Resenha do Texto Dicionarização no Brasil: condições e processos



Documentos relacionados
COLÉGIO SANTA TERESINHA

AGRUPAMENTO DE ESCOLAS DE CUBA Escola Básica Integrada c/ Jardim de Infância Fialho de Almeida, Cuba Ano Lectivo 2007/2008

A IMAGEM COMO DOCUMENTO HISTÓRICO

A CARTOGRAFIA NO ESTUDO DA HISTÓRIA URBANA

PGH 04 - TÓPICOS EM HISTÓRIA DOS MOVIMENTOS SOCIAIS NO BRASIL

O iluminismo ou Século das luzes

Unidade I HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO. Profa. Maria Teresa Papa Nabão

Letras Tradução Espanhol-Português Ementário

AULA 09 O que é pesquisa qualitativa?

O currículo do Ensino Religioso: formação do ser humano a partir da diversidade cultural

Prof. Dr. Olavo Egídio Alioto

EMENTAS DAS DISCIPLINAS

LIVRO DIDÁTICO E SALA DE AULA OFICINA PADRÃO (40H) DE ORIENTAÇÃO PARA O USO CRÍTICO (PORTUGUÊS E MATEMÁTICA)

Avaliação Diagnóstica de Língua Portuguesa

COMO ORGANIZAÇÃO SOCIAL. Caracterização e Desafios

EDUCAÇÃO, PEDAGOGOS E PEDAGOGIA questões conceituais. Maria Madselva Ferreira Feiges Profª DEPLAE/EDUCAÇÃO/UFPR

Universidade Estadual do Centro-Oeste Reconhecida pelo Decreto Estadual nº 3.444, de 8 de agosto de 1997

Legislação Pesqueira e Ambiental. Prof.: Thiago Pereira Alves

A RELEVÂNCIA DAS FONTES DOCUMENTAIS DOS SÉCULOS XVII E XVIII NA PRESERVAÇÃO DA MEMÓRIA REGIONAL DO SUL E EXTREMO SUL DA BAHIA. ¹

Agrupamento de Escolas de Porto de Mós

Conhecimentos Específicos

Indústria e Industrialização. Prof. Melk Souza

EMENTÁRIO. Princípios de Conservação de Alimentos 6(4-2) I e II. MBI130 e TAL472*.

PLANO DE ENSINO DE GEOGRAFIA /2012

Classificação da Pesquisa:

Progressão Parcial 2015/1 (9º ano)

DIRETRIZES CURRICULARES 1º ao 5º ANO HISTÓRIA / GEOGRAFIA

Enciclopédia da Música em Portugal no Século XX. Consulte nesta obra 158 entradas sobre fado, Património da Humanidade

O USO DE MATERIAIS CONCRETOS PARA O ENSINO DE MATEMÁTICA A ALUNOS PORTADORES DE NECESSIDADES VISUAIS E AUDITIVAS: RELATO DE UMA EXPERIÊNCIA

Gêneros textuais no ciclo de alfabetização

O Tempo e o Clima. Capítulo I. Objetivos:

Esta lista foi extraída e adaptada do Brasil República. As imagens foram extraídas do site Bandeiras, que vende bandeiras históricas brasileiras.

A EDUCAÇÃO INDÍGENA E A FORMAÇÃO DE PROFESSORES

DIAGNÓSTICO À SITUAÇÃO DO SISTEMA

CONTEÚDOS DE FILOSOFIA POR BIMESTRE PARA O ENSINO MÉDIO COM BASE NOS PARÂMETROS CURRICULARES DO ESTADO DE PERNAMBUCO

EXAME HISTÓRIA A 1ª FASE 2011 página 1/7

Reforço em Matemática. Professora Daniela Eliza Freitas. Disciplina: Matemática

DIDÁTICOS Aula expositiva, debate, leitura de texto; Quadro e giz, livro didático, ilustrações;

A CIDADE E O PAPEL DO URBANISMO

PROGRAMA DAS DISCIPLINAS

As principais tendências do pensamento antropológico contemporâneo

SALA DE APOIO À APRENDIZAGEM DE PORTUGUÊS PARA OS 6ºS ANOS DO ENSINO FUNDAMENTAL: ESPAÇO COMPLEMENTAR DE ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

GEOGRAFIA. PRINCIPAIS CONCEITOS: espaço geográfico, território, paisagem e lugar.

O MOVIMENTO ESPORTIVO INGLÊS

A LINGÜÍSTICA APLICADA, A PESQUISA E O SECRETARIADO EXECUTIVO

Agrupamento de Escolas de Castro Daire PLANIFICAÇÃO DE ÁREA DE INTEGRAÇÃO - 11º ANO TURMA D/F. Departamento: Ciências Sociais e Humanas

PROGRAMAS E AÇÕES DO MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO PARA A EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA

A Companhia de Jesus e os Índios na Capitania do Rio de janeiro. Séculos XVI XVII e XVIII.

SERVIÇO PÚBLICO FEDERAL UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ INSTITUTO DELETRAS E COMUNICAÇÃO PARFOR HABILITAÇÃO EM LÍNGUA PORTUGUESA

Formação da literatura brasileira nos anos Em 1959 é publicado Formação da literatura brasileira. No mesmo ano também sai

O PLANEJAMENTO DOS TEMAS DE GEOGRAFIA NA ORGANIZAÇÃO DA PRÁTICA PEDAGÓGICA

Imperialismo. Evandro Albuquerque de Andrade

GEOGRAFIA. 2 a Etapa SÓ ABRA QUANDO AUTORIZADO. Duração desta prova: TRÊS HORAS. UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS FAÇA LETRA LEGÍVEL.

Conceitos hist his óric óric

O DIREITO DE ACESSO AOS DOCUMENTOS ADMINISTRATIVOS

PESQUISA QUALITATIVA. Teoria e Análise das Organizações Comportamento Organizacional. Prof. Dr. Onofre R. de Miranda

Tipo de Prova: Escrita e Oral

FUNDAMENTOS HISTÓRICOS DA EDUCAÇÃO. Número de aulas semanais 1ª 2. Apresentação da Disciplina

A pesquisa é uma atividade voltada para a solução de problemas teóricos ou práticos com o emprego de processos científicos.

UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DO RIO DE JANEIRO CONSELHO DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO SECRETARIA DOS ÓRGÃOS COLEGIADOS

2 Método Tipo de Pesquisa

URBANIZAÇÃO LUCIANO TEIXEIRA

MEMORIAL DA EDUCAÇÃO

Objetivos. Ciências Sociais. Século XIX: Configuração sócio-histórica de América Latina (I) Prof. Paulo Barrera Agosto 2012

Texto 3: ESQUEMA, RESUMO, RESENHA e FICHAMENTO.

A MULHER NO MERCADO DE TRABALHO

SEJA RESPONDIDA NA RESPECTIVA FOLHA DE RESPOSTAS; ESTEJA ASSINADA FORA DO LOCAL APROPRIADO; POSSIBILITE A IDENTIFICAÇÃO DO CANDIDATO.

HABILIDADES. Compreender a formação da população brasileira. Perceber as influências presentes na cultura brasileira.

Sugestão de Atividades História 9º ano Unidade 6

ATIVIDADES EXTRAS GEOGRAFIA 1OS ANOS

DISCIPLINA: CIÊNCIAS NATURAIS 7º Ano

GERÊNCIA DE ENSINO Coordenação do Curso de Licenciatura em Letras Português/Inglês CONCURSO DO PROJETO DE INTERVENÇÃO PPP III CIRCUITO 9

Seminário 2: Análise de livros didáticos de Física para o Ensino Médio

ESPANHOL Cont. Ano Letivo 2015/2016 INFORMAÇÃO - PROVA DE EQUIVALÊNCIA À FREQUÊNCIA. 11º Ano de Escolaridade

Associativismo Social

Elaboração e Análise de Projetos

COLÉGIO XIX DE MARÇO excelência em educação

O USO DO DICIONÁRIO EM SALA DE AULA Alexandre Melo de Sousa (UFAC) PALAVRAS INICIAIS

PIM III. Projeto Integrado Multidisciplinar GESTÃO MERCADOLOGICA

Informação sobre a Prova de Exame de Equivalência à Frequência

O conhecimento sobre semântica em manuais de introdução à linguística 1

O Espaço do Geógrafo. Hildebert Isnard. O Espaço do Geógrafo. Boletim Geográfico, Rio de Janeiro, 36( ): 5-16, jul./dez.

Quanto aos objetivos TIPO DE PESQUISA

IX SEMINÁRIO NACIONAL DIÁLOGOS COM PAULO FREIRE: Utopia, esperança e humanização. AFRICANIDADES E BRASILIDADES: somos todos igualmente diferentes

TÍTULO DO PROGRAMA. Palestina Parte 1 SINOPSE DO PROGRAMA

ENSINO PESQUISA: OS PERCALÇOS NA CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO NO AMBIENTE ESCOLAR

O ENSINO NUMA ABORDAGEM CTS EM ESCOLA PÚBLICA DE GOIÂNIA

INFORMAÇÃO - PROVA DE EQUIVALÊNCIA À FREQUÊNCIA CIÊNCIAS NATURAIS_9º ANO / Ciclo do Ensino Básico

Coretos. Origem etimológica de CORETO e denominações noutros idiomas. Delmar Domingos de Carvalho

Este caderno, com oito páginas numeradas sequencialmente, contém cinco questões de Geografia. Não abra o caderno antes de receber autorização.

CURSO: EDUCAÇÃO FÍSICA - LICENCIATURA EMENTAS º PERÍODO

LÍNGUA DE SINAIS NO CURRÍCULO DE EDUCAÇÃO DE SURDOS: ALGUMAS QUESTÕES Carolina Hessel Silveira UFSC Universidade Federal de Santa Catarina

A escravidão negra no sistema de ensino apostilado Aprende Brasil

Ementário do Curso Técnico em Manutenção e Suporte em Informática. PROEJA Integrado ao Ensino Médio Campus Duque de Caxias

PLANO DE CURSO. Disciplina: Ciência Política e Teoria Geral do Estado. Prof. Esp.: Anderson de Queirós e Silva. Rio Verde/GO 2014/01

Matriz de Referência de GEOGRAFIA - SAERJINHO 5 ANO ENSINO FUNDAMENTAL

Transcrição:

Resenha do Texto Dicionarização no Brasil: condições e processos NUNES, José Horta. "Dicionarização no Brasil: condições e processos" In: NUNES, José Horta e PETTER, Margarida (orgs.). História do Saber Lexical e constituição de um Léxico brasileiro. São Paulo, SP: Humanitas, FFLCH-USP e Pontes, 2002. Ana Cláudia Fernandes Ferreira Resumo O texto resenhado foi escolhido por tratar dos processos de constituição da lexicografia brasileira. São ressaltadas as condições de produção dos dicionários no Brasil, o que deu contornos específicos a lexicografia brasileira. Conhecer a história da constituição dos dicionários leva-nos a compreender como e de que modo os dicionários atuais são da forma como são. Para melhor compreensão dessa resenha, leia antes a resenha do livro Revolução Tecnológica da Gramatização feita por Ana Cláudia Fernandes Ferreira. Resenha do Texto Muitos trabalhos têm tratado da história do saber lingüístico buscando compreender os processos envolvidos na produção desse saber. Esses estudos fazem parte do projeto História das Idéias Lingüísticas, iniciado na França e realizado também no Brasil, e têm sido realizados pelo estudo de dicionários e gramáticas, levando-se em conta o papel de teorias, acontecimentos, instituições que estão ligados à produção do saber sobre a língua.

Nunes, neste artigo, trata da descrição e instrumentação da língua portuguesa na base do dicionário. Em outros trabalhos, ele analisou, da perspectiva da Análise do Discurso, a produção de um conjunto de dicionários no Brasil desde a época colonial até o século XIX. Dessa forma, ele mostra as condições de produção em determinados períodos relacionando as formas dicionarísticas às condições históricas. Retomando alguns pontos de seus trabalhos anteriores, neste artigo Nunes discute o modo de construir as interpretações sobre essa produção de dicionários em relação às condições históricas, isto é, o que os dicionários representavam em cada época, a quais tendências históricas e políticas sua produção atendia. Acrescenta elementos relativos ao século XX sobre a produção de dicionários no Brasil. O saber lingüístico constitui-se do desenvolvimento de obras que envolvem a reflexão, o estudo, o conhecimento da própria língua, de suas características e de seu funcionamento, seja semântico ou gramatical. Esse saber é um produto histórico e sua origem não resulta de um acontecimento, mas de um processo longo e sem fim. As ciências da linguagem constituídas pelo saber lingüístico resultam do aparecimento da escrita em 3.000 a. C.. Segundo Nunes, de acordo com Auroux (1992) o advento da escrita constitui a primeira grande revolução tecnológica das ciências da linguagem. A segunda revolução seria a da "gramatização", isto é, o processo pelo qual se descreve e se instrumenta uma língua através de duas tecnologias: o dicionário e a gramática. 1. Processos de dicionarização no Brasil Os dicionários monolíngües da língua portuguesa, tal como os conhecemos hoje, resultam de um longo processo histórico de instrumentação das línguas existentes no Brasil desde a época da colonização. Nos relatos dos viajantes da época do descobrimento, que se inicia com o relato de Caminha (1500), encontramos descrições e nomeações em língua portuguesa; em outros relatos posteriores passa a haver

transcrição e comentários de termos indígenas e a formação de listas temáticas de palavras (os itens eram organizados de acordo com o tema/assunto, como fauna, flora, por exemplo). Com os jesuítas surgem os primeiros dicionários no período Colonial (XVI- XVII), que eram bilíngües (português-tupi) e ordenados alfabeticamente. O primeiro dicionário monolíngüe que circula no Brasil - e que se refere ao português de Portugal - é o dicionário de Moraes Silva de 1789, que é seguido por outros. Na segunda metade do século XIX é que começam a aparecer dicionários de brasileirismos (Costa Rubim, 1853) e de regionalismos (Antônio Coruja, 1856; entre outros), voltados para a especificidade da língua portuguesa falada no Brasil, mas servindo apenas como complemento dos dicionários do português de Portugal. Os primeiros dicionários brasileiros de língua portuguesa produzidos no Brasil aparecem por volta de 1930 e 1940. São os dicionários de Lima e Barroso (1938) e de Freire (1939-1943). 2. Condições de Produção dos dicionários brasileiros O saber dicionarístico, como outros saberes, resulta de uma série de causas situadas em espaço-tempo específicos, sendo, portanto, o dicionário um produto histórico. Assim, o estudo da produção desse saber no Brasil, do ponto de vista da Análise do Discurso, leva em consideração quem produz o dicionário, como, onde, para quem, em que circunstâncias. Dessa forma, Nunes comenta alguns aspectos específicos do Brasil que constituem as condições de produção dos dicionários. São eles: a) a territorialidade: o saber lingüístico adquire formas específicas ao desenvolverse no território brasileiro. O contato dos europeus com uma natureza diferente da deles leva ao surgimento de processos de nomeação, de traduções, de definições, que estão na base do texto dicionarístico. Circulam os "nomes do Brasil"; os nomes em línguas indígenas deixam de ser orais e passam a ser escritos e traduzidos na textualidade dos relatos. Na época Colonial, a dicionarização ocorreu na "costa do Brasil" onde os índios e os europeus se

relacionavam, sendo que esses contatos é que vão definindo as formas de territorialidade. b) a administração do território: realiza-se através da colonização, do governo, do estado, que conduz à questão da institucionalização e à questão da unidade/diversidade de línguas (políticas lingüísticas). Nos governos coloniais a política lingüística incluía a utilização de dicionários bilíngües (português-tupi) que serviam como instrumentos de catequese e de colonização. No Estado Monárquico (séc. XIX), com o objetivo de atribuir identidade aos brasileiros, havia os dicionários bilíngües de tupi antigo e os dicionários monolíngües de língua portuguesa produzidos em Portugal. No século XX, com a República, são produzidos dicionários brasileiros de língua portuguesa atestando-se a independência entre os dois países. c) Urbanização: Nas definições lexicográficas há distinção entre o campo e a cidade (lugar de civilização) como é o caso do dicionário de Coruja de 1852. Nos séculos XVIII e XIX, há um crescimento urbano. Havendo a escolarização, instituições administrativas são implantadas; há a ampliação da cultura letrada e do público leitor. No final do século XIX há outro dicionário, o de M. Soares de 1889, onde o olhar do lexicógrafo volta-se para a situação de urbanização do Rio de Janeiro. d) Institucionalização: trata-se de formas administrativas que vão institucionalizando a língua portuguesa no Brasil, seja pela produção de dicionários ou por outros modos, regulando o estabelecimento da língua portuguesa. São elas: a Companhia de Jesus (1546-1757), as Academias Brasileiras (século XVIII), as instituições jurídicas, as universidades portuguesas formando a elite intelectual brasileira, a Biblioteca Nacional e o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (1838), a Academia Brasileira de Letras (1897), o colégio Dom Pedro II no final do séc. XIX e início do séc. XX, o

surgimento de editoras no século XX. Nas décadas de 30 e 40 surgem as universidades, havendo a fundação das faculdades de Letras e) Contatos lingüísticos: em primeiro lugar houve o contato entre portugueses e índios, o que motivou a produção de gramáticas e dicionários das língua indígenas pelos portugueses. Com a expulsão dos jesuítas do Brasil, passa-se a utilizar dicionários monolíngües voltando-se ao estudo da língua portuguesa de Portugal e não mais do Tupi, como Língua Geral. Depois se inicia a produção de dicionários brasileiros, voltados aos regionalismos, e aos brasileirismos (palavras que eram faladas somente no português do Brasil, não no português de Portugal), levando a uma diferenciação entre o português do Brasil e o português de Portugal. f) Identidade Nacional: no Brasil Imperial há uma produção lexicográfica voltada para o Tupi antigo fazendo-se relações etimológicas entre o português brasileiro e essa língua indígena como forma de atribuir uma identidade ao povo brasileiro. No século XIX os dicionários de brasileirismos com descrições de termos referentes à conjuntura brasileira refletiam a busca de uma identidade para o povo brasileiro. g) Influência de Teorias: pode-se reconhecer na produção lexicográfica brasileira a influência de teorias lingüísticas como a da Gramática Latina sobre a produção de dicionários bilingües dos jesuítas e da Gramática de Anchieta; no dicionário compacto de Moraes tem-se a influência da Gramática Geral ou Filosófica. Os dicionários bilíngües de tupi-português são influenciados pela Lingüística Histórica, isto é, pela relação que se estabelece entre o tupi antigo e o português. Com os dicionários de brasileirismos e de regionalismos pode-se observar a defesa de uma língua nacional. Os dicionários monolíngües brasileiros mostram o reconhecimento de uma língua brasileira e o processo de separação do português de Portugal.

h) Domínios conexos: a produção do saber lexicográfico vai se constituindo de acordo com diferentes domínios como o da ciência, o da literatura, o da história, o da religião, o da mídia, etc. No início da colonização interessava descrever a natureza, o que também se realiza de modo cientificista. Com os jesuítas, as palavras e as definições são selecionadas pelo saber religioso. No dicionário de Moraes o jurídico ganha espaço; os dicionários do Instituto Histórico Geográfico Brasileiro estão voltados para a história. Na produção dicionarística do séc. XX são introduzidas acepções científicas e domínios como o do jornalismo. A literatura ganha espaço com a produção de léxicos anexos aos romances. Também começam a aparecer os aspectos culturais relativos ao contexto nacional. i) Tecnologia: os dicionários são considerados tecnologias por causa da técnica textual pela qual o dicionário se constitui, como a disposição das palavras em ordem alfabética, em colunas, pelos recursos gráficos, pela numeração das acepções, pela marcação de domínios, entre outras coisas. A forma considerada por Nunes é a tecnologia na reprodução de dicionários. Com os copistas temos diferentes versões do mesmo dicionário e acúmulo de diversas grafias para a mesma palavra. Com a introdução da imprensa as editoras ganham um papel importante na produção de dicionários. E com a informatização, na segunda metade do século XX, novas técnicas surgem, como a construção dos corpora eletrônicos. Os aspectos específicos das condições de produção dos dicionários no Brasil apontados por Nunes mostram que os dicionários, tal como os conhecemos atualmente, resultam de um longo e complexo processo de produção que tem raízes na produção dicionarística de Portugal que, por sua vez, resulta da produção lexicográfica latina. No Brasil, a produção dicionarística adquire contornos próprios mesmo porque a própria língua portuguesa sofre transformações, pois diferentes políticas lingüísticas, de várias épocas, determinam a produção dicionarística e as diferentes línguas faladas no Brasil vão sendo incorporadas à língua portuguesa.

Pela análise das condições de produção é que se pode falar em uma história da dicionarização. Esse ponto de vista abre espaço para a interpretação dos dicionários, para as causas da dicionarização, permitindo compreendê-los como um objeto histórico e não apenas como um depósito de palavras utilizado para consulta.