Resenha do Texto Dicionarização no Brasil: condições e processos NUNES, José Horta. "Dicionarização no Brasil: condições e processos" In: NUNES, José Horta e PETTER, Margarida (orgs.). História do Saber Lexical e constituição de um Léxico brasileiro. São Paulo, SP: Humanitas, FFLCH-USP e Pontes, 2002. Ana Cláudia Fernandes Ferreira Resumo O texto resenhado foi escolhido por tratar dos processos de constituição da lexicografia brasileira. São ressaltadas as condições de produção dos dicionários no Brasil, o que deu contornos específicos a lexicografia brasileira. Conhecer a história da constituição dos dicionários leva-nos a compreender como e de que modo os dicionários atuais são da forma como são. Para melhor compreensão dessa resenha, leia antes a resenha do livro Revolução Tecnológica da Gramatização feita por Ana Cláudia Fernandes Ferreira. Resenha do Texto Muitos trabalhos têm tratado da história do saber lingüístico buscando compreender os processos envolvidos na produção desse saber. Esses estudos fazem parte do projeto História das Idéias Lingüísticas, iniciado na França e realizado também no Brasil, e têm sido realizados pelo estudo de dicionários e gramáticas, levando-se em conta o papel de teorias, acontecimentos, instituições que estão ligados à produção do saber sobre a língua.
Nunes, neste artigo, trata da descrição e instrumentação da língua portuguesa na base do dicionário. Em outros trabalhos, ele analisou, da perspectiva da Análise do Discurso, a produção de um conjunto de dicionários no Brasil desde a época colonial até o século XIX. Dessa forma, ele mostra as condições de produção em determinados períodos relacionando as formas dicionarísticas às condições históricas. Retomando alguns pontos de seus trabalhos anteriores, neste artigo Nunes discute o modo de construir as interpretações sobre essa produção de dicionários em relação às condições históricas, isto é, o que os dicionários representavam em cada época, a quais tendências históricas e políticas sua produção atendia. Acrescenta elementos relativos ao século XX sobre a produção de dicionários no Brasil. O saber lingüístico constitui-se do desenvolvimento de obras que envolvem a reflexão, o estudo, o conhecimento da própria língua, de suas características e de seu funcionamento, seja semântico ou gramatical. Esse saber é um produto histórico e sua origem não resulta de um acontecimento, mas de um processo longo e sem fim. As ciências da linguagem constituídas pelo saber lingüístico resultam do aparecimento da escrita em 3.000 a. C.. Segundo Nunes, de acordo com Auroux (1992) o advento da escrita constitui a primeira grande revolução tecnológica das ciências da linguagem. A segunda revolução seria a da "gramatização", isto é, o processo pelo qual se descreve e se instrumenta uma língua através de duas tecnologias: o dicionário e a gramática. 1. Processos de dicionarização no Brasil Os dicionários monolíngües da língua portuguesa, tal como os conhecemos hoje, resultam de um longo processo histórico de instrumentação das línguas existentes no Brasil desde a época da colonização. Nos relatos dos viajantes da época do descobrimento, que se inicia com o relato de Caminha (1500), encontramos descrições e nomeações em língua portuguesa; em outros relatos posteriores passa a haver
transcrição e comentários de termos indígenas e a formação de listas temáticas de palavras (os itens eram organizados de acordo com o tema/assunto, como fauna, flora, por exemplo). Com os jesuítas surgem os primeiros dicionários no período Colonial (XVI- XVII), que eram bilíngües (português-tupi) e ordenados alfabeticamente. O primeiro dicionário monolíngüe que circula no Brasil - e que se refere ao português de Portugal - é o dicionário de Moraes Silva de 1789, que é seguido por outros. Na segunda metade do século XIX é que começam a aparecer dicionários de brasileirismos (Costa Rubim, 1853) e de regionalismos (Antônio Coruja, 1856; entre outros), voltados para a especificidade da língua portuguesa falada no Brasil, mas servindo apenas como complemento dos dicionários do português de Portugal. Os primeiros dicionários brasileiros de língua portuguesa produzidos no Brasil aparecem por volta de 1930 e 1940. São os dicionários de Lima e Barroso (1938) e de Freire (1939-1943). 2. Condições de Produção dos dicionários brasileiros O saber dicionarístico, como outros saberes, resulta de uma série de causas situadas em espaço-tempo específicos, sendo, portanto, o dicionário um produto histórico. Assim, o estudo da produção desse saber no Brasil, do ponto de vista da Análise do Discurso, leva em consideração quem produz o dicionário, como, onde, para quem, em que circunstâncias. Dessa forma, Nunes comenta alguns aspectos específicos do Brasil que constituem as condições de produção dos dicionários. São eles: a) a territorialidade: o saber lingüístico adquire formas específicas ao desenvolverse no território brasileiro. O contato dos europeus com uma natureza diferente da deles leva ao surgimento de processos de nomeação, de traduções, de definições, que estão na base do texto dicionarístico. Circulam os "nomes do Brasil"; os nomes em línguas indígenas deixam de ser orais e passam a ser escritos e traduzidos na textualidade dos relatos. Na época Colonial, a dicionarização ocorreu na "costa do Brasil" onde os índios e os europeus se
relacionavam, sendo que esses contatos é que vão definindo as formas de territorialidade. b) a administração do território: realiza-se através da colonização, do governo, do estado, que conduz à questão da institucionalização e à questão da unidade/diversidade de línguas (políticas lingüísticas). Nos governos coloniais a política lingüística incluía a utilização de dicionários bilíngües (português-tupi) que serviam como instrumentos de catequese e de colonização. No Estado Monárquico (séc. XIX), com o objetivo de atribuir identidade aos brasileiros, havia os dicionários bilíngües de tupi antigo e os dicionários monolíngües de língua portuguesa produzidos em Portugal. No século XX, com a República, são produzidos dicionários brasileiros de língua portuguesa atestando-se a independência entre os dois países. c) Urbanização: Nas definições lexicográficas há distinção entre o campo e a cidade (lugar de civilização) como é o caso do dicionário de Coruja de 1852. Nos séculos XVIII e XIX, há um crescimento urbano. Havendo a escolarização, instituições administrativas são implantadas; há a ampliação da cultura letrada e do público leitor. No final do século XIX há outro dicionário, o de M. Soares de 1889, onde o olhar do lexicógrafo volta-se para a situação de urbanização do Rio de Janeiro. d) Institucionalização: trata-se de formas administrativas que vão institucionalizando a língua portuguesa no Brasil, seja pela produção de dicionários ou por outros modos, regulando o estabelecimento da língua portuguesa. São elas: a Companhia de Jesus (1546-1757), as Academias Brasileiras (século XVIII), as instituições jurídicas, as universidades portuguesas formando a elite intelectual brasileira, a Biblioteca Nacional e o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (1838), a Academia Brasileira de Letras (1897), o colégio Dom Pedro II no final do séc. XIX e início do séc. XX, o
surgimento de editoras no século XX. Nas décadas de 30 e 40 surgem as universidades, havendo a fundação das faculdades de Letras e) Contatos lingüísticos: em primeiro lugar houve o contato entre portugueses e índios, o que motivou a produção de gramáticas e dicionários das língua indígenas pelos portugueses. Com a expulsão dos jesuítas do Brasil, passa-se a utilizar dicionários monolíngües voltando-se ao estudo da língua portuguesa de Portugal e não mais do Tupi, como Língua Geral. Depois se inicia a produção de dicionários brasileiros, voltados aos regionalismos, e aos brasileirismos (palavras que eram faladas somente no português do Brasil, não no português de Portugal), levando a uma diferenciação entre o português do Brasil e o português de Portugal. f) Identidade Nacional: no Brasil Imperial há uma produção lexicográfica voltada para o Tupi antigo fazendo-se relações etimológicas entre o português brasileiro e essa língua indígena como forma de atribuir uma identidade ao povo brasileiro. No século XIX os dicionários de brasileirismos com descrições de termos referentes à conjuntura brasileira refletiam a busca de uma identidade para o povo brasileiro. g) Influência de Teorias: pode-se reconhecer na produção lexicográfica brasileira a influência de teorias lingüísticas como a da Gramática Latina sobre a produção de dicionários bilingües dos jesuítas e da Gramática de Anchieta; no dicionário compacto de Moraes tem-se a influência da Gramática Geral ou Filosófica. Os dicionários bilíngües de tupi-português são influenciados pela Lingüística Histórica, isto é, pela relação que se estabelece entre o tupi antigo e o português. Com os dicionários de brasileirismos e de regionalismos pode-se observar a defesa de uma língua nacional. Os dicionários monolíngües brasileiros mostram o reconhecimento de uma língua brasileira e o processo de separação do português de Portugal.
h) Domínios conexos: a produção do saber lexicográfico vai se constituindo de acordo com diferentes domínios como o da ciência, o da literatura, o da história, o da religião, o da mídia, etc. No início da colonização interessava descrever a natureza, o que também se realiza de modo cientificista. Com os jesuítas, as palavras e as definições são selecionadas pelo saber religioso. No dicionário de Moraes o jurídico ganha espaço; os dicionários do Instituto Histórico Geográfico Brasileiro estão voltados para a história. Na produção dicionarística do séc. XX são introduzidas acepções científicas e domínios como o do jornalismo. A literatura ganha espaço com a produção de léxicos anexos aos romances. Também começam a aparecer os aspectos culturais relativos ao contexto nacional. i) Tecnologia: os dicionários são considerados tecnologias por causa da técnica textual pela qual o dicionário se constitui, como a disposição das palavras em ordem alfabética, em colunas, pelos recursos gráficos, pela numeração das acepções, pela marcação de domínios, entre outras coisas. A forma considerada por Nunes é a tecnologia na reprodução de dicionários. Com os copistas temos diferentes versões do mesmo dicionário e acúmulo de diversas grafias para a mesma palavra. Com a introdução da imprensa as editoras ganham um papel importante na produção de dicionários. E com a informatização, na segunda metade do século XX, novas técnicas surgem, como a construção dos corpora eletrônicos. Os aspectos específicos das condições de produção dos dicionários no Brasil apontados por Nunes mostram que os dicionários, tal como os conhecemos atualmente, resultam de um longo e complexo processo de produção que tem raízes na produção dicionarística de Portugal que, por sua vez, resulta da produção lexicográfica latina. No Brasil, a produção dicionarística adquire contornos próprios mesmo porque a própria língua portuguesa sofre transformações, pois diferentes políticas lingüísticas, de várias épocas, determinam a produção dicionarística e as diferentes línguas faladas no Brasil vão sendo incorporadas à língua portuguesa.
Pela análise das condições de produção é que se pode falar em uma história da dicionarização. Esse ponto de vista abre espaço para a interpretação dos dicionários, para as causas da dicionarização, permitindo compreendê-los como um objeto histórico e não apenas como um depósito de palavras utilizado para consulta.