A CONJECTURA abc JULIO C. ANDRADE

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Transcrição:

A CONJECTURA abc JULIO C. ANDRADE Resumo. Neste pequeno artigo expositório apresentamos a conjectura abc usando quatro diferentes formulações. Nós iremos oferecer uma lista de algumas aplicações e consequências da conjectura, discutiremos uma idéia da demonstração do Último Teorema de Fermat fazendo uso da conjectura abc e para concluir fazemos uma menção sobre uma possível e atual demonstração deste famoso problema. 1. Introdução e Motivação A conjectura abc é um problema em aberto (até o momento) em teoria dos números, ela também é conhecida como Conjectura de Oesterlé-Masser. Foi primeiramente proposta por Joseph Oesterlé [6] e David Masser [3] respectivamente em 1988 e 1985. Uma das principais importâncias da conjectura abc é que a sua validade implica profundas consequências em alguns dos mais difíceis problemas em matemática, de fato muitas conjecturas e problemas famosos em teoria dos números seguem da conjectura abc. Nas palavras do matemático Dorian Goldfeld [1] a conjectura abc é o mais importante problema em aberto de análise Diofantina. Antes de apresentarmos a conjectura abc introduziremos algumas definições básicas que irão servir como ponto de partida para o entendimento do enunciado da conjectura abc. Definição 1.1 (Divisor). Para quaiser números inteiros m e n não nulos, dizemos que m divide n ou que n é divisível por m, e escrevemos m n, se existe um inteiro k tal que n = km. Definição 1.2 (Números Primos). Um número primo p é um número natural maior do que 1 que não possui divisores positivos diferentes de 1 e p. Apresentamos agora um importante resultado que relaciona números primos com números naturais: Teorema 1.3 (Teorema Fundamental da Aritmética). Todo inteiro positivo n > 1 pode ser representado de uma maneira única como um produto de potências de números primos, i.e., n = p α 1 1 pα 2 2 pα k k = k i=1 p α i i, (1) onde p 1 < p 2 <... < p k são números primos e os α i são inteiros positivos. O autor recebe suporte de uma bolsa de pós doutorado do National Science Foundation (NSF) e uma bolsa de pós-doutorado da Universidade de Brown. 1

2 JULIO C. ANDRADE Por exemplo, 999 = 3 3 37, 1000 = 2 3 5 3. Definição 1.4 (Fator Comum). Fatores que são comuns a dois ou mais números são chamados de fator comum. Por exemplo, Assim os fatores comuns de 4 e 6 são 1 e 2. 6 = 2 3, 4 = 2 2. Definição 1.5 (Primos entre si). Dois inteiros são primos entre si se eles não possuem nenhum fator positivo comum com excessão do número 1. Usando a notação (m, n) para denotar o maior divisor comum de m e n podemos dizer que dois inteiros m e n são primos entre si se (m, n) = 1. Estamos agora em posição de apresentar a primeira formulação da Conjectra abc. Conjectura 1.6 (Formulação Ingênua da Conjectura abc). Em termos simples, a conjectura abc, diz que se considerarmos 3 números inteiros positivos, a, b, c, os quais não possuem nenhum fator em comum e satisfazem a + b = c e se denotarmos por d o produto dos fatores primos distintos do número abc temos então que d, normalmente, não fica muito menor do que c. Ou seja, se os números a e b são divisíveis por grandes potências de números primos, então o número c geralmente não é divisível por grandes potências de primos. Vejamos um exemplo: Exemplo 1.7. Consideremos a = 16 = 2 4, b = 17, c = 16 + 17 = 33 = 3 11. Assim, d = 2 17 3 11 = 1122, que é maior do que c. E para este caso, se consideramos 17 1 como sendo uma potência grande do primo 17 e 2 4 como uma potência grande de 2 temos claramente que 17 33 e 2 33 (Onde a b significa que a não divide b). Para concluirmos esta seção apresentamos a definição de radical, que será útil nas próximas seções. Definição 1.8 (Radical). Para todo número natural n, nós definimos r(n) = p n p, i.e., r(n) é o produto de todos os números primos p que são divisores de n. Neste caso, r(n) é chamado de o radical de n. Por exemplo se, então 504 = 2 3 3 2 7 r(504) = 2 3 7 = 42.

A CONJECTURA abc 3 É fácil de ver que r(n) é o divisor livre de quadrados e maximal de n. Vamos também dizer que um número inteiro n é bem composto, se r(n) é pequeno com respeito a n, ou equivalentemente, se a potência a que r(n) deve ser elevado para que se tenha r(n) = n log n é grande com respeito a n. O leitor pode checar que tal potência é log r(n). Note que ser grande ou pequeno é ainda relativo neste contexto e portanto iremos adotar aqui que grande significa ser maior que 1.5 e pequeno caso contrário. Por exemplo, se n 1 = 2 41 3 15 7 11 3 97 10, então r(n 1 ) = 2 3 7 11 97 = 44814 e log n 1 log r(n 1 ) = 9.316746. Assim n 1 é bem composto. Você consegue encontrar alguns exemplos de números bem compostos e não bem compostos? O que podemos dizer do número n 2 = 1254792? Nós aconselhamos o leitor a checar, usando algum software matemático, se os seguintes números são bem compostos ou não: n 3 = 64646191, n 4 = 267616847651 e n 5 = 78971478924741. 2. Algumas Formulações da Conjectura abc Nesta seção iremos apresentar a descrição precisa da conjectura abc. Conjectura 2.1 (Forma Preliminar da Conjectura abc). Se a + b = c, onde a, b, c são números naturais e primos entre si, então o número abc não pode ser bem composto. Em particular, a soma de dois números naturais que são primos entre si e bem compostos não pode ser bem composto. Observação 2.2. É fácil de provar que se (a, b) = 1 então (a + b, a) = 1 e (a + b, b) = 1. Prove isto! Vamos agora apresentar outra formulação para a conjectura abc. Conjectura 2.3 (Forma Heurística da Conjectura abc). Para todo ε > 0, existe somente uma quantidade finita de triplas de números naturais que são primos entre si e a + b = c tal que c > d 1+ε, onde d denota o produto dos fatores primos distintos de abc. Por exemplo, se a = 16 = 2 4, b = 17, c = 16 + 17 = 33 = 3 11, temos que d = 1122 > c. Portanto para todo ε > 0, c não é maior do que d 1+ε. Estamos agora em posição de coletar as nossas notações anteriores e apresentar a versão definitiva da conjectura abc. Conjectura 2.4 (Conjectura abc de Oesterlé e Masser). Para todo ε > 0 existe uma constante κ ε tal que se a, b e c são números primos entre si para o qual a + b = c, (2)

4 JULIO C. ANDRADE então c κ ε p primo p abc p 1+ε = κ ε (rad(abc)) 1+ε. (3) De fato as conjecturas 2.3 e 2.4 são equivalentes e a demonstração de tal fato pode ser encontrada em [4, pg. 16 17] e nós aconselhamos o leitor a tentar a provar tal equivalência ou a consultar a bibliografia com a sua demonstração. 3. O Último Teorema de Fermat e a Conjectura abc Nesta seção iremos apresentar um rascunho da demonstração do Último Teorema de Fermat usando a conjectura abc. Notamos que este é apenas um rascunho da demonstração e recomendamos ao leitor interessado no Último Teorema de Fermat a consultar o excelente livro por Simon Singh [10]. E lembre-se que iremos provar que a o Último Teorema de Fermat segue da Conjectura abc mas a recíproca não é verdadeira e é até por isso que a demonstração da Conjectura abc ainda não saiu (veja a próxima seção sobre o atual status da conjectura). Teorema 3.1 (O Último Teorema de Fermat). Assuma que a Conjectura abc 2.4 seja válida com κ ε = 1. Então não existem soluções para para n 3, com x, y, z 0. x n + y n = z n (4) Idéia da Demonstração. O enunciado será obtido para n > 3 uma vez que Euler mostrou que não há soluções quando n = 3 (veja [12]). Seja x n + y n = z n onde x, y, z são números inteiros positivos e primos entre si (podemos considerar x, y, z primos entre si, pois caso contrário poderíamos dividir toda a equação acima pelo máximo divisor comum de (x, y, z) elevado a n), então tomamos a = x n, b = y n, c = z n na conjectura abc. Nós não temos nenhuma maneira precisa de determinar o produto dos números primos que dividem x n y n z n, mas nós sabemos que estes são exatamente os primos que dividem xyz, e assim o produto de tais primos deve ser xyz. Mais ainda, uma vez que x e y são positivos, eles são ambos menores do que z e assim xyz < z 3. A conjectura abc portanto nos fornece que z n κ ε (z 3 ) 1+ε, para todo ε > 0. Tomando ε = 1/6 e n 4, temos que n 3(1 + ε) n/8, e assim nós deduzimos da conjectura abc que z n κ 8 1/6.

A CONJECTURA abc 5 Nós assim provamos que qualquer solução de (4) com n 4, os números x n, y n, z n são todos menores do que um limite absoluto e assim não existem mais do que uma quantidade finita de tais soluções. Agora imaginemos que nós temos em mão uma versão explicita da conjectura abc, digamos κ ε = ε = 1, então poderíamos dar uma cota superior para todas as soluções para a equação de Fermat e calcularmos até tal cota para então finalmente determinarmos se existem quaisquer soluções ou não. Observação 3.2. Observe que O Último Teorema de Fermat apenas segue da conjectura abc se pudermos dizer que κ ε = 1. De fato, alguns matemáticos acreditam que a conjectura abc é válida com κ ε = ε = 1. Se assim for, o Último Teorema de Fermat segue para n 6 imediatamente, e os casos n = 3, 4, 5 são conhecidos há quase 200 anos, veja [8]. 4. Algumas Consequências da Conjectura abc A conjectura abc tem um enorme número de consequências em profundas questões da teoria dos números. Vamos citar apenas três delas: A conjectura de Fermat Catalan, uma generalização do Último Teorema de Fermat sobre potências que são somas de potências.[7] A existência de infinitos primos que não são primos Wieferich. [9] A forma fraca da conjectura de Marshall Hall sobre a separação entre quadrados e cubos de números inteiros.[5] Um fato histórico interessante é que a conjectura abc é de fato um análogo para os números inteiros do teorema conhecido como Teorema de Mason Stothers [11, 2]. Teorema 4.1 (Teorema de Mason Stothers). Se denotarmos por C[t] os polinômios com coeficientes em C e se a(t), b(t), c(t) C[t] não possuem nenhuma raiz em comum e nos fornecem uma solução genuína para a(t) + b(t) = c(t), então max{ (a(t)), (b(t)), (c(t))} (rad(abc)) 1, onde (a(t)) indica o grau do polinômio a(t) e rad(f) é o polinômio de menor grau que possui as mesmas raízes de f, ou seja, (rad(f)) nos fornece o número de raízes distintas de f. 5. O futuro da conjectura abc Em agosto de 2012, o matemático Shinichi Mochizuki disponibilizou uma série de quatro artigos contendo uma séria alegação que ele tinha obtido uma demonstração da conjectura abc. A teoria utilizada por Shinichi Mochizuki para apresentar a sua demonstração da conjectura abc é conhecida como teoria de Teichmüller inter universal. Os especialistas irão levar meses para checar a nova matemática desenvolvida por Mochizuki, a qual foi desenvolvida durante décadas e apresenta mais de 500 páginas em artigos. Pode ser o caso de no futuro termos o teorema abc e não mais apenas uma conjectura e isso definitivamente irá tornar Mochizuki uma página a sempre ser lembrada na história da matemática.

6 JULIO C. ANDRADE 6. Agradecimentos O autor gostaria de agradecer aos comentários de um parecerista anônimo que em muito ajudaram a melhorar a apresentação do artigo. E também gostaria de agradecer várias discussões com o professor Dorian Goldfeld. Referências [1] Goldfeld, D., Beyond the last theorem. Math Horizons (1996) (September): 26-34. [2] Mason, R. C., Diophantine Equations over Function Fields, London Mathematical Society Lecture Note Series, 96, Cambridge, England: Cambridge University Press, 1984. [3] Masser, D. W., Open problems, in Chen, W. W. L., Proceedings of the Symposium on Analytic Number Theory (1985), London: Imperial College. [4] Mazur, B., Questions about Number, in New Directions in Mathematics, http://www.math.harvard.edu/ mazur/papers/scanquest.pdf [5] Nitaj, A., La conjecture abc. Enseign. Math. (1996), 42 (12): 3-24. [6] Oesterlé, J., Nouvelles approches du théorème de Fermat, Astérisque, Séminaire Bourbaki, (1988) 694 (161): 165-186. [7] Pomerance, C., Computational Number Theory. The Princeton Companion to Mathematics. Princeton University Press. pp. 361-362, 2008. [8] Ribenboim, P., 13 Lectures on Fermat s Last Theorem, Springer Verlag, New York and Heildelberg, 1979. [9] Silverman, J. H., Wieferich s criterion and the abc-conjecture. Journal of Number Theory (1988) 30 (2): 226-237. [10] Singh, S., O último teorema de Fermat, São Paulo, Editora Record, 2008. [11] Stothers, W. W., Polynomial identities and hauptmoduln, Quarterly J. Math. Oxford, (1981) 2 32: 349-370. [12] Fermat s Last Theorem, http://en.wikipedia.org/wiki/fermat s Last T heorem Institute for Computational and Experimental Research in Mathematics (ICERM) and Department of Mathematics, Brown University, Providence RI 02903, U.S.A. E-mail address: julio andrade@brown.edu