Mais do que um retrato

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Mais do que um retrato A seguinte interpretação sobre a obra barroca do pintor belga Van Dyck, o Retrato da Marquesa Lomellini com os filhos em oração (1623), se inicia com uma sucinta ambientação do período em que foi produzida. Logo após, e com maior destaque, há a descrição dos detalhes da obra e por fim algumas conclusões sobre possíveis interpretações a respeito da obra, inclusive com citações de outros autores. O período barroco ficou marcado como um período de oposição ao período renascentista. As dualidades, oposições, tensões, imaginação acima da lógica eram seus traços mais marcantes. O período se estendeu entre os séculos XVI e XVII. Já nos voltando à definição exposta no próprio acervo do Museu de Arte de São Paulo, todo o retrato compõe uma cena. Entretanto, a narrativa que propõe é mais extensa, ou seja, o retrato tem sempre algo a representar além do que podemos ver. Para descobrir o que um pintor quis expressar, o processo de interpretação desta obra é um primeiro passo a ser dado. A obra de Van Dyck apresenta cores escuras, com a predominância do negro e vermelho, que dão um ar de requinte ao quadro. O contraste destes tons chama também a nossa atenção. Os tecidos que aparecem também nos transmitem uma imagem de luxo. É como se sentíssemos a textura do pano vermelho, assim como das roupas, a mais pesada e obscura da mãe e a mais leve, das crianças, que também apresentam mais um indício do luxo, com detalhes dourados. Mas o principal da obra são as três personagens. Eles parecem brilhar, ser a parte iluminada, que brilha em meio às cores escuras do restante da obra. O ponto de fuga de nosso olhar se desloca entre os três rostos que apresentam traços em comum. Entretanto, o que mais incomoda é a fixação dos olhos do menino menor e da marquesa no observador da obra. Eles parecem estar nos acompanhando com os olhos, de qualquer ângulo em que estamos, de frente, mais ao lado da obra. É um olhar vigilante e ao mesmo tempo sereno que, entretanto, não nos parece triste. Não é difícil perceber que o destaque no quadro é dos três personagens e que logo em seguida o nosso olhar se dirige à imagem sobre a mesa, para onde o 3

segundo menino se dirige. O cenário por trás de todas estas figuras não aparece em detalhes, muito pelo contrário, não nos chama a atenção, o que parece ser o objetivo do pintor, para dar destaque ao que realmente importa. Sobre a imagem, que parece representar um santo pela adoração que o menino mais alto a dirige, ao mesmo tempo lembra características de um anjo, com traços que caracterizam as asas e um certo ar angelical. Mas vale destacar que apesar de a própria obra ser nomeada como Retrato da Marquesa Lomellini com os filhos em oração, apenas um deles está realmente rezando. O menino mais novo além de não estar voltado à imagem, segura o que parece ser uma maçã, fruto representante do pecado. Podemos interpretar esse detalhe, assim como a feição de seu rosto, que nos parece irônico, como indícios de oposição à pureza esperada de uma criança. O fato de ele e a marquesa não estarem orando como supõe a denominação da obra e a relevância da fruta deixam indícios de que os dois são pintados como não sendo tão puros, se contrapondo aparentemente à figura do segundo menino. Pode-se perceber a posição social que as personagens ocupam. Não apenas por sabermos, pelo nome da obra, que a marquesa pertence à alta classe da sociedade chagamos a essa conclusão, mas também por seu ar de superioridade, por sua postura e também por seus trajes. Conseguimos imaginar todo o ambiente de requinte em que estão localizados os três. A característica de Van Dyck de pintar não apenas o personagem, mas ao mesmo tempo traçar a personalidade e a figura social que representa já foi apontada por outras interpretações, como a do crítico italiano Giulio Carlo Argan. Para ele o pintor presta homenagem ao prestígio mundano, mas justifica a autoridade com a ideia de uma superioridade decorrente em igual medida da origem ilustre, da educação refinada e de uma espécie de vocação superior. O artista, como retratista da corte, representava com detalhes as classes sociais mais elevadas, mas também deixava lacunas para que nós observadores pudéssemos tentar interpretar o lado psicológico de cada personagem. A ideia que Van Dick nos passa é a de que mesmo pertencendo a uma alta classe, os personagens podem nos parecer simpáticos. De acordo com Rafael de Almeida em sua tese sobre as artes plásticas no barroco, no modernismo e a ética da psicanálise, abordando o enfoque de Van Dick 4

na aristocracia: Poucos artistas foram intimamente tão aristocráticos e exteriormente tão austeros, sabendo registrar com precisão as sutis nuanças individuais de uma classe que se apresentava muito homogênea no conjunto. Ainda nesse contexto, podemos interpretar que para Van Dick o estrato social é relacionado aos bons costumes, à dignidade. Não é a toa que a marquesa aparece com os filhos em um ambiente voltado à oração (independentemente de apenas um dos personagens estar efetivamente rezando). O uso de cores escuras e linhas diagonais nossos olhos se deslocam como em uma escada, de rosto em rosto, na diagonal também estão evidentes na obra, o que nos remete às características do barroco. Podemos então entender que uma obra pode representar muito mais do que vemos em um primeiro momento. Ela retrata o período em que foi produzida, o que o autor tentava passar de sua visão de mundo. Um olhar mais demorado pode revelar detalhes, além de indícios do que o pintor pensava. Diferentes análises podem surgir, mas todas voltadas ao estudo de uma época e de pintores de importância artística até hoje. 5

Bibliografia ARGAN,Giulio Carlo. Imagem e Persuasão: ensaios sobre o barroco. Companhia das Letras, São Paulo, 2004. ALMEIDA, Rafael Guarize. As Artes Plásticas no Período Barroco e no Modernismo e a Ética da Psicanálise. In: NÚCLEO DE ESTUDO E PESQUISA EM SUBJETIVIDADE E CULTURA DA UFJF. Disponível em: <http://www.psicanaliseebarroco.pro.br/revista/revistas/obras/artesplasticas.rtf> 6