ADVOCACIA-GERAL DA UNIÃO SECRETARIA-GERAL DE CONTENCIOSO RECURSO ORDINÁRIO EM MANDADO DE SEGURANÇA Nº 27.300 IMPTE..: INSTITUTO IMACULADA CONCEIÇÃO IMPDO.: MINISTRO DE ESTADO DA PREVIDÊNCIA SOCIAL RELATORA: MINISTRA CÁRMEN LÚCIA SÍNTESE DO MEMORIAL: 1. O mandado de segurança é via inidônea, uma vez que a causa demanda dilação probatória, em especial, prova pericial para verificar a aplicação do percentual mínimo de 20% da receita bruta em gratuidades. Precedente da Corte, RMS nº 26.392; 2. Na linha de diversos precedentes dessa Corte, não existe direito adquirido a regime jurídico. Em relação ao CEBAS destaca-se como precedente dessa Corte o RMS nº 27.093; 3. União pugna pelo desprovimento do recurso. I. DO CASO DOS AUTOS Trata-se de mandado de segurança, impetrado por Instituto Imaculada Conceição, contra ato do Ministro de Estado da Previdência Social, consubstanciado na negativa de expedição de CEBAS (Certificado de Entidade Beneficente de Assistência Social). A impetrante alega, em síntese, que não se submete à sistemática da Lei nº 8.212/91, em virtude do direito adquirido à manutenção do regime jurídico pretérito.
O Superior Tribunal de Justiça, através de sua Primeira Seção, denegou a segurança, em acórdão assim ementado: TRIBUTÁRIO MANDADO DE SEGURANÇA CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA ISENÇÃO RENOVAÇÃO DE CERTIFICADO DE ENTIDADE BENEFICENTE DE ASSISTÊNCIA SOCIAL CEBAS DIREITO ADQUIRIDO INEXISTÊNCIA ATENDIMENTO AOS REQUISITOS LEGAIS OBSERVÂNCIA DO PERCENTUAL DE 20% DE GRATUIDADE NECESSIDADE DE DILAÇÃO PROBATÓRIA INADEQUAÇÃO DA VIA ELEITA. 1. Quando se discute questão jurídica cuja matéria é de competência privativa da Primeira Seção, torna-se desnecessária afetação do julgamento à Corte Especial ante a impossibilidade de divergência com outras Seções. 2. A obtenção do certificado de entidade beneficente condiciona-se ao atendimento às exigências mencionadas no art. 195, 7, da Constituição da República, o que afasta a tese do direito adquirido. 3. O Supremo Tribunal Federal já se posicionou no sentido de que a exigência de emissão e renovação periódica prevista no art. 55, II, da Lei 8.212/91 não ofende os arts. 146, II e 195, 7, da CF/88 (AgRg no RE 428.815/AM), sendo de absoluta constitucionalidade. 4. A concessão do Certificado de Entidade Beneficente de Assistência Social - CEBAS (art. 18, IV, da Lei 8.742/93 c/c art. 3 do Dec. 2.536/98) dentre outros requisitos exige aplicação do percentual de 20% (vinte por cento) da receita bruta em gratuidade. 5. O mandado de segurança exige prova pré-constituída, verificando-se a impossibilidade de, de plano, comprovar-se as exigências da Lei 8.742/93. 6. Inadequação da via eleita, ressalvando-se as vias ordinárias. 7. Mandado de segurança extinto, sem resolução do mérito. 1 Inconformada, a impetrante interpôs recurso ordinário em mandado de segurança, reiterando os argumentos da inicial. A Procuradoria-Geral da República opinou pelo desprovimento do recurso. Com a inclusão do feito em pauta, para julgamento definitivo, vem a Advocacia-Geral da União apresentar memorial, pelo desprovimento do recurso. II. PRELIMINAR. INADEQUAÇÃO DA VIA ELEITA Como corretamente observado, pelo voto-vista, proferido no STJ, a via eleita revela-se inidônea. pois a prova de aplicação do aludido percentual demanda realização de perícia, procedimento inviável em sede de mandado de segurança. 1 MS 9.229/DF. DJ 17/12/2007. RMS nº 27.300, Rel. Min. Cármen Lúcia 2
Dessa feita, pugna-se, preliminarmente, pela extinção do feito, sem resolução do mérito, nos termos do art. 267, VI, CPC. III. MÉRITO. AUSÊNCIA DE DIREITO ADQUIRIDO A REGIME JURÍDICO O impetrante sustenta que a decisão do Ministro de Estado da Previdência Social teria violado a garantia ao direito adquirido, uma vez que, de acordo com o Decreto-Lei nº 1572/77, lhe teria sido garantido direito adquirido à isenção tributária. Contudo, o dispositivo que outorgava a referida garantia exigia que o certificado da entidade possuísse validade por tempo indeterminado. Eis o teor dos dispositivos: Art. 1º Fica revogada a Lei nº 3.577, de 4 de julho de 1959, que isenta da contribuição de previdência devida aos Institutos e Caixas de Aposentadoria e Pensões unificados no Instituto Nacional de Previdência Social - INPS, as entidades de fins filantrópicos reconhecidas de utilidade pública, cujos diretores não percebam remuneração. 1º A revogação a que se refere este artigo não prejudicará a instituição que tenha sido reconhecida como de utilidade pública pelo Governo Federal até à data da publicação deste Decreto-lei, seja portadora de certificado de entidade de fins filantrópicos com validade por prazo indeterminado e esteja isenta daquela contribuição. (Grifou-se). Há que se ressaltar que essa isenção estava sujeita à condição resolutória, uma vez que, nos termos do art. 2º do mencionado Decreto-Lei, O cancelamento da declaração de utilidade pública federal ou a perda da qualidade de entidade de fins filantrópicos acarretará a revogação automática da isenção (...). Registre-se, que a impetrante não comprovou a existência do referido certificado por tempo indeterminado, inexistindo, portanto, direito adquirido. Diante de tal situação, deve submeter-se às exigências da nova normatização, em especial a aplicação de, no mínimo, 20% da receita bruta em gratuidades, conforme definido pelo Decreto 752/93, em seu art. 2º, IV, combinado com art. 55, II, Lei nº 8.212/91. RMS nº 27.300, Rel. Min. Cármen Lúcia 3
Por amor ao debate, ainda que possuísse o referido certificado, entendese que deva ser aplicada a nova legislação, em virtude da inexistência de direito adquirido a regime jurídico. Esse STF corrobora a tese e, no que concerne especificamente ao CEBAS, assim se pronunciou através de sua Segunda Turma: EMENTA: CONSTITUCIONAL. TRIBUTÁRIO. IMUNIDADE DE ENTIDADE BENEFICENTE. CERTIFICADO DE ENTIDADE BENEFICENTE - CEBAS EMITIDO E PRETENSAMENTE RECEPCIONADO PELO DECRETO-LEI 1.752/1977. DIREITO ADQUIRIDO. ART. 195, 7º DA CONSTITUIÇÃO. DISCUSSÃO SOBRE O QUADRO FÁTICO. ATENDIMENTO OU NÃO DOS REQUISITOS LEGAIS. 1. Nenhuma imunidade tributária é absoluta, e o reconhecimento da observância aos requisitos legais que ensejam a proteção constitucional dependem da incidência da norma aplicável no momento em que o controle da regularidade é executado, na periodicidade indicada pelo regime de regência. 2. Não há direito adquirido a regime jurídico relativo à imunidade tributária. A concessão de Certificado de Entidade Beneficente - Cebas não imuniza a instituição contra novas verificações ou exigências, nos termos do regime jurídico aplicável no momento em que o controle é efetuado. Relação jurídica de trato sucessivo. 3. O art. 1º, 1º do Decreto-lei 1.752/1977 não afasta a obrigação de a entidade se adequar a novos regimes jurídicos pertinentes ao reconhecimento dos requisitos que levam à proteção pela imunidade tributária. 4. Não cabe mandado de segurança para discutir a regularidade da entidade beneficente se for necessária dilação probatória. Recurso ordinário conhecido, mas ao qual se nega provimento RMS 26.392. DJe-022 DIVULG 04-02-2010 PUBLIC 05-02- 2010. (Grifou-se). EMENTA: RECURSO ORDINÁRIO EM MANDADO DE SEGURANÇA. CONSTITUCIONAL. TRIBUTÁRIO. CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS. IMUNIDADE. CERTIFICADO DE ENTIDADE BENEFICENTE DE ASSISTÊNCIA SOCIAL - CEBAS. RENOVAÇÃO PERIÓDICA. CONSTITUCIONALIDADE. DIREITO ADQUIRIDO. INEXISTÊNCIA. OFENSA AOS ARTIGOS 146, II e 195, 7º DA CB/88. INOCORRÊNCIA. 1. A imunidade das entidades beneficentes de assistência social às contribuições sociais obedece a regime jurídico definido na Constituição. 2. O inciso II do art. 55 da Lei n. 8.212/91 estabelece como uma das condições da isenção tributária das entidades filantrópicas, a RMS nº 27.300, Rel. Min. Cármen Lúcia 4
exigência de que possuam o Certificado de Entidade Beneficente de Assistência Social - CEBAS, renovável a cada três anos. 3. A jurisprudência desta Corte é firme no sentido de afirmar a inexistência de direito adquirido a regime jurídico, razão motivo pelo qual não há razão para falar-se em direito à imunidade por prazo indeterminado. 4. A exigência de renovação periódica do CEBAS não ofende os artigos 146, II, e 195, 7º, da Constituição. Precedente [RE n. 428.815, Relator o Ministro SEPÚLVEDA PERTENCE, DJ de 24.6.05]. 5. Hipótese em que a recorrente não cumpriu os requisitos legais de renovação do certificado. Recurso não provido. RMS 27.093. DJe-216 DIVULG 13-11-2008 PUBLIC 14-11-2008. (Grifouse). IV. DO PEDIDO Por todo o exposto, pugna a União, preliminarmente, pelo não conhecimento do presente recurso, e, no mérito, pelo seu desprovimento. Brasília, de outubro de 2011. GRACE MARIA FERNANDES MENDONÇA Secretária-Geral de Contencioso FABÍOLA SOUZA ARAÚJO Diretora do Dep. Acompanhamento Estratégico Secretaria-Geral de Contencioso THIAGO CARVALHO BARRETO LEITE Advogado da União RMS nº 27.300, Rel. Min. Cármen Lúcia 5