Úlceras de Perna Úlceras Venosas
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- Márcio Dreer Botelho
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1 6 2 Úlceras de Perna As úlceras de perna estão se tornando feridas crônicas cada vez mais comuns e foram reconhecidas há vários anos. Até pouco tempo atrás, os médicos pouco se interessavam pelo tratamento dessa enfermidade. Entretanto, os avanços modernos no campo do tratamento de feridas motivaram as pessoas que se preocupam com os pacientes com úlceras de perna [DEALEY, 1996]. Várias causas são atribuídas para o surgimento das úlceras de perna. A mais comum é a doença venosa, arterial ou uma combinação das duas. Nesse caso, as úlceras são chamadas de "úlceras mistas" [DEALEY, 1996]. Uma outra causa comum é a diabetes. As características e o tratamento de cada um desses tipos de úlceras devem ser avaliados separadamente Úlceras Venosas A insuficiência venosa crônica (IVC) representa 60% a 70% de todas as úlceras de perna [MAFFEI, 1995]. Conhecida também como úlcera varicosa ou gravitacional, a maioria dos autores prefere designá-la como úlcera venosa ou úlcera de estase, termos que tanto se aplicam às úlceras por varizes como às úlceras por seqüelas pós-flebíticas. A Figura 2.1 mostra um caso de úlcera venosa.
2 7 A causa desse tipo de úlcera se dá inicialmente pelo surgimento da trombose e varizes as quais prejudicam as válvulas das veias da perna. Se alguma válvula for lesionada, o sangue pode fluir em qualquer direção, inclusive do leito capilar, o que pode gerar hipertensão venosa. Isso aumenta a permeabilidade dos capilares permitindo que moléculas maiores, como fibrinogênio e os glóbulos vermelhos, consigam escapar para o espaço extravascular. A hemoglobina é liberada dos glóbulos vermelhos e depois quebrada, o que causa eczema e um sombreamento marrom na região da perna. Esse estado é denominado lipodermatoesclerose. Se a perna sofrer qualquer trauma, surgirá uma úlcera e quanto mais grave for a lipodermatoesclerose, mais difícil será a cicatrização da úlcera [DEALEY, 1996]. Figura 2.1 Úlcera de origem venosa 2.2. Úlceras Arteriais Maffei [MAFFEI, 1995] afirma que as úlceras de origem arterial são aquelas formadas a partir de um infarto isquêmico da derme. São muito doloridas e causadas principalmente por arteriosclerose.
3 8 A arteriosclerose se deve a um bloqueio total ou parcial do fornecimento de sangue arterial para as pernas e geralmente ocorre junto com a aterosclerose que é a formação de placas de gordura no revestimento interno dos vasos. O lúmem dos vasos vai se estreitando o que provoca isquemia nos tecidos vizinhos e tem a necrose como resultado final [DEALEY, 1996]. A úlcera pode ocorrer em qualquer lugar da perna ou pé, mas a maioria delas se localiza no pé. Pode ter a aparência de um orifício, pode ser profunda e normalmente apresenta necrose e muito menos exsudação do que nas úlceras venosas. As úlceras arteriais são conhecidas como de difícil cicatrização e há um risco considerável de evoluir para gangrena e até septicemia Úlceras Diabéticas As causas básicas das úlceras diabéticas são a neuropatia periférica e a doença vascular periférica. A infecção é um risco que está sempre presente e pode agravar o desenvolvimento da ulceração aumentando o risco de amputação [DEALEY, 1996]. A neuropatia periférica afeta os nervos periféricos sensoriais. Isso tem um efeito duplo de provocar perda de sensibilidade e comprometer a biomecânica do pé [DEALEY, 1996]. A doença vascular nos diabéticos afeta basicamente as arteriolas menores dentro do pé. A gangrena dos dedos do pé pode ser provocada por trombose na artéria que fornece sangue para o dedo afetado [DEALEY, 1996].
4 9 Devido à perda de sensibilidade provocada por esse tipo de úlcera, a sua constatação pode ser retardada. Se isso acontecer, a detecção pode ocorrer em um momento onde a úlcera se encontra em um estágio mais avançado, o que torna difícil o processo de cicatrização Tecidos da Pele A pele é composta por duas camadas principais: A epiderme, com aproximadamente 0,04 mm de espessura, e a derme com 0,5 mm de espessura aproximadamente. A epiderme é a pele propriamente dita, e constitui a camada mais externa enquanto que a derme representa a camada mais interna [SUSSMAN, 1998] Epiderme A camada epidérmica é flexivel, elástica e dura, fornecendo proteção às demais camadas do corpo. Essa camada não vascularizada é de fácil regeneração e é a responsável pelas sensações de tato, temperatura e pressão. A pele sofre um processo de regeneração constante, com suas células localizadas mais internamente constantemente migrando desse estrato mais profundo para o mais superficial, onde sofrem alterações morfológicas, tornando-se queratinizadas. A seguir, ocorre um processo de descamação, que dá lugar à contínua reposição de células mortas por células novas, facilitando o processo de regeneração da epiderme [ROSS & ROWELL, 1989] Derme A derme constitui a camada mais interna da pele e possui a característica de ser bem vascularizada e conter característica linfática, além
5 10 de possuir células epiteliais, tecido conjuntivo, músculos, gordura, colágeno, tecido nervoso e outras substâncias que formam essa camada [SUSSMAN, 1998]. O colágeno dá à pele a sua dureza. Os capilares e as glândulas sebáceas, localizados na derme, contribuem para a rápida reepitalização da área da ferida, neste caso das úlceras de perna. As glândulas sebáceas são responsáveis pela secreção que lubrifica a pele e a torna suave e flexível [SUSSMAN, 1998]. O suprimento vascular da derme é responsável pela nutrição da epiderme e pela regulação da temperatura do corpo. A boa vascularização da camada dérmica garante maior resitência à pressão externa por períodos longos de tempo [SUSSMAN, 1998]. A parte final dos nervos inclui os receptores. A perda da terminação nervosa aumenta os riscos de ruptura na pele diminuindo a tolerância do tecido a forças externas [SUSSMAN, 1998] Avaliação dos Tecidos em Úlceras de Perna A avaliação das úlceras de perna pode ser feita através dos tipos de tecido encontrados dentro e ao redor da ferida. A avaliação tecidual pode ser feita em três aspectos: agudo, crônico e ausente para cada fase da cura da ferida (inflamação, proliferação e epitalização) [SUSSMAN, 1998]. Cada tecido pode ser identificado por sua coloração, e é isso que motiva o desenvolvimento do trabalho proposto para o auxílio ao diagnóstico das úlceras de perna. Para o auxílio ao diagnóstico, pode ser avaliado tanto o tecido interno à ferida quanto o externo ao seu redor.
6 Avaliação do Tecido Periférico de Úlceras de Perna A avaliação do tecido periférico de uma úlcera pode indicar possível fase de inflamação. Os maiores atributos dos tecidos adjacentes e externos observados na fase de inflamação incluem cor, temperatura, textura, sensação e hemorragia. O avermelhamento da pele nessas regiões é uma das características clássicas da fase inflamatória [SUSSMAN, 1998]. Essa característica, entretanto, não é facilmente notada em pessoas cuja pele possui pigmentação escura. Para esses casos podem ser indicadas outras características como sensação, temperatura, tensão [SUSSMAN, 1998] e a avaliação de tecidos na região interna da ferida Avaliação de Tecidos Internos Três tipos básicos de tecido podem ser encontrados na região interna das úlceras de perna, sendo que cada tecido pode ser caracterizado por sua cor. Tais tecidos são importantes pois podem indicar o estado patológico da ferida. As cores básicas que representam cada tecido são: vermelho, amarelo e preto Tecido de Granulação O tecido de granulação é caracterizado por uma coloração vermelha e rosa. A maior parte das cicatrizações de feridas em seres humanos é feita através desse tecido seguido pelo processo de epitalização, que indica o crescimento de tecido novo. A cor vermelha rosada pode ser substituída lentamente por um tom de rosa claro a medida que o sistema vascular é restabelecido.
7 12 Entretanto nem todo tecido de cor vermelha indica tecido de granulação. Após a remoção do tecido necrosado, o músculo que está abaixo pode ser notado apresentando sua coloração avermelhada típica [SUSSMAN, 1998] Tecido Infeccionado O tecido infeccionado, muitas vezes caracterizado pela presença de exsudato na ferida (também conhecido como fluído ou drenagem da ferida), é uma característica de avaliação importante porque suas propriedades auxiliam os clínicos no sentido de diagnosticar a infecção da ferida, avaliar a eficiência do tratamento e monitorar o processo de cura. No tratamento de feridas agudas por infecção primária, a presença do exsudato é normal durante as primeiras 48 a 72 horas. Após esse período, a sua presença é sinal de que o tratamento foi prejudicado [SUSSMAN, 1998]. As características do exsudato são: a cor, consistência, aderência, distribuição na ferida, presença de odor e a quantidade presente [SUSSMAN, 1998]. Quando o exsudato apresenta coloração amarela, amarela bronzeada ou esverdeada, ele está indicando que a ferida está infeccionada. Em determinados tipos de úlcera predomina a coloração amarela. A avaliação desse tecido, e sua área proporcional na ferida, fornecem ao clínico informações valiosas sobre a eficiência do tratamento Tecido Necrosado O tecido necrosado representa a porção de tecido morto. À medida que o tecido necrosado aumenta em gravidade, a sua cor muda do amarelo para a
8 13 cor preta em seguida. O nível de tecido morto e a etiologia da ferida influenciam na aparência clínica do tecido necrosado [SUSSMAN, 1998]. A quantidade de tecido necrosado retarda a cicatrização da ferida porque ele é um meio para o crescimento de bactérias e uma barreira física para a restauração epidérmica. Quanto maior for a quantidade de tecido necrosado na ferida, maior é o dano causado no tecido e maior o tempo de cicatrização Reparação Tecidual A cicatrização é o fenômeno pelo qual se garantem a restauração e o fechamento de uma lesão, de um ferimento, ou da perda de substâncias dos tecidos [RODRIGUES, 2001]. A cicatrização pode ser primária ou secundária. A cicatrização primária leva a um fechamento natural dentro de quatro a seis dias, geralmente sem cicatrizes. No caso da cicatrização secundária, há um acúmulo de complicações como a expansão da ferida, compressão das margens e infecção. Isso leva a um processo lento e finalmente a um mau funcionamento do tecido cicatricial [MAGALHÃES, 1999]. O processo de cicatrização pode ser dividido nas fases: lesão, seguida de reação inflamatória, proliferação fibrovascular e tecido cicatricial [GOUVÊA, 2000]. A fase sobre lesão refere-se neste trabalho às úlceras de perna Inflamação A inflamação é o conjunto de fenômenos bioquímicos, morfológicos e fisiológicos, sucessivos, ativos e complexos, pelos quais se exterioriza a reação vascular e tissular dos tecidos vivos a qualquer agressão. Tem por
9 14 objetivo dominar, minimizar, neutralizar, destruir e eliminar a causa da agressão. Promove a reparação tecidual através da reposição de células e tecidos mortos por células sadias, oriundas do epitélio adjacente [VASCONCELOS, 1999]. A inflamação pode ter um aspecto benéfico. Se não existisse o processo inflamatório, os microorganismos estariam livres para penetrar nas mucosas e feridas, proliferar, disseminar e finalmente comprometer de tal forma o organismo hospedeiro que fatalmente o mataria. Além disso, se não existisse a inflamação, não existiria cicatrização de feridas nem cura e reparação das lesões [VASCONCELOS, 1999]. A inflamação pode ainda ter um efeito maléfico. Existem ocasiões em que o processo inflamatório pode interferir seriamente na função do órgão acometido, podendo até mesmo levar a uma condição mais ameaçadora que a agressão inicial que o determinou. Nesses casos, ocorre a perda do controle homeostático na resposta, assumindo a inflamação um papel destrutivo, maléfico ao organismo [VASCONCELOS, 1999] Proliferação Fibrovascular Clinicamente nessa fase ocorre a formação de granulação, que é composta basicamente por colágeno e vasos sangüíneos. Ocorre a formação de uma fina camada de parede epitelial e já há um encolhimento da ferida. Os macrófagos também irão produzir os quimiotáxicos e fatores estimulantes de crescimento, que vão acabar mediando a formação de tecido de granulação e epitelização. Isso acontece pela síntese do colágeno. Para a formação do tecido de granulação, além da produção do colágeno, se dá o processo de angiogênese (a formação de uma nova vascularização). Com o trauma o vaso é rompido, então no leito da ferida tem que se formar uma vascularização, e é
10 15 essa vascularização, juntamente com o colágeno que irão formar esse tecido de granulação [RODRIGUES, 2001] Tecido Cicatricial É formado pela migração de células endoteliais que vão da periferia para o leito da ferida; acontece sob o tecido de granulação e a epitelização só ocorre em meio úmido. Existe um tipo de fibroblasto que se chama biofibroblasto, ele contrai essa ferida para que haja um encolhimento. Essa contração depende da extensão da ferida, pois o nosso organismo tem um limite que não é ultrapassado. Em certos casos há uma necessidade de ser feito um enxerto [RODRIGUES, 2001].
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