MECÂNICA RELATIVISTA PARTE II
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- Theodoro Dinis di Castro
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1 Aula 2 MECÂNICA RELATIVISTA PARTE II META Dar continuidade ao estudo do movimento relativo a partir das transformadas de Lorentz; detalhando-a e observando a genial interpretação dada por Einstein àquelas estranhas equações desenvolvidas pelo físico holandês Lorentz. Mostrar ainda as fortes implicações dos postulados de Einstein na Dinâmica das partículas em movimento. OBJETIVO O estudante ao fim dessa aula deve ser capaz de compreender as transformações de Lorentz bem como seu alcance e implicações, assim como a interpretação que Albert Einstein concebeu para a aparente contradição implícita na citada transformação. Entender as conseqüências dos postulados de Einstein nos conceitos de momento linear, energia cinética e como massa e energia relacionam-se a partir da célebre equação de Einstein (E = 2 ). PRÉ-REQUISITOS Postulados de Einstein para a cinemática dos movimentos. Conceito de força, energia e momento linear. 22
2 Introdução Quando Albert Einstein formulou seus postulados da Teoria da Relatividade Especial, ele procurava responder a algumas aparentes incoerências e inconsistências entre os experimentos dos físicos americanos Michelson-Morley e as equações do grande físico holandês Hendrick Lorentz ( ). Como vimos na aula anterior; Michelson e Morley demonstraram que a velocidade da luz no vácuo era sempre a mesma, em relação à Terra, qualquer que fosse a direção de movimento desta relativamente à luz, sendo assim a idéia de um meio absoluto, o éter, seria desnecessária. Foi nesse contexto que Lorentz, quase em um ato de desespero, apresentou uma correção que fosse capaz de reconciliar a existência do éter com os resultados da experiência do interferômetro de Michelson e Morley. Ele corajosamente assumiu que objetos em movimento contraem seu comprimento na direção em que se movem como demonstraremos logo a seguir. Coube a genialidade de Einstein demonstrar que não havia inconsistência alguma e que, de fato, esse meio mágico (éter) seria realmente desnecessário. 3 - Transformação de Lorentz O 2º postulado de Einstein afirma que a velocidade da luz é a mesma para qualquer observador em movimento relativo uniforme. Como foi visto anteriormente, a transformação de Galileu é inconsistente com esta premissa. É necessário substituí-la por outra transformação onde a velocidade da luz seja invariante ou que não tenha dependência nenhuma a respeito do movimento relativo dos observadores. Nas duas conseqüências dos postulados de Einstein, nós vimos que (por causa da dilatação do tempo) e (por causa da contração do espaço). Estes dois novos conceitos da mecânica relativística precisam de uma nova transformação que transforme um referencial inercial em outro, mantendo a lei de Newton válida, quando, se chegue na transformação de Galileu. Neste estudo, não estamos colocando os fatos na ordem cronológica, mas de uma maneira que os conceitos aqui abordados estejam bem claros para o aluno. Como está escrito, parece que os postulados de Einstein deram sustentação a Lorentz para deduzir a transformação de Lorentz, mas, na verdade, o que ocorreu foi exatamente o contrário. Vamos admitir um pulso de luz (PL), na direção paralela aos eixos x e x dos sistemas de referências, sai da origem em O em t = 0 PL e parte também de O em t = 0, levando em consideração que as origens se coincidem teremos t = t = 0. Depois do PL ter partido, sabe-se que, então as coordenadas que posicionam o PL são modificadas de (x,y,z) para (x,y,z,t) e (x,y,z ) para (x,y,z,t ), conforme a figura
3 Figura 3.1 Referenciais O e O movendo-se com velocidade relativa V. Como o PL move-se paralelo aos eixos x e x, então os valores das outras duas coordenadas serão idênticos, tanto no sistema O como no O, assim A equação clássica (equação 1.3) de deslocamento no eixo x é falha para velocidades relativísticas. Uma modificação possível é multiplicá-la por uma constante de proporcionalidade que independa das coordenadas e como devemos trocar t por t, assim (3.1) (3.2) A transformação inversa possui a mesma forma com a velocidade negativa, então Os postulados de Einstein nos garante que as componentes x do PL nos referenciais O e O são e, respectivamente. Substituindo estas duas condições nas equações 3.2 e 3.3, obtém-se Multiplicando membro a membro as equações 3.4 e 3.5, ficamos com (3.3) (3.4) (3.5) 24
4 (3.6) Onde é uma constante chamada fator de Lorentz. Como < 1 na equação 3.6,. Na situação que, as equações 3.2 e 3.3, se transformação em equações clássicas. Mostrando que o valor de está consistente com a mecânica newtoniana, onde os valores das velocidades são extremamente baixos em relação à velocidade da luz. Para obter a transformação para o tempo vamos introduzir a equação 3.2 em 3.3, assim (3.7) 25
5 assim Para obtermos a equação inversa de 3.7, deve-se introduzir a equação 3.3 em 3.2, (3.8) A transformação de Lorentz (transformação relativística) completa é expressa pelas equações de 3.9 a (3.9) (3.10) (3.11) (3.12) Com a transformação de Lorentz é possível relacionar as coordenadas x, y, z e o tempo t, de um evento no referencial O às coordenadas x, y, z e o tempo t, do mesmo evento observado pelo referencial O, o qual se move com velocidade V paralelo ao eixo x, relativa ao referencial O. 26
6 Exemplo 3.1 Mostre que a dilatação do tempo continua válida com a introdução da constante de proporcionalidade (equação 3.6). Vamos considerar dois eventos que ocorrem em um determinado ponto do referencial O nos tempos e. Para o referencial O podemos determinar os tempos e, para este mesmo evento usando a equação (3.10), então e fazendo a diferença, encontramos Sabemos que, então o intervalo medido em qualquer outro referencial é sempre maior do que o tempo próprio, o que corresponde à dilatação do tempo. 27
7 Exemplo 3.2 Uma nave espacial está viajando e passa pela Terra com velocidade relativa V = 0,8c. O rádio da nave sofreu uma pane e eles ficaram tentando estabelecer a comunicação e ela foi retornada depois dos pilotos concertarem o rádio, tarefa que demorou 2,5h. Qual foi o tempo esperado pela central de controle na Terra. Usando a equação 3.6, temos e finalmente temos o tempo que a torre ficou sem escuta na Terra 3.1 Derivação da transformação de Lorentz para velocidades Derivando as equações 3.9 e 3.10 em relação a t, temos (3.13) (3.14) As equações (3.13) e (3.14), podem ser escritas como (3.15) (3.16) Como, as equações 3.15 por 3.16, ficam 28
8 (3.17) (3.18) Dividindo as equações 3.17 por 3.18, temos Usando que, temos Usando que, finalmente (3.19) (3.20) (3.21) As equações de 3.19 a 3.21 correspondem a transformação de Lorentz da velocidade. Para, que corresponde a (limite da mecânica clássica), recupera-se a transformação de Galileu para velocidade, conforme No caso especial em que o deslocamento é paralelo ao eixo x,, e assim e (3.22) 29
9 Exemplo 3.3 Um super avião se move ao longo do eixo x, afastando-se de um observador a uma velocidade de 0,7c. Um segundo avião se move também no eixo x, afastando-se tanto do primeiro avião como do observador com uma velocidade de 0,7c em relação ao primeiro avião. Qual é a velocidade do segundo avião em relação ao observador? O observador está em repouso em relação a O e que o primeiro avião está em repouso em relação a O, em outras palavras, o primeiro avião é o próprio referencial que se desloca com em relação a O. A velocidade do segundo avião no referencial O será, pois esta velocidade é em relação ao primeiro avião. Utilizando a equação 3.22 podemos determinar a velocidade do segundo avião em relação ao observador, assim O resultado obtido com este exemplo é bem distinto do clássico ( ), que resulta em uma velocidade impossível ( ). Para partículas, a velocidade c não é atingida, pois como veremos mais adiante, a massa inercial cresce muito com o aumento da velocidade, dando-lhe uma inércia muito grande. A velocidade da luz é um limite inatingível para um corpo com massa. Por outro lado, existem partículas sem massa que andam sempre a velocidade da luz, é o caso dos fótons. 30
10 Exemplo 3.4 Suponha que um fóton se desloca a velocidade da luz c em relação ao referencial O, na direção do eixo x. Determine a sua velocidade em relação ao referencial O. A velocidade relativa entre os referenciais O e O não foi fornecida, então vamos supor V e utilizando a equação 3.22, temos = Como era esperada pelos postulados de Einstein, a velocidade da luz nos dois referenciais e é independente da velocidade. é mesma 3.2 Dinâmica relativística Momento linear Toda a cinemática newtoniana foi reformulada e agora está faltando novas formulações para uma nova dinâmica newtoniana e que esta seja compatível com a nova cinemática. Na dinâmica relativística o momento continua sendo definido pelo produto da massa pela velocidade, porém com uma novidade, a massa depende da velocidade da partícula, então (3.23) Com uma série de deduções que não cabe no nível deste curso, chegou à conclusão que a massa relativística varia segundo a equação 3.24 (3.24) onde é o valor próprio de obtido quando a partícula que está em repouso. Porém, para que o denominador não se anule, a velocidade não pode atingir (nem superar) o valor (figura 3.2). O que aumenta com a velocidade não é a quantidade de matéria do corpo, mas sim sua massa inercial aumenta a resistência da partícula ao movimento. 31
11 Figura 3.2 Variação da massa relativística com a velocidade. Próximo da velocidade da luz (c), a massa inercial cresce para o infinito. Para baixas velocidades, a massa inercial permanece quase inalterada, indicando o limite clássico. Introduzindo a equação 3.24 em 3.23, temos (3.35) A equação 3.35 é o momento relativístico de uma partícula. Podemos notar que, para temos, o limite da física clássica é recuperado. Analisando a equação do momento relativístico, pode-se notar quanto mais cresce a velocidade, a resistência a aceleração crescerá também devido a massa relativística depender da velocidade. A resistência a aceleração tende para o infinito quando, como pode ser visto na figura 3.2. Exemplo 3.5 Uma nave tem uma massa de repouso igual a 1 tonelada, desloca com relação a um sistema inercial O. Qual deveria ser a velocidade v da nave para que a mesma sofresse um aumento na massa inercial de 1 g? Elevando ao quadrado a equação 3.24, temos e como 32
12 , então A nave deveria ter uma velocidade, que corresponde em ordem de grandeza uma velocidade 100 vezes menor do que a velocidade da luz Energia cinética O trabalho realizado por uma força resultante ( ) de acelerar uma partícula da posição de repouso até uma velocidade ( ) é a energia cinética que a partícula adquire. Este mesmo conceito é também aplicado na mecânica newtoniana. Usando que, obtemos Integrando por partes e usando a equação 3.35, temos 33
13 Finalmente, (3.36) onde. A equação 3.36 descreve a energia cinética relativística de uma partícula que se move em velocidade em relação a um observador. Usando o fato de que o denominador da equação 3.36 pode ser expandido em uma série, temos (3.37) introduzindo a equação 3.37 na 3.36, ficamos Levando em consideração que no limite da física clássica, o primeiro termo corresponde a energia cinética da mecânica newtoniana e o segundo é muito pequeno, então ele pode ser ignorado. Seguindo este raciocínio, a mecânica de Newton é uma aproximação da mecânica de Einstein, onde é unicamente válida para pequenas velocidades ou energias. A energia total ( de uma partícula é a soma da energia cinética ( ) mais a energia de repouso ( ) energia que a partícula possui quando, 34
14 (3.38) Através da equação 3.38, percebe-se que no repouso, a cada massa ( associada uma energia ( ) e vice-versa, assim ) pode ser Pode-se também, se uma massa sofrer uma variação ( energia ( ) e vice-versa, então ) teremos uma variação na (3.39) A equação 3.39 foi proposta por Einstein, mas já foi amplamente comprovada experimentalmente e passou a ser a equação mais conhecida pelas pessoas leigas a imagem de Einstein é sempre associada a. Pode-se obter uma expressão que correlaciona momento com energia multiplicando a equação 3.35 por, temos introduzindo equação 3.38, fica (3.40) Através da equação 3.40 pode-se determinar o momento na unidade MeV/c sabendo-se o valor da velocidade ( ). Como o quociente energia/velocidade tem as mesmas dimensões que o momento, introduziu-se a unidade MeV/c como unidade mais conveniente para partículas elementares. Uma manipulação matemática pode conduzir a expressão entre momento e energia sem a velocidade explícita, usando que 35
15 , assim, sabendo que e, então (3.41) lembrando que E = energia total, p = momento e m = massa de repouso. Casos extremos analisados a partir da equação 3.41: Caso 1: quando uma partícula tem velocidade v = 0, o momento linear p = 0 e a energia total corresponde a energia de repouso (E = mc 2 ); Caso 2: quando uma partícula com massa m = 0, a energia total corresponde a E = pc, é o caso do fóton. A partir da equação 3.41 tanto podemos determinar o momento na unidade de como a massa de repouso em. Como já foi dito anteriormente, estas são unidades mais usuais em estudos de partículas elementares, pois evita o uso de números muito pequenos. Exemplo 3.6 Determine o equivalente energético de uma unidade atômica ( ). Usando que e, temos Sabe-se que, então 36
16 Quando se exprime em unidades de massa atômica (u) a massa de uma partícula, a energia de repouso em MeV é escrita da seguinte forma: Exemplo 3.7 Uma partícula foi acelerada e alcançou a velocidade de 0,8c. Determine a energia cinética necessária para atingir esta velocidade e faça uma comparação entre a energia newtoniana e relativística. A energia cinética relativística é dada por e energia cinética newtoniana é igual a Finalmente, A energia é mais de 100% superior a energia. Quanto mais o valor de se aproxima de, esta discrepância será maior. Por outro lado, para pequenos valores de, a razão se aproxima de 1. 37
17 Exemplo 3.8 Determine a velocidade de um elétron com 10 MeV de energia cinética sabendo que ele possui 0,511 MeV de energia de repouso. Através dos dados do problema nós temos que e como energia total é, temos e como, temos Com a energia cinética de 10 MeV, o elétron se desloca com uma velocidade muito próxima a da velocidade da luz, que equivale a 99,88% da velocidade da luz. 38
18 Exemplo 3.9 Determine o momento linear do elétron do exemplo 3.8. Como, e usando a equação 3.40, temos O momento poderia ter sido calculado na unidade de kg.m/s. Como o quociente energia/velocidade tem as mesmas dimensões que o momento, introduziu-se a unidade MeV/c como unidade mais conveniente para partículas elementares. ATIVIDADES 1) Um observador em O anota o espaço e o tempo de um evento como sendo e. Qual é o espaço e o tempo deste evento em O, o qual se move na direção de crescimento de com? Assumindo que em. R.: 81 km e 39 μs. 2) Determine a velocidade de um próton com 10 MeV de energia cinética sabendo que ele possui 938,82 MeV de energia de repouso. Faça uma comparação com o resultado obtido para o elétron (exemplo 3.8). 3) Determine o momento linear relativístico ( ) do próton da questão 2, sabendo que sua massa é m = 1,6726x10-27 kg. 4) Mostre que, usando as equações 3.36 e ) Usando o resultado da questão 4, determine o momento linear relativístico, em MeV/c, para um elétron e um próton com energia total de 5 e 2000 MeV, respectivamente. 6) Faça a questão 5 usando a equação ) Determine a massa em MeV/c 2 para o elétron e o próton da questão 5. 39
19 CONCLUSÃO Pudemos demonstrar nessa aula que, com o auxílio da transformada de Lorentz é possível relacionar as coordenadas x, y, z e o tempo t, de um evento no referencial O às coordenadas x, y, z e o tempo t, do mesmo evento observado pelo referencial O, o qual se move com velocidade V paralelo ao eixo x, relativa ao referencial O. Amparados ainda pela interpretação de Einstein para tais fenômenos demonstramos que nossa visão de espaço e tempo nunca mais seria a mesma, visto que esse dois conceitos se auto-relacionam para corpos em movimento. Verificamos ainda que a Dinâmica Newtoniana também precisaria ser revista em função dos novos pressupostos introduzidos por Einstein. Concluímos, portanto que, o que aumenta com a velocidade não é a quantidade de matéria do corpo, mas sim sua massa inercial aumenta a resistência da partícula ao movimento. 40
20 RESUMO Coeficiente de Lorentz: Tempo próprio (t p ) é o intervalo de tempo que ocorre em posições em repouso em relação a um determinado observador ( ). Sabemos ainda que, então o intervalo medido em qualquer outro referencial é sempre maior do que o tempo próprio, o que corresponde à dilatação do tempo. Derivação da transformação de Lorentz para velocidades No caso especial em que o deslocamento é paralelo ao eixo x, e, e assim: Dinâmica Relativistica Variação da massa relativística com a velocidade. Próximo da velocidade da luz (c), a massa inercial cresce para o infinito. Para baixas velocidades, a massa inercial permanece quase inalterada, indicando o limite clássico. Energia Relativística E = energia total, p = momento e m = massa de repouso. 41
21 PRÓXIMA AULA Em nossa próxima aula discutiremos um novo assunto: a evolução das idéias sobre a origem e organização do universo até chegarmos ao conceito de gravidade. REFERÊNCIAS ALONSO, M., Finn, E. J. Física. Vol1. 1ed. São Paulo: Addison-Wesley, 1999, 936p. TIPLER, P. A., MOSCA, G. Física. Vol ed. Rio de Janeiro: LTC, 2006, 293p. GLEISER, M. A dança do Universo: dos mitos de criação ao big-bang. São Paulo: Companhia das Letras,
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