Usina de Animação Bonecos da Amazônia Apresenta Do Barro ao Boneco Uma Saga Mitológica dos Tapajó A cerâmica dos Tapajó Se a arte é o maior símbolo de uma civilização, a recíproca de que a selvageria não combina com ela, parece ser razoável. Isso basta então para admitirmos que uma civilização que produz arte, mesmo que sejam aos seus contemporâneos meros objetos domésticos está longe de ser selvagem. O olhar de um arqueólogo se orienta pelos vestígios de humanidade da peça descoberta, que por sua vez, identifica o seu valor histórico baseado na sua capacidade de perpetuar a cultura original, de dizer que deram certo.
Justamente por ironia histórica, os vestígios arqueológicos indígenas pré-colombianos, em particular, no da etnia Tapajó dão prova de grande civilidade cultural. Já muito se sabe que há mais de 12 mil anos eles já estavam por aqui e não se tratavam de selvagens. Cultivavam seu alimento, eram também um exemplo de convivência em grupo, de organização social e econômica e de harmonia com a natureza. Assim está escrito em seus resquícios, de modo que, qualquer leigo não possa chamar de verdadeiras obras de arte.
Os indígenas habitantes das margens do Rio Tapajós desenvolveram uma de suas mais intrigantes e originais habilidades, a Cerâmica. Cuidadosamente rebuscadas pelas mãos dos tribais, as peças modeladas no barro, depois queimadas ou apenas desidratadas para em seguida serem ornadas, representam os seres mitológicos e da natureza que circundavam o cotidiano sagrado e profano da extinta civilização Tapajó. A peculiaridade estética das formas e traços da cerâmica Tapajó assedia os olhares pela extrema beleza e cuidado nos detalhes das formas, grafismos, pigmentações... Contudo, como já mencionado, não se tratam apenas de meras obras de arte aos nossos olhares contemporâneos, são igualmente relíquias arqueológicas, prova material da existência de nossos antepassados amazônicos, que alias pouco conhecemos. Isto é, se considerarmos que as peças se tratavam de objetos de uso doméstico cotidiano, em todos os sentidos, do culinário, pessoal, ao ornamento religioso. O valor histórico da Cerâmica Tapajó ainda é algo inestimável, uma grande lacuna na história do Brasil, um mistério que compreende códigos aparentemente rústicos, porém com muitas evidências de requinte. É como se no interior de cada peça oca estivessem guardados todos os segredos da salvação da humanidade e o exterior exigisse todo o respeito e o sigilo daqueles que possam desvendá-los.
O estilo único dos antigos Tapajó está igualmente presente na cerâmica cabocla da região de Santarém-PA, na Amazônia, que por sua vez reproduz os ícones cultuados por seus antepassados.
(...) Agora a cerâmica tapajônica... Aquilo que eu te falei... É que o índio não é só o índio... Até nós, tem um monte de pessoas que são supersticiosas... Então as peças deles... Cada uma tinha um significado! Por exemplo, o pé na boca, a mão na boca..., eles faziam, mas colocavam uma pedrinha dentro, na peça... E aí também aprendi isso num livro que me deram chamado herança... Então o que acontece? Tem a aldeia grande..., cada família tem a maloquinha dela... Quando a índia está gestante, eles colocavam uma peça dessas no meio da maloca pro bebê não sair deficiente, né? Tanto que eu nunca vi índio aleijado! Não se vê índio aleijado, né? E outras peças usavam pra defumação de festa... pra serem felizes... e assim por diante... Mas quase todas as peças deles tinham um significado (...) (Mestre Isidoro, Santarém, PA, 2007)
A beleza das peças tapajônicas e o relato do ceramista que introduz este projeto de circulação inspiram o Espetáculo de Teatro de Formas Animadas Do barro ao boneco, revelando olhares particulares da comunidade Tapajó e daquilo que mais extensivamente (do ponto de vista espácio-temporal) materializa sua cultura a cerâmica. Por um lado, um suposto evento ritualístico; por outro lado, o relato do ceramista na produção de réplicas de peças da cerâmica Tapajó, a oeste do Estado do Pará, região em que se encontram as principais fontes arqueológicas sobre a comunidade. Os olhares fabulam, no sentido em que são, constitutivamente, modos de atribuir sentido ao outro, de representá-lo. A saga de cada um deles que se explica. Nada mais familiar ao Teatro de Formas Animadas, cujo sentido parece estar nesse desejo de redizer o outro. Quando o outro de que falamos é a comunidade Tapajó e sua cerâmica, o olhar tem o primeiro sobressalto: o estranhamento em relação às representações zôo e antropomorfas recorrentes nas peças da cerâmica Tapajó. O segundo sobressalto advém dessa percepção: as possibilidades plásticas que essas representações instigam para a prática artística e, especialmente, para o Teatro de Animação.
O espetáculo Do barro ao boneco nasceu de um exercício de pesquisa, experimentação e montagem que buscou explorar os recursos plásticos e dramáticos que as representações zôo e antropomorfas da cerâmica Tapajó oferecem para o exercício de criação e manipulação no teatro de animação. Foi desenvolvido no âmbito do projeto de mesmo nome, financiado com bolsa do Instituto de Artes do Pará (IAP), durante o ano de 2007 (pesquisa e experimentação), e com o edital de auxílio-montagem Prêmio Cláudio Barradas de Teatro, da Secretaria de Cultura do Estado do Pará (SECULT), em 2008.
Sinopse O espetáculo Do barro ao boneco busca traduzir as formas plásticas da cerâmica arqueológica da Amazônia, da tribo dos índios Tapajó, para o teatro de animação. Na cena, as figuras zôo-antropomorfas dos vasos e estatuetas Tapajó ganham vida e contam sua saga revelando-se como objetos cênicos, animados, e são exploradas suas possibilidades plásticas e de manipulação.
Argumento A construção da dramaturgia se baseou na tradução das formas plásticas das esculturas primitivas (estatuetas, figuras zoomorfas e antropomorfas) da cerâmica arqueológica da Amazônia, da tribo dos índios Tapajó. O espetáculo busca recriar um dos traços plásticos da cerâmica Tapajó: o movimento, o deslocamento, o descentramento. Lembremos, por exemplo, que as figuras representadas na cerâmica são homens e bichos, homens-bichos, bichos-homens: em todo caso, trata-se de seres que se podem deslocar. Estaria talvez nessa metáfora do movimento uma explicação para a ausência de representação da flora na cerâmica. É essa metáfora do movimento que está na base da narrativacaleidoscópio em que se configurará o espetáculo: a performance é construída e desconstruída aos olhos do espectador. Os objetos cênicos vão-se (des)velando no decorrer do espetáculo, que busca convocar o espectador para construir, também ele, uma interpretação dos objetos em performance.
Ficha Técnica Ator Criador e Direção Geral Jef Cecim Preparação Física, Assistência de Criação Eduardo Gomes Assistência de Criação em atelier Artur Sousa Bonecão Bruce Macedo Concepção de Luz Eddie Pereira Cenotécnica e luz Luis Girard Designer Sonoro Leonardo Bitar Fotografias Alberto Bitar Designer Gráfico e Assessoria de Imprensa Maison Papaxibé Roteiro de Pesquisa Sandoval Nonato Gomes-Santos Direção de Cena David Matos Produção Usina de animação
Sobre o artista Jef Cecim - Ator-manipulador e Pesquisador Jeferson Cecim é bonequeiro, ator-manipulador e aderecista. Exerce a arte do teatro de formas animadas há 10 anos a frente do grupo Usina de Animação onde desenvolveu, pesquisou e criou espetáculos utilizando diferentes tipos de manipulação e de confecção de bonecos. Como diretor e bonequeiro no Usina de Animação vem utilizando o boneco como principal foco de articulação nas montagens junto ao grupo, realizando vários espetáculos com diferentes dramaturgias, observando o comportamento desse objeto animado em diferentes cenários. Bonecos em Revista e Popshow são musicais inspirados em canções populares, onde o atormanipulador exercita vários tipos de manipulação, como o marote (boca articulada).
Em Terra á vista, espetáculo criado pela comemoração dos 500 anos do Brasil, investiu-se na manipulação direta e no teatro de sombras. No Uirapuru, os bonecões entram para dar novas dimensões no jogo ator/boneco. Na Vitória-Régia, os bonequinhos escondem-se em uma caixa cênica, onde dois espectadores assistem à delicadeza de movimentos dentro do Lambe-lambe, caixa cênica inspirada nas antigas máquinas fotográficas de rua. No Festejo do boi, inspirados nos bonecos populares Mamulengos, misturou-se bonecos fantoches e atores para recontar o folguedo do Boi-bumbá. Veja mais detalhes sobre o trabalho do artista! www.culturapara.com.br/teatro/usinadeanimacao Contatos E-mail: jcecim@hotmail.com jeferson.cecim@hotmail.com Tel.: (55) 11 23070174 / (55) 11 94554637 São Paulo Brasil. Blog: jefcecim@arteblog.com.br
Serviço da próxima produção: Espetáculo Do Barro ao boneco 01 e 08 de novembro às 16 horas (domingos) Sede Luz Faroeste Alameda Cleveland n 677 Campos Elíseos Próximo à Estação Júlio Prestes e do Metrô Luz Ingresso: Pague quanto puder. Telefone Faroeste: 11 3362 8883 Você Não pode perder!