Problemas estranhos de geometria
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- Carmem Estrada Sanches
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1 Problemas estranhos de geometria O título original iria ser geometria combinatória, mas notei que muitos dos problemas abordados e técnicas a serem mostradas aqui nada tem de Combinatória. De fato, os meus problemas favoritos daqui não têm Combinatória alguma! Eventualmente vai aparecer um pouco de Combinatória. Só porque alguns problemas não usam suas técnicas não quer dizer que Combinatória vai deixar de aparecer em Geometria. 1. Onde estão os pontos? Na grande maioria dos problemas de Geometria, o primeiro passo é fazer uma figura que representasse bem a situação. E se isso não possível? E se não for possível nem mesmo desenhar uma figura? Nesses casos, se não podemos dizer onde estão exatamente os pontos, nós pelo menos procuramos suas possíveis posições. Sendo um pouco mais específico, verificamos em que região ou regiões está o ponto. Exemplo 1.1. (Ibero 007, Problema 6) Seja F a família de todos os hexágonos convexos H que satisfazem as seguintes condições: (a) os lados opostos de H são paralelos; (b) quaisquer três vértices de H podem ser cobertos com uma faixa de largura 1. Determine o menor número real l tal que cada um dos hexágonos da família F pode ser coberto com uma faixa de largura l. Nota: Uma faixa de largura l é a região do plano compreendida entre duas retas paralelas que estão à distância l (incluindo ambas as retas paralelas). Resolução A primeira impressão é de que l = 1, mas não seria sem graça se fosse isso mesmo? A verdade é que l =. Basta tomar quase-quadrados : Note que se l < então existe ɛ tal que l = ɛ. Basta tomar δ suficientemente pequeno para que a faixa de largura ɛ não cubra o quase-quadrado correspondente. Vamos provar que l = é suficiente para cobrir todos os hexágonos de F. Note que, para tanto, basta mostrar que todo hexágono de F tem algum par de lados opostos paralelos com distância menor ou igual a.
2 Seja H um hexágono de F. Considere um triângulo ABC formado por vértices alternados de H. Note que se algum dos lados de ABC é menor ou igual a, uma faixa de é suficiente para cobrir H, pois a distância entre cada par de lados opostos de H é menor ou igual a cada um dos lados de ABC. Assim, suponha que todos os lados de ABC são maiores do que e que a sua menor altura seja relativa a A. Isto quer dizer que a distância de A à reta BC é menor ou igual a 1. Com isso, podemos mostrar que o ângulo BAC é obtuso, pois, sendo H o pé da altura relativa a A, cos HAB = AH AB < 1 = cos 45 = HAB > 45 e, analogamente, HAC > 45. A nossa meta agora é descobrir onde pode estar o vértice A, oposto a A em H. Para isso, vamos estudar a condição (b) do enunciado. Note que ela é equivalente a dizer que todo triângulo determinado por vértices de H tem sua menor altura menor ou igual a 1. Suponhamos, então, que sabemos a posição de dois vértices X e Y do hexágono H e queiramos saber onde poderiam estar os outros vértices de H. Seja Z um desses vértices. O interessante é que não sabemos qual é a menor altura, então devemos pensar nas três possibilidades (que na verdade são duas, já que duas delas são análogas): A menor altura é relativa a Z. Então a distância de Z a XY é menor ou igual a 1. Sendo o conjunto dos pontos a uma distância fixada de uma reta igual a um par de retas paralelas, concluímos que Z pode estar na faixa formada por duas retas r e s a uma distância 1 de XY, excetuando a própria reta XY : A menor altura é relativa a X. Então a distância de X a Y Z é menor ou igual a 1. Agora temos uma situação mais interessante, pois o ponto variável é Z; como medir a distância de um ponto fixado a uma
3 reta variável? O truque aqui é considerar um círculo C de raio 1 com centro em X. Se a reta é tangente a C, então a distância de X a essa reta é 1; se for secante, é menor que 1; se for exterior, é maior que 1. Considerando ainda que as retas em questão devem passar pelo outro ponto fixo Y, temos a nossa resposta: A menor altura é relativa a Y. Esse caso é análogo ao anterior. Assim, dados os pontos X e Y do hexágono, os demais vértices pertencem à região destacada na figura a seguir: Para facilitar, chamaremos tal região de XY -região. Com isso, podemos continuar o problema. Queremos encontrar as possíveis posições do ponto A, oposto a A no hexágono. Ele deve pertencer à AB-região e à AC-região, ou seja, na interseção dessas duas regiões. Além disso, como o hexágono é convexo, C e o vértice C, oposto a C, estão em lados opostos em relação a AB e AC é paralelo a A C, A também pertence à região delimitada por CR AB, BC e, analogamente, BQ AC. Se A está no interior do ângulo CBT, então a distância de A ao lado A B é menor ou igual a 1 e é possível cobrir H com uma faixa de largura 1 <, pois a distância entre A B e o lado oposto, que contém A, é menor ou igual a 1; da mesma forma, se A está no interior do ângulo BCS, a distância de A ao lado A C é menor ou igual a 1 e é possível cobrir H com uma faixa de largura 1. Caso contrário, AA <, pois MAP > 90, e é possível cobrir H com uma faixa de largura AN <. Na verdade, pode-se provar que esse último caso não pode ocorrer: basta considerar o maior entre os ângulos A AB e A AC e provar (por eliminação, e usando o fato de que o seno de um ângulo maior do que 45 é maior do que /) que a distância de A a A B ou A C (o que participar do maior ângulo) é menor ou igual a 1, considerando o triângulo AA B (ou AA C).
4 Exercícios 01. (Hungria 1998) Seja P um polígono convexo com lados de medidas inteiras e perímetro ímpar. Prove que a área de P é maior ou igual a 3/4. 0. (Cone Sul 1996, Problema 6) Achar todos os números inteiros n 3 tais que exista um conjunto S n formado por n pontos do plano que satisfaçam as duas condições seguintes: (1) Três pontos quaisquer não são colineares. () Nenhum ponto se encontra no interior do círculo cujo diâmetro tem por extremos dois pontos quaisquer de S n. NOTA: Os pontos da circunferência não são considerados interiores ao círculo. 03. (OBM 005, Nível 3, Problema 3) Dizemos que um quadrado está contido em um cubo quando todos os seus pontos estão nas faces ou no interior do cubo. Determine o maior l > 0 tal que existe um quadrado de lado l contido num cubo de aresta (Cone Sul 005, Problema 6) No plano cartesiano traçamos circunferências de raio 1/0 com centros em cada ponto de coordenadas inteiras. Mostre que qualquer circunferência de raio 100 que se trace no plano intersecta pelo menos uma das circunferências pequenas.. Cobrindo figuras Problemas desse tipo podem ser resolvidos com uma variedade bastante grande de técnicas. Uma mistura de casos extremos, casa dos pombos e saber construir exemplos geralmente funciona bem. Exemplo.1. (USAMO 007, Problema ) Um reticulado no plano cartesiano consiste em todos os pontos (m, n), onde m e n são inteiros. É possível cobrir todos os pontos do reticulado com uma família infinita de círculos cujos interiores não se sobrepõem se cada círculo da família tem raio maior ou igual a 5? Resolução A resposta é não (os círculos são muito grandes, não?). Para isso, suponha que existe uma cobertura desse tipo e seja C o maior círculo que não se sobrepõe com algum círculo da família. Então o seu raio r deve ser menor do que /; caso contrário, C cobriria um ponto do reticulado, que não seria coberto pela família. Além disso, C tangencia pelo menos três círculos C 1, C, C 3 da família. Sejam O, O 1, O e O 3 os centros dos círculos C, C 1, C, C 3, respectivamente. Então um dos ângulos O 1 OO, O OO 3, O 3 OO 1 é menor ou igual a 10. Suponha, sem perdas, que é O 1 OO. Então, pela lei dos co-senos, O 1 O OO 1 + OO + OO 1 OO
5 Sejam r 1 e r os raios de C 1 e C, respectivamente. Então O 1 O r 1 +r, OO 1 = r +r 1 e OO = r +r. Substituindo, obtemos (r 1 + r ) (r + r 1 ) + (r + r ) + (r + r 1 )(r + r ) 1r (r 1 3r)(r 3r) Mas r < / e r 1 e r são maiores ou iguais a 5, de modo que 1r (5 3r) 3r 5 3r r Um cálculo rápido mostra que 5 Exercícios 3+ > 3, e o problema acabou. 05. Três círculos de raio r cobrem um círculo de raio 1. Encontre o menor valor de r. 06. (OBM 00, Nível 3, Problema 5) Temos um número finito de quadrados, de área total 4. Prove que é possível arranjá-los de modo a cobrir um quadrado de lado 1. Obs: coberto. É permitido sobrepor quadrados e parte deles pode ultrapassar os limites do quadrado a ser 3. Princípio do extremo Considerar a maior (ou menor) distância ou algum triângulo de área máxima (ou mínima) ou... máximo (ou mínimo) pode ser bastante útil. Exemplo 3.1. (OBM 007, Nível 3, Problema 3) São dados n pontos no plano, os quais são os vértices de um polígono convexo. Prove que o conjunto das medidas dos lados e das diagonais do polígono tem pelo menos n/ elementos distintos. Resolução Talvez esse não seja o exemplo mais simples no assunto, mas ele envolve tantas idéias interessantes que merece ser resolvido. Primeiro, considere dois pontos A e B do polígono cuja distância é máxima. Tome B de modo que AB separe o polígono em dois polígonos, um deles com AB como única distância máxima. Em cada um desses dois polígono vamos aplicar o seguinte Lema 3.1. Seja A 1 A... A k um polígono convexo tal que a maior distância entre dois de seus vértices, incluindo diagonais, é A 1 A k. Então esse polígono tem k distâncias diferentes; caso A 1 A k seja a única distância máxima, então há k 1 distâncias diferentes. Demonstração Sejam A p e A q, 1 < p < q < k dois vértices do polígono. Vamos provar que, para quaisquer m e n com p < m n < q um dos segmentos A p A n, A q A m é menor do que A p A q. Em seguida, conseguiremos uma seqüência de k distâncias diferentes. Como conseguir distâncias menores? Ou, de modo mais geral, como comparar segmentos? Muitas vezes é melhor transferir tudo para ângulos, para que possamos fazer... isso mesmo, um arrastão!
6 Sejam α = A m A 1 A k, α 1 = A 1 A m A k, α = A p A m A q, α 3 = A q A p A m, A a interseção de A p A q e A 1 A m (note que, como o polígono é convexo, A está no interior do segmento A p A q ) e α 4 = A m AA q. Suponha que A p A q A m A q. Então, no triângulo A m A p A q, α α 3. Além disso, pelo teorema do ângulo externo no triângulo AA p A m, α 3 < α 4. Ademais, α 1 < α e, sendo A 1 A k a maior distância de todas (e esse é o passo decisivo da demonstração e mostra o poder do princípio do extremo), no triângulo A 1 A m A k, α < α 1. Logo α < α 1 < α α 3 < α 4 = α < α 4 Definindo os β s analogamente e supondo que A p A q A n A p, obtemos β < β 4. Porém, observando os quadriláteros A 1 A k A n A m e ABA n A m, temos que α + β + A 1 A m A n + A k A n A m = α 4 + β 4 + AA m A n + BA n A m = 360 = α + β = α 4 + β 4. Mas α < α 4 = α + β < α 4 + β 4, β < β 4 contradição. O caso em que m = n fica a cargo do leitor. Para terminar, basta fazer uma espécie de zigue-zague. Comece com A A k 1, que é menor do que A 1 A k (por quê? veja o próximo exercício!). Pelo que acabamos de provar, A A k ou A 3 A k 1 é menor do que A A k 1. Oba, mais uma distância! Suponha, por exemplo, que A 3 A k 1 seja menor. Então, aplicando o nosso fato de novo, A 4 A k 1 ou A 3 A k é menor do que A 3 A k 1. Continuamos assim, até acabar o polígono, e assim conseguimos (conte!) k distâncias diferentes. No caso em que A 1 A k é a única distância máxima, fica para você provar (use o poder do arrastão novamente!) que, no quadrilátero A 1 A A k 1 A k, uma das diagonais é menor do que A 1 A k (bem, isso é imediato ) e maior do que A A k 1 (nisso você vai ter que trabalhar um pouquinho mais ), de modo que ganhamos mais uma distância, totalizando k 1. Agora, vamos terminar o problema. Lembre que cortamos o polígono original do problema em dois por uma diagonal AB com medida máxima. Suponha que os polígonos obtidos tenham k + 1 e n k + 1 lados, sendo que o de k + 1 lados tem a distância máxima única. Nele, obtemos (k + 1) 1 = k distâncias diferentes, e no outro, (n k + 1) = n k 1. Então conseguimos d = máx{k, n k 1} distâncias. Mas d k+(n k 1) = n 1 n. Exercícios 07. Seja S um conjunto finito de pontos. Prove que se A, B, C, D são pontos distintos de S tais que AB e CD são ambos segmentos de distância máxima, então esses segmentos se cortam em seus respectivos interiores. 08. (Olimpíada de Maio 003) Beto marcou 003 pontos verdes no plano, de maneira que todos os triângulos com seus três vértices verdes têm área menor que 1. Demonstre que os 003 pontos verdes estão contidos num triângulo T de área menor que 4.
7 09. (Um clássico! O Teorema de Sylvester) Dados n pontos, não todos colineares, prove que existe uma reta que passa por exatamente dois desses pontos. 10. (Cone Sul 001, Problema 3) Três triângulos acutângulos estão inscritos em uma mesma circunferência, de modo que seus vértices são nove pontos distintos. Demonstre que se pode escolher um vértice de cada triângulo de maneira que os três pontos escolhidos determinem um triângulo cujos ângulos sejam menores que ou iguais a (Cone Sul 001, Problema 4) Um polígono de área S está contido no interior de um quadrado de lado a. Demonstre que há pelo menos dois pontos do polígono que estão separados por uma distância maior que ou igual a S/a. 1. (Vingança Olímpica 005, Problema 5) Encontre todos os conjuntos finitos X de pontos no plano, não todos colineares, satisfazendo a seguinte condição: para quaisquer duas circunferências distintas, cada uma passando por três pontos distintos de X, a interseção delas também está contida em X. 13. (OBM 1996, Problema ) Existe um conjunto finito de n > pontos no plano tais que não há três pontos colineares e o circuncírculo de quaisquer três pontos pertence ao conjunto? 4. Fecho convexo Fecho convexo de um conjunto S de pontos (finito ou infinito) limitado no plano (poderia ser do espaço ou de figuras com mais dimensões ainda) é a menor figura convexa que contém S. No caso do plano, é figura obtida quando soltamos um elástico esticado em torno de S. Exemplo 4.1. (IMO 00, Problema 6) Sejam Γ 1, Γ,..., Γ n círculos de raio 1 no plano, onde n 3. Seus centros são O 1, O,..., O n, respectivamente. Suponha que não exista reta que intercepte mais que dois dos círculos. Prove que 1 i<j n 1 (n 1)π O i O j 4 Resolução O que é isso? Contas com segmentos de um lado e π do outro? O que fazer? A primeira idéia é, na verdade, transformar tudo em ângulos. Seja α ij o ângulo determinado entre as tangentes internas a Γ i e Γ j.
8 Veja que sen αij = 1 O io j/ = O io j. A figura a seguir mostra que, para todo x real positivo, sen x < x. 1 sen α/ Assim, O io j = < α 4, de modo que basta provar que 1 i<j n α ij 4 (n 1)π 4 1 i<j n α ij (n 1)π Voltemos para os α ij s. Eles também aparecem nos próprios círculos, como ilustramos na figura a seguir, traçando as tangentes externas (que são paralelas): A condição de não haver retas que interceptem mais do que dois círculos se traduz em os α ij / s não se sobreporem nas figuras. A região hachurada indica em que regiões as circunferências diferentes de Γ i e Γ j não podem estar.
9 Assim, a soma de todos os α ij s é menor ou igual à metade da soma de todos os arcos (veja que cada α ij / aparece quatro vezes, totalizando α ij ), que em princípio é nπ. Faltou pouco! Mas será que não podemos melhorar essa conta? o elástico, vemos que alguns arcos não são contados: É aí que o fecho convexo entra! soltando A soma desses arcos é exatamente a soma dos ângulos externos de um polígono, que é π. Com isso, a metade da soma de todos os arcos é menor ou igual a nπ π = (n 1)π, e acabou. Exercícios 14. Dados n pontos no plano, prove que três deles determinam um ângulo menor ou igual a 180 /n. 5. Distâncias e números reais Muitos problemas exploram distâncias, e em alguns deles queremos saber se eles satisfazem certas condições. Exemplo 5.1. (Ibero 1996, Problema 6) Tem-se n pontos distintos A 1, A,..., A n no plano e a cada ponto A i se associa um número real λ i diferente de zero, de maneira que A i A j = λ i + λ j, para todos i, j com i j. Demonstre que (a) n 4 (b) Se n = 4, então 1 λ λ + 1 λ λ 4 = 0. Resolução Distâncias ao quadrado! Que teorema envolve distâncias ao quadrado? Uma dica: o nome do teorema começa com Pit e termina com ágoras. Com o seu auxílio, provamos o seguinte Lema 5.1. Se A, B, C e D são pontos no plano então AB + CD = AD + BC se, e somente se, AC e BD são perpendiculares. Demonstração Seja B e D as projeções de B e D sobre a reta AC, respectivamente. Suponha que B está mais à esquerda
10 de D. Seja B D = k. Aplicando o teorema de Pitágoras quatro vezes, obtemos AB = a + b CD = c + d AD = (a + k) + d BC = (c + k) + b Assim, AB + CD = AD + BC a + b + c + d = (a + k) + b + (c + k) + d k(a + c + k) = 0 k AC = 0 k = 0, de modo que as projeções de B e D sobre AC devem coincidir, provando que a igualdade ocorre se, e somente se, BD é perpendicular a AC. Com isso, o problema fica simples. Suponha que n 4, de modo que existam A 1, A e A 3. Note que, sendo i > 3, A 1 A i + A A 3 = λ 1 + λ i + λ + λ 3 = A 1 A + A 3 A i, e pelo lema, A A i é perpendicular a A 1 A 3, isto é, A i pertence à altura por A de A 1 A A 3. É claro que A não é mais especial do que A 1 e A 3, assim, analogamente A i também pertence à altura por A 1 de A 1 A A 3. Deste modo, A i está na interseção das duas alturas, ou seja, seu ortocentro. Isso vale para todo ponto A i diferente de A 1, A e A 3. Mas como só existe um ortocentro, só pode haver um ponto a mais, ou seja, n 4. Isso resolve o item a. Vamos para o item b. Primeiro, considere três pontos A i, A j e A k. Então A i A j = λ i + λ j A i A k = λ i + λ k A j A k = λ j + λ k λ i = A ia j + A ia k A ja k λ j = A ia j + A ja k A ia k λ k = A ia k + A ja k A ia j Mas, pela lei dos co-senos, AiA j +AiA k AjA k = A i A j A i A k cos A j A i A k. Assim, λ i = A i A j A i A k cos A j A i A k λ j = A i A j A j A k cos A i A j A k λ k = A i A k A j A k cos A i A k A j
11 Vamos supor que A 4 é ortocentro do triângulo acutângulo A 1 A A 3 (na verdade, cada ponto é ortocentro do triângulo determinado pelos três outros pontos). Note que o triângulo não pode ser retângulo, o que prova que nenhum dos λ s pode ser zero. Note que A A 4 A 3 = A 4 A A , de modo que cos A 4 A A 1 = sen A A 4 A 3. Deste modo, isolando os co-senos na relação acima e substituindo na relação fundamental cos A A 4 A 3 +sen A A 4 A 3 = 1, obtemos ( ) ( ) λ 4 λ + = 1 A A 4 A 3 A 4 A A 4 A 1 A Como A i A j = λ i + λ j, tirando o mínimo e substituindo obtemos λ 4(λ 1 + λ ) + λ (λ 3 + λ 4 ) = (λ 1 + λ )(λ 3 + λ 4 )(λ + λ 4 ) Dividindo tudo por λ 1 λ λ 3 λ 4, 1 λ λ 3 ( 1 λ λ Separando o segundo membro: 1 λ λ 3 ( 1 λ λ ) + 1 ( ) ( 1 = + 1 ) ( ) ( ) λ 1 λ 4 λ 3 λ 4 λ 1 λ λ 3 λ 4 λ λ 4 ) + 1 ( ) ( ) ( ) ( ) ( ) = 1λ + λ 1 λ 4 λ 3 λ 4 1λ1 1λ + 1λ3 1λ4 + 1λ4 + 1λ1 1λ + 1λ3 1λ4 Para que isso? Ora, para fatorar! Colocando 1 λ ( 1 λ λ ) e 1 λ 4 ( 1 λ λ 4 ) em evidência no segundo membro, obtemos 1 λ 1 λ λ 4 1 λ λ 4 ( ) ( ) ( ) ( ) + 1λ4 + λ 1 λ λ 3 λ 4 λ 3 1λ1 1λ 1λ1 + 1λ3 1λ4 = 0 ( ) + 1 ( ) = 0 λ 1 λ λ λ 4 λ 3 λ 4 ( ) = 0 λ 1 λ λ 3 λ 4 1 λ λ + 1 λ λ 4 = 0
12 Exercícios 15. (Ibero 1997, Problema 6) Seja P = {P 1, P,..., P 1997 } um conjunto de 1997 pontos no interior de um círculo de raio 1, sendo P 1 o centro do círculo. Para cada k = 1,..., 1997 seja x k a distância de P k ao ponto de P mais próximo a P k e distinto de P k. Demonstrar que x 1 + x + + x (Ibero 1998, Problema 5) Encontrar o maior valor possível n para que existam pontos distintos P 1, P, P 3,..., P n no plano, e números reais r 1, r,..., r n de modo que a distância entre quaisquer dois pontos diferentes P i e P j seja r i + r j. 17. (IMO 1995, Problema 3) Determine todos os inteiros n > 3 tais que existem n pontos A 1, A,..., A n no plan sem que haja três deles colineares e números reais r 1, r,..., r n tais que, para todos i, j, k distintos, a área do triângulo A i A j A k é r i + r j + r k. 6. Esse problema é de geometria?? Muitas vezes idéias geométricas são úteis em problemas que aparentemente não são de Geometria. Como em Combinatória, por exemplo. Exemplo 6.1. (Cone Sul 1998, Problema 6) O prefeito de uma cidade deseja estabelecer um sistema de transportes com pelo menos uma linha de ônibus, no qual: (i) cada linha passe exatamente por três paradas; (ii) cada duas linhas distintas tenham exatamente uma parada em comum; (iii) para cada duas paradas de ônibus distintas exista exatamente uma linha que passe por ambas. Determine o número de paradas de ônibus da cidade. Resolução Vamos representar linhas de ônibus por uma reta e paradas por pontos. Uma linha passa por uma parada se, e somente se, a reta correspondente passa pelo ponto correspondente. Reescrevendo as três condições do enunciado em termos de retas e pontos, temos: (i) cada reta passa exatamente por três pontos; (ii) cada duas retas distintas têm exatamente um ponto em comum; (iii) por dois pontos passa exatamente uma reta. Assim, podemos desenhar (isso mesmo!) as possibilidades. Uma é ter exatamente uma linha (cidade pequena essa, não?), totalizando três pontos A, B e C: Agora, pode haver mais pontos. Considere um ponto D fora da reta. Por A e D passa uma reta, e essa reta não pode ser ABC, pois ela não teria três pontos; essa nova reta não pode passar por B ou por C, pois duas retas têm exatamente um ponto em comum. Assim, a reta AD precisa conter um novo ponto E.
13 Analogamente, obtemos as retas BDF e CDG. Será que pode haver mais um ponto H? Vejamos a reta DH. Ela deve cortar a reta ABC em um de seus pontos, mas nenhum deles serve, já que já temos as retas AD, BD e CD e se um dos pontos A, B ou C pertencesse a DH então essa reta e AD, BD ou CD têm dois pontos de interseção (D e um dos pontos A, B, C). Então não podemos mais ter pontos. Completando as linhas, podemos obter o seguinte exemplo, com 7 paradas (uma das linhas é circular): Com um pouquinho mais de esforço você pode provar que o único exemplo para 7 paradas é esse. Deste modo, a cidade tem 3 ou 7 paradas. Exercícios 18. (OBM 00, Nível 3, Problema 6) Arnaldo e Beatriz se comunicam durante um acampamento usando sinais de fumaça, às vezes usando uma nuvem grande, às vezes uma pequena. No tempo disponível antes do café da manhã, Arnaldo consegue enviar uma seqüência de 4 nuvens. Como Beatriz nem sempre consegue distinguir uma nuvem pequena de uma grande, ela e Arnaldo fizeram um dicionário antes de ir para o acampamento. No dicionário aparecem N seqüências de 4 tamanhos de nuvem (como por exemplo a seqüência P GP GP GP GP GP GGP GP GP GP GP GP, onde G significa nuvem grande e P significa nuvem pequena). Para cada uma das N seqüências, o dicionário indica seu significado. Para evitar interpretações erradas, Arnaldo e Beatriz evitaram incluir no dicionário seqüências parecidas. Mais precisamente, duas seqüências no dicionário sempre diferem em pelo menos 8 das 4 posições. Demonstre que N Dica: pense em círculos! Defina distância entre duas seqüências como a quantidade de posições com nuvens de tamanhos diferentes nas duas seqüências. Por incrível que pareça, essa distância satisfaz a desigualdade triangular e podemos definir círculos de raio r e centro em uma seqüência s como as seqüências
14 com distância menor ou igual a r de s. A idéia é, então, pensar no fato de que círculos com centros distantes não podem se intersectar. 19. (IMO 1996, Problema 6) Sejam n, p, q inteiros positivos com n > p + q. Sejam x 0, x 1,..., x n inteiros que verificam as seguintes condições: (a) x 0 = x n = 0, e (b) Para cada i, 1 i n, tem-se que x i x i 1 = p ou x i x i 1 = q. Demonstrar que existe um par (i, j) (0, n), tal que x i = x j. Dica: Primeiro mostre que n = k(p + q), k inteiro maior que 1. Em seguida, desenhe um quadriculado kp kq e dê um passo para a direita se x i x i 1 = p e um passo para cima se x i x i 1 = q. O que significa x i = x j nesse quadriculado? Se você conseguiu a resposta, a demonstração termina ligando pontos! 7. Referências bibliográficas [1] Quer fontes de problemas para estudar? Primeiro, estude um pouco de inglês; depois, visite os seguintes sites: [] É claro, não podemos esquecer o site da OBM (esse em português!): [3] Os colegas e amigos Davi Máximo e Samuel Feitosa escreveram um belíssimo artigo na Eureka! 5: Problemas sobre Pontos.
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