Lógica Computacional



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Aula Teórica 3: Sintaxe da Lógica Proposicional António Ravara Simão Melo de Sousa Departamento de Informática, Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade Nova de Lisboa Departamento de Informática, Faculdade Engenharia, LISP & Release Group Universidade Beira Interior

Definição indutiva de conjuntos Exemplos Menor conjunto gerado por regras É uma forma construtiva (ou incremental) de definir conjuntos infinitos: Como funciona? Diz-se primeiro ( axiomatiza-se ) quais são os elementos básicos do conjunto (em número finito). Dão-se depois regras (em número finito) para obter novos elementos a partir dos que já estão no conjunto. O conjunto resultante contém todos os elementos que se podem gerar com as regras, e apenas esses.

Definição indutiva de conjuntos Exemplos Definição indutiva: menor conjunto gerado por regras Notar bem Aplicando infinitas vezes as regras, obtém-se um número infinito de elementos (a partir de um número finito de axiomas e regras). Cada elemento do conjunto tem no entanto uma justificação, prova ou derivação finita: a sequencia das regras aplicadas para o obter. Exemplos A linguagem F P da Lógica Proposicional foi definida desta forma. Outro exemplo essencial é o dos números naturais.

Definição indutiva de conjuntos Exemplos Definição indutiva dos naturais Regras Fixa-se primeiro que zero é natural (axioma ZERO): 0 N 0 Diz-se depois como obter novos naturais a partir dos já gerados (regra SUCC): se n N 0 então n + 1 N 0 Justificações de pertença a conjunto São cadeias (finitas) de aplicações de regras, terminando num axioma, que mostram como se gerou o elemento. 3 N 0, pois 3 = 2 + 1 (regra SUCC), e 2 N 0, pois 2 = 1 + 1 (regra SUCC), e também 1 N 0, pois 1 = 0 + 1 (regra SUCC), uma vez que 0 N 0 (axioma ZERO). 3, 5 N 0, pois 3, 5 = 2, 5 + 1 (regra SUCC), e 2, 5 = 1, 5 + 1 (regra SUCC), e 1, 5 = 0, 5 + 1 (regra SUCC), e 0, 5 = 0, 5 + 1 (regra SUCC),... a sequência não termina porque não encontra o axioma.

Definição indutiva de conjuntos Exemplos Definição indutiva de pilhas de inteiros Regras Fixa-se primeiro que vazia é pilha (axioma VAZIA): vazia PilhaInt Diz-se depois como obter uma nova pilha a partir de um inteiro e de uma pilha já gerada (regra PUSH): se i Z e p PilhaInt então push(i, p) PilhaInt Justificações de pertença a conjunto push(4, push( 7, push( 1, vazia))) PilhaInt, pois 4 Z e push( 7, push( 1, vazia)) PilhaInt (regra PUSH), uma vez que 7 Z e push( 1, vazia) PilhaInt (regra PUSH), já que 1 Z e vazia PilhaInt (axioma VAZIA).

Definição indutiva de conjuntos Exemplos Sintaxe e semântica Pilhas de inteiros A definição indutiva introduziu uma (nova) linguagem (formal) para falar de valores abstractos. Denotação Sintaxe: regras para escrever palavras (termos) da linguagem. Definição indutiva gera linguagem infinita de palavras finitas. Semântica: associa sentido (i.e., valores) às palavras. Função definida (também) indutivamente nas regras da linguagem: a cada termo corresponde um valor - a sua denotação. Definição indutiva de funções? Sim, uma função é um conjunto de pares ordenados. Exemplo: o termo push( 7, push( 1, vazia)) denota o valor -7-1

Subfórmulas Noções úteis Definição 3.1: subfórmulas de uma fórmula O conjunto SBF(ϕ) das subfórmulas de ϕ F P é definido indutivamente pelas seguintes regras: SBF(ϕ) = {ϕ}, se ϕ é atómica; seja δ def = ϕ ψ, δ def = ϕ ψ ou δ def = ϕ ψ; SBF(δ) = {δ} SBF(ϕ) SBF(ψ). Definição 3.2: símbolos proposicionais de uma fórmula O conjunto SMB(ϕ) def = SBF(ϕ) P contém os símbolos proposicionais de uma fórmula ϕ F P.

Subfórmulas Exemplos Símbolos proposicionais e subfórmulas de uma fórmula Sejam p, q, r P e p, (p q) r F P. SMB( p) = {p} SBF( p) = SBF(p ) = { p} SBF(p) SBF( ) = { p, p, }; SMB((p q) r) = {p, q, r} SBF((p q) r) = {(p q) r} SBF(p q) SBF(r) = {(p q) r} {p q} SBF(p) SBF(q) {r} = {(p q) r, p q, p, q, r}.

Sequências da linguagem Árvores de derivação Como mostrar que dada sequência de símbolos do alfabeto é fórmula da linguagem? Uma prova é uma sequência de fórmulas, sendo cada uma obtida por aplicação de uma regra, eventualmente usando fórmulas anteriores (na sequência) como hipóteses dessa regra; a última fórmula da sequência é a conclusão desejada. Definição 3.3: prova de fórmula Uma prova para ϕ F P é uma sequência ϕ 1,..., ϕ n de fórmulas de F P, com n 1, tal que: ϕ = ϕ n ; para qualquer 1 i n tem-se que ϕ i resulta de aplicar uma das regras da definição de F P a fórmulas da sequência ϕ 1,..., ϕ n 1.

Sequências da linguagem Árvores de derivação Provas como árvores etiquetadas A ideia Uma prova ou inferência é apresentada em árvore, dita de dedução ou derivação. Cada árvore é construida a partir de árvores singulares (ou folhas) utilizando-se as regras da definição indutiva. Obtém-se um novo nível da árvore por aplicação de uma regra. A etiquetas dos nós são fórmulas. As fórmulas nas folhas resultam de axiomas. A fórmula na raíz é a conclusão da prova. Diz-se que a árvore é uma derivação dessa fórmula.

Sequências da linguagem Árvores de derivação Que sequências são fórmulas? Exemplo de derivação Sejam p, q, r P. O termo (p (q (r p))) F P (é fómula). Prova: p (PROP) q (PROP) r (PROP) (PROP) p (DIS) (r p) (CON) (q (r p)) (IMP) (p (q (r p))) Note que as provas não são (necessariamente) únicas.

Definição O princípio de indução estrutural Motivação Uma regra de uma definição indutiva de um conjunto S, introduzindo termos construidos com dado operador n-ário op, tem a forma geral seguinte. Se para qualquer i tal que 1 i n, com n 0, se tem que e i S i, então op(e 1,..., e n ) S, sendo cada S i ou o conjunto S ou outro conjunto já previamente definido. Nota Tal como se faz indução sobre os naturais, pode-se fazer indução sobre (os construtores de) qualquer conjunto definido indutivamente. Na verdade. a indução natural é um caso particular desta indução estrutural.

Definição O princípio de indução estrutural Definição 3.4 Seja S um conjunto definido indutivamente e P um predicado sobre elementos de S. Se para cada construtor (k-ário) op da definição indutiva de S, se tem P(op(e 1,..., e k )), se P(e i ), para cada e i S (com 1 i k), então tem-se P(e) para qualquer e S. Este princípio de indução, por sua vez, é um caso particular da chamada indução generalisada ou Noetheriana. Definição 3.5 Seja (S, ) um conjunto parcialmente ordenado bem fundado e P um predicado sobre elementos de S. r S ( s S (s < r P(s)) P(r)) t s.p(t)

Definição Provas por indução estrutural: um exemplo Relembre a Definição 3.2 de conjunto de símbolos proposicionais de uma fórmula. Considere o conjunto F P das fórmulas da Lógica Proposicional e a propriedade P(ϕ) : SMB(ϕ) é finito. Prova-se por indução estrutural que P se verifica para todos os elementos de F P. Casos Base. ϕ = p, para p P. Pela definição, SMB(p) = {p}, que é finito. ϕ =. Pela definição, SMB( ) =, que é finito. Passo (faz-se apenas para ϕ = ψ 1 ψ 2 ; os restantes casos são semelhantes). Pela definição, SMB(ϕ) = SMB(ψ 1 ) SMB(ψ 2 ), que é finito pois por hipótese de indução SMB(ψ 1 ) e SMB(ψ 2 ) são finitos, e aantónio união Ravara, de conjuntos Simão Melo de Sousa finitos élógica finita. Computacional

Definição Equivalência entre a definição indutiva e a existência de prova Proposição 3.1 O termo ϕ F P, se e só se, existe uma prova para ϕ. Prova do sentido só se : por indução estrutural Hipótese: termo ϕ F P. Tese: existe uma prova para ϕ. Base: ϕ = ou ϕ = p para p P. Por BOT ou por PROP, a sequência ϕ é uma prova. Passo: seja ϕ = ψ 1 ψ 2 (os restantes casos têm prova semelhante). Por hipótese de indução existem sequências ψ 11 ψ 1n e ψ 21 ψ 2m (com n, m 1), que provam respectivamente ψ 1 e ψ 2. Logo, como ψ 1 = ψ 1n e ψ 2 = ψ 2m, por DIS a sequência ψ 11 ψ 1n ψ 21 ψ 2m ϕ prova ϕ.

Definição Equivalência entre a definição indutiva e a existência de prova Prova do sentido se : por indução no comprimento da prova Hipótese: existe uma prova para ϕ. Tese: termo ϕ F P. Base: a prova é a sequência σ com comprimento 1. Então, a sequência tem apenas uma fórmula (σ = ϕ), e logo, ϕ = ou ϕ = p para p P. Por BOT ou por PROP (respectivamente), a fórmula ϕ F P. Passo: A prova é uma sequência σ de comprimento 1 + n, sendo ϕ = ψ 1 ψ 2 a última fórmula da sequência (os restantes casos têm prova semelhante). Então, a sequência tem duas subsequências σ 1 e σ 2, de comprimentos n 1 e n 2 com n = n 1 + n 2, sendo a primeira subsequência a prova de ψ 1 e a segunda a prova de ψ 2. Por hipótese de indução ψ 1 F P e ψ 2 F P. Logo, por DIS, ϕ F P.