SOLVENTES E INALANTES Considerações iniciais Solventes são todas as substâncias capazes de dissolver outras substâncias, assim, a cola de sapateiro é um composto químico dissolvido num solvente, que se evapora, e proporciona à substância de base a capacidade de colar couro. Como solventes podemos classificar a gasolina, o óleo diesel, o querosene, o tolueno, o thinner, o xileno, o benzeno, o normal hexano, que é um dos mais agressivos produtos para o corpo humano, e outros tantos produtos. O benzeno usado mesmo em pequenas quantidades diminui a produção de glóbulos vermelhos e brancos pelo organismo humano. Inalantes são solventes e substâncias que possuem a propriedade química de se evaporarem rapidamente a baixas temperaturas, e entre eles destacam-se: o éter, a acetona, o clorofórmio, o lança-perfume, os propelentes dos aerossóis, o cheirinho da loló. Tanto os solventes, como os inalantes são substâncias de uso corrente pela população, pois fazem parte de milhares de produtos usados no cotidiano das pessoas e das indústrias. O esmalte de unhas, as tintas e os vernizes, as colas, os extintores de incêndio, os propelentes dos aerossóis, os combustíveis, os propelentes de alguns medicamentos, são dissolvidos em solventes e propelidos por inalantes. Este fato faz com que solventes e inalantes sejam adquiridos com extrema facilidade no mercado, por todos aqueles que querem fazer uso diferente dos quais foram originalmente projetados. 1 / 7
As composições químicas de solventes e inalantes são as mais variadas e diversas possíveis, encontrando-se produtos pertencentes às famílias de hidrocarbonetos, nitratos, nitritos, produtos fluorados e clorados, etc. Os usuários de solventes e inalantes como drogas são principalmente adolescentes de classe baixa ou meninos de rua, os quais são vistos nas ruas e praças das cidades cheirando cola ou esmalte contidos em sacos plásticos. O uso destes produtos como droga tem se difundido também entre os jovens de classe média, principalmente na forma de cheirinho da loló, que é uma mistura de éter e de clorofórmio, e do lança-perfume, que é um inalante de designação química cloreto de etila, cuja produção é proibida no Brasil, e aqui chega, contrabandeada de países vizinhos. Ambas as drogas são bastante usadas em festas e baladas de jovens, com a finalidade de provocar embriaguez rápida e proporcionar o uso de outras drogas comuns a estes tipos de festas, como a maconha e as metanfetaminas. Trabalhadores das indústrias que operam com solventes e inalantes, uma dona de casa que troca seu carpete, os enfermeiros e médicos dos hospitais e clínicas, são todos pessoas que têm contato com os produtos voláteis, que os aspiram de forma involuntária, e nem por isso se viciam com estes produtos. Também, é fato conhecido, que muitos dos solventes e inalantes, se inalados de forma continuada, ou em contato constante com o corpo humano, podem trazer sérios prejuízos ao homem. Lesões na medula óssea, problemas pulmonares, problemas de fígado e de rins, lesões de músculos e nervos aparecem freqüentemente em profissionais que trabalham nas indústrias que operam com solventes e inalantes, causando-lhes graves perdas físicas, trabalhistas e aposentadorias precoces. 2 / 7
O uso de inalantes e de solventes como drogas O uso destas drogas de forma abusiva é feito através da introdução da droga em sacos plásticos, isto para os solventes de colas, esmaltes e vernizes, ou aspirando-se produtos puros colocados em lenços ou trapos. Os inalantes também são colocados em lenços ou trapos e inalados, levando-se diretamente à boca e ao nariz. Os efeitos sentidos pelo usuário são rápidos e bastante fortes; demoram a fazer efeito apenas alguns segundos e os estes efeitos duram de 15 a 60 minutos, dependendo do produto, da sua pureza e da quantidade usada. Epidemiologia Segundo dados do Cebrid de 2001, 5,8% da população brasileira se declarou usuária freqüente de solventes, sendo que o número de homens usuários é quase duas vezes maior que o de mulheres, e a predominância se dá na faixa de idade dos 25 a 34 anos. Nos Estados Unidos estes números caem para 5% da população norte-americana, segundo dados de 1991. Jovens emocionalmente perturbados ou deprimidos, aqueles com tendências de delinqüência, os portadores de transtorno anti-social, usam e abusam mais de solventes e de inalantes que jovens de comportamento normal. 3 / 7
Efeitos físicos e psicológicos Como os solventes e inalantes são drogas depressoras do Sistema Nervoso Central, seu uso repetido causa ao usuário inicialmente uma estimulação, seguida de sedação, tontura, como, aquela sentida na embriaguez alcoólica, relaxamento muscular e bem estar. Didaticamente, a primeira fase é a da excitação. Nela o usuário fica excitado, estimulado, agitado, com vontade de fazer tudo o que lhe vier à cabeça. Podem aparecer também nesta primeira fase, tonturas, vertigens, perturbações visuais, táteis e auditivas, que podem se transformar em alucinações, se o consumo de drogas for intenso, seguidas de enjôos, náusea, tosse, espirros e excessiva salivação. Na fase seguinte com o uso destas substâncias aparece a depressão que, inicialmente, é caracterizada pelo aparecimento de desorientação, confusão mental, perda do autocontrole, palidez, voz pastosa. A depressão vai se aprofundando, e todos estes sintomas vão se tornando mais fortes, e o usuário perde a maioria dos reflexos, parecendo estar totalmente embriagado. No final do uso dos solventes e inalantes, o usuário entra em depressão tardia, chegando mesmo à inconsciência, queda de pressão, surtos e convulsões. Muitas vezes o usuário não tem nem força para afastar o saco plástico ou trapo do nariz e da boca, continuando a inalar o produto, se intoxicando até a morte. A causa desta morte súbita é um ataque do coração, e é chamada de síndrome da morte súbita por inalação. 4 / 7
Principais sintomas do uso e abuso de solventes e de inalantes Segundo o DSM IV, os principais sintomas verificados nos abusadores de solventes e inalantes são: - Tontura - Nistagmo (movimentos involuntários dos olhos) - Fraca coordenação - Fala arrastada - Marcha instável - Letargia - Reflexos deprimidos - Retardo psicomotor - Tremores - Fraqueza muscular generalizada - Visão turva ou dupla - Estupor ou coma - Euforia Junto com estes sintomas, os usuários de inalantes e de solventes apresentam vermelhões e erupções em volta do nariz e da boca, hálito com odor incomum, resíduo de substâncias em partes do corpo e em suas roupas, irritação nos olhos, na garganta, no nariz e fortes crises de tosse com catarro abundante. Danos físicos e psiquiátricos 5 / 7
Fisicamente, o uso abusivo e crônico de solvente e de inalante pode causar danos hepáticos e renais irreversíveis, atrofia cerebral, epilepsia, diminuição permanente do QI (quociente de Inteligência). Por serem solventes, podem também destruir, de forma definitiva, a bainha de mielina de nervos e neurônios, causando morte de neurônios, danos em nervos e instalação de epilepsia no usuário. Outras doenças que aparecem com o abuso destas substâncias são prejuízos motores e de memória, problemas pulmonares e cardiovasculares. Síndrome de abstinência Raramente se nota síndrome de abstinência do uso de solventes e de inalantes, como se nota em outras dependências químicas, e se ela aparece, é de pouca intensidade e perfeitamente controlável pelo paciente. Em pacientes mais pobres e desprotegidos, a síndrome de abstinência é curada com o uso de álcool. Tratamento É correto considerar-se o uso de solventes como passageiro, até que o usuário descubra uma outra droga de sua escolha e que vai então diminuir o uso de solventes e de inalantes. Usuários abusivos, como os meninos de rua, quase sempre morrem sem qualquer tratamento. O enfoque a se dar para o tratamento dessa dependência é psicológico e social, sendo que o terapeuta deve procurar mudar os hábitos do paciente, trabalhando o conhecimento do uso e abuso destas drogas, e suas conseqüências para o corpo humano. O apoio para o preenchimento da vida do paciente com outras atividades é fundamental para sua recuperação. O tratamento médico e psicológico das comorbidades psiquiátricas pré-existentes é muito importante para o controle do abuso ou da dependência química instalados no paciente. 6 / 7
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