PORTUGUÊS ETAPA. Questão 37
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- Denílson Cerveira Domingues
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1 ETAPA PORTUGUÊS Textos para responder às questões de 37 a 41. Texto I Cidade prevista Guardei-me para a epopéia que jamais escreverei. Poetas de Minas Gerais e bardos do Alto-Araguaia, vagos cantores tupis, recolhei meu pobre acervo, alongai meu sentimento. O que eu escrevi não conta. O que desejei é tudo. Retomai minhas palavras, meus bens, minha inquietação, fazei o canto ardoroso, cheio de antigo mistério mas límpido e resplendente. Cantai esse verso puro, que se ouvirá no Amazonas, na choça do sertanejo e no subúrbio carioca, no mato, na vila X, no colégio, na oficina, território de homens livres que será nosso país e será pátria de todos. Irmãos, cantai esse mundo que não verei, mas virá um dia, dentro em mil anos, talvez mais... não tenho pressa. Um mundo enfim ordenado, uma pátria sem fronteiras, sem leis e regulamentos, uma terra sem bandeiras, sem igrejas nem quartéis, sem dor, sem febre, sem ouro, um jeito só de viver, mas nesse jeito a variedade, a multiplicidade toda que há dentro de cada um. Uma cidade sem portas, de casas sem armadilha, um país de riso e glória como nunca houve nenhum. Este país não é meu nem vosso ainda, poetas. Mas ele será um dia o país de todo homem. (Carlos Drummond de Andrade, de A rosa do povo) Texto II [...]Não eram bem treze horas e já o 35 desembocava no parque Pedro II outra vez, à vista do Palácio das Indústrias. Estava inquieto mas modorrento, que diabo de sol pesado que acaba com a gente, era por causa do sol. Não podia mais se recusar o estado de infelicidade, a solidão enorme, sentida com vigor. Por sinal que o parque já se mexia bem agitado. Dezenas de operários, se via, eram operários endomingados, vagueavam por ali, indecisos, ar de quem não quer. Então nas proximidades do palácio, os grupos se apinhavam, conversando baixo, com melancolia de conspiração. Polícias por todo lado. O 35 topou com o 486, grilo quase amigo, que policiava na Estação da Luz. O 486 achara jeito de não trabalhar aquele dia porque se pensava anarquista, mas no fundo era covarde. Conversaram um pouco [...]. Pararam bem na frente do Palácio das Indústrias que fagulhava de gente nas sacadas, se via que não eram operários, decerto os deputados trabalhistas, havia até moças, se via que eram distintas, todos olhando para o lado do parque onde eles estavam. Foi uma nova sensação tão desagradável que ele deu de andar quase fugindo, polícias, centenas de polícias, moderou o passo como quem passeia. Nas ruas que davam pro parque tinha cavalarias aos grupos, cinco, seis, escondidos na esquina, querendo a discrição de não ostentar força e ostentando. Os grilos ainda não faziam mal, são uns (palavrão)! O palácio dava idéia duma fortaleza enfeitada; entrar lá dentro, eu!... (Mário de Andrade, Primeiro de maio, Contos novos.) Questão 37 Considere as afirmações abaixo a respeito dos Textos I e II. I. No Texto I, a experiência do sujeito lírico, num tempo histórico marcado pela injustiça e pela desigualdade, não eliminou seu desejo utópico; no Texto II, a experiência do protagonista revela sua progressiva compreensão do tempo histórico e de sua incapacidade para transformá-lo sozinho.
2 II. NoTexto I o sujeito lírico, isolado, trata de seus sonhos pessoais e sabe que eles envolvem problemas individuais a serem superados com coragem; no Texto II, o protagonista, embora solitário, deseja unir-se a seus companheiros, mas só vê operários covardes. III. A realização da utopia do sujeito lírico, no Texto I, inclui a ação daqueles que puderem dar continuidade a seus desejos de um mundo livre; no Texto II, o mundo surge representado como conflito de classes (operários e instituições que defendem interesses patronais). IV. O sujeito lírico, no Texto I, entende que a criação da poesia, sozinha, não pode alterar a realidade e, desse ponto de vista, tem semelhanças com o personagem 35, do Texto II, que gostaria de comemorar o 1º de Maio junto com operários mas se vê cercado pelos policiais. São corretas apenas as afirmações: a) I e II. c) I, II e III. e) II, III e IV. b) III e IV. d) I, III e IV. alternativa D II. Falsa. No texto I, o sujeito lírico fala de suas aspirações coletivas, de ordem social; o texto II fala de "operários endomingados" mas não necessariamente covardes. Questão 38 Estava inquieto mas modorrento, que diabo de sol pesado que acaba com a gente, era por causa do sol. Não podia mais se recusar o estado de infelicidade, a solidão enorme, sentida com vigor. Com relação a esse trecho do Texto II, considere as seguintes afirmações: I. O narrador revela que o dia excessivamente quente provoca no personagem (identificado como 35) sensações físicas, como o torpor, e mentais, como a consciência alienada. II. As duas vozes que surgem no texto narrador e consciência do personagem indicam diferentes níveis de compreensão da realidade. III. O narrador atribui a infelicidade do personagem 35 a fatores externos, ambientais, responsáveis por sua inquietação e solidão. IV. O personagem atribui ao sol a razão de mal-estar, mas o narrador sabe que o 35 está a um passo de descobrir os motivos da infelicidade que já sente. São corretas apenas as afirmações: a) I e II. d) I e III. b) II e III. e) II e IV. alternativa E c) III e IV. I. Falsa. O trecho não estabelece ligação entre ambiente (calor) e a consciência alienada do personagem. III. Falsa. Não o narrador, mas o protagonista é que atribui a fatores ambientais (o calor) o seu desconforto. No texto, usou-se, para isso, o discurso indireto livre. Questão 39 No Texto I, o sujeito lírico se dirige a outros poetas e lhes faz um apelo. Empregando você em lugar de poetas, assinale a alternativa que, de acordo com a norma culta, substitua as formas verbais recolhei, alongai, retomai, fazei, cantai : a) recolhe; alonga; retoma; faze; canta. b) recolha; alongue; retome; faça; cante. c) recolha; alonga; retoma; faz; cante. d) recolha; alonga; retoma; faça; canta. e) recolhe; alongue; retome; faze; cante. alternativa B O pronome de tratamento você pede verbo na 3ª pessoa que, no imperativo, é retirado da 3ª pessoa do singular do presente do subjuntivo. Questão 40 Os Textos I e II apresentam recursos expressivos que podem ser interpretados em função do contexto da enunciação. Desse ponto de vista, observe as seguintes afirmações: I. Uma cidade sem portas e um país sem fronteiras, do Texto I, expressam o desejo de uma organização social em que não há medo de invasões de nenhuma espécie e um mundo internacionalizado, que supera o conceito de país-nação.
3 II. Um país sem fronteira, do Texto I, indica um mundo livre, e nesse sentido significa o oposto da imagem fortaleza enfeitada, do Texto II. III. A imagem da terra sem igrejas nem quartéis, no Texto I, sugere que o sujeito lírico atribui a essas instituições a defesa de interesses que são de todos os homens. IV. As expressões fagulhava de gente nas sacadas e operários endomingados, do Texto II, indicam que há muitas pessoas na sacada do Palácio das Indústrias e que os operários não surgem ali em sua espontaneidade cotidiana. São corretas apenas as afirmações: a) I, II e IV. c) I, II, III. e) II e IV. alternativa A b) II, III e IV. d) I e III. III. Falsa. O sujeito lírico mostra-se contrário a quaisquer tipos de imposição, tanto religiosa quanto militar, além de sugerir que tais instituições estariam vinculadas a interesses particulares. Questão 41 A relação de sentido que há entre as orações do período abaixo Foi uma nova sensação tão desagradável que ele deu de andar quase fugindo está igualmente presente em: a) O palácio dava idéia de uma fortaleza enfeitada, entrar lá dentro eu! b) Tanto quanto ele, os outros operários fingiam participar, mas estavam andando sem rumo. c) Os sentimentos do personagem 35 são tão fortes como os do poeta de Cidade prevista. d) O poeta aspira tanto a contribuir para a transformação social quanto outros escritores. e) Sua solidão era tamanha que não pôde mais esconder as razões de sentir-se mal. alternativa E As orações do exemplo dado estabelecem entre si uma relação de causa e conseqüência que só pode ser apontada em: "sua solidão era tamanha (causa) que não pôde... (conseqüência). Textos para responder às questões 42 e 43. Texto III Idéias íntimas [fragmento] [...] Ali na alcova Em águas negras se levanta a ilha Romântica, sombria à flor das ondas De um rio que se perde na floresta... Um sonho de mancebo e de poeta, El-Dorado de amor que a mente cria Como um Éden de noites deleitosas... Era ali que eu podia no silêncio Junto de um anjo... Além o romantismo! (Álvares de Azevedo) Texto IV Pensão familiar Jardim da pensãozinha burguesa. Gatos espapaçados ao sol. A tiririca sitia os canteiros chatos. O sol acaba de crestar as boninas que [murcharam. Os girassóis amarelo! resistem. E as dálias, rechonchudas, plebéias, [dominicais. Um gatinho faz pipi. Com gestos de garçom de [restaurant-palace Encobre cuidadosamente a mijadinha. Sai vibrando com elegância a patinha [direita: É a única criatura fina na pensãozinha [burguesa. (Manuel Bandeira, de Libertinagem) Questão 42 Considere as afirmações abaixo a respeito dos Textos III e IV. I. Para a subjetividade lírica romântica, tal como pode ser entendida a partir do Texto III, a imaginação é o fundamento da poesia; já para o sujeito lírico do Texto IV, a observação de aspectos simples da realidade pode servir à inspiração poética.
4 II. No Texto III, o sujeito lírico dá-se conta de que a fantasia romântica o separa da realidade, tal como uma ilha, e, diante da impossibilidade de vivenciar seus sonhos com a mulher amada por sabê-los impossíveis, decide retornar à sua vida comum, como se expressa na interjeição Além o romantismo!. III. No Texto IV, o sujeito lírico observa de modo objetivo a realidade da pensão familiar, exaltando a exuberância, a vivacidade e a beleza da natureza tropical, sobretudo na imagem dos girassóis, o que se expressa na mudança gráfica da distribuição dos versos. IV. As imagens da ilha e do rio que se perde na floresta, no Texto III, são indícios da valorização ufanista da natureza no romantismo; no Texto IV, porém, embora a natureza também seja observada, ela serve de fundamento à crítica social do poeta. Com relação a essas afirmações, está(estão) correta(s) apenas a) I e IV. b) I. c) II. d) III. e) IV. alternativa B No Romantismo, a imaginação cria um mundo ideal que substitui o mundo real imperfeito, numa típica atitude de evasão por parte do eu-lírico; no Modernismo, a poesia valoriza sobretudo o cotidiano. Questão 43 Assinale a alternativa correta. a) Em Era ali que eu podia no silêncio / Junto de um anjo, o emprego do imperfeito do indicativo justifica-se pelo fato de indicar uma ação já realizada em tempo anterior. b) Em O sol acaba de crestar as boninas, em comparação com Os girassóis/ amarelo! / resistem, o emprego do presente do indicativo indica duas ações que se mantêm e se prolongam no futuro. c) Nos dois versos iniciais de Pensão familiar a elipse dos verbos contribui para expressar a falta de ação no ambiente que surge aos olhos do poeta como entediante. d) Em Ali na alcova/ Em águas negras se levanta a ilha/ Romântica e em Um gatinho faz pipi, o emprego do presente do indicativo foi utilizado em substituição ao pretérito perfeito, pois ambas as ações já estavam totalmente realizadas. e) Em A tiririca sitia os canteiros chatos, do Texto IV, e El-Dorado de amor que a mente cria, do Texto III, os imperfeitos do indicativo correspondem, respectivamente, a sitiar e crer. A ausência de verbos tira das frases a idéia de ação, contribuindo dessa forma para acentuar o clima de marasmo que o poeta quis transmitir. Texto para responder às questões de 44 a 46. Texto V [...] E existe um povo que a bandeira empresta Pra cobrir tanta infâmia e cobardia!... E deixa-a transformar-se nessa festa Em manto impuro de bacante fria!... Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é [esta, Que impudente na gávea tripudia? Silêncio!... Musa! chora, chora tanto Que o pavilhão se lave no teu pranto... Auriverde pendão da minha terra, Que a brisa do Brasil beija e balança, Estandarte que a luz do sol encerra E as promessas divinas da esperança... Tu, que da liberdade após a guerra, Foste hasteado dos heróis na lança, Antes te houvessem roto na batalha, Que servires a um povo de mortalha!... Fatalidade atroz que a mente esmaga! Extingue nesta hora o brigue imundo O trilho que Colombo abriu nas vagas, Como um íris no pélago profundo!... Mas é infâmia demais!... Da etérea plaga Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!... Andrada! arranca esse pendão dos ares! Colombo! fecha a porta dos teus mares! O navio negreiro, Castro Alves.
5 Questão 44 Sabe-se que sinônimos são palavras ou expressões que apresentam a mesma significação ou significação aproximada. Indique a alternativa constituída por palavras que, no poema, são sinônimos. a) tripudia, balança, encerra. b) mortalha, fatalidade, plaga. c) infâmia, impuro, imundo. d) cobardia, bacante, infâmia. e) bandeira, pavilhão, pendão. alternativa E A palavra "pavilhão" poderia causar algum tipo de dúvida. Além de "bandeira", pode significar, entre outros: construção leve, de madeira ou outro material; tenda, barraca; construção isolada que faz parte de um conjunto de edifícios, ou independente dele. Questão 45 Indique a alternativa que reproduz os versos Antes te houvessem roto na batalha, / Que servires a um povo de mortalha, mantendo seu teor e obedecendo à norma culta. Quanto ao estandarte, o poeta declara que a) almejaria, antes de ser mortalha de um povo, de que tivesse sido rasgado na batalha. b) desejaria antes de que fosse rasgado na batalha do que vê-lo usado como mortalha de um povo. c) desejaria, em vez de vê-lo servir de mortalha a um povo, que tivesse sido rasgado na batalha. d) preferiria antes que tivesse sido rasgado na batalha do que vê-lo servir de mortalha a um povo. e) preferiria mais que fosse rasgado na batalha, antes de ser empregado como mortalha de um povo. O poeta afirma que não haveria desonra se a bandeira fosse rasgada na luta, mas é uma infâmia vê-la acobertar o tráfico negreiro e a escravidão. Nas outras alternativas, além da mudança de teor, também há evidentes problemas gramaticais, por exemplo: na alternativa a: "almejaria... de que tivesse..." na alternativa b: "... antes de que..." na alternativa d: "preferiria antes que do que..." na alternativa e: "preferiria mais que..." Questão 46 Considerando que hipérbole é um recurso que tem por finalidade produzir uma afirmação exagerada, assinale a alternativa em que se emprega esse recurso. a) Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta, / Que impudente na gávea tripudia? b) Auriverde pendão de minha terra, / Que a brisa do Brasil beija e balança [...] c) Silêncio!... Musa! chora, chora tanto / Que o pavilhão se lave no teu pranto!... d) Tu, que da liberdade após a guerra, / Foste hasteado dos heróis na lança [...] e) Andrada! arranca este pendão dos ares! / Colombo! fecha a porta dos teus mares! O exagero consiste em supor que as lágrimas produziriam uma quantidade tamanha de água que daria para, com elas, lavar a bandeira. Questão 47 Observe as frases abaixo. I. Uma pessoa que cooperou com a Polícia e pediu que não fosse identificada afirmou que as negociações sempre foram suspeitas. II. Após as diligências, os promotores foram obrigados a intimar o rapaz que o carro dele correspondia à descrição feita pelas testemunhas. III. O vereador continua a declarar que havia motivos bastantes para que ele votasse de acordo com o interesse de seu partido. IV. Naquela época deixa eu te dizer o seguinte ele era associado de uma empresa de grande porte, na cidade de São Paulo. Das frases acima, obedecem à norma culta apenas a) I e III. d) II e III. b) II e IV. e) III e IV. c) I e II. alternativa A Corrigindo: II. "... intimar o rapaz cujo carro correspondia..." IV. "... deixa-me dizer-te..." ; "... associado a" ou "... sócio de..."
6 Questão 48 Com relação a Laços de família, de Clarice Lispector, é correto afirmar: a) a denúncia dos componentes repressivos da instituição familiar volta-se principalmente para a educação moralista recebida pelas mulheres, como se vê em Feliz aniversário. b) em O crime do professor de matemática, o narrador ataca o poder de sedução dos professores, na defesa da valorização da moral familiar, alertando contra os perigos do mundo social. c) em várias narrativas, a personagem feminina, vivenciando experiências cotidianas, tem revelações fundamentais para sua vida interior. d) a força da personagem feminina, em contos como Amor, consiste em transformar suas relações pessoais e familiares a partir de um ato de revolta. e) com personagens pouco habituais, como a galinha e a pigméia Pequena Flor, o narrador revela que não há valor na cultura primitiva, em comparação à vida das instituições modernas. Em Clarice Lispector, uma das vozes mais representativas da literatura contemporânea, as personagens mostram um salto do simples psicológico para o sentido metafísico. Assim, o cotidiano vira matéria introspectiva, de características intimistas. REDAÇÃO Sempre que os homens sabidos lhe diziam palavras difíceis, ele saía logrado. Sobressaltava-se escutando-as. Evidentemente só serviam para encobrir ladroeiras. Mas eram bonitas. Às vezes decorava algumas delas e empregava-as fora de propósito. Depois esquecia-as. Para que um pobre da laia dele usar conversa de gente rica? (Graciliano Ramos, Vidas secas.) Tomando por base o fragmento de Vidas secas e o cartum, elabore uma redação sobre o poder de manipulação da linguagem. Exponha seu ponto de vista e os argumentos que o sustentam. Dê um título a sua redação. Comentário Investigar as relações que existem entre o poder político-social e a linguagem é uma proposta interessante que sugere uma reflexão sobre o poder que existe nas palavras. Os textos marcam claramente a força da linguagem, capaz de manipular não só indivíduos como toda uma população. Bom tema redacional.
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