ACÓRDÃO 9ª Turma PROCESSO: 0001049-15.2011.5.01.0042 - RTOrd COISA JULGADA. Inexiste o fenômeno da coisa julgada, uma vez que, nada obstante os pedidos e a causa de pedir sejam idênticos, as partes são diversas. Recurso a que se dá provimento. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos de recurso ordinário em que são partes: ROSA MARIA DOS SANTOS (Dra. Tania Mara Moreira Cardoso, OAB/RJ: 111219-D), como recorrente e MARTHA BUARQUE DE MACEDO GUIMARÃES (Dra. Maristela Buarque de Macedo Guimarães, OAB/RJ: 92636-D), como recorrida. Insurge-se a reclamante em face da r. sentença de fls. 76/80, proferida pelo MM. Juízo da 42ª Vara do Trabalho do Rio de Janeiro, da lavra do Exmo. Juiz Luis Guilherme Bueno Bonin, declarou de ofício a ocorrência de coisa julgada e extinguiu o processo sem resolução do mérito. Sustenta a recorrente nos argumentos revisionais de fls. 81/83, em síntese, a inexistência de coisa julgada. Custas inexigíveis, ante o deferimento da gratuidade de justiça. Contrarrazões às fls. 85/114, pela manutenção do julgado a quo. Deixo de encaminhar os autos ao douto Ministério Público do Trabalho, eis que não configuradas quaisquer das hipóteses previstas no art. 85, I, do Regimento Interno, do E. Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região. É o relatório. 7691 1
DO CONHECIMENTO admissibilidade. Conheço do recurso ordinário por preenchidos os pressupostos de MÉRITO DA COISA JULGADA DECLARADA DE OFÍCIO O Juízo declarou a ocorrência de coisa julgada de ofício e extinguiu o processo sem julgamento do mérito, sob o fundamento de que a presente possui identidade de partes, pedido e causa de pedir com a ação anteriormente ajuizada pela autora em face do filho da ora recorrida, tombada sob o nº 0000366-87.2011.5.01.0038. Sustenta a reclamante a inexistência de coisa julgada, uma vez que o processo anterior foi movido em face do Sr. Paulo, tendo o Juízo a quo firmado seu convencimento no sentido de que o mesmo não foi o empregador da recorrente e que a recorrente laborava para a Sra. Martha, não havendo que se falar em identidade de partes com apresente ação. Com razão. O Juízo a quo quando do julgamento da primeira ação movida pela reclamante em face do filho da ora recorrida Sr. PAULO BUARQUE DE MACEDO GUIMARÃES, julgou improcedentes os pedidos contidos na petição inicial, sob o seguinte fundamento: (...) Explicou a autora que a mãe do réu, Sra. Martha, era, pensionista, morava sozinha, recebia também valores de aposentadoria, era lúcida, sendo que recebia o suficiente para o seu sustento, o que demonstra que 7691 2
sequer há uma dependência econômico/financeira de mãe para com o filho e não havia entre Sra. Martha e o reclamado a união necessária para que fosse considerada a mesma família no conceito jurídicoconstitucional. Declarou, ainda, que quem fiscalizava a prestação de serviços era Sra. Martha, dirigindo os trabalhos e determinando outros afazeres, tal como preparo de alimentação, passar. Portanto, temos duas certezas: a primeira, que a reclamante nunca foi subordinada do réu, pois a fiscalização e direção dos trabalhos era exclusiva de Sra. Martha; a segunda certeza é que o réu nunca assalariou a reclamante, nunca lhe pagou contraprestação. Portanto, ausentes os requisitos do art. 3º da CLT. Improcedem os pedidos da inicial - fl. 47. Portanto, veja-se que naquela ação a improcedência foi decretada não em razão da inexistência de prova suficiente a caracterizar o liame empregatício com a Sra. Martha e nem poderia, uma vez que esta sequer constou do polo passivo naquela ação -, mas sim porque o Juízo firmou seu convencimento no sentido de que restaram ausentes os requisitos do art. 3º da CLT em face do Sr. Paulo Buarque. Neste contexto, data venia do Juízo primeiro, inexiste a alegada coisa julgada. Esta somente teria ocorrido se a decisão proferida nos autos do processo 0000366-87.2011.5.01.0038 tivesse sido julgada improcedente porque, tendo sido constatada a existência da entidade familiar composta pela Sra. Martha (que vivia em sua própria casa) e pelo Sr. Paulo (que, apesar de viver em outra casa exercia, por exemplo, ingerência no cotidiano ocorrido na casa de sua mãe) tivesse o Juízo firmado seu convencimento pela inexistência de vínculo de emprego com aquela entidade familiar. 7691 3
Todavia, não foi o que ocorreu. Consoante se depreende do trecho da decisão acima transcrita, foi justamente o contrário. Veja-se que o fundamento principal para o indeferimento do pleito foi o fato de o Sr. PAULO BUARQUE e a Sra. Martha NÃO constituírem, à luz do direito, uma família no conceito jurídico-constitucional. Portanto, se o Sr. Paulo Buarque e sua mãe não compunham uma família no conceito jurídico-constitucional como decidido pelo Juízo a quo só restou à reclamante ajuizar outra reclamação trabalhista, desta feita colocando no polo passivo a SRA. MARTHA BUARQUE DE MACEDO GUIMARÃES, sendo certo que as questões referentes à existência ou não dos requisitos ensejadores da relação de emprego em face de sua pessoa são matérias de mérito ainda a serem analisadas, que não se confundem com os fundamentos utilizados pelo Juízo para a declaração de coisa julgada. Nesta linha, inexiste a alegada coisa julgada, uma vez que, nada obstante os pedidos e a causa de pedir sejam idênticos, as partes são diversas, repise-se. Dou provimento ao recurso, para afastar a declaração de coisa julgada e determinar o retorno dos autos ao MM Juízo de origem para reabertura da instrução e prolação de nova decisão como entender de direito. CONCLUSÃO Pelo exposto, CONHEÇO do recurso ordinário e, no mérito, DOU-LHE PROVIMENTO, para afastar a declaração de coisa julgada e determinar o retorno dos autos ao MM Juízo de origem para prolação de nova decisão como entender de direito, nos termos da fundamentação supra. A C O R D A M os Desembargadores que compõem a 9ª Turma do Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região, por unanimidade, nos termos da 7691 4
fundamentação do voto da Exma. Sra. Relatora, CONHECER do recurso ordinário e, no mérito, DAR-LHE PROVIMENTO para, afastando a declaração de coisa julgada, determinar o retorno dos autos ao MM Juízo de origem para prolação de nova decisão como entender de direito. Rio de Janeiro, 18 de Junho de 2012. Desembargadora Federal do Trabalho Claudia de Souza Gomes Freire Relatora rej 7691 5