOS CANDIDATOS à OBTENçãO DA CNH COORDENADOR DA AÇÃO DE EXTENSÃO: FERNANDA MARIA SIQUEIRA TAVARES INTRODUÇÃO

ANSIEDADE: FOBIA SOCIAL

Transtornos Alimentares e Transtorno por Uso de Substância: Considerações sobre Comorbidade

Mas porque é importante tratar a ansiedade?

Mente Sã Corpo São! Abanar o Esqueleto - Os factores que influenciam as doenças osteoarticulares. Workshop 1

Terapia cognitiva e comportamental para as perturbações de ansiedade

Medo, Fobia, Vergonha e Estresse no Esporte

Transtorno de Personalidade Obsessivo Compulsivo. II Simpósio Terapia Cognitivo Comportamental Instituto Brasileiro de Hipnose IBH

DEPENDÊNCIA DIGITAL ATÉ QUE PONTO A TECNOLOGIA É BOA OU RUIM? Dr. Rodrigo Menezes Machado

Baralho Interativo de Esquemas e Modos Lilian Scortegagna Lilian Scortegagna

Interações, conhecimentos e bem estar subjetivo

Transtorno de ansiedade generalizada

PRÁTICAS EDUCATIVAS PARENTAIS COMO DETERMINANTES DE ESQUEMAS DESADAPTATIVOS

PROJETO DE ATENDIMENTO PSICOLóGICO AOS CANDIDATOS à OBTENçãO DA CNH INTRODUÇÃO

TRANSTORNO DE ANSIEDADE GENERALIZADA: Diagnóstico e Tratamento

Ansiedade Traço e Estado de Atletas Escolares de Esportes Coletivos

Nosso objetivo: Exposição de casos clínicos, compartilhar conhecimentos e ampliar as possibilidades de atendimentos no seu dia a dia profissional.

22/03/2018 EXISTE UMA DISCIPLINA DA GRADUAÇÃO DA UFJF QUE ABORDA O TEMA? QUAL A SITUAÇÃO NO BRASIL? Sintoma comum a muitas doenças

A INTERPRETAÇÃO BEHAVIORISTA RADICAL DOS TRANSTORNOS DE ANSIEDADE

TRANSTORNO DE ANSIEDADE GENERALIZADA: Diagnóstico e Tratamento

DISTÚRBIO DA ANSIEDADE E DEPRESSÃO

LEGISLAÇÃO PSICOLOGIA APRESENTAÇÃO CIENTÍFICA DOS SETORES DA APADEV PSICOLOGIA LINHAS TEÓRICAS DA PSICOLOGIA PSICOLOGIA

l. Você notou algum padrão nessas reações (os momentos em que as coisas melhoram, horário do dia, semana, estação)?

O Baralho do TOC contém: 70 cartas de sintomas: 17 cartas Medos de contaminação e lavagens excessivas 18 cartas Alinhamento, simetria, ordem e

Supremo Conselho da Ordem DeMolay para a República Federativa do Brasil Gabinete Nacional da Ordem DeMolay

Pedro Siena Neto Edilson Soares Ribeiro.

Fobia Específica. Simpósio de Terapia Cognitivo Comportamental Instituto Brasileiro de Hipnose IBH

SAUDE MENTAL E TRANSTORNO MENTAL. Profa. Keila Ribeiro

Nosso objetivo: Exposição de casos clínicos, compartilhar conhecimentos e ampliar as possibilidades de atendimentos no seu dia a dia profissional.

Este Baralho contém:

15/08/2018 EXISTE UMA DISCIPLINA DA GRADUAÇÃO DA UFJF QUE ABORDA O TEMA? QUAL A SITUAÇÃO NO BRASIL?

A IMPORTÂNCIA DO SONO EDUCAÇÃO FÍSICA PROFESSOR: JOÃO PAULO PEREIRA

Quando o medo foge ao controle

FATORES PSICOLÓGICOS QUE LEVAM AS PESSOAS A CONSUMIREM COMPULSIVAMENTE

O BARALHO É COMPOSTO POR:

Profa. Ana Carolina Schmidt de Oliveira Psicóloga CRP 06/99198 Especialista em Dependência Química (UNIFESP) Doutoranda (UNIFESP)

Associação entre síndrome pré-menstrual e transtornos mentais Celene Maria Longo da Silva Gicele Costa Minten Rosângela de Leon Veleda de Souza

Teorias Motivacionais

SINTOMAS ANSIOSOS EM ESTUDANTES DE MEDICINA NA UNIVERSIDADE FEDERAL DO TOCANTINS

OS PRINCIPAIS FATORES QUE CONTRIBUEM PARA O APARECIMENTO E EVOLUÇÃO DO TRANSTORNO DESAFIADOR OPOSITOR (TDO)

Perturbação de Hiperactividade com Défice de Atenção

3.5 Medos e ansiedade na criança e no adolescente

Comunidade Pastoral ADOECIDOS PELA FÉ?

EBOOK SINTOMAS DEPRESSÃO DA DIEGO TINOCO

Pontifícia Universidade Católica Psicologia Jurídica AS FUNÇÕES MENTAIS SUPERIORES

RESPOSTA RÁPIDA 106/2014 APRAZ NO TRATAMENTO DA FIBROMIALGIA. Ilma Dra Valéria S. Sousa

Trauma: quando tratar e como

TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL PARA CRIANÇAS E ADOLESCENTES COM FOBIA ESPECÍFICA

TERAPIA DO ESQUEMA PARA CASAIS

TÉCNICAS DE CONTROLE DE ANSIEDADE: ENFRENTANDO A APRESENTAÇÃO DOS TRABALHOS DE CONCLUSÃO DE CURSO

Palestrante: Caroline Perin Psicóloga CRP-18/01735

O ambiente hospitalar e o entusiasmo pela vida

DOENÇAS MENTAIS E OS RISCOS PSICOSSOCIAIS NO TRABALHO

Mindfulness: possibilidades na saúde. Carolina Seabra

O diagnóstico da criança e a saúde mental de toda a família. Luciana Quintanilha, LCSW Assistente Social e Psicoterapeuta Clínica

ANALGESIA & ANESTESIA EM ANIMAIS DE LABORATÓRIO

Os Benefícios da Atividade Física no Tratamento do Transtorno no Uso de Drogas

ALTERAÇÕES NO CONVIVIO DO PORTADOR DE TRANSTORNO DE ANSIEDADE PÓS SEPARAÇÃO FAMÍLIAR UMA REVISÃO INTEGRATIVA

A IMPORTÂNCIA DO AUTOCONHECIMENTO PARA MANTER A ESTABILIDADE EMOCIONAL. Silvana Lopes Ribeiro Futura Diretora Executiva Mary Kay

ANSIEDADE: E AGORA? Carlos Marinho. humanas; numa ou outra altura, já todos nos sentimos ou menos ansiosos.

BULLYING NA ESCOLA: UM OLHAR DA PSICOLOGIA 1. Jaqueline Tatiane Welke Hasper 2.

BURNOUT NA EQUIPE DE SAÚDE: Como lidar? Dra. Patricia Dalagasperina

O mal nosso de cada dia. Ansiedade. Ciclo de Palestra: Labirintos da Vida Moderna 07/2015

Co-Dependência: Conceituação, Sinais. Maria Roseli Rossi Avila

Ansiedade de Separação: O que é isso???

SINTOMAS DE ESTRESSE EM ATLETAS DE VÔLEI DE PRAIA DE ALTO RENDIMENTO

O estresse nosso de cada dia

EMOÇÕES HUMANAS: UMA INTRODUÇÃO

Processos fundamentais de cognição social

Coordenação: Nivea Maria Machado de Melo Mestre em Psicologia (Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro RJ)

O transtorno de pânico além das técnicas Um estudo sobre o Transtorno de Pânico com foco na Análise do Comportamento. 1

Como lidar construtivamente com a raiva?

Transcrição:

www.infanciaeadolescencia.com.br Ansiedade

O que é ansiedade? A ansiedade, assim como qualquer outra emoção humana, tem uma função adaptativa. Dessa forma, sentir ansiedade não significa patologia por si só. Uma de suas principais funções é nos servir como alerta a situações de ameaça. Normalmente, a ansiedade é experimentada como uma apreensão sem causa aparente 2, difusa e desagradável. As situações que mais comumente geram ansiedade podem envolver ameaças de lesão corporal, dor, frustração, separação de pessoas amadas, ameaça à integridade física ou psicológica 3. Em nossos ancestrais, as manifestações da ansiedade tinham como função mobilizá-los para luta corporal, fugas, busca de alimentos e outras conquistas. Nos dias atuais, não necessitamos caçar ou nos proteger cotidianamente de animais ferozes. As exigências da vida moderna apresentam-se de forma bastante diferente: segurança emocional, social e econômica. Tais problemas, certamente, não excluem os períodos da infância e adolescência. De modo geral, podemos concluir que o curso da ansiedade é funcional à espécie humana. Mas até que ponto? A resposta é simples: até que ela atinja seu ponto máximo de eficiência. A partir desse limite, a ansiedade torna-se

desadaptativa: o organismo está desgastado e já não é mais capaz de responder às demandas do ambiente com eficácia 4. Por esse motivo, podemos sugerir que, quando experimentada por longos períodos ou em intensidade exagerada, a ansiedade possui grande probabilidade de se transformar em patologia. Assim, quando traz prejuízos significativos às vidas de crianças e adolescentes, pode-se caracteriza-la como um transtorno psicológico. Quando a ansiedade se transforma em patologia... Tratemos, agora, da ansiedade desadaptativa na infância e adolescência: diferente do medo, a ansiedade parece não apresentar, à princípio, um objeto bem definido, exigindo uma percepção mais apurada de seus sintomas para, então, ser definida. Seus episódios costumam alterar cinco esferas do funcionamento de crianças e adolescentes: alterações fisiológicas, de humor, comportamentais, cognitivas e interpessoais 1. Não é raro que crianças ansiosas relatem queixas corporais ou somáticas, que causam inquietação e desconforto com o próprio corpo. Reações do Sistema Nervoso Autônomo são comuns: sudorese, taquicardia, rosto avermelhado, vontade urgente de urinar, além de mãos e pés trêmulos. Do ponto de vista emocional, crianças e adolescentes ansiosos podem apresentar preocupação, apreensão e irritabilidade. Em crianças menores, tais sentimentos dificilmente conseguem ser descritos, podendo ser

melhor identificados sob relatos de nervosismo, sensações estranhas e de agitação. Os sinais comportamentais são os mais passíveis de observação: roer unhas, chupar dedo, além de condutas compulsivas e de hipervilância 1. Esta última tem como função básica esquadrinhar os possíveis perigos e manter sob controle as situações consideradas ameaçadoras para essas crianças. A esfera cognitiva envolve pensamentos que, de maneira geral, expressam preocupação com eventos futuros e expectativas negativas em relação ao enfrentamento de uma situação 1. Alguns estudos mostram que, diante de uma situação ambígua, crianças ansiosas tendem a interpretar os fatos de maneira mais ameaçadora quando comparadas a crianças não ansiosas 6,7. Esse tipo de interpretação pode ser expressa por pensamentos como: algo ruim pode acontecer ; não vou ser capaz de lidar com isso 1; Eu não vou me sair bem nessa situação ; ou Vai dar tudo errado! 8. Além da gama de pensamentos com tema recorrente de preocupação, a concentração também se mostra alterada. A criança alterna o foco de sua atenção para diversas preocupações ou a aprofunda apenas em uma só (algumas vezes, os próprios pensamentos a respeito de seu desempenho). Isso dificulta o direcionamento da atenção para um único objeto. Normalmente, a alteração da concentração costuma prejudicar o

desempenho em provas e trabalhos escolares, e até mesmo em situações de lazer, como conversar com amigos ou assistir a filmes e programas de televisão. A esfera interpessoal da criança ou adolescente ansioso acaba sendo prejudicada especialmente em eventos nos quais o indivíduo precisa mostrar seu desempenho. Ler ou apresentar seus trabalhos em sala, ser escolhido para um time, ou participar de atividades sociais não estruturadas configuram situações comuns de tensão entre esses jovens 10. Em todas essas situações, a ansiedade parece ter como causa a alta sensibilidade desses indivíduos à avaliação negativa ou à fiscalização dos demais sobre seu desempenho. Em grande parte dos casos, os prejuízos causados pela ansiedade acabam por se configurar como o que chamamos de Transtorno de Ansiedade. A evitação às situações que causam ansiedade é marca registrada da ansiedade patológica 1. Patologia, nesse caso, é sinônimo de desadaptação: deixa-se de realizar um ou vários comportamentos, prejudicando o cotidiano da criança ou do adolescente.

Bibliografia 1. Friedberg, R. & McClure, J. (2004). A prática clínica da terapia cognitiva. Porto Alegre: Artmed. 2. Kendall, P. C. (ed.) Child & Adolescent Therapy. Cognitive-Behavioral Procedures. New York, Guilford Press, 1991. 3. Kaplan, H.; Sadock, B. & Grebb, J. (2003). Compêndio de Psiquiatria: Ciências do Comportamento e Psiquiatria Clínica. Porto Alegre: Armed. 4. Ballone GJ - Ansiedade - in. PsiqWeb, Internet, disponível em http://www.psiqweb.med.br/, revisto em 2005. 5. Kendall, P. C. (ed.) Child & Adolescent Therapy. Cognitive-Behavioral Procedures. New York, Guilford Press, 1991. 6. Muris, P., Rapee, R. M., Meesters, C., Shouten, E., & Geers, M. (2003). Threat perception abnormalities in children: the role of anxiety disorders symptoms, chronic anxiety, and state anxiety. Journal of Anxiety Disorders, 17(3), 271 287.

7. Creswell, C.; Schniering, C. & Rapee, R. (2005). Threat interpretation in anxious children and their mothers: comparison with nonclinical children and the effects of treatment. In: Behaviour Research and Therapy 43: 1375 1381 8. Kendall, P. C. & Treadwell, K. R. H. (1996) Cognitive-Behavioral Treatment for child and adolescent disorders: Empirically-based strategies for clinical pratice. Washington, DC: American psychology association. 9. Kendall, P. C. ; Chansky, T.E.; Kim, R.S.; Kortlander, E. & Siqueland, L. (1992). Anxiety Disorders in Youth: Cognitive-behavioral interventions. Boston: Allyn e Bacon. 10. Beidel, D.C. & Turner, S.M. (1998). Shy Children, Fobis Adults. Washington, DC: american Psychological Association.