Infecções congênitas. Prof. Regia Lira

Documentos relacionados
TOXOPLASMOSE. Prof. Sérvio Túlio Stinghen

Profa. Carolina G. P. Beyrodt

EXAMES LABORATORIAIS: IMUNOLOGIA

TOXOPLASMOSE. Gláucia Manzan Queiroz Andrade. Departamento de Pediatria, NUPAD, Faculdade de Medicina Universidade Federal de Minas Gerais

Zika Vírus Cobertura pelo ROL- ANS. Cobertura E Codificação

SÍFILIS MATERIAL DE APOIO.

Resposta imune adquirida

Faculdade da Alta Paulista

ENFERMAGEM IMUNIZAÇÃO. Política Nacional de Imunização Parte 4. Profª. Tatiane da Silva Campos

Declaração de Conflitos de Interesse. Médico assessor e sócio do Grupo Fleury

Antígenos e Imunoglobulinas

Heterologous antibodies to evaluate the kinetics of the humoral immune response in dogs experimentally infected with Toxoplasma gondii RH strain

DIAGNÓSTICO PRÉ-NATAL.

INFORME TÉCNICO 01 VIGILÂNCIA DAS MICROCEFALIA RELACIONADAS À INFECÇÃO PELO VÍRUS ZIKA

PLANO DE ENSINO EMENTA

Diagnóstico Laboratorial de Infecções Virais. Profa. Claudia Vitral

Universidade Federal Fluminense Resposta do hospedeiro às infecções virais

Interação vírus célula Aspectos Gerais. Tatiana Castro Departamento de Microbiologia e Parasitologia (UFF)

Vigilância e prevenção das Doenças de transmissão vertical 2016/2017

Imunoensaios no laboratório clínico

Resposta Imunológica humoral. Alessandra Barone

Agentes de viroses multissistêmicas

DIAGNÓSTICO LABORATORIAL DAS HEPATITES VIRAIS. Profa. Ms.: Themis Rocha

Vigilância no prénatal, puerpério 2017

Tema Sífilis Congênita

DIAGNÓSTICOS SOROLÓGICO NAS INFECÇÕES BACTERIANAS. Sífilis

Prática 00. Total 02 Pré-requisitos 2 CBI257. N o. de Créditos 02. Período 3º. Aprovado pelo Colegiado de curso DATA: Presidente do Colegiado

IMUNOGENÉTICA. Sistemas Sangüíneos Eritrocitários

Diagnóstico Laboratorial de Infecções Virais. Profa. Claudia Vitral

ANTÍGENOS & ANTICORPOS

ENFERMAGEM SAÚDE DA MULHER. Doenças Sexualmente Transmissíveis Parte 2. Profª. Lívia Bahia

Vigilância no pré-natal, parto e puerpério 2018

Receptores de Antígeno no Sistema Imune Adaptativo

UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE

!"#$%&'()%*+*!,'"%-%./0

Universidade Federal de Pelotas Departamento de Veterinária Preventiva Toxoplasmose Zoonoses e Administração em Saúde Pública

Células envolvidas. Fases da RI Adaptativa RESPOSTA IMUNE ADAPTATIVA. Resposta Imune adaptativa. Início da RI adaptativa 24/08/2009

Herpesvírus linfotrópicos: CMV e EBV. Prof. Dr. Eurico Arruda Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto-USP

Interação Antígeno Anticorpo. Profª Heide Baida

Vigilância de sarampo e rubéola

Toxoplasmose. Filo: Apicomplexa (porque possui complexo apical)

Diagnóstico Imunológico das Infecções Congênitas

O sistema imune é composto por células e substâncias solúveis.

HIV 1 E 2 - ANTICORPOS - CLIA - TESTE DE TRIAGEM

Vigilância e prevenção das Doenças de transmissão vertical

Imunidade Humoral. Células efectoras: Linfócitos B. (Imunoglobulinas)

Família Herpesviridae

Imunodeficiência primária

PLANO DE CURSO. 1. DADOS DE IDENTIFICAÇÃO Curso: Bacharelado em Enfermagem Disciplina: Imunologia Básica

FUNDAMENTOS DE IMUNOLOGIA

Imunologia Clínica. Imunologia Clínica EXAMES COMPLEMENTARES IMUNOGLOBULINAS. IMUNOGLOBULINA IgG. IMUNOGLOBULINA IgG. Prof Manuel Junior

Toxoplasmose. Zoonoses e Administração em Saúde Pública. Prof. Fábio Raphael Pascoti Bruhn

CRONOGRAMA E CONTEÚDO PROGRAMÁTICO Assunto Turma Docente

Triagem Neonatal de Doenças Infecciosas

Serologias antes e durante a Gravidez:

Microcefalia na atenção básica

ENFERMAGEM DOENÇAS INFECCIOSAS E PARASITÁRIAS. ZIKA VIRUS Aula 3. Profª. Tatiane da Silva Campos

Circulação do vírus da rubéola no Brasil será monitorada pela OMS até

Gravidez. Prof.ª Leticia Pedroso

RESP - Registro de Eventos em Saúde Pública

BOLETIM EPIDEMIOLÓGICO SÍFILIS

Vigilância no pré-natal, parto e puerpério 2018

VÍRUS CAUSADORES DE INFECÇÕES EXANTEMÁTICAS

Hepatites. Inflamação do fígado. Alteração em enzimas hepáticas (alaminotransferase aspartatoaminotransferase e gamaglutamiltransferase ALT AST e GGT

Toxoplasmose. Zoonose causada por protozoário Toxoplasma gondii. Único agente causal da toxoplasmose. Distribuição geográfica: Mundial

LEVANTAMENTO DOS CASOS DE TOXOPLASMOSE AGUDA EM GESTANTES ACOMPANHADAS NO AMBULATÓRIO DE TOXOPLASMOSE DO HUM.

UNIVERSIDADE FEDERAL DE OURO PRETO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS FARMACÊUTICAS (CIPHARMA) IMUNO-HEMATOLOGIA. Doutoranda Débora Faria Silva

Patogenia Viral II. Rafael B. Varella Prof. Virologia UFF

Isoimunização materna pelo fator Rh

Vias de infecção. Transplacentária Durante estágios de infecção sangüínea materna Bactérias, virus, parasitas. Amniótica com membranas rotas

Introdução a imunologia clínica. Alessandra Barone

ENFERMAGEM DOENÇAS INFECCIOSAS E PARASITÁRIAS. ZIKA VIRUS Aula 2. Profª. Tatiane da Silva Campos

GRAVIDEZ. Profª: Karin

Imunologia. Introdução ao Sistema Imune. Lairton Souza Borja. Módulo Imunopatológico I (MED B21)

BIOMEDICINA EMENTA DE DISCIPLINA

PORTARIA - CCD, DE 24 DE SETEMBRO DE Prezados Senhores,

GLICOSE - JEJUM Material: Soro Método..: Colorimétrico Enzimático - Auto Analisador RESULTADO:

Ativação de linfócitos B mecanismos efetores da resposta Humoral Estrutura e função de imunoglobulinas

Imunidade adaptativa (adquirida / específica):

IMUNOLOGIA. Prof. Fausto de Souza Aula 10: Imunização Passiva e Ativa Vacinas

Bio12. Unidade 3 Imunidade e Controlo de Doenças. josé carlos. morais

HEMOGRAMA CAROLINA DE OLIVEIRA GISELLE MORITZ

Farmacoterapia aplicada em grupos alvo. Profa. Fernanda Datti

TOXOPLASMOSE EM GESTANTES

CASO EM FOCO EDNA M. ALBUQUERQUE DINIZ 1 MÁRIO E. CAMARGO 2 FLÁVIOA.COSTAVAZ 3

Exercício de Fixação: Características Gerais dos Vírus

Transcrição:

Infecções congênitas Prof. Regia Lira 12 de maio de 2015

ADAPTAÇÃO IMUNOLÓGICA MATERNO-FETAL Interpretação de resultados dos imunoensaios: Feto ou necém-nascido: sistema imune em desenvolvimento (fora dos padrões) Mãe: imunossupressão devido enxerto semi-alogênico (metade self, metade non-self) Apresentação de Ag fetal, reconhecimento e tolerância Hormônios (progesterona) atividade NK Equilíbrio Th1/Th2 Ação de citocinas maternas sobre a placenta Bloqueio de LTc trofoblasto Trofoblasto: tecido embrionário que fica em contato com a circulação sanguínea materna

TRANSMISSÃO DE INFECÇÕES PARA O FETO Início da infecção fetal: inoculação na placenta durante a fase de viremia (bacteremia, parasitemia) materna atingindo o feto Infecção primária: Maior acometimento fetal - sequelas graves Infecção secundária ou recorrente: Maior taxa de transmissão menos grave Proteção parcial da imunidade prévia materna (previne ou limita a infecção placentária) Dano fetal grave Idade gestacional Taxa de transmissão fetal

PATOGÊNESE DA DOENÇA CONGÊNITA Resultado da infecção do embrião ou feto: Morte do embrião reabsorção Aborto Natimorto Prematuro (antes de 37 semanas) Sequelas ao nascer Assintomático Mecanismos: Vírus morte da célula hospedeira, alteração de crescimento celular, dano cromossômico Inflamações causadas por microrganismos (sem ação direta) anormalidades estruturais (ex.: sífilis, toxoplasma e herpes simples) Feto de 12-13 semanas: Sistema imune reconhece o agente como sendo self (tolerância imunológica) e sem resposta adequada

ASPECTOS CLÍNICOS Quando são observados os principais sinais e sintomas de uma infecção congênita? Durante a gestação (imagens) Nascimento Primeiros dias meses Anos depois O que fazer quando confirmada infecção primária na mãe? Iniciar o diagnóstico fetal considerar o momento da infecção materna e o tempo para o agente ser diagnosticado no feto ou placenta

ASPECTOS CLÍNICOS Quais os principais sinais e sintomas? Baixo peso (retardo do crescimento IU Toxoplasma, Rubéola, CMV) Teratogênese ao nascer Surdez e retardo mental (tardio) Púrpura, petéquias, Hidrocefalia, calcificação intracraniana (Toxoplasmose) Catarata, defeito cardíaco, lesão óssea, glaucoma (Rubéola) Microcefalia e calcificação (CMV) Vesículas na pele-mucosa e conjuntivite (HSV) Exantema maculopapular e lesão óssea (sífilis)

SISTEMA IMUNE HUMORAL MATERNO Resposta Primária Elevação rápida de IgM de forma exponencial (semanas meses) Declínio de IgM até se tornar indetectável IgG logo após IgM declínio lento e persiste por anos IgG de baixa avidez

SISTEMA IMUNE HUMORAL MATERNO Resposta Secundária Reexposição ao mesmo antígeno Resposta mais rápida expansão dos LB de memória Produção de Ac. Mais rápido Acentuada fase exponencial 10 x mais Ac. Ac. Mais duradouros Declínio mais lento Predomina IgG Alta avidez dos IgG Base dos testes para detecção de anticorpos no diagnóstico da infecção materna primária

DESENVOLVIMENTO DO SISTEMA IMUNE HUMORAL DO FETO E DO RECÉM-NASCIDO Tempos diferentes para cada classe de Ig Semana 8 Transporte de IgG Semana 10 produção pelo fígado fetal (IgG e IgM) Até 17 20 semanas IgG baixo (100 mg/dl) Ao nascer IgG 5-10% > IgG materno 2 meses IgG de origem fetal = IgG de origem materna 10-12 meses todo IgG produzido pela criança 8 anos níveis adulto IgA, IgM, IgE e IgD: Não atravessam a barreira placentária IgM ou IgA achado no soro do cordão umbilical ou do RN Estimulação antigênica IU decorrente de infecção congênita

DESENVOLVIMENTO DO SISTEMA IMUNE HUMORAL DO FETO E DO RECÉM-NASCIDO IgM Neonatos = 11 20 mg/dl 1 ano 60% do encontrado em adultos IgM total em RN > 20 mg/dl sugere o quê? infecção congênita IgA Sangue de cordão umbilical = 0,1 a 5,0 mg/dl 1 ano = 20% do encontrado em adultos Final do 1 trimestre o sistema imune fetal começa a reconhecer o self capaz de montar uma resposta imune infecção congênita Resposta celular e humoral (Ig G, M e A detectáveis no soro de cordão umbilical)

DESENVOLVIMENTO DO SISTEMA IMUNE HUMORAL DO FETO E DO RECÉM-NASCIDO Níveis de Imunoglobulinas séricas de acordo com a faixa etária Idade IgG (mg/dl) IgM (mg/dl) IgA (mg/dl) Recém-nascido 1.031 ± 200 11 ± 5 2 ± 3 1 2 anos 762 ± 209 58 ± 23 50 ± 24 Adulto 1.158 ± 305 99 ± 27 200 ± 61

DIAGNÓSTICO LABORATORIAL DA INFECÇÃO MATERNA A maioria das infecções TORSCH Infecção materna assintomática Efeitos devastadores para o feto Testes sorológicos para o pré-natal Soronegativas (nunca tiveram a infecção) Soropositivas (infectadas no PRESENTE ou PASSADO) Acompanhamento para possíveis infecções primárias futuras IgG para CMV, toxoplasmose herpesvírus e rubéola Infecção no passado com imunidade materna total ou parcial SEM RISCO IMPORTANTE PARA O FETO IgM e/ou IgA durante a gravidez Sugere infecção recente com probabilidade de transmissão Investigar!

Concentração relativa de anticorpos Concentração relativa de anticorpos DIAGNÓSTICO LABORATORIAL DA INFECÇÃO MATERNA Cinética da resposta imunológica humoral de infecção PRIMÁRIA IgM IgG de baixa avidez IgA IgG de alta avidez IgG de alta avidez Reexposição IgA IgM Cinética da resposta imunológica humoral de infecção SECUNDÁRIA

DIAGNÓSTICO LABORATORIAL DA INFECÇÃO FETAL Materiais biológicos : ATENÇÃO À IDADE GESTACIONAL TEMPO PARA O TECIDO FETAL SER INVADIDO (4-5 semanas LA) Biópsias de vilosidade coriônicas 8 10 semana; ideal 10-11 semana Falso-positivo (contaminação por agentes infecciosos da mãe) Exames: NAT, IHC, detecção do agente Líquido amniótico (aminiocentese) 14 15 semanas 15 a 30 ml Exames: isolamento do agente e molecular

DIAGNÓSTICO LABORATORIAL DA INFECÇÃO FETAL Materiais biológicos : Sangue do cordão umbilical (cordocentese) 15 20 semans (22 semanas para rubéola) Pode ser repetido Cuidado para não contaminar com o LA ou sangue materno Falso-positivo Exames: detecção do agente, NAT, imunoensaios para anticoepos específicos Sorologia do feto / RN PRIMEIRO MÊS DE VIDA Detecção de IgM e IgA (mais comum) exclusivo do feto/rn infectado Competição dos IgG maternos (alta concentração) com IgM falso-negativo PRECIPITAÇÃO do IgG com soro de carneiro anti-igg humano Captura do IgM através de anticorpos monoclonais anti-igm fixados em fase sólida

Concentração relativa de anticorpos DIAGNÓSTICO LABORATORIAL DA INFECÇÃO FETAL Cinética da resposta imunológica humoral de um feto COM INFECÇÃO CONGÊNITA

Concentração relativa de anticorpos DIAGNÓSTICO LABORATORIAL DA INFECÇÃO FETAL Cinética da resposta imunológica humoral de um feto NÃO INFECTADO

REFERÊNCIA VAZ A.J., TAKEI K., BUENO E.C. Ciências farmacêuticas. Imunoensaios: fundamentos e aplicações. Guanabara Koogan, 2010.