20. ONIPOTÊNCIA, CONCEITO E ALGUNS DESDOBRAMENTOS Alexandre Moschen Ortigara 1 A Onipotência é definida pela psicanálise como uma fantasia presente no sujeito narcísico. Suas implicações incluem sensação do controle de si, e que outras vezes extrapola o controle do próprio corpo. Como o sujeito é constituído numa sociedade, que exerce influência sobre ele e ele sobre a mesma, essa manifestação onipotente narcísica acontece também na sociedade. Inicialmente na sociedade primitiva mítica como animismo e, posteriormente, na religiosa como magia e científica como onipotência do pensamento. Apresentar o conceito de onipotência e apresentar como ele está presente nas relações humanas são os objetivos desse trabalho. A metodologia utilizada para a realização desse trabalho foram realizadas leituras acerca do conceito de onipotência na psicanálise e na filosofia, e posteriormente sua manifestação nas relações humanas. Assim se considera que a onipotência humana, enquanto fantasia, é uma força destruidora de relações para o sujeito. A condição de potente é uma melhor relação do homem. Ao abordar a onipotência como tema central, faz-se necessário inicialmente uma apresentação do conceito, bem como suas implicações na vida do sujeito nas fases iniciais e complementares do desenvolvimento. Conceitualmente a Onipotência pode ser definida pela própria palavra, que pode ser interpretada como poder tudo, ou ainda possuir tudo. Sua origem psíquica está no Inconsciente, ou ainda o inconsciente dinâmico chamado de Id 2 (isso), que é constituído pelo princípio do prazer 3, e está presente no humano desde o seu nascimento. Na primeira fase do desenvolvimento humano, essa onipotência constitui-se na relação do bebê com a mãe. Nessa relação, a mãe é para a criança parte dela, criando assim uma relação simbiótica. Com essa simbiose, ou seja, essa ausência do outro a onipotência da criança está na relação com a figura materna, vez que a função materna satisfaz as necessidades alimentares da criança 4. Assim, a onipotência está constituída nessa relação, ou projetada na mãe, enquanto objeto de satisfação plena da criança. 1 Acadêmico do 3º ano de Graduação em Licenciatura em Filosofia, UNIOESTE - Campus Toledo. Contato: amortigara@live.com 2 Novas Conferências Introdutórias: Dissecção do Aparelho Psíquico. (FREUD 1933, pg. 212). 3 Ao abordar os processos anímicos (ou psíquicos) inconscientes, Freud busca determinar quais seriam os primários, e os identifica como Princípio do prazer-desprazer. Nesses processos, se buscará atingir o prazer, e o que for desprazeroso será recalcado ou reprimido. (FREUD 1911, pg. 110-111). 4 A questão alimentar mencionada acima, refere-se a condição de erotização da boca na fase oral. Assim todo o conhecer da criança se da pela boca, vez que essa é sua zona de satisfação. ROSA, M. I. P. D. (org.) 1º Simpósio de Psicologia, v.1, n.1, 2015. Curitiba : Editora Champagnat. Página 1
A partir da falta de satisfação inicia um contato com a realidade, também é a partir dessa falta que surge o recalque originário, e por consequência a afirmação do inconsciente. Nesse momento do desenvolvimento da criança, e nas repetidas relações com a falta, e essa instância psíquica originalmente constituída de puro prazer, passa ter um contato e também confronto com a realidade, enquanto impossibilitadora de sua satisfação pulsional, e nesse processo inicia a construção de uma nova instância do inconsciente, o Ego (Eu), é nessa instância onde essa relação de onipotência e impotência se evidenciam aos adultos. Nas pulsões e seus destinos (1915), Freud aborda essa energia psíquica, no caso a pulsão, como detentora de uma polaridade que ele apresenta por diversas variações, como ativo e passivo, também como atividade e passividade, amor e ódio, masoquismo e sadismo, entre outras. A intenção do autor nessas demonstrações parecer evidenciar os dois polos da mesma energia, e complementa essa explicação como segue: O fato de que nesse período ulterior de desenvolvimento pode se observar, junto a uma moção pulsional, o seu oposto (passivo), merece ser destacado mediante a tão adequada denominação introduzida por Bleuler: ambivalência. (FREUD, 1915 p. 45) A partir da ambivalência existente na energia pulsional entre ativo e passivo, ou ainda da relação de opostos, que não se anulam, podemos inferir a onipotência enquanto ativa e a impotência enquanto passiva. Na Introdução ao Narcisismo (1914), Freud retoma o conceito de onipotência do pensamento, para caracterizar um momento da fase narcísica da criança, pautando sua explicação na Parte III, de Totem e Tabu (1913), onde descreve a evolução da sociedade totêmica para a religiosa, e da religiosa para científica, adiante exposto. Na fase posterior do desenvolvimento, ou seja, na fase anal, essa relação objetal para com mãe é introjetada e não mais projetada. Esse processo dá-se pelo próprio desenvolvimento do corpo humano, vez que agora ele possui controle esfincteriano 5. Di Loreto (2007, p. 64-68), afirma que nessa fase, em que ocorre o processo de dissociação da criança com a mãe, também se inicia o processo de dissociação entre impotência e onipotência. Questiona, então, o autor, a ausência do termo médio, que seria o caracterizador dos conceitos tratados acima, sendo ele a potência. Busca, então, por meio de exemplo, definir o lugar da potência na constituição da criança e, consequentemente, do adulto potente, diferenciando tanto a impotência e onipotência como gêneses de doenças psíquicas, como de potência enquanto base de um sujeito confiante para a vida. A necessidade da potência no humano é o diferencial para a satisfação e pleno desenvolvimento de suas escolhas, ou seja, a potência seria a utilização adequada desse poder na ação. Enquanto que impotência fantasiada é a potência existente não exercida, ou utilizada, a onipotência é potência fantasiada e, portanto, não praticada, pela impossibilidade de se atingir esse ideal. O termo fantasia, utilizado acima, se faz necessário para a caracterização real da impotência e onipotência. Assim define Freud (1911, p. 114-115): É a atividade da fantasia, que tem início já na brincadeira das 5 A fase anal se dá com o deslocamento de energia da erotização, que sai da boca para a região anal. ROSA, M. I. P. D. (org.) 1º Simpósio de Psicologia, v.1, n.1, 2015. Curitiba : Editora Champagnat. Página 2
crianças e que depois, prosseguindo como devaneio, deixa de lado a sustentação em objetos reais, demonstrando assim o real sentido, tanto de impotência quanto de onipotência. Nesse processo de constituição e aprendizado, o humano, na sua infância, passa tanto pelo processo da fantasia de impotência quanto pelo processo da fantasia de onipotência, até encontrar-se com a sua potência. É nesse processo diastólico e sistólico, ou ainda, de flutuação entre extremos, no caso Impotência e Onipotência, que ele se apropriaria de sua potência. (Ressalto que esse seria o processo idealizado do humano para ter consigo uma plena realização de existir junto à realidade, ou seja, saindo da fantasia de não poder realizar nada (impotência), ou ainda poder realizar o que a ele for possível pensar (onipotência)). Em sua obra Totem e Tabu, mais especificamente no terceiro capítulo, Animismo, Magia e Onipotência, Freud busca demonstrar nossa projeção de Onipotência enquanto sociedade em constante desenvolvimento. Ao explicar animismo faz referência a Hume, há uma tendência universal, entre os homens, de conceber todos os seres como eles próprios e de transferir para todo objetos qualidades que conhecem familiarmente e de que estão intimamente cônscios (FREUD, 1912, p. 124). A partir dessa referência, Freud, assim como o próprio Hume, passa a demonstrar como esse processo de onipotência se dá na sociedade. Inicialmente, essa projeção é somente para com animais, espíritos ou almas, ou seja, algo que esteja próximo à natureza e que não exija maior descrição lógica de algo para demonstrar essa evidência para a crença. Nesse estágio evolutivo, a manifestação dessa onipotência é dada pelo feiticeiro, que possui poderes de influenciar os espíritos para que estes realizem os desejos humanos. Num segundo momento da evolução do homem, em que esses processos de manifestação de poder estão mais constituídos, este passa a projetar num deus uno, detentor de poderes que dão conta de validar a existência de um ser supremo e onipotente, nesse caso o sacerdote é quem manifesta o poder. Já no terceiro estágio evolutivo de sociedade, esse processo de onipotência humana, ou mais claramente, uma fantasia coletiva de onipotência humana, se dá pelo processo científico. E aqui o autor narra o que segue: Na concepção científica do mundo não há mais lugar para a onipotência do homem, ele reconhece sua própria pequenez e submete-se resignadamente a morte e às outras necessidades naturais. Mas a confiança no poder do espírito humano, a contar com as leis da realidade, retém algo da primitiva fé na onipotência (FREUD, 1912, p 140). Nas Meditações, Descartes acredita num Deus onipotente e perfeito, como se verifica: Pois, primeiramente, reconheço que é impossível que alguma vez ele me engane, visto que em toda fraude e engano se encontra algum modo de imperfeição. E, embora pareça que poder enganar seja ROSA, M. I. P. D. (org.) 1º Simpósio de Psicologia, v.1, n.1, 2015. Curitiba : Editora Champagnat. Página 3
um sinal de sutileza ou de poder, entretanto, querer enganar testemunha, sem dúvida, fraqueza ou malícia. E, portanto, isso não se pode encontrar em Deus (DESCARTES, 1988, p. 47). Ao entender que deus não pode enganá-lo por ser perfeito, Descartes traz para discussão o deus bom, que não enganará, ou no caso fará mal e, portanto não poderia criar algo que o destruísse, por mais poderoso que seja. Porém se se entender que essa ideia de deus onipotente é uma projeção humana, pode-se verificar que essa onipotência contém qualidades destrutivas e que o humano, poderia sim, com base nessa fantasia de onipotência, criar algo que o destruísse, como tem demonstrado ser capaz e eficaz nessa proposta destrutiva. O ideal humano, concebido no período do Renascimento6 e potencializado no Iluminismo, é quem guia as ciências. A partir de Kant e sua delimitação do uso da Razão, surgiram outros ramos das ciências e, hoje, conta-se com uma infinidade de conhecimentos descritos por métodos que assegurariam a validade das hipóteses levantadas. A partir dessas hipóteses estarem corretas, ou não, percebe-se a satisfação humana nas suas relações mais triviais. Por vezes não raras, em diálogos dos mais diversos assuntos, nos quais há uma possibilidade de necessidade de conhecimento brevemente aprofundado, para se ratificar ou não uma questão arguida por um dos propositores, os humanos (sujeitos) buscam assegurar sua condição de estarem certos, ou de estarem de acordo com a validade vigente. Porém, o que ocorre se depurarmos um pouco esses diálogos é que, em várias ocasiões, o que os presentes almejam é estarem certos. Não há de fato a busca pelo diálogo, que no caso pressupõe a escuta, vez que ambos somente estão ansiosos em ter sua certeza ratificada. Com a ciência, quando se busca demonstrar a hipótese, tais diálogos são condicionados à validade ou nulidade da hipótese. Ou ainda, ratificar a potência argumentativa de um ou de outro. Por passar boa parte de sua vida, convivendo com pessoas que buscam encontrar respostas na religião para suas angustiantes perguntas e, por a mesma reiterar o processo de onipotência, em que por meio da divindade o humano recebe todo poder, o humano reitera somente o ego primitivo, ou narcísico, e onipotente. A Onipotência nas relações humanas mostra-se cada vez mais destrutiva, tanto impossibilita o sujeito de sentir-se potente, pois gera a própria impotência, como também destrói as condições de vida existentes, sendo que se encontrar potente é a relação madura do homem para consigo e com os outros. 6 O otimismo com respeito à razão já era anunciado desde o Renascimento, quando a nova concepção de ser humano valoriza os poderes do indivíduo contra o teocentrismo medieval e o princípio da autoridade. No século XVII o racionalismo e a revolução científica acentuaram essa tendência, de modo que no Século das Luzes o indivíduo se descobre confiante, como artífice do futuro, e não mais se contenta em contemplar a harmonia da natureza, mas quer conhecê-la, dominá-la (ARANHA, 2006. p.172). ROSA, M. I. P. D. (org.) 1º Simpósio de Psicologia, v.1, n.1, 2015. Curitiba : Editora Champagnat. Página 4
Referências Bibliográficas ARANHA, Maria Lucia de Arruda. História da Educação e da Pedagogia: geral e Brasil. 3.ed. São Paulo: Moderna, 2006. DESCARTES, René. Discurso do Método; As paixões da alma; Meditações; Objeções e Respostas; Cartas. 4.ed. São Paulo: Nova Cultural, 1987-1988. (Col. Os pensadores) FREUD, S. (1905). Três Ensaios sobre a teoria da sexualidade. In:. Obras psicológicas completas. Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 2006. v. 7.. (1911). Formulações sobre os dois princípios do funcionamento psíquico. In:. Obras Completas. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. v. 10.. (1912-1913). Totem e Tabu. In:. Obras Completas. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. v. 11.. (1914). Introdução ao Narcisismo. In:. Obras Completas. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. v. 12.. (1915). As pulsões e seus destinos. In:. Obras Incompletas de Sigmund Freud. Tradução de Pedro Heliodoro Tavares. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2013 v. 2.. (1916-1917). Conferências introdutórias à psicanálise. In:. Obras Completas. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. v. 13. HUME, David. História natural da religião. Trad. Jaimir Conte. São Paulo: UNESP, 2005. KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Tradução Lucimar A. Coghi Anselmi, Fulvio Lubisco. São Paulo: Martin Claret, 2009. (Coleção a obra-prima de cada autor; 3) LORETO, Oswaldo di (Org.). Posições tardias: contribuição ao estudo do segundo ano de vida. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2007. ROSA, M. I. P. D. (org.) 1º Simpósio de Psicologia, v.1, n.1, 2015. Curitiba : Editora Champagnat. Página 5