Histórico da OMC: construção e evolução do sistema multilateral de comércio



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Transcrição:

Histórico da OMC: construção e evolução do sistema multilateral de comércio Especial Perfil Wesley Robert Pereira 08 de setembro de 2005

Histórico da OMC: construção e evolução do sistema multilateral de comércio Especial Perfil Wesley Robert Pereira 08 de setembro de 2005 A construção de um sistema multilateral de comércio passou do simples acordo do GATT para a OMC. A evolução desse sistema contou com uma base histórica de disputas comerciais entre os Estados membros inseridos num contexto de globalização e de regionalização dos blocos comerciais. Ohistórico de formação do atual sistema multilateral de comércio, iniciado pelo GATT e consolidado na forma da Organização Mundial do Comércio (OMC), teve sua pedra fundamental na segunda metade da década de 1940. O encontro de Bretton Woods, em 1944, teve o objetivo de fomentar um espaço de maior cooperação na área da economia internacional, cujo resultado foi a criação de Organização Internacional do Comércio (OIC), Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial. Porém, a OIC não foi estabelecida devido à não ratificação da Carta de Havana 1 - que delimitava seus objetivos e funções pelos Estados Unidos. Tal impasse é resolvido com a adoção, por 23 países, inclusive os Estados Unidos, do segmento da Carta de Havana relativa às negociações de tarifas e regras sobre o comércio. O nome dessa parte da Carta mudou de Política Comercial (capítulo IV) para General Agreement on Tariffs and Trade (GATT) ou Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio. Segundo Vera Thorstensen, de um simples acordo, o GATT tornou-se um órgão internacional que forneceu a base institucional para diversas rodadas de negociações sobre comércio, [e a função de] coordenador e supervisor das regras do comércio até o final da Uruguai e a criação da atual OMC. Esse acordo agrega um conjunto de princípios inseridos, de forma normativa, no comércio internacional. As rodadas de negociações e o contexto histórico A participação dos países em desenvolvimento, no início das negociações internacionais para o estabelecimento das regras do livre comércio, foi bastante pequena. Isso devido tanto as limitações de suas economias quanto ao início do processo de descolonização que muitos destes países estavam passando. Nas primeiras rodadas, o foco do GATT foi a negociação do comércio dos produtos industrializados. Da pauta das negociações foram retiradas a liberalização do comércio agrícola e redução de subsídios nessa área uma vez

2 que ambas impossibilitavam um acordo entre EUA e a Comunidade Econômica Européia (CEE). Data 1947 1949 1951 1956 1960-61 1964-67 1973-79 1986-94 2001-05 (1) Local Genebra Suíça Annecy França Torquay Reino Unido Genebra Suíça Dillon 2 Kennedy Tóquio Uruguai Doha Catar Nº de países Comércio afetado (US$) 23 10 bilhões 13 n.d. 38 n.d. 26 26 2,5 bilhões 4,9 bilhões 62 40 bilhões 102 123 155 bilhões 3,7 trilhões 148 n.d. Obs.: n.d. não disponível. Fonte: Thorstensen. Exceto (1) dados retirados de FinanceOne, acesso: 30 de maio 2005. Disponível em www.financeone.com.br As regras básicas do GATT-OMC, segundo Thorstensen, são três. A primeira é o tratamento da nação mais favorecida (NMF), ou seja, o que é aplicado a um de seus membros deverá ser aplicado aos demais membros. Essa regra implica duas coisas: um aspecto multilateral em detrimento do bilateral e a não discriminação entre os países parceiros desse acordo. Tal regra possui ainda um caráter de reciprocidade. A segunda regra é a exigência do Tratamento Nacional (TN) que proíbe a discriminação entre produtos importados e produtos nacionais. A regra da Transparência, terceira, cria uma obrigatoriedade dos países tornarem públicos seus documentos concernentes à política econômica. Nas seis primeiras, rodadas o tema predominante foi a busca por reduções tarifárias. Para Thorstensen, todas as oito rodadas do GATT são consideradas como um sucesso, em seu todo, quando se tem em mente que as médias das tarifas aplicadas aos produtos era de 40% em 1947 e caíram para 5% em 1994, quando se finaliza a Uruguai. Na primeira rodada, em Genebra em 1947, o mundo estava passando por uma crise no que se refere à conversibilidade de moedas e contas externas. Os Estados Unidos foram os únicos a fazerem grandes concessões tarifárias. Os demais 22 participantes do GATT fizeram concessões mínimas. A segunda rodada, Annecy em 1949, outro ano de crise, não obteve avanços, deixando tudo como foi decidido em Genebra dois anos antes. O bloqueio russo à cidade de Berlim, a tomada do poder na China pelos comunistas e o primeiro teste nuclear soviético enunciavam que as questões comerciais figurariam a um segundo plano naquela conjuntura internacional. Esses temas da segurança internacional tomaram conta do contexto da terceira rodada de negociações, em Torquay, em 1951. Acresce-se o início da Guerra da Coréia entre os dois blocos de poder. A rodada se caracterizou em um fracasso tendo em vista que apenas 144 artigos foram aprovados de um total de 400 artigos discutidos no GATT. Tanto na quarta quanto na quinta rodada, Genebra e Dillon, vemos que houve um esvaziamento do número de países participantes. Na questão do comércio afetado, diante da tabela acima, podemos

3 perceber que são parcos os avanços na negociação comercial. Na rodada Kennedy houve uma maior participação dos países em desenvolvimento amparados pelas discussões na Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) e por uma posição política mais de mercado liberal por parte desse grupo de países. A de Tóquio e as barreiras não-tarifárias A de Tóquio (1973-79), a sétima, representou um aumento expressivo tanto no número de atores (102 ao total) quanto nas cifras do comércio afetado (US$ 155 bilhões). Além disso, a sua duração foi de seis anos, a mais longa rodada até então. Essa rodada foi afetada por algumas questões da política e economia internacionais. O tema predominante foi as barreiras não-tarifárias. Segundo a economista pelo Instituto de Economia da UFRJ, Lia Valls, na década de 1970, uma série de mudanças em relação a esse contexto desencadeou mudanças significativas no mapa econômico global. A Comunidade Econômica Européia e o Japão consolidaram sua posição como concorrentes aos Estados Unidos. A crise do petróleo em 1973 interrompe o ciclo da expansão iniciado no pós-guerra e há uma mudança no sistema de taxas de câmbio fixas para o sistema flutuante. Além desses três fatores, há uma crescente onda protecionista por parte dos países desenvolvidos. Dessa forma, a Tóquio foi, segundo Valls, realizada diante de um quadro distinto das rodadas anteriores. Discussões sobre reduções tarifárias foram acompanhadas por uma série de acordos para reduzir a incidência das barreiras ditas não-tarifárias, ponto focal da rodada. Essas barreiras haviam sido adotadas como forma de proteção das indústrias nacionais de diversos países. A Uruguai e o modelo liberal Após a de Tóquio começou a ganhar força o estabelecimento de uma nova rodada de negociações. Segundo Valls, o estabelecimento de uma nova rodada contava, por um lado, com a inclusão de novos temas como o comércio de serviços e a propriedade intelectual por parte dos países desenvolvidos. Por outro lado, os países em desenvolvimento acreditavam que essas novas áreas temáticas tenderiam a relegar a um segundo plano a questão da proliferação das barreiras não-tarifárias e dificultaria a discussão de questões tradicionais como a agricultura e o setor têxtil. A agenda da rodada Uruguai é preparada já em 1982 pela administração estadunidense de Ronald Reagan. Sua pauta fundamental foi a pressão dos EUA na reforma do GATT e pela inclusão dos novos temas. Entre estes estão a preservação das patentes sobre propriedade intelectual incidindo diretamente sobre as indústrias farmacêuticas, de biotecnologia e de cultural. Outro tema colocado em pauta pelos EUA foi a liberalização do comércio de serviços, o que afetaria de imediato o mercado financeiro. Esses novos temas têm grande importância nos mercados dos países em desenvolvimento, ou seja, mercados qualitativamente novos para os atores dos países desenvolvidos. Assim, tais temas foram incorporados nas negociações da rodada Uruguai. Em questões procedimentais dentro da rodada, os países da CEE e os países em desenvolvimento tiveram afinidades. Isso se explica devido ao fato de os países europeus perceberem com restrições a proposta dos EUA de reforma do GATT. Essa proposta visava eliminar o princípio da unanimidade em favor da maioria

4 simples nas decisões do organismo. A Uruguai surge num contexto de auge das idéias econômico-liberais com Margareth Tchather no Reino Unido e Ronald Reagan nos Estados Unidos e crises econômicas nos países em desenvolvimento. Essa ideologia recomendava uma liberalização do sistema financeiro internacional, uma ampla liberalização comercial, além de um receituário de equilíbrio fiscal para as políticas domésticas apregoado pelo FMI e o Banco Mundial. Medidas liberalizantes foram adotadas nos anos 1980 e 1990. Os investimentos e empréstimos para países em desenvolvimento eram aceitáveis pelos credores internacionais com a implementação de políticas de desestatização da economia, de desregulamentação e de abertura comercial e financeira. Isso significou uma reformulação crítica dos postulados desenvolvimentistas. A rodada Uruguai foi a mais longa do GATT afetando um comércio de US$ 3,7 trilhões e envolvendo, agora, o maior número de países (123). Na Uruguai o principal tema negociado foi a criação da OMC. Também discutiu-se a queda das tarifas para produtos industriais e agrícolas, além de introduzir na pauta do GATT a liberalização da agricultura, têxteis, comércio de serviços e propriedade intelectual. Houve um reforço das regras do GATT em questões como subsídios, barreiras técnicas, salvaguardas, regras de origem, licenças de importação, antidumping, medidas fitossanitárias, valoração aduaneira, inspeção de préembarque e investimentos relacionados ao comércio entre outros. Nessa atmosfera de negociações da rodada Uruguai, os países em desenvolvimento, e a América Latina em particular, viviam uma conjuntura que representou um significativo enfraquecimento da sua capacidade de negociação e de resistir às pressões dos países desenvolvidos. Organização Mundial do Comércio A busca de cooperação na área da economia internacional encontra um contexto propício à sua execução na década de 1980. O objetivo primordial da OMC é fazer com que o comércio flue sem grandes abalos, e de maneira livre, de forma regular e previsível. Os meios para atingir este objetivo são a administração dos acordos de comércio, agindo como um fórum para negociações comerciais, sedimentando disputas comerciais, revisão de políticas nacionais de comércio, dando assistência aos países em desenvolvimento nas questões de política comercial através de assistência técnica e programas de treinamento e, por fim, cooperando com outras organizações internacionais. O órgão máximo de decisão da OMC é a instituição denominada de Conferência Ministerial a qual deve ocorrer pelo menos no prazo de dois anos cada. Em seguida é apresentado o Conselho Geral e abaixo deste temos três conselhos: o próprio GATT, GATS (General Agreement Trade on Services ou Acordo Geral de Comércio de Serviços) e o TRIPS (Agreement on Trade-Related Aspects of Intellectual Property Rights ou Acordo sobre Aspectos do Comércio dos Direitos de Propriedade Intelectual relacionados ao Comércio). Ao todo, no âmbito do GATT (1947 a 1994) foram realizadas oito rodadas de negociações multilaterais que acabaram por formar o sistema de regras do comércio internacional com vistas ao comércio livre. Os acordos da Uruguai foram concretizados em Marrakesh (Marrocos) no Encontro Ministerial, em abril de 1994, onde seria instituída a OMC em 1 de janeiro de 1995. Já no âmbito da própria

5 OMC a Conferência Ministerial de Doha em 2001, conhecida como a rodada para o desenvolvimento, lançou uma nova de negociações que deveria ser implementada até janeiro de 2005. Porém, essa nova rodada de Doha foi adiada para dezembro de 2005 quando ocorrerá a Conferência Ministerial de Hong Kong. Referência THORSTENSEN, Vera Helena. OMC - Organização Mundial do Comércio : as regras do comércio internacional e a nova rodada de negociações multilaterais. 2. ed. rev. e ampl. São Paulo: Edições Aduaneiras, 2001. 520p. VALLS, Lia. Histórico da Uruguai do GATT. Disponível em http://www.ie.ufrj.br Acesso: 31 de maio de 2005. SUARTMAN, Eduardo Munhoz. Do GATTI a OMC: rumo ao novo ordenamento político do comércio internacional. Ciências e Letras, n.19, p.23-41, ago.1997. Washington 31/03/2005 Dois fóruns com os mesmos interesses e concepções diferentes 11/04/2005 A liberalização do comércio nos setores de têxteis e vestuário 19/05/2005 OMC decide em definitivo sobre o açúcar subsidiado na União Européia 05/08/2005 Economia e Comércio da China 22/08/2005 Reunião do G-8 e outras reuniões marcam agenda do resto do ano 1 Conferência realizada em Havana, Cuba, no final de 1947 e início de 1948, que visava estabelecer regras para uma instituição multilateral de comércio internacional. Acabou não sendo instituída, o que transformou o então inexpressivo GATT no formato básico de regras a ser seguido a partir de então. 2 Essa rodada ocorreu em Genebra e é assim denominada em homenagem ao chefe da equipe de negociação dos Estados Unidos, o subsecretário de Estado Douglas Dillon. Sites: BBC Brasil: Especial OMC Cancun 2003 http://www.bbc.co.uk/portuguese Finance One Economia http://ww.financeone.com.br Organização Mundial do Comércio (OMC ou WTO) http://ww.wto.org Programa de Informações Internacionais do Departamento de Estado dos EUA http://usinfo.state.gov Ver também: 29/10/2004 O Banco Mundial: dos empréstimos para o ajuste aos empréstimos para políticas de desenvolvimento 05/11/2004 A América Latina e o ajuste estrutural após o Consenso de