362 TRIBUNAL MARÍTIMO PROCESSO N 14.797/92 ACÓRDÃO Veleiro "ANGELUS". Encalhe. Erro de navegação do condutor do veleiro. Condenação. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. No dia 10 de dezembro de 1991, às 03:00h, o veleiro ANGELUS", de bandeira argentina, encalhou na praia da ilha do Caju, município de Tutóia - MA. O veleiro "ANGELUS" pertencia à Bennett Nissencwajg e Adrian Marchesi, de nacionalidade argentina, exercia a função de comandante. Bennett Nissencwajg declarou que tomou conhecimento do acidente através de um telefonema dado por Adrian Marchesi e que logo em seguida comunicou-o à Capitania dos Portos do Piauí, solicitando que fosse aberto inquérito. Que apesar do combinado, não recebeu nenhuma comunicação durante a viagem do barco. Que o barco tinha material de salvatagem e saiu de Nova York com destino final em Porto Seguro, passando em Fernando de Noronha, onde eles deveriam se encontrar e seguir viagem até Porto Seguro. Que a tripulação era formada por Remo Casasco, sua mulher e o capitão, Adrian Marchesi. Adrian Marchesi declarou que se encontrava no leme da embarcação quando ocorreu o acidente. Que no barco estavam, ele, Marlene e Remo Casasco. Que, de acordo com o que foi combinado com o proprietário, saiu de Nova York no dia 8 de novembro de 1991 com destino à cidade de Porto Seguro - Bahia. Que a bordo havia todas as cartas náuticas necessárias para a viagem. Que o motor estava avariado e por isso toda a navegação era feita a vela. Que no seu relatório dava maiores detalhes sobre a viagem e o acontecido. Que no dia 9, às 02:00h, tomou o rumo 130o - 150o até à noite Que terminaram as reservas de água e bebidas. Que no dia 10, a 01:00h, o veleiro perdeu a sua capacidade de manobra, sendo largado o ferro, mas as ondas começaram a empurrar o veleiro, que terminou na praia. Marlene Bezerra dos Santos declarou que se encontrava na cabine central do barco. Que sua função a bordo era fazer os serviços gerais. Que não é habilitada, porém há dez anos veleja com amigos. Que, pelo que ficou sabendo, ao saírem de Nova York. tudo estava normal. Que navegavam a vela porque o motor propulsor apresentou problemas e não teve mais jeito. Que o responsável pela navegação era Adnan, que utilizava a bússola, o sextante e as cartas náuticas americanas, já que os demais equipamentos de navegação estavam inoperantes por falta de energia, pois as bateria* não estavam em condições de ligar os equipamentos. Que não conhecia a rota e que três dias antes do encalhe foi avistada uma praia e Adrian resolveu voltar para o mar aberto Que na noite do acidente foram avistadas duas luzes em terra, que Adrian imaginou serem do farol de Tutóia. Que Adrian resolveu se aproximar, imaginando ser um porto onde pudesse se abastecer de água (que estava em falta). Como a carta não dava detalhes e não tinham idéia de onde estavam, o barco encalhou e cada vez mais foi sendo levajo em direção à praia. Que o barco foi abandonado e saíram caminhando, com água pela cintura, até a praia.
ANUÁRIO DE JURISPRUDÊNCIA 363 Remo Renato Casasco, desenhista naval de profissão, declarou que, no momento do encalhe estava deitado. Que algumas horas após terem saído de Nova York, o motor propulsor foi desligado, passando a navegar à vela porque o tempo era favorável. Que três dias após a saída tentou-se dar partida no motor, que não funcionou. Que passaram a navegar a vela utilizando a carta náutica 710 americana e outra brasileira. Que utilizaram um pequeno rádio a pilha, mas não tinham certeza por onde estavam navegando. Por não disporem de cartas náuticas das ilhas Bermudas e por considerarem a área perigosa, decidiram seguir viagem e entrar em Fortaleza - CE, que seria a opção mais segura. Declarou ainda que durante a viagem, a vela rasgou, tendo sido costurada. Que também houve um princípio de incêndio em uma fiação elétrica. Que antes da saída o proprietário do barco havia garantido que ele havia sofrido uma revisão. Auto de exame pericial às fls. De tudo o que contém os presente autos, o encarregado do inquérito concluiu que os fatores que contribuíram para o acidente foram: a) Fator humano - não houve fatores biológicos, psicológicos ou fisiológicos que influenciassem ou contribuíssem para o acidente; b) Fator material - tendo em vista que a embarcação estava enterrada na areia da praia, não foi possível avaliar o estado de conservação da embarcação nem de seus equipamentos de bordo. Todavia, a tripulação afirma, nos seus depoimentos, que o motor propulsor e as baterias da embarcação apresentaram pane, logo que iniciaram a viagem; c) Fator operacional - a presença de dois (2) tripulantes sem habilitação a bordo do veleiro já representa um fator negativo para o sucesso de uma viagem de tamanha envergadura; quanto aos equipamentos de bordo, não foi possível avaliá-los, uma vez que a embarcação estava enterrada na areia e foi impossível retirar o casco ou penetrar no seu interior. Em conseqüência dos defeitos no motor propulsor e nas baterias, conforme afirmam as testemunhas em seus depoimentos, os equipamentos de navegação da embarcação passaram a não funcionar, obrigando a uma navegação costeira sem que a tripulação conhecesse suficientemente a região. É possível responsável direto ou indireto pelo acidente, o comandante da embarcação Adrian Marchesi; a) Sendo o Sr. Adrian Marchesi, o comandante da embarcação, que apresentou problemas logo após o início de viagem, ele deveria ter voltado ao porto de origem ou procurado um outro porto mais próximo, uma vez que se tratava de uma navegação de travessia do Oceano Atlântico, considerada uma travessia de longa duração; b) Demonstrou negligência, ao aceitar para sua tripulação, pessoas que não atavam devidamente habilitadas; c) Demonstrou imperícia e imprudência, considerando que, ao se aproximar da costa brasileira, e sabendo que os equipamentos de navegação de sua embarcação não atavam funcionando, passou a fazer uma navegação muito próxima da costa, sem conhecer suficientemente a região, na tentativa de levar a embarcação até o porto de fortaleza. Estado do Ceará, quando deveria ter procurado recursos nos portos mais Próximos, como o porto de São Luiz - MA, o porto de Tutóia - MA ou Porto de Luiz ^arreia - PI, para, depois de reparados os problemas da embarcação, continuar a viagem.
364 TRIBUNAL MARÍTIMO A Douta Procuradoria ofereceu representação contra Bennett Nissencwajg e Adrian Marchesi, pelo acidente capitulado na alínea a" do art. 14 e alínea a" do art. 15 da Lei n 2.180/54. Revéis, os representados foram defendidos por advogado de ofício. Na sua defesa, Bennett Nissencwajg diz que "são improcedentes as acusações da representação contra o defendente: "Como se verifica dos documentos de fls. 47 a 51, o defendente se encontrava em processo de mudança de residência de New York para o Brasil. Entre os seus bens, que deveriam ser transportados, estava o veleiro "ANGELUS, o qual certamente não seria trazido como bagagem, face ao custo proibitivo. Assim, o representado contratou o Sr. Adrian Marchesi, capitão amador, para que trouxesse a embarcação, navegando, prática muito comum nos meios náuticos. A embarcação deveria ser trazida até a ilha de Fernando de Noronha, onde se encontraria o proprietário, e dali, finalmente, para o seu novo domicílio deste, em Porto Seguro, na Bahia. O Sr. Adrian Marchesi, conforme seu próprio depoimento e relatório, é habilitado pela Prefeitura Nacional Argentina (fls. 16) e tem realizado diversas viagens internacionais, como se vê no mesmo relatório. A fls. 08 está a descrição de todos os cuidados e revisões a que procedeu o referido capitão, antes da saída de New Rochelle. Lamentavelmente, de acordo com o mesmo relatório de fls. 08, o capitão resolveu sair com a embarcação, mesmo sabendo da forte tempestade que vinha do norte: "El prognostico meteorologico era de fuerte tormenta dei Norte" (fls. 80)." Daí terem advindo todos os danos ao veleiro, terminando com seu naufrágio. Constata-se, então, que o defendente não contribuiu em nenhum momento para os fatos que se seguiram, nem por ação nem por omissão. Sua ação limitou-se a contratar pessoas habilitadas e competentes para fazer o transporte de sua embarcação. Pessoas com larga experiência de navegação de longo curso. Daí veio para o Brasil e ficou aguardando a chegado do barco, sem tomar parte em qualquer manobra ou decisão de bordo. Assim sendo, requer a sua absolvição, como medida de Justiça." Na sua defesa, Adrian Marchesi expõe o seguinte: "Nunca se tiene tanta sed quando se sabe no tener nada a beber" (sic declaração de fls. 11). "A espontaneidade da frase demonstra que o relatório de fls. 8/11 retrata os acontecimentos a bordo do veleiro "ANGELUS" desde a saída de New York até o encalhe no Brasil. É muito fácil por trás de uma "pena" (leia-se, caneta) velejar e concluir pela imprudência, negligência ou imperícia do segundo acusado, sem sequer levar em consideração o relatório e o depoimento do tripulante, às fls. 31. O acusado, apesar de todos os problemas a bordo, conseguiu chegar na costa brasileira, salvos. As testemunhas são unânimes em afirmar que o proprietário da embarcação não estava preocupado com as vidas de bordo e sim com o sucesso da "aventura marítima.
ANUÁRIO DE JURISPRUDÊNCIA 365 Já o comandante e sua tripulação (com mais de 20 mil milhas de experiência velejando pelos mares do Sul) tentavam chegar ao seu destino. Vale ressaltar que a embarcação em questão é um VELEIRO e não uma lancha ou navio. O principal meio de propulsão é a vela e não o motor (há embarcação dando volta do mundo só à vela). E mais, a embarcação saiu do porto em N.Y. em novembro, ou seja, durante o inverno. Sabe-se que é comum ventos fortes e baixa temperatura nesta época do ano no hemisfério norte. Para finalizar, resta saber quem poderá melhor avaliar, acima de qualquer dúvida, a conduta do comandante da embarcação do que sua tripulação. Não há prova suficiente, nos presentes autos, para uma avaliação técnica sobre o vento, existe sim avaliação subjetiva por parte do Órgão Acusador e do outro defendente. É só. Diante do exposto, a DEFESA espera a improcedência da representação, ABSOLVENDO o acusado, uma vez que não h á elementos técnicos suficientes para avaliar a conduta do acusado. Em suas alegações finais, formuladas pela Dra. Mônica e Silva de Jesus, advogada, nomeada em decorrência da falta do advogado de ofício, Bennett Nissencwajg, diz que:... "já qualificado nos autos, vem, por sua advogada infra-assinada, apresentar suas alegações finais, pelos seguintes fatos e fundamentos: 1. Inicialmente, vale lembrar a V.Exas. que o proprietário da embarcação nem sequer encontrava-se a bordo por ocasião do acidente. 2. Considerando que é permitido ao proprietário de uma embarcação contratar profissional habilitado para conduzir a mesma, agiu o representado de forma legal. 3. Ademais, vale repetir que o comandante Adrian Marchesi estava devidamente habilitado por possuir carta de capitão, fornecida pela Prefeitura Nacional Argentina, conforme se verifica do depoimento de fls. 33. 4. Acresce, ainda, para ratificar o acima exposto, que nenhuma autoridade competente deixaria zarpar uma embarcação que não estivesse pronta para navegar, tanto no que diz respeito aos equipamentos de navegação, quanto à pessoa responsável pelo comando da referida embarcação. 5. Face ao exposto, é de se entender que nenhuma culpa pode ser imposta ao representado, haja vista que o mesmo sequer encontrava-se a bordo. 6. Desta forma, espera ser o Representado exculpado, por ser de direito e inteira Justiça." Embora oficialmente, apesar das diligências requeridas pela Procuradoria Especial da Marinha, às fls. 86, não ficasse comprovada a situação do condutor do veleiro ANGELUS", Adrian Marchesi, é de se considerar como verdadeira a sua afirmação que tinha habilitação da Prefeitura Nacional Argentina, como patrão de iate à vela e motor (fls. 14), o que vem responsabilizá-lo pelo acidente, por ter continuado a viagem, mesmo após ficar sabendo das dificuldades do barco, devido aos defeitos, não identificados, no motor propulsor. Sem as cartas náuticas adequadas da região, cometeu um erro de navegação, le\ando o iate ao encalhe. Não ficando provada qualquer participação do proprietário no acontecimento *uma vez que, segundo os seus ocupantes, o barco estava pronto para viajar), Bennett Nissencwajg, deve ser exculpado, já que contratou pessoa habilitada para conduzir a embarcação.
366 TRIBUNAL MARÍTIMO Assim, ACORDAM os Juizes do Tribunal Marítimo, por unanimidade: a) quanto à natureza e extensão do acidente: encalhe. Perda de veleiro; b) quanto à causa determinante: erro de navegação; c) decisão: considerar responsável pelo acidente Adrian Marchesi, incurso no art. 14, letra "a, e art. 15, letra "a" da Lei n 2.180/54. aplicando-lhe a pena de multa de 200 (duzentas) UFIR. Custas na forma da Lei. Exculpar o outro representado. Advogado de ofício no mínimo legal. P.C.R., Rio de Janeiro, RJ, em 07 de junho de 1994. - RENATO DE MIRANDA MONTEIRO, Almirante-de-Esquadra (RRm), Juiz-Presidente - JO S É DO NASCIMENTO GONÇALVES, Juiz-Relator.