Ferromagnetismo. 2 Modelo de Ising
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- Lucas Gabriel Fonseca Pinhal
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1 Capítulo 8 Ferromagnetismo 1 Introdução As substâncias ferromagnéticas são caracterizadas por possuírem uma magnetizaçao (espontânea) que pode persistir mesmo na ausência de um campo magnético. Esse comportamento é bem diferente daquilo que ocorre numa substância paramagnética em que a magnetizaácão só aparece quando se aplica um campo magnético. Na substâncias paramagnéticas, a magnetização desaparece quando o campo se anula como se vê na figura abaixo. Se uma substância ferromagnética for aquecida a temperaturas suficientemente altas ela perderá a magnetização espontânea e se comportará como uma substância paramagnética. Ou seja, ocorre uma transição da fase ferromgnética para a fase paramagnética. Na figura abaixo mostramos a magnetização M como função do campo H para várias temperaturas. Para temperaturas baixas, M M 0 quando H 0. Para temperaturas altas, M 0 quando H 0. Na figura seguinte mostramos como a magnetização se comporta em função da temperatura. Existe uma temperatura crítica T c abaixo da qual a substância é ferrmomagnética e acima da qual ela é paramagnética. 2 Modelo de Ising A teoria microscópica que explica a origem do ferromagnetismo é muito complicada envolvendo conceitos quânticos fora dos propósitios desse curso. Va- 1
2 mos aqui simplesmente nos fixar na origem do comportamento coletivo dos átomos magnéticos que acarretam no ordenamento ferromagnético. Para isso utilizamos um modelo muito simples introduzido por Lenz e Ising em 1925 e conhecido como modelo de Ising. Considere uma rede cristalina formada por N átomos magnéticos. Cada átomo possui um momento de dipolo magnético que por simplicidade toma somente dois valores: +µ, ou µ. Se associarmos ao átomo i a variável de spin σ i que toma os valores +1 (spin para cima) e 1 (spin para baixo), então o momento de dipolo magnético do átomo i será igual a µσ i. Assim, o estado microscópico total do sistema será descrito pelo vetor σ = (σ 1,σ 2,,σ N ). Em seguida consideramos a energia de interação entre átomos. Vamos supor que haja interação somente entre átomos vizinhos. Suponha que i e j sejam dois átomo vizinhos. Adotaremos então a seguinte energia de interação entre eles Jσ i σ j (1) onde J > 0, ou seja, se os momentos magnéticos forem paralelos (os dois com spins para cima ou os dois com spins para baixo) a energia será J, se forem antiparalelos (um com spin para cima e o outro com spin para baixo) a energia será +J. Essa interação favorece o alinhamento paralelo dos momentos de dipolo. A energia total de um determinado estado microscópico será então E(σ) = J (ij) σ i σ j (2) onde a soma se estende sobre todos os pares de átomos vizinhos da rede. A função de partição será pois Z = exp{ βe(σ)} (3) onde β = 1/kT. 3 Modelo unidimensional Vamos inicialmente estudar o modelo de Ising para o caso unidimensional. Considere uma cadeia de N átomos numerados de 1 a N. Temos E(σ) = J(σ 1 σ 2 + σ 2 σ 3 + σ 3 σ σ N 1 σ N ) (4) 2
3 onde a soma se estende sobre todos os pares de átomos vizinhos da rede. A função de partição será pois Z = que pode ser escrita como Z = e βj(σ 1σ 2 +σ 2 σ 3 +σ 3 σ 4 ++σ N 1 σ N ) σ N 1 =±1 e βj(σ 1σ 2 ++σ N 2 σ N 1 ) σ N 1 =±1 (5) e βjσ N 1σ N (6) Agora e βjσ N 1σ N = e βjσ N 1 + e βjσ N 1 = 2 coshβjσ N 1 (7) Vemos agora que o resultado é independente de σ N 1 pois essa variável toma os valores ±1 e a função cosseno hiperbólico é par. Dessa forma Z = 2 coshβj Repetindo esse procedimento várias vezes obtemos e portanto Logo Z = (2 coshβj) N 1 e βj(σ 1σ 2 ++σ N 2 σ N 1 ) σ N 1 =±1 σ 1 =±1 (8) 1 (9) Z = 2(2 coshβj) N 1 (10) ln Z = (N 1) ln(2 coshβj) + ln 2 (11) ou, retendo apenas os termos proporcionais a N, Daí obtemos a energia interna ln Z = N ln(2 cosh βj) (12) U = ln Z = NJ tanhβj (13) β 3
4 e a capacidade térmica C = U ( ) J 2 ( T = N sec h J ) 2 (14) kt kt Abaixo mostramos o gráfico C como função da temperatura. Para T > 0, não existe nenhuma singularidade em C. Isto significa que não há nenhuma transição de fase! A conclusão é que o modelo proposto para explicar o ferromagnetismo não fornece o que se deseja. Entranto, essa conclusão só é valida para o modelo unidimensional. Se consideramos o modelo em duas ou três dimensões é possível demonstrar que a baixas temperaturas haverá um ordenamento ferromagnético e a altas temperaturas o sistema será desordenado (paramagnético). 4 Matriz de transferência Nesta seção usamos o método da matriz de transferência para determinar a função de partição do modelo unidimensional. Esse método é importante pois pode ser utilizado para modelo de mais estados e para outros problemas. Vamos considerar o modelo de Ising na presença de um campo externo cuja energia é dada por E(σ) = J(σ 1 σ 2 + σ 2 σ σ N σ 1 ) H(σ σ N (15) A função de partição será pois Z = e βj(σ 1σ 2 +σ 2 σ 3 ++σ N σ 1 )+βh(σ 1 +σ 2 ++σ N ) Definindo a matriz T cujos elementos T(σ,σ) são dados por T(σ,σ) = e βjσσ +βh(σ +σ)/2 (16) (17) ou seja T = ( e βj+βh e βj e βj e βj βh ) (18) 4
5 então podemos escrever ou ainda Z = T(σ 1,σ 2 )T(σ 2,σ 3 )T(σ N,σ 1 ) (19) Z = Tr(T N ) (20) Esse resultado diz que o cálculo da função de partição se reduz à determinação do traço da N-ésima potência da matriz T. Em seguida usamos o teorema onde λ 1 and λ 2 são os autovalores de T para obter Tr(T N ) = λ N 1 + λ N 2 (21) Z = λ N 1 + λ N 2 (22) Suponha que λ 1 seja o maior autovalor e defina r = λ 2 /λ 1. Então de modo que Z = λ N 1 + λ N 2 = λ N 1 (1 + r N ) (23) ln Z = N ln λ 1 + ln(1 + r N ) (24) Para N >> 1 a segunda parcela se torna desprezível comparada com a primeira de modo que podemos escrever ln Z = N ln λ 1 (25) Esse resultado é importante pois reduz o problema de determinar Z ao cálculo do maior autovalor da matriz T. Em seguida determinamos o maior autovalor de T. A equação característica para os autovalores é dada por ( e βj+βh λ e βj e βj e βj βh λ ) = 0 (26) ou seja λ 2 (e βj+βh + e βj βh )λ + e 2βJ e 2βJ = 0 (27) 5
6 de onde obtemos ou ainda λ 1 = 1 2 {(eβj+βh + e βj βh ) + λ 1 = e βj cosh βh + (e βj+βh e βj βh ) 2 + 4e 2βJ )} (28) e 2βJ (sinh βh) 2 + e 2βJ (29) Quando H = 0 vemos λ 1 = 2 cos βj e encontramos o resultado obtido na seção anterior para Z. A magnetização é obtida através de Fzaendo a derivada encontramos M = F H = NkT H ln λ 1 (30) e βj sinh βh M = N (31) e 2βJ (sinh βh) 2 + e 2βJ Portanto a magnetização se anula quanto H 0 e o sistema não apresenta magnetização espontânea. Para campos pequenos o comportamento da magnetização é linear com o campo e é dado por M = Ne 2βJ βh (32) A susceptibilidade χ = M/ H a campo nulo é pois χ = Ne 2βJ β = N kt e2j/kt (33) 5 Aproximação de campo médio A aproximação de campo médio consiste em imaginar que cada momento de dipolo magnético estará sujeito a um campo efetivo H ef que será igual à soma do campo externo H e um campo médio H m devido aos dipolos vizinhos dado por H m = Jzm (34) onde z é o número de vizinhos e m =< σ i > é a magnetização média de um átomo. A magnetizaçao de um sítio sujeito a um campo H ef é dada por m = tanhβh ef (35) 6
7 Como H ef = H + Jzm, então m = tanhβ(h + Jzm) (36) que é uma equação implicita em m. A solução m(t,h) dará a magnetização m como função de T e H. Vamos resolver a equação acima para o casoem que H vai z zero. Nesse caso temos a seguinte equação m = tanhβjzm (37) Uma solução trivial é m = 0. Entretanto, podem existir outras soluções. Definindo a variável x = βjm temos kt x = tanhx (38) Jz Colocando num gráfico ambos os membros da equação como funções de x, vemos que as soluções da equação acima são dadas pelo ponto de intersecção entre a reta ktx/jz e a tangente hiperbólica. Além da origem a reta cruza a tangente hiperbólica em outros dois pontos caso a inclinação da reta seja inferior à inclinação da tangente hiperbólica na origem, ou seja caso Definindo a temperatura crítica T c por kt Jz < 1 (39) kt c Jz = 1 (40) vemos que haverá magnetização espontânea quando T < T c. Quando T > T c só haverá a solução m = 0 e o sistema será paramagnético. Para obter o comportamento de m próximo ao ponto crítico expandimos o lado direito da equação até termos de ordem m 3 pois m é pequeno ao redor de T c. Assim m = βjzm 1 3 (βjz)3 m 3 (41) Eliminando a solução m = 0 e tendo em vista que T T c, isto é, que βjz 1, obtemos m 2 = 3(1 T T c ) (42) 7
8 Logo m = ( 3 1 T ) 1/2 (43) T c Invertendo a equação (36) obtemos H = kt 2 ln 1 + m Jzm (44) 1 m de onde podemos obter o inverso da susceptibilidade χ 1 = H/ M dado por χ 1 = kt 1 m Jz = k[ T 2 1 m T c] (45) 2 Para T > T c temos m 0 e então χ 1 = kt Jz ou seja χ = 1 kt Jz = 1 k(t T c ) (46) que é a lei de Curie. Para T < T c, substituímos a expressão (42) para m 2 em (45) para obter o comportamento de χ logo abaixo de T c que é dado por χ = 1 2k(T c T) (47) Vemos pois que a susceptibilidade diverge no ponto crítico da mesma forma isto é de forma proporcional a (T T c ) 1. 8
9 Exercícios - 8 1) Determine a função de partição para o caso de um modelo unidimensional em que cada sítio existte uma variável de spin σ i que toma três valores 1, 0 e +1. A energia de interação entre dois sítios vizinhos é dada por ǫδ(σ i,σ j ), onde ǫ > 0. Isto é, a energia é ǫ quando ambos os sítios estão no mesmo estado e zero em caso contrário. 9
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