SENTENÇA CIDADANIA E DO CONSUMIDOR



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Transcrição:

fls. 253 SENTENÇA Processo nº: 1020149-49.2014.8.26.0506 Classe - Assunto Ação Civil Pública - Turismo Requerente: ANADEC - ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE DEFESA DA CIDADANIA E DO CONSUMIDOR Requerido: VIBE TOUR LTDA Justiça Gratuita Juiz(a) de Direito: Dr(a). Ana Paula Franchito Cypriano Vistos. Vistos. ANADEC ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE DEFESA DA CIDADANIA E DO CONSUMIDOR interpôs a presente ação civil pública c/c pedido de ordem liminar contra VIBE TOUR AGENCIA DE VIAGENS LTDA (ALOHA JOVEM TURISMO) alegando, em síntese, que os contratos de adesão ofertados pela ré contêm cláusula abusiva, consistente na previsão de perda exagerada dos valores pagos pelos consumidores nos casos de cancelamento de pacotes turísticos com ela contratados. Afirma a autora que tal cláusula afronta o Código de Defesa do Consumidor por oferecer vantagem exagerada à requerida em desfavor dos consumidores. Diante disso, requer a concessão de liminar a fim de suspender as cobranças de multa penal inseridas nos contratos da ré e que estes sejam alterados para atender as exigências legais. Ao final, pugna pela confirmação da liminar, declarando-se a nulidade da cláusula impugnada, em benefício dos contratantes atuais e futuros e, ainda, condenando-se a requerida a restituir todos os consumidores lesados, pelas importâncias pagas indevidamente a título de multa penal cominatória. Juntou documentos (fls. 59/148). Antecipação dos efeitos da tutela parcialmente deferida às fls. 149. Regularmente citada, a requerida apresentou contestação (fls. 160/173) alegando, preliminarmente, inépcia da petição inicial, ausência de causa de pedir e, ainda, perda 1020149-49.2014.8.26.0506 - lauda 1

fls. 254 do objeto da ação, tendo em vista que já cumpriu a liminar deferida, adequando seus contratos às normas específicas. No mérito, afirma ser desnecessária a manutenção da multa fixada em sede liminar, uma vez cumprida a obrigação de fazer cominada. Por fim, impugna a obrigação de restituição, o dever de arcar com os ônus da sucumbência e, ainda, a necessidade de que seja dada publicidade de eventual sentença condenatória imposta. Diante disso, requer a extinção da ação pelo acolhimento das preliminares argüidas ou, caso assim não se entenda, a total improcedência da ação. Com a contestação vieram documentos (fls. 174/184). Houve réplica (fls. 188/226). Intimadas a se manifestarem acerca do interesse na realização de audiência de tentativa de conciliação e produção de novas provas (fls. 227), o autor pugnou pelo julgamento antecipado da lide (fls. 230/243), enquanto a ré requereu a dilação probatória (fls. 144/145). Manifestação do Ministério Público às fls. 252. É o RELATÓRIO. Passo a FUNDAMENTAÇÃO e DECIDO. Passo a conhecer do pedido, porque o caso comporta o julgamento antecipado da lide, nos termos do art. 330, I, do Código de Processo Civil, porquanto presentes os pré-requisitos para julgamento desta forma, pelo que se depreende da matéria sub judice e da análise do processo, demonstrando que a dilação probatória é despicienda. Primeiramente, afasto as preliminares argüidas pela ré. Não há que se falar em carência de ação por falta de interesse de agir superveniente. Isto porque, o fato de ter a ré adaptado a cláusula penal inserida em seus contratos ao índice objeto da Deliberação Normativa nº 161/85 não prejudica os pedidos formulados na inicial, mormente quanto aos danos decorrentes dos contratos passados e, ainda, da possibilidade de nova utilização das cláusulas impugnadas nos contratos futuros. Em que pese o instrumento acostado à contestação, de rigor reconhecer 1020149-49.2014.8.26.0506 - lauda 2

fls. 255 que a petição inicial veio acompanhada de outro instrumento, anteriormente emitido pela empresa ré, por ela efetivamente utilizado para a contratação de pacotes turísticos, mantendo-se hígidos, portanto, tanto a causa de pedir remota quanto a próxima da pretensão deduzida na inicial, e, ainda, os pedidos delas decorrentes. Nesse sentido, também improcedente a alegação de ausência de causa de pedir, consistente na abusividade da cláusula impugnada aposta nos contratos da requerida, gerando danos a inúmeros consumidores. No mais, não há que se falar em inépcia da petição inicial. Esta fora devidamente instruída pela autora, havendo, inclusive, cópia do contrato no qual fora inserida a cláusula contestada. Ademais, os fatos estão descritos de maneira objetiva (cobrança pela ré de multa abusiva pelo cancelamento do contrato). Há narração de uma situação e conclusão de que os fatos devem subsumir-se ao direito, estando apta a ser conhecida e submetida ao crivo do Poder Judiciário. Restam claramente preenchidos, portanto, os requisitos dos artigos 282 e 283 do Código de Processo Civil. No mérito, o pedido é parcialmente procedente. O Código de Defesa do Consumidor prevê a possibilidade de se modificar e, até mesmo, de se anular cláusulas contratuais que imponham obrigação desproporcional e excessivamente onerosa aos consumidores, colocando-os em desvantagem exagerada (art. 6º, IV e V, e 51, IV, do Código de Defesa do Consumidor). Não há como negar que nos contratos de compra e venda de pacotes turísticos é permitida a utilização da cláusula penal. No entanto, a aplicação de multas no percentual de até 100% sobre os valores totais dos pacotes se revela exagerada e abusiva. Na espécie, manifesta é a afronta ao artigo 51 do Código de Defesa do Consumidor. O toque de razoabilidade emerge da deliberação Normativa n. 161/85 da EMBRATUR, mas não se vê no contexto da cláusula impugnada, que impunha ao desistente as sanções que giram de 20% a 100% do valor final (fls. 77). 1020149-49.2014.8.26.0506 - lauda 3

fls. 256 Ressalta-se que o risco da atividade exercida pela ré não pode ser repassado integralmente ao consumidor, sendo notório que os prazos e valores dos contratos são celebrados já com previsão de alguns cancelamentos. Ademais, é certo que a desistência, a poucos dias da viagem, nem sempre causa prejuízos ao fornecedor, pois este pode revender o serviço a terceiros. Outrossim, a própria Deliberação Normativa n. 161/85 admite que a multa pode exceder o valor de 20%, se o cancelamento se der com menos de 21 dias de antecedência da viagem e houver provas pelo fornecedor dos prejuízos causados. Isto é, qualquer prejuízo a mais existente não será simplesmente excluído, mas tão somente dependerá de prova. Portanto, o atendimento ao disposto na Deliberação Normativa n. 161/85 é medida que se mostra adequada para o equilíbrio contratual e que mais se aproxima dos princípios informadores do Código de Defesa do Consumidor. De conseguinte, a liminar deferida nos autos deverá tornar-se definitiva, bem como a ré deverá, necessariamente, observar a Deliberação Normativa n. 161/85 da EMBRATUR. Resta analisar o pedido de restituição dos valores cobrados indevidamente. Tratando-se de ação civil pública com uma boa quantidade de afetados pela demanda, cabível a análise da situação e de seus pedidos de forma genérica, conforme artigo 95 do Código de Defesa do Consumidor. Destarte, diante da abusividade reconhecida, os consumidores que foram cobrados de forma indevida pela empresa turística, isto é, fora dos moldes desta decisão, e fizerem prova dessa situação, terão direito à restituição do que sobejar aos índices permitidos, cabendo a cada consumidor, a promoção de execuções individuais. E caso haja o decurso de um ano, sem a habilitação de interessados em número compatível com a gravidade do dano poderá a requerente promover liquidação e execução de indenização devida, de acordo com o artigo 100, do Código de Defesa do Consumidor, no valor estimado de R$ 20.000,00. A estimativa feita em R$ 200.000,00 pela autora mostra-se excessiva. 1020149-49.2014.8.26.0506 - lauda 4

fls. 257 Ante o exposto, com fundamento no artigo 269, inciso I, do Código de Processo Civil, JULGO PARCIALMENTE PROCEDENTE o pedido para DECLARAR nula a cláusula que estabelece penalidade contratual que supere o percentual de 20% do valor do negócio ante o cancelamento por parte dos consumidores e obrigar a empresa ré a adequar todos os contratos, atuais e futuros, ao percentual ditado pela Deliberação Normativa nº 161/85 do atual Instituto Brasileiro de Turismo, sob pena de multa de R$ 10.000,00, para cada caso comprovado de violação; e para CONDENAR a empresa ré a restituir todos os consumidores que foram cobrados indevidamente em valores diversos daqueles admitidos por esta decisão, corrigidos monetariamente a partir da data do desembolso pela Tabela Prática do Egrégio Tribunal Paulista, com juros de mora de 1% (um por cento) ao mês (art. 406, CC c/c art. 161, 1º, CTN) contados da citação para cada uma das execuções individuais, cuidando-se de relação contratual, cabendo a cada consumidor individualmente promover a liquidação e execução da sentença, de acordo com o artigo 97 do Código de Defesa do Consumidor. Fica confirmada a antecipação. Caso haja o decurso de um ano sem habilitação de interessados em número compatível com a gravidade do dano poderá a requerente promover liquidação e execução de indenização devida, de acordo com o artigo 100, do Código de Defesa do Consumidor, no valor estimado de R$ 20.000,00. A ré deverá ainda divulgar a presente sentença nos canais em que opera suas atividades (mailing, sítio informatizado, malas-diretas, correio eletrônico, publicidade nos estabelecimentos onde comercializa seus serviços, etc.), para dar ciência a seus consumidores. Arcará a ré com o pagamento de custas e despesas processuais, bem como de honorários advocatícios que fixo por equidade em R$ 2.000,00 (dois mil reais), estes atualizados a contar desta data e acrescidos de juros de mora (1% ao mês) a partir do trânsito em julgado desta decisão; considerando que não houve resistência ao pedido. Ciência ao Ministério Público. 1020149-49.2014.8.26.0506 - lauda 5

fls. 258 PRII Ribeirão Preto, 27 de maio de 2015. DOCUMENTO ASSINADO DIGITALMENTE NOS TERMOS DA LEI 11.419/2006, CONFORME IMPRESSÃO À MARGEM DIREITA 1020149-49.2014.8.26.0506 - lauda 6