PROVA BRASIL E PRÁTICAS PEDAGÓGICAS



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Transcrição:

PROVA BRASIL E PRÁTICAS PEDAGÓGICAS Josiane Bernz Siqueira (FURB) 1 professoramat_josiane@hotmail.com Ana Paula Poffo (FURB) 2 annapaulapoffo@hotmail.com Jéssica Sabel (FURB) 2 jessicasabel@terra.com.br Resumo O Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência PIBID com o subprojeto de matemática tem por objetivos inserir os licenciandos no ambiente escolar e contribuir para a melhoria do ensino. Visando tais objetivos, realizamos a parceria com o Núcleo de Estudos de Ensino da Matemática NEEM para a construção de laboratórios de matemática em estrutura de Minikits composto por materiais instrucionais. O programa atua na Escola de Educação Básica Zenaide Schmitt Costa Gaspar, com as turmas de sétimas séries do ensino fundamental dois. Elegemos estes estudantes porque em 2013 eles participarão da Prova Brasil. Assim, poderemos analisar a média de proficiência em matemática do IDEB de 2013 e compará-las com o desempenho de 2011; para então analisar a eficácia ou não dos materiais instrucionais na aprendizagem dos estudantes. Para a construção dos Minikits os bolsistas de dividiram em três grupos de trabalho: Prova Brasil, gincanas e material concreto e jogos. Através da Prova Brasil realizamos simulados para diagnosticar quais conteúdos conceituais que os estudantes sabem de fato e os quais ainda não compreenderam. Elaboramos o primeiro simulado a partir da prova modelo, disponível no site do MEC. A média das turmas foi 3,8. Com este resultado fizemos uma análise estatística e pedagógica para compreender melhor as dificuldades. Com o diagnóstico planejamos nossas ações e discutimos quais conceitos matemáticos devemos trabalhar na elaboração da gincana e dos materiais concretos e jogos. Na aplicação do simulado percebemos a dificuldade na leitura e interpretação dos enunciados, acreditamos que se realizássemos a leitura coletiva para a turma, eles conseguiriam chegar ao resultado mais facilmente. Durante a correção, os estudantes perceberam que algumas questões eram simples e confessaram a falta de leitura e/ou compreensão. Concluímos que a reflexão após a avaliação se faz necessária para transformar a prática pedagógica, neste caso, a relação com outras disciplinas é indiscutível. Assim, buscamos a parceria do PIBID Subprojeto de Letras para nos orientarem quanto a estratégias de ensino que visam à leitura e interpretação, a fim de melhorar a aprendizagem dos estudantes. Palavras chaves: Leitura; Interpretação; Matemática; Prova Brasil. 1 Introdução As competências e habilidades de leitura e interpretação de textos analisadas na Prova Brasil vão além da disciplina de língua portuguesa, para a resolução de problemas em 1 Professora Supervisora do Subprojeto Matemática PIBID/2011(FURB) 2 Acadêmicas do Curso de Matemática da FURB Bolsistas do Subprojeto Matemática - PIBID/2011(FURB).

matemática é imprescindível que o estudante domine tais habilidades. No entanto, os resultados da Prova Brasil afirmam que a capacidade de leitura e interpretação configura-se em uma dificuldade nacional. Pensando nesta problemática, as bolsistas do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência PIBID, Subprojeto de Matemática 2011, atuam na Escola de Educação Básica Zenaide Schmitt Costa, localizada no município de Gaspar, Santa Catarina. O educandário possui aproximadamente mil estudantes. Destes, elegemos 150, na qual estão matriculados este ano (2012), nas sétimas séries do ensino fundamental de oito anos. Pretendemos acompanhar estas turmas da sexta série até a oitava série (2011/2013), porque em 2013, término da primeira etapa do projeto, eles estarão matriculados na 8ª série e participarão da Prova Brasil. Assim poderemos analisar a média de proficiência em 2013 e compará-las com o desempenho de 2011, possibilitando uma reflexão sobre as interferências pedagógicas via PIBID. Nossos objetivos através do programa são: realizar simulados no mesmo formato da Prova Brasil; habituar os estudantes a estes tipos de avaliações; ler, interpretar e resolver situações problemas e diagnosticar conteúdos conceituais que os estudantes sabem de fato e os quais ainda não compreendem. Para auxiliar e qualificar nossa atuação, buscamos a parceria com o PIBID Subprojeto de Letras da FURB, para nos orientarem quanto a estratégias de ensino que visam à leitura e interpretação. Sendo assim, pretendemos descrever sobre as intervenções pedagógicas tecendo comentários sobre suas aplicações e resultados. 2 Simulado da Prova Brasil e resultados A realidade da escola de atuação do PIBID/matemática não é diferente das demais, um dos nossos maiores desafios e problemas de aprendizagem é a interpretação. Diante de tal contexto e sabendo que a Prova Brasil possui toda uma estruturação alçada na interpretação e consequentemente na resolução de problemas, decidimos simular uma avaliação matemática. A matriz de referência que norteia os testes de Matemática do Saeb e da Prova Brasil está estruturada sobre o foco Resolução de Problemas. Essa opção traz implícita a convicção de que o conhecimento matemático ganha significado, quando os alunos têm situações desafiadoras para resolver e trabalham para desenvolver estratégias de resolução. (BRASIL, 2008, p. 106)

Para tanto, o primeiro passo dado foi estudar as Matrizes de Referência, Temas, Tópicos e Descritores da Prova Brasil 2011. Depois analisamos a nota do IDEB da escola em anos anteriores no âmbito estadual e nacional. Nesta análise percebemos que os resultados obtidos em avaliações nacionais e internacionais como SAEB e PISA revelaram falhas no ensino da matemática, que ocorrem com maior incidência nas questões relacionadas à aplicação de conceitos e a resolução de problemas. No Programa Internacional de Avaliação de Alunos PISA, o Brasil está na posição 54 num total de 65 países. Esta avaliação compara o aprendizado em três disciplinas: matemática, ciências e leitura. Se analisarmos somente a disciplina de matemática, a situação ainda é pior, a posição do Brasil e 57. A média do Brasil no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica - IDEB no Ensino Fundamental Regular - Séries Finais (5ª a 8ª série) na rede pública em 2011 foi 3,9. Enquanto que a média em países desenvolvidos é 6,0. O Estado de Santa Catarina é o primeiro colocado nesta fase de ensino com 4,7. O IDEB da Escola de Educação Básica Zenaide Schmitt Costa, séries finais (5ª a 8ª série) é 4,6. A nota está acima da média nacional e abaixo da média estadual em referência ao ano de 2011. Abaixo segue o gráfico com a nota do IDEB alcançado e a meta até 2013 da referida escola. 6 5 4 3 2 1 0 4,8 4,6 4,6 4 4,2 3,7 3,7 3,7 3,9 2005 2007 2009 2011 2013 Resultado Alcançado Meta Gráfico I IDEB da E.E.B. Zenaide Schmitt Costa, Gaspar - SC Fonte: www.mec.gov.br Depois de estudar as matrizes e analisar o IDEB da escola, realizamos uma pesquisa no site do MEC para verificar as provas anteriores e encontramos uma prova modelo disponível.

Desta, selecionamos 13 perguntas objetivas que correspondem a quantidade de questões por bloco, cujas abordavam conteúdos conceituais que os estudantes já conheciam. Acreditamos que as avaliações objetivas não nos forneçam com exatidão a realidade do conhecimento de alguém ou de um grupo, no entanto, ela nos permite meios de quantificar e planejar ações que visam à melhoria da educação. Desse modo, as Matrizes envolvem habilidades relacionadas a conhecimentos e a procedimentos que podem ser objetivamente verificados... Assim, a partir dos itens do Saeb e da Prova Brasil, é possível afirmar que um aluno desenvolveu uma certa habilidade, quando ele é capaz de resolver um problema a partir da utilização/aplicação de um conceito por ele já construído. Por isso, o teste busca apresentar, prioritariamente, situações em que a resolução de problemas seja significativa para o aluno e mobilize seus recursos cognitivos. (BRASIL, 2008, p. 106) Assim, diante destas avaliações é possível repensarmos nossa prática pedagógica e buscar estratégias inovadoras que estão repercutindo positivamente. Antes da aplicação do simulado conversamos com os estudantes sobre o que era a Prova Brasil e apresentamos a eles o gráfico do IDEB com o rendimento da escola. A conversa gerou um debate intenso sobre a educação brasileira, eles compreenderam que o momento da realização da prova não era brincadeira e não poderia ser respondida de qualquer jeito. Afinal, eles estavam naquele momento, representando todos os alunos da escola de 5ª a 8ª série (6 ao 9 ano). Imagem I aplicação do simulado da Prova Brasil Após a aplicação do simulado perguntamos aos estudantes o que acharam da prova, fácil ou difícil, algumas das respostas foram Estava mais ou menos, Tinha questões bem fáceis, Eu não entendi muito as questões de gráficos, Eu não entendi a pergunta... Com os gabaritos em mãos, as bolsistas do programa fizeram a correção e a análise estatística e pedagógica para compreender melhor as dificuldades dos estudantes.

Imagem II Correção do simulado pelas bolsistas A média das cinco turmas de sétimas séries no primeiro simulado foi 3,8. E com a nota muitas indagações surgiram: Como os estudantes resolvem os problemas? O que acontece durante a resolução que não conseguem identificar dados simples para o nível escolar? Como se sentem durante a prova? Abaixo segue as tabelas com a quantidade de acertos e erros por turmas e questões. Questões Acertos 7 ª A 7ª B 7ª C 7ª D 7ª E Q1 8 8 10 14 10 Q2 10 15 14 8 14 Q3 13 9 13 9 11 Q4 16 14 14 10 13 Q5 8 5 8 6 10 Q6 3 7 3 4 4 Q7 17 13 8 10 16 Q8 7 8 6 10 10 Q9 2 4 10 4 5 Q10 10 14 13 9 10 Q11 9 13 14 14 13 Q12 8 8 8 7 4 Q13 14 10 10 7 9 Total de estudantes 29 29 28 28 28 por turma Tabela I - Acertos por questão do simulado da Prova Brasil. Fonte: Escola E. E. B. Zenaide Schmitt Costa, Gaspar SC. 2012.

18 C atarina. 2012 Acertos 16 14 12 10 8 6 4 2 Acertos 7 ª A Acertos 7ª B Acertos 7ª C Acertos 7ª D Acertos 7ª E 0 Q1 Q2 Q3 Q4 Q5 Q6 Q7 Q8 Q9 Q10 Q11 Q12 Q13 Questões Gráfico II - Acertos por questão do simulado da Prova Brasil. Fonte: Escola E. E. B. Zenaide Schmitt Costa, Gaspar SC. 2012. TURMAS MÉDIAS 7ª A 3,9 7ª B 3,8 7ª C 3,8 7ª D 3,6 7ª E 3,8 Tabela II - Médias das turmas das sétimas séries Fonte: Escola E. E. B. Zenaide Schmitt Costa, Gaspar SC. 2012. Média s 4,0 3,9 3,8 3,7 3,6 3,5 3,4 7ª A 7ª B 7ª C 7ª D 7ª E MÉ DIAS Turma s Gráfico III - Médias das turmas das sétimas séries Fonte: Escola E. E. B. Zenaide Schmitt Costa, Gaspar SC. 2012. Esta análise estatística foi apresentada aos estudantes que participaram do simulado, ninguém ficou satisfeito com o resultado, todos esperavam por um rendimento melhor. Depois da apresentação das tabelas e gráficos corrigimos todas as questões fazendo questionamentos a eles, queríamos saber qual foi o procedimento utilizado nas resoluções dos problemas.

A partir dessas informações observamos as seguintes dificuldades, enquanto conteúdos de matemática: interpretação de gráficos, porcentagem, regra de três e fração. No entanto, durante a correção notamos que a maior dificuldade estava na leitura e interpretação das questões, em muitas eles não conseguiam compreender o que o enunciado estava pedindo. Pedagogicamente, percebemos que na matemática, os estudantes se limitam a observar apenas os números que aparecem no enunciado, não dando importância a leitura completa da pergunta. Após observar os números (dados, informações) da questão tentam adivinhar qual operação devem efetuar. Entretanto, nem sempre há necessidade de cálculos como, por exemplo, na questão da pergunta número 3. Observe as figuras: Pedrinho e José fizeram uma aposta para ver quem comia mais pedaços de pizza. Pediram duas pizzas de igual tamanho. Pedrinho dividiu a sua em oito pedaços iguais e comeu seis, José dividiu a sua em doze pedaços iguais e comeu nove. Então, (A) Pedrinho e José comeram a mesma quantidade de pizza. (B) José comeu o dobro do que Pedrinho comeu. (C) Pedrinho comeu o dobro do que José comeu. (D) José comeu a metade do que Pedrinho comeu. Nesta questão, a maioria se limitou a frase: Pedrinho dividiu a sua em oito pedaços e comeu seis; José dividiu a sua em doze pedaços e comeu nove fazendo apenas a análise quantitativa dos números seis e nove. Menos da metade dos estudantes de todas as turmas acertaram. Percebemos aí que a incapacidade de interpretar sobrepõe à incapacidade do cálculo. Durante a correção do simulado, com os estudantes, estes compreenderam melhor os textos, quando fazíamos a leitura coletiva, dando ênfase aos pontos principais de cada problema. Em determinadas questões, após a leitura ouvíamos frases como: Ah, era só isso?, Meu que fácil!, Como eu consegui errar?.

Imagem III correção do simulado junto aos estudantes Neste contexto, ficou evidente a necessidade de trabalhar a leitura e interpretação de textos e consequentemente a resolução de problemas. Para auxiliar nesta tarefa estabelecemos parceria com os bolsistas do PIBID - Subprojeto de Letras, FURB, com o intuito de nos orientarem quanto às atividades que tratam destas competências. Depois de algumas conversas informais entre os bolsistas de matemática e letras decidimos utilizar textos informativos, que sejam adequados à idade e interesse dos estudantes, com perguntas envolvendo lógica e cálculos. Porém, antes de apresentar tais textos informativos, nos indagamos sobre o tipo de estratégia de resolução de problemas mais utilizado pelos estudantes: tentativa e erro ou forma algébrica. Frente a este questionamento escolhemos duas perguntas com diversas formas de resoluções, podendo também ser resolvida pela forma algébrica ou por tentativa e erro. Apresentamos as questões aos estudantes, que estavam reunidos em grupos de seis, para dialogarem sobre os problemas matemáticos e resolverem da melhor forma que lhes convinham. Após determinado tempo cada grupo socializou sua estratégia de resolução. Ao término dessa atividade, quando todos os grupos apresentaram a sua síntese ou esquema de resolução, elencamos na lousa todas as possíveis maneiras de resolver um mesmo problema, dentre àquelas surgidas nos grupos. Nesta atividade observamos que 90% dos estudantes caminham pela tentativa e erro na resolução de problemas e somente 10% buscam a forma algébrica. Quando explicávamos a resolução pelo método algébrica ouvíamos frases como: Ai não professora, não complica., Esse negócio é muito difícil., Que?...

Com esta atividade descobrimos que os estudantes são mais numéricos do que algébricos, e diagnosticamos mais uma vez a dificuldade na leitura dos enunciados e na identificação dos dados. As incapacidades de leitura e interpretação se tornam mais evidentes a cada atividade que executamos, no entanto, com persistência e atividades diversas estamos criando o hábito da leitura e do reconhecimento de dados. 3 Considerações finais A aplicação do primeiro simulado da Prova Brasil nos colocou frente à insegurança dos estudantes e a incapacidade de leitura, interpretação e resolução de problemas. Durante a aplicação percebemos que muitos estudantes estavam nervosos, queriam perguntar para a professora alguma coisa, mas não podiam. A sensação de não poder fazer nada por eles foi horrível, muitos nos olhavam e diziam Mas é só uma coisinha.. Percebemos um fato que até então passou despercebido, os estudantes são dependentes da leitura realizada pelo professor antes das avaliações. Acreditamos que, se lêssemos a prova para a turma, eles conseguiriam chegar ao resultado mais facilmente. Também observamos erros na passagem dos resultados para o gabarito. A falta de atenção e a pressa atrapalhou nesta etapa do simulado. O diagnóstico dos métodos utilizados pelos estudantes na resolução de problemas, tentativa e erro, nos permitirá realizar atividades que sejam mais significativas. A parceria com o subprojeto de letras foi importante para integrar os bolsistas das disciplinas de matemática e língua portuguesa, sendo possível pesquisarem juntos sobre alternativas de práticas pedagógicas que dêem conta das habilidades de leitura e interpretação. Algumas ações já foram traçadas como investir em atividades que tratam dessas competências através de textos informativos. Assim, a realização do simulado com os estudantes da Escola de Educação Básica Zenaide Schmitt Costa, sobre resolução de problemas utilizando como ferramenta a Prova Brasil, permitiu uma reflexão sobre métodos avaliativos e seus resultados, tornando possível uma intervenção pedagógica mais atuante e significativa. 4 Bibliografia BRASIL. Ministério da Educação. PDE: Plano de Desenvolvimento da Educação. Matrizes de referência, tópicos e descritores. Brasília: MEC. 2008. BRASIL. MEC. Disponível em: < http://www.mec.gov.br/>. Acesso em: 20 agosto 2012.