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Transcrição:

Rio de Janeiro, 26 de julho de 2011. Ementa: Direito Administrativo e tributário. Desapropriação de imóvel urbano Responsabilidade pelo pagamento da dívida de IPTU e Compensação com o valor a ser recebido de indenização. O ato de declaração de desapropriação não acarreta, por si só, a transferência imediata da propriedade para a entidade pública (expropriante) interessada no imóvel. Apenas com o ingresso da entidade expropriante na posse do imóvel é que o IPTU deixará de ser responsabilidade do expropriado. O município, sujeito ativo do crédito tributário do IPTU, poderá fazer o pagamento da indenização devida na desapropriação com a dedução do imposto predial anteriormente devido pelo expropriado sobre o imóvel; sendo certo, nessa medida, que o contribuinte/expropriado poderá adotar o mesmo critério para se desonerar das cobranças anteriores de IPTU, uma vez que a compensação se constitui numa das modalidades de extinção do crédito tributário. As dívidas de IPTU e taxa de incêndio incidentes sobre o imóvel não são transferidas ao ente expropriante, devendo ser abatidas do valor da indenização a ser paga ao expropriado. Foram- me formuladas as seguintes questões, a serem respondidas em forma de consulta: 1

1) Uma vez que o imóvel urbano, situado na Rua A nº 01, na cidade do Rio de Janeiro, foi desapropriado pela municipalidade, a partir de quando o proprietário deixará de ser responsável pelo pagamento do imposto predial? 2) É possível a compensação do imposto predial devido com o valor de possível indenização oferecida pelo município? 3) Existindo dívida anterior de imposto predial sobre o imóvel, esta se transfere para o novo titular do domínio, a entidade pública expropriante, em razão da natureza propter rem do IPTU? I Responsabilidade pelo pagamento do IPTU O artigo 34 do Código Tributário Nacional (CTN) diz que o contribuinte do imposto predial territorial urbano (IPTU) é o proprietário ou o titular do domínio útil ou o possuidor do imóvel. O ato de declaração de desapropriação não acarreta, por si só, a transferência imediata da propriedade para a entidade pública (expropriante) interessada no imóvel. Na verdade, somente com o ingresso do expropriante na posse do imóvel é que se pode considerar a perda da propriedade 1, mesmo que em caráter provisório, a depender do registro da sentença transitada em julgado na ação de desapropriação no Registro Geral de Imóveis. Nessas condições, somente a partir do momento em que o Município do Rio de Janeiro ingressar na posse do bem, o IPTU deixará de ser responsabilidade dos proprietários do imóvel. A esse respeito, manifesta a jurisprudência: ADMINISTRATIVO E TRIBUTÁRIO - DESAPROPRIAÇÃO - DECLARAÇÃO DE UTILIDADE 1 STJ REsp 1.154.751. 2

PÚBLICA - IPTU - RESPONSABILIDADE - PROPRIETÁRIO DO IMÓVEL. A simples declaração de utilidade pública, para fins de desapropriação, não retira do proprietário do imóvel o direito de usar, gozar e dispor do seu bem, podendo até aliená- lo. Enquanto não deferida e efetivada a imissão de posse provisória, o proprietário do imóvel continua responsável pelos impostos a ele relativos. Recurso parcialmente provido. (STJ 1ª Turma, REsp 239687, relator Min. Garcia Vieira) 2 Agravo de instrumento. Antecipação de tutela. Ação de indenização por desapropriação indireta em face do Município de Petrópolis. Requerimento de antecipação de tutela para que fossem suspensas as cobranças de IPTU. Expropriados que não estão sujeitos ao pagamento do IPTU, a partir do evento configurador da desapropriação, conforme precedentes jurisprudenciais do STF indicados pelos recorrentes. Verossimilhança das alegações que ficou evidente após a apresentação da contestação, quando o Município- agravado não negou a construção de uma praça e a instalação de uma lixeira, afetando um imóvel particular, sem o pagamento da justa e prévia indenização. Inexistência do periculum in mora inverso, tendo em vista que, na hipótese de improcedência do pedido autoral, o Município dispõe de meios legais para exigir o pagamento do IPTU, sendo certo que os próprios imóveis são a garantia da dívida, que tem natureza propter rem. Decisão reformada. Provimento do recurso, nos termos do 1º- A do art. 557 do CPC. (TJERJ, 12ª Câmara Cível, processo nº. 026377-91.2009.8.19.0000, relator Des. Nanci Mahfuz). Assim sendo, a responsabilidade pelo pagamento do IPTU, por parte do proprietário expropriado, deixará de existir a partir do momento em que a municipalidade passar a ocupar o imóvel. II Compensação de dívida de IPTU com indenização 2 Em igual sentido: REsp 1111364, julgado em 25/08/2009. 3

Por outro lado, saliente- se que o município poderá fazer o pagamento da indenização devida na desapropriação com a dedução do imposto predial anteriormente devido, conforme reconhece a jurisprudência do STJ: É possível o poder público oferecer, em regime de compensação, créditos fiscais que possuem em relação ao desapropriado, como garantia do pagamento de valor da indenização devida pelo desapossamento do imóvel (STF RT 747/191, 802/143) (REsp 997.620- BA) Então, se é possível a municipalidade compensar a indenização a ser paga, inclusive depositando valor inferior para se imitir de imediato na posse do imóvel, como exige o artigo 15, 1º do Decreto Lei 3.365/41 (lei da desapropriação), em igual medida o contribuinte poderá adotar o mesmo critério para se desonerar das cobranças anteriores de IPTU, uma vez que a compensação se constitui numa das modalidades de extinção do crédito tributário 3. III Transferência de dívida sobre o imóvel Ressalte- se que a desapropriação é uma forma de aquisição originária da propriedade: A desapropriação é forma originária de aquisição da propriedade, pois a transferência da propriedade operase pelo fato jurídico em si, independentemente da vontade do expropriado, que se submete aos imperativos da supremacia do interesse público sobre o privado. (STJ, REsp 468.150, rel. Ministra Denise Arruda. Nesse passo, o art. 31 do Decreto- Lei 3.365/41 (lei de desapropriação) dispõe que: "Art. 31. Ficam subrogados no preço quaisquer ônus ou direitos que recaiam sobre o bem expropriado." 3 Art. 156, II, do CTN. 4

Desta forma, o preço a ser indenizado pelo expropriante inclui também as dívidas anteriores do imóvel, como as de IPTU e taxa de incêndio. Em conseqüência disso, não se aplica à desapropriação a regra do artigo 130 do CTN, que atribui aos débitos de IPTU e da taxa de incêndio a natureza de acompanhar o imóvel (propter rem): Art. 130. Os créditos tributários relativos a impostos, cujo fato gerador seja a propriedade, o domínio útil ou a posse de bens imóveis (IPTU), bem assim os relativos às taxas pela prestação de serviços referentes a tais bens (taxa de incêndio), ou a contribuições de melhorias, sub-rogam-se (transferem-se) na pessoa dos respectivos adquirentes, salvo quando conste do título a prova de sua quitação. (Sem grifos no original) Portanto, as dívidas anteriores de IPTU e de taxa de incêndio não são transferidas à entidade pública que venha a adquirir a propriedade do imóvel por desapropriação, sendo ainda necessário, nos termos do artigo 34 do Decreto Lei 3.365/41 4 (Lei da desapropriação), a apresentação da certidão de quitação de dívidas fiscais do imóvel para se levantar a quantia depositada a título de indenização. Portanto, independentemente da possibilidade de se tentar a compensação da dívida de IPTU com o montante a ser indenizado pela perda da propriedade, recomenda- se discutir a constituição do crédito tributário do mencionado imposto, a fim de se tentar diminuir o montante cobrado e, assim, se obter uma maior indenização final. Estou à inteira disposição para qualquer esclarecimento adicional. Cordialmente. Jorge Folena Advogado OAB/RJ 76.277 4 Art. 34. O levantamento do preço será deferido mediante prova da propriedade, de quitação de dívidas fiscais que recaiam sobre o bem expropriado... 5