Quando o pânico nos domina Escrito por Sofia Teixeira com entrevista a Cláudio Moraes Sarmento, psiquiatra e Vítor Rodrigues, psicólogo QUARTA, 02 OUTUBRO 2013 14:59 Burger/Phanie/Rex Features Ataques de pânico, crises de pânico e perturbação do pânico são alguns dos conceitos que dão nome a episódios de um mal-estar violento que têm a sua raiz na mente, mas arrastam consigo o corpo. Conhecê-los e tratá-los é essencial para dominar o medo, antes que ele nos domine a nós. A história do diagnóstico começa quase sempre da mesma maneira: a pessoa vai a andar na rua, está entregue a tarefas da casa ou sentado à secretária no trabalho e, umas vezes de súbito outras progressivamente, começa a sentir um aperto no peito, palpitações, suores e náuseas, dificuldade em respirar, dor
abdominal e um medo extremo de morrer. A primeira vez que acontece, seja pelo seu pé, seja levado, o paciente acaba frequentemente nas urgências hospitalares e é quase sempre com surpresa que recebe a notícia que tudo está bem com o seu coração e que não padece de nenhum mal com causa física, mas antes de uma perturbação mental conhecida como ataque ou crise de pânico. Como nos explica o psiquiatra e psicoterapeuta Cláudio Moraes Sarmento, dada a exuberância dos sintomas, é quase impossível num ataque de pânico inaugural intenso não se recorrer ao serviço de urgência. O diagnóstico inicial, refere o psiquiatra, implica o despiste de outras patologias que podem causar sintomas semelhantes e de causa não psiquiátrica. Por exemplo, e dependendo dos sintomas apresentados, que não são sempre os mesmos - pode ser necessário recorrer ao eletrocardiograma (ECG) para fazer o diagnóstico diferencial com enfarte do miocárdio). Porque acontecem? Os ataques de pânico - uma resposta desajustada do organismo sem razão aparente -não estão por norma associados a fatores desencadeantes externos ao indivíduo, embora possam ser precipitados pelo consumo excessivo de cafeína, teína, outros estimulantes, canabinoides [substâncias presentes no cannabis], revela Cláudio Morais Sarmento. Mais: ao contrário do que se possa pensar à partida, uma crise de pânico aparece sem aviso e em pessoas que não são necessariamente ansiosas no seu dia-adia. De resto, é o distúrbio de ansiedade mais frequente nos jovens adultos. Vítor Rodrigues, psicólogo, psicoterapeuta e autor do livro "Tranquila-Mente", cujo tema é justamente a gestão da ansiedade e stress, explica mesmo que em relação às perturbações de pânico (que não são o mesmo que simples ataques de pânico por se prolongarem muito mais no tempo), os estudos epidemiológicos indicam que ocorrem mais nas mulheres do que nos homens, afetam cerca de três por cento das pessoas alguma vez na vida, normalmente em adultos com menos de 50 anos. A idade típica do início varia entre a adolescência e os 30 anos. O psicólogo e psicoterapeuta refere ainda que ao que parece as
pessoas divorciadas ou separadas e/ou que vivem em meios urbanos estão mais sujeitas esta perturbação. Também se sabe que o stress intenso e precoce - ligado a separações, perdas afetivas, por exemplo - bem como o stress posterior, ligado a acontecimentos de vida, aumenta a incidência de perturbações de pânico. A genética também parece ter alguma influência, criando maiores predisposições em algumas pessoas. Vítor Rodrigues explica-nos ainda que, não havendo regras, geralmente a fase mais aguda pode durar cerca de 10 minutos, no entanto, muitas pessoas sentem, antes, um aumento de ansiedade e preocupação e, depois, tendem a precisar de tempo para recuperação. Escusado será dizer que são alguns minutos que, para o paciente, parecem uma eternidade. Ter tido um ataque de pânico trás consigo o medo de voltar a ter outro. No entanto, o facto de ter sofrido - um ou vários - ataques de pânico, não é, de acordo com Cláudio Moraes Sarmento, uma via facilitadora para ter mais. Ou seja, deixa entrever que aquela pessoa poderá ter mais propensão para patologia ansiosa, nomeadamente, na forma de ataques de pânico, mas o medo de os sentir não é causador de novos episódios. Aprender a controlar o pânico A questão é: alguém que já sofreu um ou mais ataques de pânico pode aprender a controlá-los ou a suavizá-los, tendo noção do que está a acontecer? É. É possível aprender a lidar com os ataques de pânico e reconhecer precocemente os sintomas iniciais. Desse modo pode ser evitado o precipitar da crise quer por controlo respiratório, quer por tomar um SOS, quer por racionalmente identificar a causa e perceber o que está a acontecer, avança Cláudio Moraes Sarmento. Nesta fase, em que o paciente já tem noção do que se passa e tem medicação de SOS, uma ida à urgência já não é necessária. Mas que técnicas pode o paciente aprender e usar em casos como estes? Nos filmes, quando alguém se descontrola, há sempre alguém que surge de saco de papel na mão a aconselhar quem está a passar mal a respirar lá para dentro. Curiosos sobre se esta técnica resulta ou é apenas um mito, fizemos a pergunta ao psicoterapeuta Vitor Rodrigues, que está mais do que habituado a ensinar formas de controlo aos pacientes que sofrem desta perturbação.
E não vá em cantigas - ficámos a saber que o saco não só é desnecessário como pode ser perigoso, mas que há no gesto algum fundo de verdade: o que resulta é respirar de modo diferente, geralmente mais profundo e pausado, o que é calmante e constitui o oposto do que acontece durante ataques de pânico, em que a respiração tende a ficar superficial, caótica e acelerada (o que, por sua vez, ajuda a produzir sintomas fisiológicos variados e desagradáveis). A hiperventilação, explica o psicólogo, faz com aspiremos mais dióxido de carbono do que seria normal, podendo levar a sintomas como a dormência, picadas, tonturas, coração acelerado e até mesmo, no limite (que é raro), desmaio ou convulsões. Também pode dar a impressão de que não conseguimos respirar. Isso está ligado à diminuição dos nossos níveis de dióxido de carbono e pode melhorar um pouco se respirarmos para dentro de um saco mas a técnica tem grandes inconvenientes pois pode reduzir muito o oxigénio (o que é obviamente muito perigoso), conclui Vítor Rodrigues, que embora admita que a técnica possa ajudar por nos distrair dos sintomas, esclarece que existem alternativas mais eficazes e saudáveis. Quais então? Durante um ataque de pânico, tendo a pessoa noção que é isso que está acontecer, o que deve pensar ou fazer para tentar acalmar-se? Vítor Rodrigues esclarece: O ideal é agir de imediato, relativizando os sintomas ( eu já conheço isto e sei o que fazer ), alterando de imediato o padrão respiratório, mentalizando que sabe que os ataques de pânico nunca duram muito. É importante perceber que a interpretação dos sintomas físicos como significando algo de catastrófico ( estou a ter uma crise cardíaca ) costuma ser completamente errónea e só piora o cenário. O psicólogo e psicoterapeuta entende que, apesar destas técnicas simples de autocontrolo, a psicoterapia e/ou apoio medicamentoso são muitas vezes importantes ou até imprescindíveis: ajudam a lidar com causas subjacentes e a ultrapassá-las, além de permitirem treinar a pessoa para que saiba interpretar melhor os acontecimentos e para que saiba gerir o corpo e as emoções nos momentos necessários. Tratamento: entre a medicação e a psicoterapia
Não há um tratamento padrão para os ataques de pânico ou para a perturbação do pânico. A terapêutica depende da gravidade da situação, nomeadamente da duração dos sintomas e das complicações associadas. "A perturbação do funcionamento social de determinado paciente pode ser muito grave com vários ataques de pânico por dia e com o desenvolvimento de agorafobia [fobia de espaços abertos] (...) ficando, no limite, progressivamente isolado e confinado em casa", revela Cláudio Morais Sarmento. O tratamento farmacológico, refere o psiquiatra, dá um alívio imediato dos sintomas, que é o que qualquer paciente com ataques de pânico mais deseja. Simultaneamente, pode ser iniciado um processo psicoterapêutico que, sendo eficaz, não proporciona um resultado imediato. Por essa razão, o mais adequado costuma ser o tratamento combinado que alia os fármacos e a psicoterapia, mas em casos "com poucos episódios num grande intervalo de tempo a opção psicoterapêutica poderá ser mais facilmente equacionada como primeira escolha." No entanto, Cláudio Moraes Sarmento explica que é importante informar os pacientes que, além do alívio proporcionado pela psicoterapia não ser imediato, o facto de as sessões se prolongarem no tempo faz com que os custos sejam elevados. Já a resposta à psicoterapia, de acordo com Vitor Rodrigues, "varia muito com cada pessoa, dependendo da sua vontade de colaborar, dos recursos de que dispõe e da sua sofisticação emocional." O trabalho psicoterapêutico tem sempre duas vertentes, uma paliativa que visa ajudar os pacientes a lidarem com as crises quando elas ocorrem e outra, que Vítor Rodrigues considera "mais profundamente terapêutica", e cujo objetivo é lidar com as condições subjacentes que causam ou predispõem para o pânico: situações traumáticas antigas ou recentes, sentimentos de impotência e baixa autoestima, stress forte e repetitivo, entre outras. Após um primeiro episódio e o diagnóstico, entre acompanhamento profissional, medicação, psicoterapia e um esforço de aprendizagem de autocontrolo, tudo vale e tudo conta para dominar este medo excessivo, descontrolado e prejudicial.
Fontes: - Cláudio Moraes Sarmento, psiquiatra e psicoterapeuta - Vítor Rodrigues, psicólogo e psicoterapeuta