11º Congresso Interinstitucional de Iniciação Científica CIIC a 04 de agosto de 2017 Campinas, São Paulo ISBN

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ISBN 978-85-7029-141-7 AVALIAÇÃO DE IMPACTOS DO CICLO DE VIDA DO FERTILIZANTE HORTBIO Keryman Ramos da Costa 1 ; Luiz Guilherme de Souza Hilara 2 ; Juliana Ferreira Picoli 3 ; Mariana Rodrigues Fontenelle 4 ; Carlos Eduardo Pacheco Lima 5; Marília Ieda da Silveira Folegatti Matsuura 6 Nº 17408 RESUMO Na agricultura brasileira, consome-se uma grande quantidade de fertilizantes químicos, empregados na produção de alimentos, fibras e energia. O uso de fertilizantes químicos é hoje a principal causa de impactos do ciclo de vida de produtos agrícolas. Na busca por novas alternativas, a Embrapa Hortaliças desenvolveu um biofertilizante com base em resíduos agroindustriais, carboidratos e micro-organismos do solo o Hortbio que já está sendo adotado na produção de hortaliças. O objetivo deste trabalho foi avaliar os impactos ambientais potenciais deste biofertilizante, pela técnica da Avaliação de Ciclo de Vida (ACV). Para tanto, foram identificados e adequados inventários de processo de bases de dados de ACV internacionais. A avaliação de impactos adotou o método ReCiPe Midpoint (H) V1.12 / World ReCiPe H. Os resultados mostraram que no ciclo de vida deste biofertilizante destacaram-se os impactos de Ecotoxidade Terrestre e Aquática, devido ao uso da cipermetrina na cultura do arroz, matéria-prima do farelo de arroz, ingrediente do Hortbio ; e à Ocupação de Terra Agricultável, devido ao comprometimento deste recurso pela pecuária, de atividade de natureza extensiva, da qual deriva a farinha de sangue. A produção pecuária foi a etapa do ciclo de vida do biofertilizante que mais contribuiu para a geração de impactos ambientais, particularmente pela emissão de compostos nitrogenados. A produção de farelo de arroz foi o segundo processo maior gerador de impactos, pelo uso de um pesticida extremamente tóxico, mas também pelo alto consumo de água, no sistema de produção por inundação. Palavras-chaves: Biofertilizante, Fertilizante Orgânico, Impactos Ambientais, Desempenho Ambiental, ACV. 1 Bolsista CNPq (PIBIC): Graduação em Engenharia Ambiental, USF, Campinas-SP; keryman.ramos@hotmail.com 2 Colaborador: Graduação em Engenharia Ambiental, POLICAMP, Campinas-SP. 3 Colaborador: Estagiária Embrapa Meio Ambiente, UNICAMP Campinas-SP; 4 Colaborador: Pesquisadora da Embrapa Hortaliças, Brasília-DF; 5 Colaborador: Pesquisadora da Embrapa Hortaliças, Brasília-DF; 6 Orientadora: Pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente, Jaguariúna-SP; marilia.folegatti@embrapa.br 1

ABSTRACT In Brazilian agriculture is consumed a great amount of chemical fertilizers, used in the production of foods, fibers and energy. The use of chemical fertilizers is now the main cause of impacts of the life cycle of agricultural products. In the search for new alternatives, Embrapa Hortaliças developed a biofertilizer based on agroindustrial residues, carbohydrates and soil microorganisms - Hortbio, which is already being adopted in the production of vegetables. The objective of this work was to evaluate the potential environmental impacts of this biofertilizer by the Life Cycle Assessment (LCA) technique. To this end, process inventories of international LCA databases were identified and adequate. The results showed that in the life cycle of this biofertilizer the impacts of Terrestrial and Aquatic Ecotoxicity were highlighted, due to the use of cypermethrin in the rice crop, which is the raw material of rice bran, an ingredient of Hortbio ; and the occupation of arable land, due to the commitment of this resource by livestock, an activity of an extensive nature, from which the blood meal is derived. Livestock was the life cycle stage of the biofertilizer that most contributed to the generation of impacts, particularly by the emission of nitrogen compounds. The production of rice bran was the second largest process that generated impacts, due to the use of an extremely toxic pesticide, but also due to the high water consumption in the flood production system. Keywords: Biofertilizer, Organic Fertilizer, Environmental Impacts, Environmental Performance, LCA 1 INTRODUÇÃO O agronegócio é responsável por uma importante parcela do Produto Interno Bruto brasileiro, sendo o país um dos maiores produtores e exportadores mundiais de alimentos. A crescente demanda por produtos agrícolas deve ser suprida por um aumento da produção baseado na adoção de processos mais eficientes. O aumento da produtividade das atuais áreas cultivadas, evitando-se a expansão agrícola para novas áreas, reduz a pressão sobre áreas preservadas. Esse aumento de produtividade é obtido por meio do uso de fertilizantes, aliado a outras tecnologias. Sendo um grande produtor agrícola, o Brasil é também um grande consumidor de fertilizantes, ficando atrás apenas de países como China, Índia e Estados Unidos (COSTA, 2012). Os fertilizantes têm a função de fornecer às plantas nutrientes prontamente assimiláveis para o seu metabolismo, porém o uso excessivo desses produtos pode ser prejudicial ao meio ambiente, além de onerar os custos de produção. Neste contexto, as práticas agrícolas 2

sustentáveis têm ganhado maior atenção nas últimas décadas (BOMFIM, 2016). Entre essas novas práticas vêm se destacando o uso de biofertilizantes. Segundo Bomfim (2016), os biofertilizantes são formulações que utilizam micro-organismos que auxiliam o crescimento vegetal por meio da disponibilização de nutrientes, além de atuarem em importantes processos do solo, como na fixação biológica de nitrogênio. O Hortbio é um biofertilizante líquido desenvolvido pela Embrapa Hortaliças, que possui na sua composição materiais de fácil acesso ao produtor e micro-organismos isolados do solo (BOMFIM, 2016). Conforme Bomfim (2016), este produto já teve sua eficiência comprovada em trabalhos anteriores, com diferentes tipos de hortaliças como, por exemplo, a alface - e já está sendo utilizado por produtores orgânicos do Distrito Federal. Considerando que os biofertilizantes são apontados como produtos que concorrem para uma produção agrícola mais eficiente, minimizando impactos ambientais enquanto mantêm a qualidade produtiva. O objetivo do presente trabalho foi analisar os impactos ambientais potenciais do biofertilizante Hortbio por meio da técnica de Avaliação de Ciclo de Vida (ACV), identificando seus pontos críticos. 2 MATERIAL E MÉTODOS 2.1 Biofertilizante HortBio O Hortbio é um biofertilizante líquido de composição variável. Em geral, utiliza produtos secundários de outros sistemas agroindustriais, combinados a ingredientes ricos em carboidratos e micro-organismos isolados do solo. A composição analisada neste trabalho é apresentada na Tabela 1. 2.2 Avaliação de Ciclo de Vida A avaliação de impactos ambientais potenciais do biofertilizante Hortbio adotou o método da ACV, seguindo o preconizado pelas normas ABNT NBR ISO 14040:2014 e 14044:2014 (ABNT, 2014 a,b). 3

Tabela 1. Composição do fertilizante Hortbio. Ingredientes sólidos Quantidade (%) Serrapilheira, kg Farinha de Sangue, kg Farelo de Arroz, kg Farelo de Mamona, kg Farinha de Ossos, kg Grãos triturados Feijão, kg Cinzas, kg Açúcar Mascavo, kg Fubá de Milho, kg Total 2 1 4 1 2 1 1 0,5 0,5 13 15,4 7,7 30,8 7,7 15,4 7,7 7,7 3,8 3,8 100 Ingredientes líquidos Quantidade (L) (%) Água 88 100 2.2.1 Escopo da ACV O sistema de produto incluiu o processo de produção do biofertilizante Hortbio, os processos de produção dos seus ingredientes e os processos a montante destes, abrangendo as etapas do ciclo de vida do berço a porteira (excluindo-se a etapa de transporte dos ingredientes ao local de formulação do biofertilizante). A função do processo principal é produzir o biofertilizante Hortbio, que por sua vez tem a função de fornecer nutrientes a culturas agrícolas. A unidade funcional do sistema é um litro deste biofertilizante. Os dados do estudo são referentes ao período de 2012 a 2016 (cobertura temporal). Esta tecnologia se aplica aos ambientes de produção de hortaliças do território nacional (cobertura geográfica) (BOMFIM, 2016). Quanto à cobertura tecnológica, o preparo do Hortbio seguiu o recomendado por Souza et al. (2012). Os ingredientes listados na Tabela 1 foram adicionados à água, sob agitação. A mistura 4

foi mantida por dez dias, sendo agitada três vezes ao dia durante três minutos, manualmente. A etapa final correspondeu à peneiragem para separação do material sólido do líquido. 2.2.2 Inventário do Ciclo de Vida A construção do inventário da produção do Hortbio correspondeu à identificação, nas bases de dados ecoinvent v 3.1 e Agri-footprint, dos processos de produção que melhor correspondessem a cada ingrediente deste biofertilizante. Os processos selecionados foram modificados, substituindo-se o fluxo de entrada de energia elétrica pelo representativo da matriz elétrica brasileira (Tabela 2). Tabela 2. Inventário do processo de produção do fertilizante Hortbio, com a identificação dos fluxos de entrada segundo as bases de dados de origem e dos inventários agropecuários ou de energia elétrica associados. INVENTÁRIO DE CICLO DE VIDA - PRODUÇÃO DE BIOFERTILIZANTE ICV FERTILIZANTE HortBio - 90 litros Saídas conhecidas para a tecnosfera Quant. Unidade Fluxo Simapro Produção de Biofertilizante, kg 90 litros 118 KR biofertilizante HortBio Entradas da tecnosfera Fluxos de entrada Base de dados Inventário Agropecuário Associado Serrapilheira 2 kg Solo Ecoinvent v3 Farinha de Sangue 1 kg Fonte: SimaPro, versão 8.1.1.16. Farinha de sangue, seca por pulverização, a partir de processamento de sangue, na planta /NL Massa Agri-footprint - mass Gado bovino para abate, peso vivo {BR} Produção extensiva de carne bovina, na fazenda JP Farelo de arroz 4 kg Farelo de arroz, de moagem a seco, cru, na planta /CN Massa Agri-footprint - mass Farelo de mamona 1 kg Farelo de soja {BR} Produção de farelo de soja e óleo bruto JP Juliana Picoli Soja {GO-BR} Produção de soja JP Farinha de ossos 2 kg Co-produto de carne, ossos de qualidade alimentar, de bovinos de corte, no matadouro, compatível com o PEF / IE Econômico / Massa Agri-footprint - mass Gado bovino para abate, peso vivo {BR} Produção extensiva de carne bovina, na fazenda JP Grãos ou sementes triturados (Feijão) 1 kg Feijão seco, na fazenda /ZA Massa Agri-footprint - mass Cinzas 1 kg Cinzas {SP-BR} Produção de etanol da canade-açúcar JP Juliana Picoli Cana {SP-BR} Produção de cana-de-açúcar JP Açúcar mascavo 0,5 kg Melaço de cana-de-açúcar, da produção de açúcar, na planta /BR Massa Agri-footprint - mass Cana {SP-BR} Produção de cana-de-açúcar JP Farinha de milho, de moagem a seco, na planta Fubá de milho 0., kg /USA Massa Agri-footprint - mass Água de boa qualidade (sem cloro) 88 litros Água, origem natural não especificada, BR Ecoinvent v3 117 JP CILCA 2017, produção de milho de inverno, sistema de cultivo MT Inventário de Eletricidade Associado Eletricidade, baixa tensão {BR} Transformação de tensão de eletricidade de média a baixa tensão Alloc Def, U Eletricidade, baixa tensão {BR} Transformação de tensão de eletricidade de média a baixa tensão Alloc Def, U Eletricidade, baixa tensão {BR} Transformação de tensão de eletricidade de média a baixa tensão Eletricidade, baixa tensão {BR} Transformação de tensão de eletricidade de média a baixa tensão Alloc Def, U 2.2.3 Avaliação de Impactos do Ciclo de Vida (AICV) Para a avaliação dos impactos ambientais do ciclo de vida foi adotado o método ReCiPe Midpoint (H) V1.12 / World ReCiPe H (GOEDKOOP et al., 2009), processado pelo software SimaPro, versão 8.1.1.16. Foram consideradas as seguintes categorias de impacto, pertinentes à natureza dos processos principais em estudo: Mudanças Climáticas (MC), Depleção da Camada de Ozônio (DO), Acidificação Terrestre (AcT), Eutrofização de Água doce (EuA), Toxicidade Humana (TH), 5

Formação de Oxidantes Fotoquímicos (FOF), Formação de Material Particulado (FMP), Ecotoxicidade Terrestre (EcT), Ecotoxicidade de Água Doce (EcA), Ocupação de Terra Agrícola (OTA), Transformação de Terra Natural (TTN), Depleção da Água (DA), Depleção de Metais (DM) e Depleção Fóssil (DF). 3 RESULTADOS E DISCUSSÃO 3.1 Avaliação do inventário do ciclo de vida As bases de dados internacionais de inventários de ciclo de vida dispõem de um número reduzido de inventários de processos agrícolas e pecuários e quase nenhum específico para a realidade brasileira. A construção do inventário da produção do Hortbio implicou na identificação dos processos de produção constantes das bases de dados ecoinvent v 3.1 e Agri-footprint mais semelhantes aos dos ingredientes da formulação deste biofertilizante (Tabela 2). O uso de processos de produção de ingredientes similares, e não específicos, mesmo que ajustados, certamente gerou uma distorção no inventário de ciclo de vida, que tem consequências na avaliação de impactos. A dimensão do efeito deste ajuste é difícil de ser estimada. A alternativa a esta abordagem seria a geração de inventários nacionais para cada processo identificado como significativo no ciclo de vida do biofertilizante o que seria extremamente demandante de tempo e recursos e impraticável no contexto deste trabalho. 3.2 Avaliação de impactos do ciclo de vida Na ACV, o procedimento de normalização é realizado para mostrar em que extensão uma categoria de impacto tem uma contribuição significativa ao problema ambiental global (ABNT, 2014 b). A análise dos resultados da avaliação de impactos de ciclo de vida normalizados (Figura 1) mostrou que, das 14 categorias analisadas, três se destacaram: Ecotoxicidade Terrestre (EcT) e Aquática (EcA) e Ocupação de Terras Agrícolas (OTA). Estas categorias são analisadas a seguir. A OTA é uma categoria de impacto que trata do uso deste recurso finito, as terras agricultáveis. Neste caso, sendo todos os ingredientes do Hortbio derivados da produção agrícola ou pecuária, obviamente este recurso é, em algum nível, comprometido já que toda atividade antrópica gera impactos ambientais. O processo do ciclo de vida que mais demandou terras agrícolas foi a produção pecuária, da qual derivou a farinha de sangue. 6

Quanto às categorias de ecotoxicidade (EcT e EcA), o principal processo do ciclo de vida do biofertilizante a contribuir para este impacto é a produção de farelo de arroz, devido à cipermetrina, um piretróide empregado na cultura do arroz como inseticida. Também foram responsáveis por estes impactos o inseticida Terbufos, usado na cultura do feijão; e o herbicida Atrazina, usado na cultura do milho. Outras substâncias que mostraram efeito especificamente na ecotoxicidade terrestre foram o herbicida Butachlor e o inseticida Isoprocarb, ambos usados na cultura do arroz. Quanto à ecotoxicidade de água doce, outra substância causadora de impacto foi o cobre, presente em insumos agrícolas, empregado na cultura do arroz. Valores de impacto normalizados 0,025 0,02 0,015 0,01 0,005 0 Figura 1. Resultados normalizados da avaliação de impactos do ciclo de vida do biofertilizante Hortbio. Categorias de impacto ambiental A Figura 2 mostra os resultados da avaliação de impactos do ciclo de vida do Hortbio após a caracterização dos dados do inventário, onde podem ser identificados os processos que mais 7

contribuíram para cada categoria de impacto analisada. De maneira geral, o processo de produção de farinha de sangue e de farelo de arroz são os mais impactantes no ciclo de vida do Hortbio. A produção de farinha de sangue é o processo mais impactante em nove das categorias analisadas. Para quatro destas categorias, os compostos nitrogenados emitidos pela pecuária são as principais substâncias causadoras de impactos: Mudanças Climáticas, devido à emissão de metano biogênico e óxido nitroso; Acidificação Terrestre, devido à emissão de amônia e óxidos de nitrogênio; Formação de Oxidantes Fotoquímicos, devido à emissão de óxidos de nitrogênio e metano biogênico; Formação de Material Particulado, devido à emissão de amônia, óxidos de nitrogênio e material particulado < 2.5 µm. Embora o uso da farinha de sangue traga uma importante carga ambiental ao biofertilizante, vale lembrar que esta farinha é um coproduto da produção de carne este sim o produto motivador da atividade pecuária. Por outro lado, caso não fosse aproveitada, a farinha de sangue se caracterizaria como um resíduo com alto potencial poluidor. A Eutrofização de Água Doce é causada pela emissão de fósforo para águas superficiais por erosão da pastagem. Este impacto está relacionado ao manejo inadequado de pastagens na pecuária extensiva. A Ocupação de Terra Agrícola também é afetada principalmente pela atividade pecuária, em particular a extensiva, sistema de produção predominante no país. O adequado manejo de pastagem poderia minimizar todos os impactos aqui relacionados à pecuária. A Depleção da Camada de Ozônio é decorrente, principalmente, da produção de petróleo e energia elétrica consumidos nos processos produtivos. Os principais recursos minerais e fósseis consumidos no ciclo de vida do biofertilizante são cobre e ferro, gás natural e óleo diesel. 8

(%) 100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 Feijão (Triturado) Cinzas de bagaço de cana Açúcar Mascavo Farinha de Ossos Farelo de Mamona Farinha de Sangue Farelo de Arroz Fubá de Milho Biofertilizante HortBio Categorias de impacto Figura 2. Resultados caracterizados da avaliação de impactos do ciclo de vida do biofertilizante Hortbio. O processo de produção de farelo de arroz foi o que mais contribuiu para os impactos de Toxicidade Humana, Ecotoxicidade de Água Doce e Terrestre, pela emissão de cipermetrina; e Depleção de Água, pelo sistema de produção de arroz adotado, por inundação. A produção de açúcar mascavo, pela suposta expansão da cana-de-açúcar sobre áreas de vegetação nativa, foi o processo que mais impactou a Transformação de Terra Natural. O Hortbio é um produto desenvolvido pela Embrapa, com resíduos agroindustriais de produtos brasileiros, portanto a literatura internacional não relata estudos semelhantes. Por outro lado, este é o único estudo com base em ACV aplicado a este tipo de produto no Brasil. 9

4 CONCLUSÃO No ciclo de vida deste biofertilizante destacaram-se os impactos de Ecotoxidade Terrestre e Aquática, devido principalmente ao uso da cipermetrina e outros pesticidas na cultura do arroz, matéria-prima do farelo de arroz, ingrediente do Hortbio ; e à Ocupação de Terra Agricultável, devido ao comprometimento deste recurso pela pecuária, atividade de natureza extensiva, da qual deriva a farinha de sangue. A produção pecuária foi a etapa do ciclo de vida do biofertilizante que mais contribuiu para a geração de impactos ambientais (afetando nove categorias de impacto: Mudanças Climáticas, Acidificação Terrestre, Formação de Oxidantes Fotoquímicos, Formação de Material Particulado, Eutrofização de Água Doce, Ocupação de Terra Agrícola, Depleção da Camada de Ozônio, Depleção de Metais e de Recursos Fósseis), particularmente pela emissão de compostos nitrogenados. A produção de farelo de arroz foi o segundo maior processo gerador de impactos ambientais (sendo o processo determinante em quatro categorias: Toxicidade humana, Ecotoxicidade De Água Doce e Terrestre e Depleção da água), pelo uso de um pesticida extremamente tóxico, mas também pelo alto consumo de água, no sistema de produção por inundação. Logo, conclui-se que alguns coprodutos de processos agrícolas impactantes, como as produções de arroz e gado bovino, carregam carga ambiental significativa. A redução dos impactos destes coprodutos exigiria melhoria nestes processos. No caso do arroz, pode-se recomendar a substituição da cipermetrina por outro inseticida de menor toxicidade. No caso da pecuária, a melhoria dos índices de desempenho zootécnico, reduzindo o tempo de engorda dos animais e consequentemente as emissões de metano entérico e de metano e óxido nitroso derivados da deposição de dejetos no campo, diminuiria os impactos atribuídos à carne bovina e seus coprodutos. 5 AGRADECIMENTOS Os autores agradecem ao CNPq, pela bolsa de iniciação científica; à Embrapa Meio Ambiente, pela orientação e estrutura para realização do trabalho, e à Embrapa Hortaliças, pelo fornecimento dos dados técnicos referentes ao Hortbio. 10

6 REFERÊNCIAS ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR ISO 14040: gestão ambiental - avaliação do ciclo de vida - princípios e estrutura. Rio de Janeiro, 2014 a. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR ISO 14044: gestão ambiental - avaliação do ciclo de vida requisitos e orientações. Rio de Janeiro, 2014 b. BOMFIM, C.A. Biofertilizante hortbio : características microbiológicas e efeito na qualidade da alface. 2016. 136 f. Dissertação (Mestrado) - Curso de Programa de Pós-graduação em Biologia Microbiana, Instituto de Ciências Biológicas da Universidade de Brasília, Brasília, 2016. COSTA, L. M.; SILVA, M. F. O. A indústria química e o setor de fertilizantes. 60 anos: perspectivas setoriais. Rio de Janeiro: Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, BNDES 2012. Disponível em: <https://web.bndes.gov.br/bib/jspui/bitstream/1408/2025/1/a indústria química e o setor de fertilizantes_p_a.pdf>. Acesso em: 26 maio 2017. GOEDKOOP, M.; HEIJUNGS R.; HUIJBREGTS M.; SCHRYVER A.; STRUIJS J.; VAN ZELM R. Recipe 2008: Report I -Characterisation. RIVM, The Netherlands, 2009. NEMECEK, T.; KÄGI, T. Life cycle inventories of agricultural production systems. Zürich and Dubendorf: ART, 2007. 46 p. (Ecoinvent Report, 15) Data v2.0 (2007). SEO, E.S.M.; KULAY, L.A. Avaliação do ciclo de vida: ferramenta gerencial para tomada de decisão. Interfacehs, 2006. SOUZA, R. B.; REZENDE, F. V.; LÜDKE, I.; COUTO, J. R. Aprenda como se faz Hortbio. Brasília: Embrapa Hortaliças. Folder. 2012. Disponível em <https://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=12&ved=0ahukewjx49mh26xuah VBC5AKHX83CpwQFghRMAs&url=https%3A%2F%2Fwww.infoteca.cnptia.embrapa.br%2Fbitstream%2Fdoc %2F946012%2F1%2Ffolder20hortbio.pdf&usg=AFQjCNG5CdToJx3nDY5sf4_YlidcUaC0w&sig2=1QhEPAvTQwdQwP2m61ba5w&cad=rja>. Acesso em: 30 maio 2017. 11