Aspectos da vida e da obra de Marx e Engels

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1 A questão de saber se ao pensamento humano pertence a verdade objetiva não é uma questão da Aspectos da vida e da obra de Marx e Engels Sandra M.M. Siqueira Francisco Pereira teoria, mas uma questão prática. É na praxe que o ser humano tem de comprovar a verdade, isto é, a realidade e o poder, o caráter terreno do seu pensamento. A disputa sobre a realidade ou não realidade de um pensamento que se isola da praxe é questão puramente escolástica Os filósofos só interpretaram o mundo de diferentes maneiras, do que se trata é de transformá-lo (Marx, Teses sobre Feuerbach)

2 Aspectos da vida e da obra de Marx e Engels Sandra M. M. Siqueira e Francisco Pereira Lemarx, Dedicatória Aos marxistas revolucionários.

3 I - INTRODUÇÃO SUMÁRIO I Introdução II Encontro para uma obra comum III Os jovens hegelianos e a Gazeta Renana IV O movimento socialista e o materialismo histórico V - A militância revolucionária e a crítia da socieade burguesa VI O exílio em Londres e a publicação da obra magna VII A fundação da Primeira Internacional VIII A morte de Marx e a atividade científica de Engels Conclusão Bibliografia No presente texto disponibilizamos uma síntese dos aspectos mais importantes da vida e da obra de Karl Marx e Friedrich Engels, para os leitores interessados no estudo do marxismo. O estudo foi realizado a partir da obra e do contexto histórico em que viveram os fundadores do marxismo e de textos publicados sobre os dois pensadores, remetendo os leitores particularmente às fontes e aos textos de Marx e Engels. Trata-se de uma versão ligeiramente modificada de um texto produzido para o Curso de Introdução ao Marxismo promovido pelo Laboratório de Estudos e Pesquisas Marxistas (LeMarx), sediado na Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia (FACED/UFBA), publicado pela primeira vez no site do mesmo grupo, intitulado Marx e Engels: aspectos da vida e da obra dos fundadores do marxismo. Em virtude da riqueza de acontecimentos da vida revolucionária e intelectual dos dois pensadores, muita coisa relevante foi preterida. O leitor pode, no entanto, aprofundar os conhecimentos fazendo o estudo das biografias existentes e de obras especializadas sobre os detales do pensamento marxista. Por último, o marxismo é uma concepção de história e de sociedade articulada à luta de classe do proletariado e demais explorados pela superação do capitalismo e constituição do socialismo. Eis o sentido desse texto.

4 II ENCONTRO PARA UMA OBRA COMUM Marx nasceu em 5 de maio de 1818 em Trier, na Alemanha, e morreu em 14 de março de 1883, em Londres; Engels nasceu em 28 de novembro de 1820 em Barmen, na Alemanha, faleceu em 5 de agosto de 1895, em Londres, Inglaterra. 1 Marx era filho de um advogado judeu, de nome Heinrich Marx, convertido ao protestantismo e adepto de idéias liberais e democráticas, e de Enriqueta Pressburg. A casa de Marx se tornou um ambiente de discussão em torno de teóricos iluministas e liberais, como Voltaire e Rousseau. Engels, de outro lado, era filho de um rico industrial do ramo têxtil, também chamado Friedrich Engels e de Elizabeth Franziska Mauritia van Haar. De família 1 Quanto aos aspectos biográficos existem bons livros que retratam a vida e a obra dos dois revolucionários, em sua ligação com a luta social. Entre os autores, podemos citar: LÊNIN, V. I. As Três Fontes. São Paulo: Expressão Popular, 2006; TROTSKY, Leon. O pensamento vivo de Karl Marx. São Paulo: Ensaio, 1990; RIAZANOV, David. Marx e Engels e a história do movimento operário. São Paulo: LPM,1990; KAUTSKY, Karl. As Três Fontes do Marxismo. São Paulo: Centauro, 2002; HOFMANN, Werner. A História do pensamento do movimento social nos séculos XIX e XX. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984; BEER, Max. História do Socialismo e das lutas sociais. São Paulo: Expressão Popular, 2006; HOBSBAWM, Eric (org.). História do Marxismo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985; MANDEL, Ernest. A formação do pensamento econômico de Karl Marx (de 1843 até a redação de O Capital). Rio de Janeiro: Zahar, 1968; FREDERICO, Celso. O Jovem Marx: as origens da ontologia do ser social. São Paulo: Cortez, 1995; LÖWY, Michael. A Teoria da Revolução no Jovem Marx. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002; MACLELLAN, David. Karl Marx: vida e pensamento. Petrópolis: Vozes, 1990; LUKÁCS, Georg. O Jovem Marx e Outros Textos Filosóficos. Rio de Janeiro: UFRJ, 2007; COGGIOLA, Osvaldo. Engels: o segundo violino. São Paulo: Xamã, 1995; BOTTOMORE, Tom (org.). Dicionário do Pensamento Marxista. Rio de Janeiro: Zahar, religiosa e conservadora, teve em seu seio uma formação calvinista. Marx e Engels chegaram ao mesmo referencial por caminhos bem particulares. Marx finalizou o ginásio em Trier, sua cidade de origem. Aos 17 anos, ingressou na Universidade de Bonn, onde cursou inicialmente Direito, transferindo-se em seguida para a Universidade de Berlim, concluindo seus estudos em Filosofia. Doutorou-se em 1841, em filosofia, na Universidade de Iena, com a apresentação de uma tese sobre os filósofos materialistas da antiguidade, Demócrito e Epicuro. Engels, por sua vez, cursou o ginásio em Elberfeld. Educado para suceder o pai nos negócios, mostrou desde cedo dotes literários na escola, sendo influenciado inicialmente pelos liberais democráticos. Chegou a freqüentar a Universidade de Berlim apenas como ouvinte. Em 1841, uniu-se ao círculo jovem-hegeliano e destacou-se na crítica da filosofia conservadora de Schelling, um teórico opositor das idéias de Hegel. Por influência de Moses Hess, revolucionário alemão, Engels se tornou comunista mais cedo que Marx. O primeiro encontro entre Marx e Engels se deu na época em que Marx era ainda redator da Gazeta Renana, em 1842, quando Engels se achava de passagem para a Inglaterra. Encontrando-se em Paris em 1844, comunistas assumidos, Marx e Engels travaram um profundo debate sobre suas idéias e posições

5 políticas, tomando consciência das conclusões teóricas a que haviam chegado, a partir de suas experiências e estudos filosóficos e científicos. A síntese de seus estudos históricos, econômicos, sociais, políticos e culturais, em meio ao contato com o movimento operário, os haviam conduzido à concepção materialista da história, de base dialética. Diante disso, os dois pensadores socialistas colocaram firmemente a tarefa de produzir uma obra em comum de crítica aos jovens hegelianos, grupo que haviam integrado, expondo a nova concepção de história, de sociedade e dos indivíduos. É o início de uma longa, tortuosa e profícua vida teórica e prática revolucionária, que findaria apenas com a morte de Marx, em 1883, trajetória esta que forneceu à humanidade e à classe operária em particular, um faboloso e atual instrumento para a luta de classes e para a compreensão da sociedade capitalista e suas contradições, cujo aprofundamento revela a necessidade da luta por sua superação, isto é, pelo socialismo. Vejamos os principais fatos de sua vida revolucionária e as obras que produziram. III OS JOVENS HEGELIANOS E A GAZETA RENA- NA Na Carta ao pai (1837), uma das únicas preservadas, Marx apresenta um balanço de seu desenvolvimento intelectual no primeiro ano na Universidade de Berlim. Como era característico do futuro revolucionário, para passar a um novo patamar intelectual, realizava uma avaliação crítica de seu passado teórico e de sua experiência política. Marx diz no texto: Há momentos na vida que, tais quais marcas fronteiriças, colocam-se diante de um período concluído, porém, ao mesmo tempo, com determinação, para uma nova direção. 2 Trata-se, portanto, de um relato sobre encontro inicial de um jovem com as idéias de grandes pensadores como Kant e Fichte, suas debilidades, as leituras que fazia de poetas e filósofos e a necessidade de superar sua primeira orientação filosófica a partir do novo patamar teórico que havia alcançado, ou seja, o sistema hegeliano. Marx expressa já a influência de Hegel, ao dizer que, para além do formalismo kantiano, que fazia uma clivagem entre o real e o ideal (ser e dever ser), era preciso investigar as idéias na realidade mesma, em seu movimento, em suas contradições, em seu devir. 2 A carta pode ser encontrada em Os textos da juventude de Marx e Engels foram publicados em: MARX, Carlos. Escritos de Juventude. México: Fundo de Cultura Econômica, 1987.

6 A carta expressa também seu encontro tortuoso com o pensamento de Hegel e com o Clube de Doutores (Doctorclub), a ala esquerda do pensamento hegeliano, do qual faziam parte Bruno Bauer, Karl Köppen, Adolf Rutenberg, Edgar Bauer, Ludwig Buhl, Karl Nauwerk e Max Stirner. É o início de uma complexa, crítica e autocrítica relação com o pensamento hegeliano. No ano de 1841, Marx apresentou a tese de doutoramento intitulada Diferença entre as filosofias da Natureza em Demócrito e Epicuro à Universidade de Iena, na Alemanha, recebendo o título de Doutor. É a última presença de Marx na academia. Suas esperanças de se tornar professor universitário se dissiparam quando a reação monárquica prussiana expulsou Bruno Bauer da cátedra de Teologia da Universidade de Bonn. Em sua tese, Marx desenvolve uma análise criativa e única dos filósofos materialistas da antiguidade e suas importantes contribuições para o desenvolvimento filosófico e científico. Critica os jovens hegelianos por não manterem uma atitude crítica e autocrítica em relação ao mestre Hegel. 3 Marx se dedica ao jornalismo nos anos de e colabora com a Rheinische Zeitung (Gazeta Renana), um jornal da burguesia liberal editao em Colônia, que tinha como horizonte a 3 Há as seguintes publicações em português: MARX, Karl. Diferença entre as Filosofias da Natureza em Demócrito e Epicuro. Lisboa: Presença, Há uma edição brasileira: MARX, Karl. Diferença entre as Filosofias da Natureza em Demócrito e Epicuro. São Paulo: Global, defesa das idéias democráticas, de mudanças políticas e de reforma do Estado. Marx se torna redator do jornal, atraindo com suas idéias e posições a atenção da censura monárquica. Nele, Marx publica textos decisivos na sua trajetória intelectual, que expressam o contato com questões sociais, econômicas e políticas, como a criminalização de um antigo costume camponês de recolher lenha nas florestas comunais por conta do avanço da propriedade privada, a situação de miséria dos vinhateiros do Mosela, os ataques à liberdade de imprensa pelo governo monárquico, entre outros. Na Gazeta Renana, Marx publica, entre outros textos, O Manifesto Filosófico da Escola Histórica do Direito, Debates acerca da Lei sobre o Furto de Madeira e Sobre a Liberdade de Imprensa. 4 Aqui, Marx é obrigado a dar respostas a problemas políticos, sociais e jurídicos, mas ainda com o arsenal categorial e teórico que tinha chegado, qual seja o idealismo hegelino, daí Marx combater o direito positivo estatal (injusto) com a ideia de um direito justo, dos camponeses pobres, para ele o verdadeiro direito. 4 Alguns destes textos podem ser lidos em: O texto sobre A liberdade de imprensa foi publicado em português em: MARX, Karl. A liberdade de imprensa. Porto Alegre: L&PM, 2006 e Notas sobre as recentes instruções prussianas relativos à censura. In: MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. Sobre literatura e arte. São Paulo: Global, Os textos da juventude de Marx e Engels foram publicados em: MARX, Carlos. Escritos de Juventude. México: Fundo de Cultura Econômica, 1987.

7 A influência hegeliana fica patente na seguinte passagem da crítica de Marx ao prolema da censura à liberdade de imprensa pela monarquia: Desde o ponto de vista da ideia, é evidente que a liberdade de imprensa tem uma justificativa completamente diferente da censura, já que a primeira é em si mesma um aspecto da Ideia, da liberdade, um bem positivo; a censura é apenas um aspecto da falta de liberdade, uma polêmica entre o ponto de vista da semelhança e o ponto de vista da essência, uma mera negação. E arremata: Uma lei da censura tem apenas a forma de lei. Uma lei da imprensa é uma verdadeira lei. Uma lei de imprensa é uma lei verdadeira porque é a essência positiva da liberdade. É também durante este período que Marx é forçado, pela primeira vez, a tomar posição sobre as idéias socialistas, pressionado por um jornal de direita. Em resposta, Marx conclui sobre a necessidade de estudar as idéias socialistas para poder manifestar-se sobre elas. Nas palavras do próprio Marx: confessei francamente que os meus estudos feitos até então não me permitiam ousar qualquer julgamento sobre o conteúdo das correntes francesas. Por conta da censura, Marx deixa a Gazeta Renana em 1843, casa-se com Jenny von Westphalen e vai para Kreuznach. Como disse certa vez, se retirou do cenário público para o gabinete de estudos. Dedica-se à crítica do pensamento de Hegel, em especial sobre o direito e o Estado. O produto deste acerto de contas com as idéias hegelianas é o Manuscrito de Kreuznach, também chamado de Crítica à Filosofia do Direito de Hegel ou Crítica da Teoria do Estado de Hegel, só publicada em 1927 pelo historiador marxista David Riazanov, na União Soviética. 5 Nele, Marx se mostra do ponto de vista de suas posições políticas um verdadeiro democrata radical, sendo do ponto de vista filosófico influenciado pelo materialismo humanista de Ludwig Feuerbach, que havia realizado uma crítica materialista da filosofia hegeliana. Com base no materialismo feuerbachiano, Marx realiza uma crítica à lógica idealista hegeliana, que, no fundo, abria brechas à legitimação da monarquia. Era preciso extrair o núcleo revolucionário da dialética hegeliana. Marx defende idéias radicais para a época como a soberania popular, se opõe à monarquia e cita passagens que se tornaram célebres como: A democracia é o enigma resolvido de todas as constituições, O homem não existe em razão da lei, mas a 5 O texto foi publicado em português: MARX, Karl. Contribuição à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. São Paulo: Boitempo, 2005.

8 lei existe em razão do homem e não é a constituição que cria o povo, mas o povo que cria a constituição. Nosso filósofo, ao reexaminar criticamente a obra do seu antigo mestre, Hegel, encontra o seu próprio objeto de estudo: a sociedade. No ano seguinte, iniciará o estudo da anatomia da sociedade burguesa: a economia política. IV O MOVIMENTO SOCIALISTA E O MATERIALIS- MO HISTÓRICO No final de 1843, Marx viaja a Paris, à época o centro das idéias e movimentos socialistas. Estuda a história da Revolução Francesa, de 1789, as idéias socialistas e os teóricos da economia política. Conhece socialistas como Proudhon e Bakunin e entra em contato com a Liga dos Justos, fundada por Weitling, um emigrado socialista alemão. Funda a revista Anais Franco-Alemães(Deutsch-Franzosische Jahrbucher), junto com Arnold Ruge. No único número, que saiu em fevereiro de 1844, Marx publicou A questão judaica e a Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. Nesta mesma edição dos Anais Franco-Alemães, Friedrich Engels também publicou o texto Esboço de uma Crítica da Economia Política, que causou uma profunda e simpática impressão no jovem Marx. Na Questão Judaica, Marx, apesar de reconhecer o caráter progressivo da emancipação política burguesia, ela se limitava à ser sujeito de direitos e obrigações no âmbito de uma socieade dilacerada pelas desigualdades sociais e econômicas, a sociedade capitalista. Assim, contrapõe a emancipação humana à chamada emancipação política limitada à sociedade burguesa: emancipação política é a redução do homem, por um lado, a

9 membro da sociedade civil, indivíduo independente e egoísta e, por outro, a cidadão, a pessoa moral. Conclui que só será plena a emancipação humana quando o homem real e individual tiver em si o cidadão abstrato; quando como homem individual, na sua vida empírica, no trabalho e nas suas relações individuais, se tiver tornado um ser genérico; e quando tiver reconhecido e organizado as suas próprias forças (forces propres) como forças sociais, de maneira a nunca mais separar de si esta força social como força política. Na Introdução à crítica do direito de Hegel, Marx reconhece a classe revolucionária no capitalismo, capaz de levar até às últimas consequências a luta pela superação do capitalismo. Porém, trata-se de visão ainda filosófica da classe operária. Segundo Marx, da mesma forma como a filosofia identifica as armas materiais no proletariado, o proletariado tem as suas armas intelectuais na filosofia. Engels, por sua vez, destaca em seu Esboço de uma crítica da economia política, que a livre concorrência na sociedade capitalista leva à constituição de monopólios e que a capacidade de produção adquirida pelo capitalismo, em razão da revolução nas forças produtivas, pela industrialização e introdução das máquinas modernas engendra a superprodução, ou seja, a possibilidade concreta de crises econômicas profundas. Em suas críticas às contradições da sociedade burguesa, Engels destaca ainda os mais fortes argumentos econômicos para a transformação social (...). a propriedade privada faz do homem uma mercadoria, cuja produção e destruição dependem, também elas, apenas da concorrência, e que o sistema concorrencial massacrou deste modo, e massacra, diariamente milhões de homens; vimos tudo isto e tudo isto nos leva a suprimir este aviltamento da humanidade ao suprimir a propriedade privada, a concorrência e os interesses antagônicos. E conclui: a concorrência coloca capital contra capital, trabalho contra trabalho (...), como também cada um destes elementos contra os restantes, lançando o homem em estado de profunda degradação (Idem:76/77) Os textos de 1844, de Marx e Engels, A Questão Judaica, Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, Manuscritos Econômico-Filosóficos; Glosas Críticas Marginais ao Artigo O Rei da Prússia e a Reforma Social de um Prussiano representam um avanço em suas concepções filosóficas, políticas e econômicas. Neles, Marx realiza uma crítica da cidadania burguesa limitada e defende a perspectiva da emancipação humana. Marx assume-se definitivamente socialista e revolucionário e, filosoficamente, encontra-se com o sujeito revolucionário da época atual: o proletariado. Estuda os economistas burgueses, aprofunda sua visão da sociedade capitalista, da propriedade pri-

10 vada e da alienação. Expõe a sua primeira abordagem do comunismo nos Manuscritos Econômico-Filosóficos. Para Marx, o trabalhador se torna tanto mais pobre quanto mais riqueza produz, quanto mais a sua produção aumenta em poder e extensão. O trabalhador se torna uma mercadoria tão mais barata quanto mais mercadorias cria. Com a valorização do mundo das coisas (Sachenwelt) aumenta em proporção direta a desvalorização do mundo dos homens (Menschenwelt). O trabalho não produz somente mercadorias; ele produz a si mesmo e ao trabalhador como uma mercadoria, e isto na medida em que produz, de fato, mercadorias em geral. Comunista assumido, Marx expõe a sua visão: O comunismo é a posição como negação da negação, e por isso o momento efetivo necessário da emancipação e da recuperação humanas para o próximo desenvolvimento histórico. O comunismo é a figura necessária e o princípio energético do futuro próximo, mas o comunismo não é, como tal, o termo do desenvolvimento humano a figura da sociedade humana. Expulso de Paris em 1845, por pressão do governo alemão, Marx viaja a Bruxelas (Bélgica), onde se encontra com Engels. Publicam sua primeira obra conjunta: A Sagrada Família, que haviam terminado em novembro de Neste texto, os dois revolucionários realizam uma crítica mordaz dos jovens hegelianos, em especial aos irmãos Bruno e Edgar Bauer, defendendo o materialismo contra o idealismo. Apesar de ainda defender Feurbach contra os jovens hegelianos, Marx e Engels já defender uma concepção materialista mais aperfeiçoada. 6 O afastamento definitivo do materialismo humanista de Feuerbach se dará ainda em 1845, quando Marx redige as Teses sobre Feuerbach, publicadas postumamente por Engels em Nas famosas teses Marx faz uma síntese das idéias que começará a desenvolver, junto com Engels, em A Ideologia Alemã, no transcurso do mesmo ano até É, como dissemos, a primeira crítica aberta a Feuerbach, em cujas idéias Marx se baseou desde a crítica de Hegel em 1843 e com as quais produziu os textos de Há passagens memoráveis como Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo ; Mas, a essência humana não é uma abstração inerente a cada indivíduo. Na sua realidade ela é o conjunto das relações sociais ; A doutrina materialista de que os seres humanos são produtos das circunstâncias e da educação, [de que] se- 6 Parte dos textos pode ser encontrada em: Há publicação em português de: MARX. Karl. Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. In:Contribuição à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. São Paulo: Boitempo, 2005; MARX, Karl. A Questão Judaica. São Paulo, Centauro: 2002; MARX, Karl. Sobre a questão judaica. São Paulo: Boitempo, 2010; ENGENS, Friedrich. Esboço de uma crítica da economia política. In: ENGELS, Friedrich. Política. São Paulo: Ática, 1981; MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo, Boitempo, 2006; MARX, Karl. Glosas críticas marginais ao artigo O rei da Prússia e a reforma social de um prussiano. São Paulo: Expressão Popular, 2010; MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. A sagrada família. São Paulo: Boitempo, 2003.

11 res humanos transformados são, portanto, produtos de outras circunstâncias e de uma educação mudada, esquece que as circunstâncias são transformadas precisamente pelos seres humanos e que o educador tem ele próprio de ser educado ; A questão de saber se ao pensamento humano pertence a verdade objetiva não é uma questão da teoria, mas uma questão prática. É na praxe que o ser humano tem de comprovar a verdade, isto é, a realidade e o poder, o caráter terreno do seu pensamento. A disputa sobre a realidade ou não realidade de um pensamento que se isola da praxe é uma questão puramente escolástica. 7 Em 1844, Engels escreveu uma obra magistral: A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, publicada em 1845, uma análise contundente das raízes da sociedade capitalista, da industrialização, das condições de miséria e opressão da classe trabalhadora, de suas primeiras formas de organizações e lutas, enfim o jovem revolucionário denuncia a profunda exploração a que eram submetidos os operários. 8 Engels tem ciência sobre a necessidade do trabalhador sair dessa situação que os embrutece, criar para si uma existência melhor e mais humana e, para isso, devem lutar contra os interesses da burguesia enquanto tal, que consistem precisamente 7 MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. Teses sobre Feuerbach. In: A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, Pode ser encontrado em: 8 ENGELS, Friedrich. A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra. São Paulo, Boitempo, na exploração dos operários. Mas a burguesia defende seus interesses com todas as forças que pode mobilizar, por meio da propriedade e por meio do poder estatal que está à sua disposição. A partir do momento em que o operário procura escapar ao atual estado de coisas, o burguês torna-se seu inimigo declarado. Por essa época Marx também redigiu um texto chamado Carta a Pável V. Annenkov, em que sintetiza a nova concepção de mundo a partir de uma crítica às posições de Proudhon. 9 Em Bruxelas, Marx e Engels levam à frente o projeto da unidade entre teoria e prática revolucionária, organizando um Comitê de Correspondência, com o objetivo de socializar as idéias e lutas comunistas, aproximando os revolucionários e as organizações. Entre 1845 e 1846, concluem o manuscrito de A Ideologia Alemã, que não seria publicado por dificuldades editoriais, permanecendo inédito até 1932, quando foi publicado na Rússia. É o acerto de contas final com a sua consciência filosófica anterior, o hegelianismo e os jovens hegelianos. Trata-se da primeira e mais extensa, profunda e densa crítica dos dois socialistas à filosofia idealista e a exposição da concepção materialista da história, que desenvolverão nas obras posteriores A Carta a Pável V. Annenkol, de Marx, pode ser encontra em: Podemos encontrá-la também como anexo ao livro: MARX, Karl. Miséria da Filosofia: resposta à filosofia da miséria do senhor Proudhon. São Paulo: Centauro, O texto por completo foi publicado em: MARX, Karl. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2002.

12 Desde a antiguidade greco-romana, os pensadores se dividiam em duas concepções fundamentais: materialismo e idealismo filosófico. É possível encontrar as teses iniciais do materialismo filosóficos nos chamados físicos como, por exemplo, Demócrito e Epicuro. Por outro lado, a filosofia idealista encontrará na antiguidade a sua mais acabada expressão na obra do filosófo Platão. Desde então, essas duas correntes opostas de pensamento e de explicação da relação entre as ideias e a matéria vem se desenvolvendo e se expressando nas teses dos diferentes pensadores. Não é diferente em nosso século, basta verificar as concepções reinantes, em aberta contraposição ao marxismo e à luta dos explorados na atualidade. O materialismo histórico, que tem a sua base filosófica na corrente materialista, de base dialética, parte da perspectiva, empiricamente observável e historicamente demonstrada, da anterioridade da matéria (inorgânica e orgânica) sobre as idéias e a consciência. Trata-se de um fato já demonstrado pelas ciências que estudam o passado da humanidade (paleontologia, arqueologia, história) e do universo (física). A natureza inorgânica, durante bilhões de anos, e, mesmo a orgânica (animais e plantas), existiu antes do advento dos primeiros humanos e continuará a existir mesmo se a humanidade for exterminada. Somente em determinadas condições históricas é que a consciência começou a se desenvolver, sob a base da matéria altamente evoluída (o cérebro) até chegar ao estágio atual. A consciência é, portanto, um estágio superior de desenvolvimento da matéria e só pode existir sob esta base material. Eis um dos motivos pelos quais o materialismo é inconciliável com as diversas concepções idealistas, que se apegam ao princípio da anterioridade das ideias e da consciência sobre a matéria, posição evidentemente sem qualquer base histórica. As concepções idealistas, desde a platônica até as mais recentes, no fundo se casam com as concepções religiosas, de modo que a idéia primeira se confunde com a própria idéia de um ser sobrenatural, superior e anterior ao mundo, que o teria criado, segundo um plano pré-estabelecido, em que o destino dos homens se encontra previamente traçado e contra o qual é impossível lutar e transformar radicalmente. Mas quando não se trata do materialismo marxista, devemos deixar claro que difere do materialismo mecânico do século XVIII. O materialismo de Marx é histórico e dialético. Ao analisar a história e estender a aplicação da filosofia materialista ao estudo do desenvolvimento das formações econômico-sociais, Marx parte da materialidade sócio-histórica: as condições de produção e reprodução da vida social.

13 Na síntese de Marx e Engels: Não é a consciência que determina a vida, mas sim a vida que determina a consciência. Na primeira forma de considerar as coisas, partimos da consciência como sendo o indivíduo vivo; na segunda, que corresponde à vida real, partimos dos próprios indivíduos reais e vivos, e consideramos a consciência unicamente como a sua consciência. O trabalho é a atividade que faz a mediação entre os homens e a natureza na produção das condições materiais, isto é, econômico-sociais, necessárias à existência da vida em sociedade. Nenhuma sociedade é possível sem o trabalho, sem a relação metabólica do homem com a natureza. Mais trabalho ou menos trabalho, explorado ou associado, mas sempre o trabalho será, como diz Marx, a eterna relação do homem com a natureza para produzir os meios de produção e de subsistência. Mesmo a sociedade mais evoluída (comunista) terá como base o trabalho associado, livre, coletivo e destinado a atender as necessidades sociais, estando todo o processo de trabalho sob o controle dos produtores organizados. Desta forma, no processo histórico, os homens estabelecem entre si relações de produção, de cooperação ou de exploração, que se expressam nas relações de propriedade. Ao longo da história, os homens passaram por diversas formações socioeconômicas, cada uma com determinadas formas de trabalho. São estas condições socioeconômicas, ao longo da história, que constituem a base sobre a qual se constroem determinadas formas de consciência social (arte, filosofia, religião, ciência, direito, entre outras) e as instituições jurídico-políticas (Estado). Para os dois revolucionários, estrutura social e o Estado nascem continuamente do processo vital de indivíduos determinados; mas desses indivíduos não tais como aparecem nas representações que fazem de si mesmos ou nas representações que os outros fazem deles, mas na sua existência real, isto é, tais como trabalham e produzem materialmente; portanto, do modo como atual em bases, condições e limites materiais determinados e independentes de sua vontade. A produção das ideias, das representações e da consciência está, a princípio, direta e intimamente ligada à atividade material e ao comércio material dos homens; ela é a linguagem da vida real. As representações, o pensamento, o comércio intelectual dos homens aparecem aqui ainda como a emanação direta de seu comportamento material. O mesmo acontece com a produção intelectual tal como se apresenta na linguagem da política, na das leis, da moral, da religião, da metafísica etc. de todo um povo. São os homens que produzem suas representações, suas ideias etc., mas os homens reais, atuantes, tais como são condicionados por um determinado desenvolvimento de suas forças produtivas e das relações que a elas correspondem, inclusive as mais amplas formas que estas podem tomar

14 A formação social tem como base um determinado modo de produção e de troca dominante. Isto significa que numa mesma formação social permanecem resquícios de relações sociais anteriores. Na sociedade burguesa, baseada na indústria e na exploração do trabalho assalariado pelo capital, observa-se a permanência de relações sociais pré-capitalistas, particularmente nos países capitalistas mais atrasados. Entretanto, na sociedade burguesa, o modo de produção capitalista é o dominante e tende mesmo a se expandir gradualmente, mercantilizando as relações sociais e colocando-as sob o controle do capital. O modo de produção é uma articulação de forças produtivas (força de trabalho, ferramentas, instalações etc.) e relações de produção (se expressam nas relações de propriedade). As relações de produção podem desenvolver ou obstaculizar o avanço das forças produtivas. Enquanto foi possível expandir as relações mercantis, sob a base da propriedade privada, as relações de produção capitalistas incentivaram o desenvolvimento da ciência e da técnica, aplicando-as ao processo produtivo, aumentando a produtividade do trabalho, incrementando a quantidade e qualidade das mercadorias, diminuindo o tempo de trabalho socialmente necessário para produzi-las. Hoje, quando os mercados estão partilhados entre as potências, o emprego limitado da técnica na produção é acompanhado do desemprego crônico e de crises de superprodução, quase permanentes e cada vez mais profundas. As relações de produção capitalistas tornaram-se um estorvo ao desenvolvimento da ciência e da técnica e a sua aplicabilidade para resolver os problemas da humanidade. Quando isto ocorre, diz Marx, abre-se uma época de revolução social. Desde o início do século XX, vivenciamos revoluções proletárias em vários países, como foi o exemplo histórico da Revolução Russa de 1917 e de diversos outros processos revolucionários vitoriosos ou não. Esta concepção materialista da história, desenvolvida por Marx e Engels, é a base segura para a compreensão do passado e do presente, abrindo perspectivas para a luta por novas relações sociais (socialismo). O período em que Marx e Engels desenvolverm mais exaustivamente o materialismo histórico é ao mesmo tempo um momento de acerto de contas com outros socialistas como Joseph Proudhon e Weitling. Na Carta a Annenkov, Marx critica a obra de Proudhon, denominada Filosofia da Miséria. É o fim de uma simpatia que nutria por Proudhon, em particular por sua obra O Que é a Propriedade?. Marx demonstra o caráter reformista das teses de Proudhon, que sequer arranhavam as relações de produção capitalista, e, por conseqüência, seu apego aos ideais burgueses abstratos (liberdade, igualdade), transmutando-os para a sua

15 análise da sociedade burguesa. Portanto, é um momento de diferenciação com as demais correntes filosófico-políticas do movimento operário. V A MILITÂNCIA REVOLUCIONÁRIA E A CRÍTICA DA SOCIEDADE BURGUESA Finalmente, em 1847, Marx e Engels se integram à Liga dos Justos, uma organização que evolui para o comunismo e que se torna, por influência de Marx, a Liga dos Comunistas, inscrevendo em seu estatuto a luta pelo fim da propriedade privada. Além do trabalho na Liga dos Comunistas, Marx e Engels fundam uma Associação de Operários em Bruxelas. Neste ano, Marx continua a sua crítica de maneira mais acabada às idéias de Proudhon, numa obra denominada A Miséria da Filosofia, em oposição à Filosofia da Miséria. Mostra as fraquezas das teorias de Proudhon e sua adaptação às relações de produção burguesas. Como se disse mais acima, Proudhon havia se conduzido de uma postura inicialmente revolucionária para uma concepção reformista da transfoirmação social. O Proudhon de Filosofia da Miséria, que Marx tanto admirava, já se encontrava muito distante daquele de O que é a propriedade?. Enquanto o primeiro criticava ardorosamente a propriedade privada, a exploração da força de trabalho e os males sociais do capitalismo, o segundo esboço um programa reformista e adaptado à pequena burguesia, defendendo idéias como o Banco Popular, que, segundo supunha, daria crédito sem juros aos

16 trabalhadores. Ainda em 1849, a experiência de fundação de um Banco Popular por Proudhon findaria fracassada. Marx antecipa o fracasso das teorias reformista de Proudhon em seu livro de polêmica com o pensador francês, mas aproveita a ocasião para expor de uma forma mais penetrante a teoria materialista da história, a partir de uma análise dos teóricos da economia, consolidando, numa síntese concreta do desenvolvimento econômico-social, as aquisições teóricas anteriores. 11 Ainda em 1847, Marx e Engels foram encarregados no primeiro Congresso da Liga dos Comunistas de redigir um manifesto sobre o programa e as idéias da organização comunista. Engels elabora um documento em forma de perguntas e respostas intitulado Princípios do Comunismo. Com base nele, Marx e Engels escrevem o Manifesto do Partido Comunista, por ocasição do caldeirão da luta de classes na Europa. O texto só foi publicado em fevereiro de 1848, quando explodiu a Revolução de Na França, por força dos acontecimentos revolucionários, a monarquia foi derrubada e proclamada a República. Os operários demonstraram a força e o vigor apresentando suas próprias reivindicações, diferenciando-se claramente da 11 Os textos podem ser encontrados, em parte, no site: Há publicação em português: MARX, Karl. A Miséria da Filosofia. São Paulo: Centauro, burguesia. A classe dominante reagiu à luta operária com repressão, processos, exílios e expurgos. Expulso de Bruxelas, Marx retorna a Paris e em seguida à Alemanha, organizando, com Engels, em Colônia, a revista Neue Rheinische Zeitung. Participam ativamente das lutas políticas, dirigindo a associação operária de Colônia e a resistência operária em Elberfeld. O Manifesto Comunista de 1848 é um marco na história do pensamento da humanidade, constituindo uma síntese do desenvolvimento histórico da sociedade burguesa e de suas contradições. Expressa o contexto revolucionária da época em que foi produzido, antecipa as tendências políticas do movimento socialista e assenta o programa dos comunistas no movimento operário. Logo na começo do documento, nossos autores argumentam: Um espectro ronda a Europa o espectro do comunismo. Todas as potências da velha Europa unem-se numa Santa Aliança para conjurá-lo: o papa e o czar, Metternich e Guizot, os radicais da França e os policiais da Alemanha. A aversão às idéias comunistas era uma prova clara de que: 1º: O comunismo já é reconhecido como força por todas as potências da Europa; 2º: É tempo de os comunistas exporem, abertamente, ao mundo inteiro, seu modo de ver, seus objetivos e suas tendências, opondo um manifesto do próprio partido à lenda do espectro do comunismo.

17 Porém, os fundadores do marxismo não apenas sintetizam o programa proletário. O Manifesto Comunista mostra que todas as formações econômico-sociais, com exceção das sociedades comunistas primitivas, foram marcadas pela divisão em classes sociais e, portanto, pela luta de classes em torno dos seus interesses materiais. Da sociedade escravista antiga, passando pelas sociedades feudais até a sociedade capitalista atual, a classe dominante procurou manter o seu poder na base da exploração da força de trabalho e na apropriação do excedente econômico produzido pelos trabalhadores, com os recursos existes, em particular o Estado e as suas instituições. Como nas sociedades classistas anteriores, a sociedade capitalista é marcada pela divisão em classes sociais distintas e antagônicas: sociedade burguesa moderna, que brotou das ruínas da sociedade feudal, não aboliu os antagonismos de classe. Não fez mais do que estabelecer novas classes, novas condições de opressão, novas formas de luta em lugar das que existiram no passado. O capitalismo foi, entre todas as formações econômico-sociais anteriores, o que mais desenvolveu as forças produtivas (a técnica e a organização do trabalho), com o processo de industrialização e exapansão do comércio em escala mundial. Durante séculos, as relações de produção burguesas, fundadas na propriedade privada dos meios de produção, garantiu o livre desenvolvimento das forças produtivas e a internacionalização da forma mercantil. A burguesia criou, como dizem Marx e Engels, o seu próprio coveiro. Não só criou forças produtivas para além das condições de absorção dos mercados, como as forças produtivas constituídas pela indústria moderna se chocam profundamente com as relações de produção baseadas na propriedade privada. Como dizem, A sociedade burguesa, com suas relações de produção e de troca, o regime burguês de propriedade, a sociedade burguesa moderna, que conjurou gigantecos meios de produção e de troca, assemelha-se ao feiticeiro que já não pode controlar os poderes infernais que invocou. Há dezenas de anos, a história da indústria e do comércio não é senão a história da revolta das forças produtivas modernas contra as modernas relações de produção, contra as relações de propriedade que condicionam a existência da burguesia e seu domínio. Basta mencionar as crises comerciais que, repetindo-se periodicamente, ameaçam cada vez mais a existência da sociedade burguesa. Cada crise, destrói regularmente não só uma grande massa de produtos fabricados, mas também uma grande parte das próprias forças produtivas já criadas. O resultado são as crises constantes e periódicas de produção, previstas por Marx e Engels no Manifesto, que acumularam ao longo do século XIX, e mais particulamente no século XX, os

18 elementos de uma crise maior, a chamada crise estrutural do capitalismo, como ocorre na atualidade. Para minimizar os efeitos catastróficos da crise capitalista, tendo em vista que não podem superá-las definitivamente, a burguesia, mostraram Marx e Engels, não só destrói forças produtivas excedentes, como explora ainda mais os mercados em disputa e a classe operária. No século XX, aliás, a burguesia não exitou em destruir conquistas históricas dos trabalhadores e, se falharem os intrumentos anteriores, provocar guerra regionais e mundiais. Fazendo uma análise histórica do capitalismo, Marx e Engels mostram que o comunismo não é uma utopia ou um ideal puramente moral, como acreditavam os socialistas anteriores, mas uma possibilidade aberta pelo desenvolvimento da sociedade burguesa atual, com o processo de industrialização, a articulação da economia mundial, o desenvolvimento da ciência e da técnica e o surgimento do proletariado, classe que produz a riqueza social, apropriada pelo capital sob a forma da mais-valia, que vive inteiramente de seu próprio trabalho e que não tem, portanto, interesse em manter a sua exploração social. Entretanto, a emancipação do proletariado deve ser realizada pelo próprio proletariado. Marx e Engels deixam patente a necessidade de organização política do proletariado em um partido de novo tipo, capaz de levar até as últimas conseqüências o processo de transformação social. Afirmam nossos auotores: A burguesia, porém, não se limitou a forjar as armas lhe trarão a morte; produziu também os homens que empunharão essas armas os operários modernos, os proletários. Com o desenvolvimento da burguesia, isto é, do capital, desenvolve-se também o proletariado, a classe dos oprários modernos, os quais só vivem enquanto têm trabalho e só têm trabalho enquanto seu trabalho aumenta o capital. Esse operários, constrangidos a vender-se a retalho, são mercadoria, artigo de comércio como qualquer outro; em consequência, estão sujeitos a todas as vicissitudes da concorrência, atodas as flutuações do mercado. O manifesto é uma obra, que, ainda hoje, representa uma fonte para os revolucionários, que lutam pela superação do capitalismo e a construção de uma sociedade socialista. Foi publicado em diversos idiomas. 12 No período seguinte, década de 1850, marcado pela derrota das lutas operárias e pela avassaladora contra-revolução burguesa na Europa, os revolucionários dos diversos países sofreram perseguição, repressão e condenações da justiça burguesa. Marx e Engels, por exemplo, são processados pela justiça alemã 12 Em português ver: MARX, Karl. O Manifesto Comunista. São Paulo: Boitempo, 2002.

19 por criticar as autoridades e participar da resistência política. São absolvidos no processo judicial de Colônia. São desse período as seguintes obras conjuntas ou individuais de Marx e Engels:Trabalho Assalariado e Capital (1849); As Lutas de Classes na França de 1848 a 1850 (1850); 18 Brumário de Luís Bonaparte (1852); Mensagem do Comitê Central à Liga dos Comunistas (1850); Carta a Joseph Weydemeyer (1852); Revolução e Contra-Revolução na Alemanha (1852); O Recente Julgamento de Colônia (1852). 13 Engels tiraram importantes conclusões históricas sobre o caráter contra-revolucionário da burguesia nos acontecimentos de 1848 em diante, o papel do operariado como classe revolucionária e a luta de classes como motor dos fatos históricos. Trabalho Assalariado e Capital foi produto de conferências de Marx aos operários, sendo que nele se faz uma análise das relações entre capital e trabalho no capitalismo. Na Mensagem do Comitê Central à Liga dos Comunistas, Marx expõe o caráter permanente da revolução socialista e alerta para o fato dos operários manterem a vigilância frente a burguesia e a pequena-burguesia, assegurando a sua independência de classe em todas as situações, não deixando que a revolução se esgote nas tarefas democráticas. Os escritos do período de 1849 a 1852, particularmente As Lutas de Classes na França e O 18 Brumário traçam um quadro histórico dos acontecimentos revolucionários, dos quais Marx e 13 Os textos podem ser encontrados em: Também há as seguintes publicações: MARX, Karl. Trabalho assalariado e capital. São Paulo: Global, 1987; MARX, Karl. As lutas de classes na França: São Paulo: Global, 1986; MARX, Karl. O 18 Brumário de e Cartas a Kugelmann. São Paulo: Paz e Terra, 1977.

20 VI O EXÍLIO EM LONDRES E A PUBLICAÇÃO DA OBRA MAGNA Marx continua suas atividades revolucionárias em Londres, onde passa a morar com a família, depois da derrota dos processos revolucionários de 1848 e do desencadeamento da contra-revolução burguesa em toda a Europa, de modo que, como revolucionário, colabora no apoio aos emigrados, reforçando a luta dos operários e de suas organizações. Passando por muitas privações financeiras, encontra apoio no amigo Engels. Durante um longo período, com a saúde agravada, Marx afasta-se temporariamente dos estudos de economia política, que só retomará progressivamente. Escreve para os periódicos New York Daily Tribune, Peoples`s Paper e Neue Oder-Zeitung, sobre diversos temas e fatos da época, tais como A Guerra da Criméia, Revolução Espanhola, a dominação britânica da Índia, China, Guerra Anglo-Persa e um ensaio sobre Símon Bolívar. Foram escritos nesta fase: A Dominação Britânica na Índia (1853); A Companhia das Índias Orientais (1853); A Revolução na China e na Europa (1853); Os Resultados Eventuais da Dominação Britânica na Índia (1853); A Guerra Anglo-Persa (1856); A Guerra contra a Pérsia (1857); Cartas a Friedrich Engels (1856), Simon Bolívar (1858) e, particularmente, os Grundrisse ( ). 14 Com o retorno aos estudos econômicos, Marx escreve entre 1857 e 1858 volumosos manuscritos preparatórios às suas obras posteriores de economia, que passaram a ser conhecidos como Grundrisse (fundamentos para a crítica da economia política), publicados pelo Instituto Marx-Engels de Moscou, em Esse manuscrito, realçamos, não publicado em vida por se tratar de apontamentos sobre seus estudos, teve uma grande influência nos debates marxistas no século XX e continuam a despertar a atenção de muitos estudiosos. De qualquer forma, é um texto fabuloso, que deve ser estudado por todos os marxistas, porque ele nos dá um quadro de como Marx desenvolvia suas pesquisas. É uma fonte valiosa para a questão do método. 15 Marx trabalhou resolutamente para a publicação de sua primeira grande obra econômica, Para a Crítica da Economia Política (1859). 16 Acumulou longos anos de estudo, desde a década 14 Os textos podem ser encontrados em 15 Uma parte do manuscrito, sobre as sociedades pré-capitalistas, foi publicada em português: MARX, Karl. Formações econômicas pré-capitalistas. Rio de Janeiro, Paz e Terra, O texto completo foi pubicado recentemente em português: MARX, Karl. Grundrisse. São Paulo, Boitempo, Os demais textos em: 16 O texto pode ser encontrado em: Publicação em português: MARX, Karl. Para a Crítica da Economia Política. São Paulo: Abril Cultural, 1982.

21 de 1840, quando iniciou as primeiras leituras dos economistas clássicos. A obra tão esperada foi adiada por vários anos, até que finalmente veio a lume. Numa linguagem rebuscada e difícil, a obra se tornou um fracasso editorial. Poucos compreenderam a complexa análise empreendida pelo gigante Marx. Os contornos fundamentais de sua teoria econômica estavam sedimentados, como o estudo da célula da sociedade capitalista, a mercadoria, e do dinheiro. Trata-se de uma obra ímpar na história da economia, mas pouco lida pelos próprios marxistas. Junto com os estudos econômicos, Marx dá continuidade à elaboração de artigos sobre problemas da conjuntura da época para o New York Daily Tribune e Das Volk. Entretanto, o primeiro livro de O Capital, a obra magna de Marx, só veio a lume em A partir da análise da forma mercadoria, que, como falamos, é a célula mais simples da sociedade burguesa, Marx realiza uma análise profunda da organização capitalista e de suas contradições sócioeconômicas. Para ele, o trabalho é a relação metabólica do homem com a natureza, a partir do qual se extraem os meios de produção e os meios de subsistência, indispensáveis à existência social. Portanto, a força de trabalho produz, em seu intercâmbio com a natureza, desde as sociedades mais simples às mais complexas, o conteúdo material da riqueza social. Desde que surgiram as sociedades classistas, a força de trabalho é explorada pela classe dominante. Na sociedade escravista antiga, os escravos eram explorados pelos ricos proprietários de terra. No feudalismo, os camponeses eram submetidos ao trabalho servil. Sob o capitalismo, o trabalho assalariado é explorado pela burguesia. O trabalho toma, portanto, determinações históricas, dependendo da formação social em análise. Mas nenhuma delas pode existir sem trabalho, sem a relação com a natureza, sem a produção da riqueza social. A teoria do valor-trabalho é a base a partir da qual Marx analisa a sociedade burguesa e desenvolve suas idéias econômicas. Esta teoria foi desenvolvida inicialmente pelos economistas clássicos, em particular por Adam Smith e David Ricardo, em quem Marx tanto se inspirou para aprofundar a sua análise da sociedade capitalista e a crítica da própria economia política burguesa. 17 No Brasil, a obra foi publicada integralmente em: MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. São Paulo: Civilização Brasileira, 2002; MARX, Karl. O Capital. São Paulo: Nova Abril Cultural, col. Os Economistas, Em O Capital, diz Marx, a mercadoria é a célula da sociedade burguesa, e esta constitui uma coleção de

22 mercadorias. A mercadoria, por sua vez, é um objeto externo, uma coisa que, por suas propriedades, satisfaz necessidades humanas, seja qual for a natureza, a origem delas, provenham do estômago ou da fantasia. Segundo o autor, A riqueza das sociedades onde rege a produção capitalista configura-se em imensa acumulação de mercadorias, e a mercadoria, isoladamente considerada, é a forma elementar dessa riqueza. Por isso, nossa investigação começa com a análise da mercadoria. Com a expansão das relações capitalistas em todo o mundo, mercantilizam-se as relações sociais. Diversas coisas e relações passam a ser exploradas pelo capital. Na parte sobre a acumulação primitiva do capital, Marx analisa como foram constituídas as pré-condições para a sedimentação do capitalismo, através da transformação dos trabalhadores em assalariados, de modo que a classe dominante os expropriou de qualquer meio de produção, e a acumulação de capital, por meio da exploração colonial, da expropriação de bens da igreja, da espoliação de camponeses e artesãos, entre outros. Coube aos governos e Estados imporem o trabalho assalariado como forma dominante através de leis de assalariamento, as chamadas leis sanguinárias, com penas para os que não se sujeitavam a elas. Estudadas as pré-condições para a sociedade capitalista, Marx estuda como se dá a relação entre capital e trabalho no processo de produção. Através da exploração da força de trabalho pelo capital, os trabalhadores engendram a riqueza social, apropriada de forma privada pela burguesia. Na sociedade burguesa, o trabalhador trabalha sob o controle do capitalista, a quem pertence seu trabalho. O capitalista cuida em que o trabalho se realize de maneira apropriada e em que se apliquem adequadamente os meios de rpodução, não se desperdiçando matéria-prima e poupando-se o instrumental de trabalho, de modo que só se gaste deles o que for imprescindível à execução do trabalho. Porém, o produto é propriedade do capitalista, não do produtor imediato, o trabalhador. O capitalista paga, por exemplo, o valor diário da força de trabalho. Sua utilização, como de qualquer outra mercadoria por exemplo, a de um cavalo que alugou por um dia -, pertence-lhe durante o dia. Ao comprador pertence o uso da mercadoria, e o possuidor da força de trabalho, apenas cede realmente o valor-de-uso que vendeu, ao ceder seu trabalho. Ao penetrar o trabalhador na oficina do capitalista, pertence a este o valor-de-uso da sua força de trabalho, sua utilização, o trabalho. O capitalista compra a força de trabalho e incorpora o trabalho, fermento vivo, aos elementos mortos constitutivos do produto, os quais também lhes pertencem. Do seu ponto de vista, o processo de trabalho é

23 apenas o consumo da mercadoria que comprou, a força de trabalho, que só pode consumir adicionando-lhe meios de produção. O processo de trabalho é um processo que ocorre entre coisas que o capitalista comprou, entre coisas que lhe pertencem. O produto desse processo pertence-lhe do mesmo modo que o produto do processo de fermentação em sua adega. Sob a aparência de uma igualdade jurídico-formal, expressa no contrato de trabalho, o capital adquire a mercadoria força de trabalho no mercado, colocando-a a seu serviço durante uma certa jornada de trabalho. Pela utilização da força de trabalho, o capitalista paga o preço desta mercadoria, ou seja, o salário, que, no limite, é constituído pela quantidade de trabalho socialmente necessário para a reprodução da força de trabalho e de sua família. É evidente que o preço, que varia para cima e para baixo do valor da força de trabalho depende da oferta e da procura, mas sofre também os condicionamentos históricosociais da luta de classes. Marx continua: durante uma parte da jornada (necessária), produz-se o salário pago ao trabalhador. Na outra parte (excedente) o trabalhador produz a riqueza a mais, não paga, o excedente econômico, apropriado sob a forma de mais-valia pelo capitalista. Portanto, a mais-valia é constituída na produção social, enquanto a sua realização, a sua transformação em capital-dinheiro, depende do comércio, da circulação. Estava desvendado o segredo da produção capitalista, da riqueza social e da acumulação de capital. A riqueza do capitalista não é produto de sua natural capacidade de negociar, como defendiam teóricos burgueses anteriores a Marx, nem da proteção divina, como imaginavam outros, mas da exploração da força de trabalho assalariada na base da propriedade privada dos meios de produção. Marx analisa na parte sobre A lei geral da acumulação capitalista, a tendência do capitalismo de produzir, de um lado, uma imensa riqueza, acumulada pela burguesia, e, de outro, uma enorme miséria, vivenciada cotidianamente pelos trabalhadores. A pauperização relativa das massas é uma tendência geral do desenvolvimento capitalista, tendo em vista a desproporção crescente entre o que o trabalhador recebe, em salários, e o que o capitalista acumula, em capitais. A concorrência entre os capitalistas leva-os a inovar permanentemente, introduzindo a técnica mais moderna no processo de produção (capital constante), tendo em vista a produção de mais mercadorias, a um preço menor. Portanto, inovam para reduzir o tempo socialmente necessário para a produção das mercadorias e ganhar a concorrência com seus pares. Na concorrência acirrada, ocorre a centralização e a concentração do capital entre cada vez menos capitalistas,

24 formando-se grandes monopólios. A mudança na composição orgânica do capital (aumento do capital investido em maquinaria) leva à tendência a queda da taxa de lucro, com a redução do capital variável, investido em salários. A ciência e a técnica se tornam, nas condições de aplicação burguesa, instrumentos de opressão dos capitalistas sobre os trabalhadores, incrementando o desemprego, que, no século XX, acompanhando as contradições analisadas por Marx, se faz cada vez mais estrutural, crônico. Ao contrário dos economistas burgueses que defendiam um suposto equilíbrio permanente do mercado e desprezam a importância das crises, Marx demonstrou o caráter cíclico da economia capitalista. O capitalismo desenvolve contradições internas, que, periodicamente, levam-no a crises cada vez mais profundas. São as leis históricas da sociedade burguesa, estudadas em O Capital e desenvolvidas posteriormente por outros teóricos marxistas, particularmente quanto aos monopólios, previstos em suas tendências por Marx. É o que percebemos na atual crise econômico-financeira, iniciada nos EUA e expandida para a Europa, América Latina, Ásia e África. Para quem achava que Marx estava morto e o capitalismo triunfante, surpreendeu-se com o estouro da crise e a profunda atualidade da teoria marxista. Por fim, é preciso dizer que os livros II e III, de O Capital, foram publicados por Engels, respectivamente, em 1885 e O livro IV, também conhecido como Teorias da mais-valia, foi publicado por Karl Kautsky, em 1905 e Há também um escrito intitulado O Capítulo VI Inédito de O Capital, que deveria se constituir o sexto capítulo do primeiro livro, segundo indicação de Marx, mas não chegou a ser publicado junto com o Livro I. Somente em 1933 seria publicado em Moscou. Como ficou evidenciado ao longo do século XX, o capitalismo não cai de podre, por mais desagregadoras que sejam as suas contradições, que levam a humanidade a guerras, à destruição de forças produtivas, à miséria, ao desemprego e à fome. No máximo, ao desenvolver as suas contradições sociais, arrasta a humanidade para a barbárie, mas descarrega sobre os trabalhadores os efeitos nefastos das crises econômicas.

25 VII A FUNDAÇÃO DA PRIMEIRA INTERNACIONAL O movimento operário renasce na década de 1860 na Europa, depois da contrarrevolução da década de Envolvido nas lutas políticas, Marx inicia a redação de O Capital em 1863, ao tempo em que escreve inúmeros textos importantes de economia. Marx continua redigindo O Capital, concluindo sua redação em São desse período os textos: Mensagem Inaugural da Associação Internacional dos Trabalhadores (1864); Salário, Preço e Lucro (1865); Maquinaria e Trabalho Vivo (Os efeitos da Mecanização sobre o Trabalhador)(1863); Produtividade do Capital, Trabalho Produtivo e Improdutivo (1863); Trabalho e Tecnologia (Manuscritos de ); Carta a J. B. Von Schweitzer (Sobre Proudhon ); Carta a Engels (1866) e Instruções para os Delegados do Conselho Geral Provisório: as diferentes questões (1866). 18 Do ponto de vista de sua teoria econômica, em 1865, Marx pronunciou um discurso no Conselho Geral da Associação Internacional dos Trabalhadores, que deu origem ao livro Salário, Preço e Lucro, uma obra em que Marx, de forma clara e em linguagem simples, desenvolve a sua teoria econômica e conclui com as seguintes palavras de ordem: Em vez do lema conservador de: um salário justo por uma jornada de trabalho justa!, deverá inscrever na sua bandeira esta divisa revolucionária: Abolição do sistema de trabalho assalariado!".. Engels participa juntamente com Marx do grande empreendimento de unir as lutas e esforços do proletariado numa organização internacional. Em 28 de setembro de 1864, é fundada a Associação Internacional dos Trabalhadores, em Londres, Inglaterra, conhecida posteriormente como Primeira Internacional. Na Mensagem Inaugural, Marx diz: Conquistar o poder político tornou-se, portanto, o grande dever das classes operárias e finaliza afirmando: Proletários de todos os países, uni-vos!. Seu primeiro Congresso ocorreu em Genebra, Suíça, em Durante a sua existência, a Internacional realizou cinco Congressos, em Genebra (1866), Lousane (1867), Bruxelas (1868), Basiléia (1869) e Haia (1872). Neste último, ocorreu o embate com Bakunin e seus adeptos, causando uma cisão na Internacional e a transferência de sua sede para Nova York. 18 Os textos podem ser lidos em: Publicações em português: MARX, Karl. Salário, Preço e Lucro. São Paulo: Global, Apesar dos esforços de Marx e Engels, a Internacional era, de fato, uma federação de organizações nacionais e grupos

26 políticos de vários países, inclusive composta por adeptos de Bakunin, Proudhon, Mazzini e Lassalle. As divergências no interior da internacional se tornaram antagônicas, tendo em vista as profundas diferenças de pressupostos e concepções entre marxistas e anarquistas, particularmente quanto ao Estado, a transição ao socialismo, o partido político e as formas de organização do proletariado. Além disso, um fato tornou-se a pedra de toque da Primeira Internacional e selou o seu destino: a Comuna de Paris. A Guerra Franco-Prussiana levou à derrota, humilhação e ruína da França. Sobre os escombros da guerra, o proletariado se levantou em Paris, em 1871, e tomou o poder. Tal acontecimento, de dimensões históricas internacionais, ficou conhecido como A Comuna de Paris. Para Marx, a Comuna era essencialmente um governo da classe operária, o produto da luta da classe produtora contra a apropriadora, a forma política, finalmente descoberta, com a qual se realiza a emancipação econômica do trabalho. Marx destacou que a Comuna de Paris, A Comuna foi formada por conselheiros municipais, eleitos por sufrágio universal nos vários bairros da cidade, responsáveis e revogáveis em qualquer momento. A maioria dos seus membros eram naturalmente operários ou representantes reconhecidos da classe operária. A Comuna havia de ser não um corpo parlamentar mas operante, executivo e legislativo ao mesmo tempo. Em vez de continuar a ser o instrumento do governo central, a polícia foi logo despojada dos seus atributos políticos e transformada no instrumento da Comuna, responsável e revogável em qualquer momento. O mesmo aconteceu com os funcionários de todos os outros ramos da administração. Desde os membros da Comuna para baixo, o serviço público tinha de ser feito em troca de salários de operários. Os direitos adquiridos e os subsídios de representação dos altos dignitários do Estado desapareceram com os próprios dignitários do Estado. As funções públicas deixaram de ser a propriedade privada dos testas-de-ferro do governo central. Não só a administração municipal mas toda a iniciativa até então exercida pelo Estado foram entregues nas mãos da Comuna. Tomadas essas medidas, inclusive a separação entre o governo e a influência da Igreja, continua Marx, Todas as instituições de educação foram abertas ao povo gratuitamente e ao mesmo tempo desembaraçadas de toda a interferência de Igreja e Estado. Assim, não apenas a educação foi tornada acessível a todos mas a própria ciência liberta das grilhetas que os preconceitos de classe e a força governamental lhe tinham imposto.

27 Marx aponta que Os funcionários judiciais haviam de ser despojados daquela falsa independência que só tinha servido para mascarar a sua abjeta subserviência a todos os governos sucessivos, aos quais, um após outro, eles tinham prestado e quebrado juramento de fidelidade. Tal como os restantes servidores públicos, magistrados e juizes haviam de ser eletivos, responsáveis e revogáveis. Para tanto, a grande medida social da Comuna foi a sua própria existência atuante. As suas medidas especiais não podiam senão denotar a tendência de um governo do povo pelo povo. Tais foram a abolição do trabalho noturno dos oficiais de padaria; a proibição, com penalização, da prática dos patrões que consistia em reduzir salários cobrando multas a gente que trabalha para eles, sob variados pretextos um processo que o patrão combina na sua própria pessoa os papéis de legislador, de juiz e de executor, e surrupia o dinheiro para o bolso. Outra medida desta espécie foi a entrega a associações de operários, sob reserva de compensação, de todas as oficinas e fábricas fechadas, quer os capitalistas respectivos tivessem fugido quer tivessem preferido parar o trabalho. Apesar do pouco tempo em que os operários permaneceram no poder, pouco mais de dois meses, a Comuna representou uma experiência monumental para a luta proletária internacional, fornecendo as bases reais para a elaboração por Marx da obra A Guerra Civil na França, de 1871, na qual analisa a experiência da Comuna, tirando conclusões históricas sobre a questão do Estado, da transição socialista, do papel do proletariado revolucionário e da direção política. No âmbito da Associação Internacionação dos Trabalhadores e das lutas políticas com as demais tendências em seu interior e fora dela, podemos citar os seguintes textos: A Guerra Civil na França (1871); Artigo de Engels sobre O Capital de Marx (1868); Mensagem à União Operária Nacional dos Estados unidos (1869); Sobre o Direito de Herança em Face dos Contratos e da Propriedade Privada (1869); Extrato de uma Participação Confidencial (1870); Sobre a Comuna (Marx e Engels 1871); Estatutos Gerais da Associação Internacional dos Trabalhadores (1871); Das Resoluções do Congresso Geral Realizado em Haia (1872). 19 A experiência transformada em teoria a partir do evento da Comuna de Paris de 1871 e da própria organização e atuação da Associação Internacional dos Trabalhadores, a Primeira Internacional, foi fundamental para os revolucionários da Segunda e Terceira Internacionais e para a militância socialista nas diversas situações revolucionárias do século XX. 19 Os textos podem ser encontrados em: Publicado em português: MARX, Karl. A Guerra Civil na França. São Paulo: Global, 1986.

28 Lênin e Trotsky se amparam nas análises de Marx sobre a Comuna para produzir textos axiais para a luta socialista e para a compreensão dos problemas da transição do capitalismo ao socialismo. Essas análises em conjunto devem ser estudadas e compreendidas pela militância socialista da atualidade. VIII A MORTE DE MARX E A ATIVIDADE CENTÍFICA DE ENGELS No período que vai do início dos anos 1870 até 1883, Marx se encontra com a saúde abalada. Não consegue mais se dedicar com a mesma força e ritmo com que se atirou anteriormente à causa do proletariado e à produção teórica. Ainda consegue forças para intervir nos debates no Partido Social-Democrata Alemão, realizando uma crítica mordaz ao seu programa, que fazia concessões ao reformismo para justificar alianças com setores do movimento operário, como os lassallianos. Para tanto, redige a Crítica do Programa de Gotha (1875) e a Carta a W. Bracke (1875) em que expõe suas críticas. 20 Nessa época, Marx manifesta interesse sobre o movimento revolucionário russo e as formas de propriedades existentes no país, como a comuna camponesa (o Mir). Engels, por sua vez, escreve várias obras importantes neste período, procurando estender a análise marxista a domínios vastos, dando grandes contribuições à teoria marxista na compreensão de várias temáticas. Deste período, pode-se citar entre outras obras de Engels: Sobre o Problema da Autoridade (1873); O Papel do 20 Os textos se encontam em: MARX, Karl. Crítica do programa de Gotha. São Paulo: Boitempo, 2012.

29 Trabalho na Transformação do Macaco em Homem (1876); Anti- Dühring ( ); Dialética da Natureza ( ); Discurso diante da Sepultura de Marx (1883). 21 Karl Marx morre em Londres, em 14 de março de Em seu discurso diante da sepultura de Marx, Engels disse: Pois Marx era antes de tudo revolucionário. Contribuir, de um ou outro modo, com a queda da sociedade capitalista e de suas instituições estatais, contribuir com a emancipação do moderno proletariado, que primeiramente devia tomar consciência de sua posição e de seus anseios, consciência das condições de sua emancipação essa era sua verdadeira missão em vida. Na década seguinte, além de continuar a atividade de organização e publicação dos Livros II e III de O Capital, de Marx, Engels elabora obras formidáveis como A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado (1884); Contribuição à História da Liga dos Comunistas (1885) Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã (1886); O Papel da Violência na História ( ) Existem as seguintes publicações: MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. Obras Escolhidas. São Paulo, Alfa-Ômega, 1980; MARX, Karl. Dialética da natureza. Lisboa: Editorial Presença, 1974; MARX, Karl. A dialética da natureza. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979; ENGELS, Friedrich. Anti-Dühring. Rio de Janeiro, Paz e Terra, Os textos podem ser lidos em: 22 Parte dos textos podem ser obtidos em: Os textos foram publicados também em: ENGELS, Friedrich. A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado. Rio de Janeiro: bertrand Brasil, 1991; MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. Obras Escolhidas. Rio de Janeiro: Vitória, Em 5 de agosto de 1995, falecia o principal amigo de Karl Marx e um dos maiores gênios produzidos pela humanidade: Friedrich Engels. Deixou de existir um homem que soube produzir ciência e atuar entusiasticamente na organização das massas proletárias. Junto com Marx, assimilou criticamente tudo de bom que foi produzido pela humanidade e contribuiu decisivamente para a compreensão da história dos homens e da sociedade capitalista. Por fim, Marx e Engels dedicaram toda a sua vida à luta contra a exploração social sem conformismos ou adaptações. Com suas vidas e sua obra, representam o cume a que chegou o pensamento histórico-social no século XIX e a abertura para novos conhecimentos na ciência social no século XX até os nossos dias. Na a toa, Lênin sintetizou a importância de Engels da seguinte maneira: Engels foi o mais notável sábio e mestre do proletariado contemporâneo em todo o mundo civilizado. Desde o dia em que o destino juntou Karl Marx e Friedrich Engels, a obra a que os dois amigos consagraram toda a sua vida converteu-se numa obra comum. Assim, para compreender o que Friedrich Engels fez pelo proletariado, é necessário ter-se uma ideia precisa do papel desempenhado pela doutrina e atividade de Marx no desenvolvimento do movimento operário

30 contemporâneo. Marx e Engels foram os primeiros a demonstrar que a classe operária e as suas reivindicações são um produto necessário do regime económico atual que, juntamente com a burguesia, cria e organiza inevitavelmente o proletariado; demonstraram que não são as tentativas bem intencionadas dos homens de coração generoso que libertarão a humanidade dos males que hoje a esmagam, mas a luta de classe do proletariado organizado. Marx e Engels foram os primeiros a explicar, nas suas obras científicas, que o socialismo não é uma invenção de sonhadores, mas o objectivo final e o resultado necessário do desenvolvimento das forças produtivas da sociedade atual. Toda a história escrita até aos nossos dias é a história da luta de classes, a sucessão no domínio e nas vitórias de umas classes sociais sobre outras. E este estado de coisas continuará enquanto não tiverem desaparecido as bases da luta de classes e do domínio de classe: a propriedade privada e a produção social anárquica. Os interesses do proletariado exigem a destruição destas bases, contra as quais deve, pois, ser orientada a luta de classe consciente dos operários organizados. E toda a luta de classe é uma luta política. Neste sentido, destaca Lênin, Todo o proletariado que luta pela sua emancipação tornou hoje suas estas concepções de Marx e Engels; mas nos anos 40, quando os dois amigos começaram a colaborar em publicações socialistas e a participar nos movimentos sociais da sua época, eram inteiramente novas. Então, eram numerosos os homens de talento e outros sem talento, honestos ou desonestos, que, no ardor da luta pela liberdade política, contra a arbitrariedade dos reis, da polícia e do clero, não viam a oposição dos interesses da burguesia e do proletariado. Não admitiam sequer a ideia de os operários poderem agir como força social independente. Por outro lado, um bom número de sonhadores, algumas vezes geniais, pensavam que seria suficiente convencer os governantes e as classes dominantes da iniquidade da ordem social existente para que se tornasse fácil fazer reinar sobre a terra a paz e a prosperidade universais. Sonhavam com um socialismo sem luta. Finalmente, a maior parte dos socialistas de então e, de um modo geral, os amigos da classe operária, não viam no proletariado senão uma chaga a cujo crescimento assistiam com horror à medida que a indústria se desenvolvia. Por isso todos procuravam o modo de parar o desenvolvimento da indústria e do proletariado, parar a «roda da história». Contrariamente ao temor geral ante o desenvolvimento do proletariado, Marx e Engels punham todas as suas esperanças no contínuo crescimento numérico deste. Quanto mais proletários houvesse, e maior fosse a sua força como classe revolucionária, mais próximo e possível estaria o socialismo. Pode exprimir-se em poucas palavras os serviços

31 prestados por Marx e Engels à classe operária dizendo que eles a ensinaram a conhecer-se e a tomar consciência de si mesma, e que substituíram os sonhos pela ciência. 23 Lênin conclui: É por isso que o nome e a vida de Engels devem ser conhecidos por todos os operários; é por isso que, na nossa compilação, cujo fim, como o de todas as nossas publicações, é acordar a consciência de classe dos operários russos, devemos dar um apanhado da vida e da actividade de Friedrich Engels, um dos dois grandes mestres do proletariado contemporâneo. Enquanto o capitalismo estiver de pé, enquanto houver exploração, miséria, fome e desemprego, a obra de Marx e Engels será atual e somente a partir da assimilação de suas idéias e da experiência internacional do proletariado é possível se pensar na luta conseqüente por uma nova sociedade, o socialismo. 23 O artigo de Lênin intitulado Friedrich Engels, de 1895, pode ser lido em CONCLUSÃO Marx e Engels além de terem dado uma contribuição científico-filosófica formidável ao pensamento humano, eram homens que conjugaram durante toda a sua vida a teoria com a prática militante. Seu esforço científico estava voltado à compreensão da história da humanidade, à crítica da sociedade burguesa atual e à organização da classe operária e demais explorados para superar a propriedade privada e a exploração de classe e abrir uma nova perspectiva para os trabalhadores. O desenvolvimento do capitalismo ao longo do século XX e no início do presente século XXI só tem demonstrado a justeza do pensamento desses dois revolucionários, de que o capitalismo só pode continuar existindo concentrando de um lado a riqueza nas mãos de uma minoria e a miséria entre a maioria da sociedade em todos os países. Á medida que a crise estrutural evolui aprofundam-se a miséria, a fome, o desemprego e a destruição da natureza. O capitalismo, portanto, não tem mais nada de progressivo a dar à humanidade, ao contrário, a sua base, a propriedade privada monopolista dos meios de produção, tem conduzido a humanidade ao abismo das guerras e da barbárie. Daí advem a atualidade do marxismo e a necessidade de transformá-lo numa arma material a serviço da organização política da classe operária e da maioria explorada nas suas lutas contidianas, articuladas à luta pelo socialismo.

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