CONSTRUINDO A DEMOCRACIA SOCIAL PARTICIPATIVA

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1 CONSTRUINDO A DEMOCRACIA SOCIAL PARTICIPATIVA Clodoaldo Meneguello Cardoso Nesta "I Conferência dos lideres de Grêmio das Escolas Públicas Estaduais da Região Bauru" vamos conversar muito sobre política. Muitos de nós temos desinteresse sobre política e nem gostamos de falar sobre política. Sabem por quê? Sempre perguntaram para nós o que vamos ser quando crescer, que profissão queremos ter, o que compraremos tendo um bom salário ou bom negócio: carro, casa, roupas, viagens. Sempre nos ensinaram que política é coisa para os políticos, que os problemas coletivos e públicos são problemas, do poder público: prefeito, governador e presidente. Sempre nos ensinaram apenas olhar para nossa vida pessoal. Isso não é vida política. Conversar sobre política é debater assuntos sobre nossa vida em sociedade, isto é, sobre nossos problemas coletivos e sonhos comuns, sobre nossa felicidade coletiva, enquanto povo brasileiro, latino-americano e habitante do planeta Terra. Isso é vida política. Conversar sobre política é o conversar sobre o Brasil, portanto, sobre nós brasileiros. Para isso é preciso relembrar o passado para entender melhor o que ocorre no presente e assim podermos preparar nosso futuro. Assim como nosso país, cada um de nós tem uma história, com passado, presente e futuro. A vida do ser humano é uma soma das lembranças do que já viveu, das suas vivências de hoje e de seus projetos e sonhos que ele quer que se realizem no futuro, isto é, quando ele tiver mais idade. Por isso é importante conversar sobre o passado, o presente e o futuro.

2 Vocês já imaginaram como seria se uma pessoa perdesse a memória e não se lembrasse mais de seu passado? Não se lembrasse de sua infância, onde você morou, seus amigos e amigas de brincadeiras? Se não se lembrasse de sua primeira escola? Dos encontros com seus avós? Quando chorava para tomar vacinas? Das festas de aniversários, dos natais da infância quando ainda acreditava que o Papai Noel é quem trazia os presentes? Uma pessoa que não se lembrasse de seu passado seria muito triste, porque nem saberia direito quem ela era. Porque ela gosta disso e não daquilo, hoje. E por isso não saberia o que ela gostaria de ser no futuro. Assim pode ocorrer também com nós brasileiros. Sem conhecer a história de nosso país não saberemos por que hoje somos assim: um país com muitas pessoas e culturas diferentes; um país com pessoas muito ricas, mas também como muita gente vivendo na pobreza e morando em favela; um país com muita violência e ainda com muito preconceito de todo tipo. Se nós conhecermos a história recente do Brasil, dos últimos trinta anos, saberemos também que essa desigualdade social está diminuindo, porque muitos brasileiros, organizados em movimentos sociais, sindicatos e outras associações, estão lutando para isso. Então sabendo de tudo isso, poderemos conversar sobre como que a história pessoal, de cada um de vocês, pode estar ligada a esta história do Brasil. Como vocês sabem o Brasil tem um pouco mais que 500 anos de idade, mais exatamente, 515 anos. Isso vocês sabem. Mas pergunto agora: quantos anos o Brasil tem de vida política democrática, em que o povo pode escolher livremente seus governantes, se organizar livremente em partidos políticos e ter liberdade para expressar suas ideias a favor ou contra o governo? Acreditem,

3 desses 515 o Brasil tem apenas um pouco mais de 50 anos de regime democrático? Ao longo da história do Brasil o poder político foi dominado pela nobreza e pelas elites muito ricas, sempre apoiadas pelo exército e pela Igreja. Daí porque predominou um autoritarismo que subjugou e explorou, causando enormes sofrimentos às populações indígenas, negras, imigrantes e de trabalhadores braçais em geral. Conhecendo melhor esta história vamos como se formaram durantes esses 500 anos duas características do Brasil que são dois grandes obstáculos que impedem o desenvolvimento do país. Uma característica e de ordem material e outra cultural. Materialmente, isto é, economicamente o Brasil é um país com profundas desigualdades sociais entre ricos e pobres. Isso significa que a maior parte da riqueza do país está nas mãos de poucas famílias, enquanto que grande parte delas vive com renda de 1 a 3 salários mínimos. Já no plano cultural a mentalidade das pessoas a sociedade brasileira ainda é bastante conservadora, preconceituosa e autoritária. Somente agora, nos últimos 30 anos, estamos aprendendo a viver democraticamente; isso significa obedecer as regras aprovadas pela maioria, respeitar a opinião da minoria, conviver com as diferenças, aceitar igualdade de direitos, exercer a solidariedade etc. As desigualdades e o autoritarismo são duas grandes pedras no meio do caminho. Como se vê, mudar as estruturas econômicas e sociais que provocam as desigualdades e mudar a mentalidade são condições para o Brasil ter um futuro melhor. E como cada um de nós individualmente e coletivamente podemos e devemos contribuir para essas mudanças?. É o que vamos conversar depois que entender melhor como esta situação se formou na história do Brasil. E para não esticar muito essa nossa conversa, vamos rever alguns

4 fatos importantes da história do Brasil apenas dos últimos 50 anos. Vamos voltar lá nos anos de 1960, quando estava ocorrendo grandes mudanças no mundo e também no Brasil. Naquele período estava acontecendo algo muito importante na vida social e política do país. A sociedade brasileira estava vivendo um daqueles poucos momentos de democracia que tivemos em nossos 500 de vida. O povo elegia seus governantes, tinha liberdade para formar partidos políticos, tinha liberdade para fazer manifestações nas ruas. Porém, naquela época, o Brasil já tinha aquele grande problema de que falamos a pouco, as desigualdades sociais: muita miséria, muitas pessoas sem escolas, sem poder ter acesso aos poucos serviços de saúde, sem terra para plantar e nas cidades já existiam muitas favelas. As forças conservadoras queriam modernizar o Brasil com indústrias de bens de consumo (automóveis, utensílios domésticos etc.), escolas técnicas, estradas, grandes construções, como a nova capital - Brasília, com apoio às grandes plantações de soja, cana e à criação de gado. Era uma modernização que daria muito lucro para as camadas ricas da sociedade. Já as forças progressistas e populares queriam um outro tipo de desenvolvimento que passava pelas reformas de base, como eram chamadas na época: reforma agrária a principal delas, desapropriando e garantindo terras para os pequenos agricultores, reforma universitária democratizando sua estrutura de poder, reforma política estendendo o direito de voto aos analfabetos entre outras medidas nacionalistas prevendo uma intervenção mais ampla do Estado na vida econômica e mais, reformas bancária, fiscal, urbana, administrativa, agrária e universitária. Como se vê as reformas de base

5 estavam voltadas para melhorar as condições de vida da população pobre e aumentar sua participação na vida política do país. E sabem o que aconteceu? Aconteceu aquilo que já havia acontecido várias vezes na história do Brasil, sempre quando o povo começou a lutar para garantir e ampliar seus direitos. O exército, juntamente com a elite econômica e com apoio da Igreja e dos Estados Unidos, deu um golpe de Estado, na madrugada no dia 31 de março para o dia 1º de abril de Ou seja, os militares tiraram à força o presidente do Brasil, eleito pelo voto, e implantaram um governo militar com poder total, rasgando assim a Constituição do Brasil, aprovada democraticamente pelo Congresso Nacional, em O golpe de 64 implantou no Brasil uma ditadura militar durante 21 anos, que cassou os partidos políticos; invadiu universidades prendeu opositores ao regime; torturou, assassinou e desapareceu com corpos de presos políticos, destruindo famílias; impôs censura aos meios de comunicação e às artes; implantou uma educação tecnicista, do medo, do silêncio, do individualismo e da mentira histórica que até hoje existe em muitas escolas. Veio finalmente a democracia com a Constituição de 88, mas ficou um legado social da ditadura no sofrimento, na impunidade, numa sociedade embrutecida pela cultura da violência e violação dos direitos humanos. Não a democracia que queríamos antes do golpe de 64, mas veio a democracia que foi permitida pelos militares e pela elite econômica. Uma democracia que não colocaria em risco os interesses da camada rica da população. Qual a diferença entre elas? Estamos falando de dois tipos de democracia: a que temos hoje no Brasil chama-se democracia liberal representativa, a outra, democracia social participativa.

6 A primeira procura garantir os direitos civis e políticos e a igualdade jurídica, isto é, todos são iguais perante as leis. São os chamados direitos individuais ou direitos de liberdade, pois seu principal pilar é a liberdade de expressão, de iniciativa, de propriedade etc. No plano político, a participação do povo no poder é praticamente apenas pelos representantes escolhidos nas eleições. A democracia liberal representativa é própria de sociedades capitalistas. Interessa aos capitalistas, pois não há uma política de distribuição de renda. Pelo contrário, os baixos salários e o sistema financeiro favorecem a acumulação de renda de uma minoria da população, concentra assim a renda e aumentando as desigualdades. Na democracia liberal a melhoria da de vida dos pobres ocorre, quando ocorre, apenas superficialmente com acesso principalmente a bens supérfluos, mas a estrutura social que mantém as desigualdades continua. É esta a democracia que conseguimos depois da ditadura. Ela pode trazer um desenvolvimento, porém é um para poucos, uma modernidade conservadora. Pode modernizar a sociedade em bens materiais, mas conserva as estruturas de exploração que mantém as desigualdades sociais no Brasil há 500 anos: salários baixos, concentração de terras e empresarial, corrupção capitalista na política, sistema financeiro voltado apenas para o lucro etc. Há pouco tempo vivemos uma onda grande de protestos da população em várias capitais, contra a corrupção que envolve políticos de vários partidos e grandes empresários do Brasil. Tem gente, que não estudou direito a história do Brasil, acha que a corrupção começou ou aumentou agora. Mal sabem que a corrupção em nosso país vem desde os tempos da Brasil colônia, mas pela primeira vez, gente grossa de elite e da classe política está indo para cadeia. Somente com a democracia está-se se podendo combater a corrupção.

7 Mas os protestos são pela falta de acesso a direitos básicos como: salário digno, saúde, educação, moradia, transporte, lazer etc., que a democracia atual não conseguiu promover. Para combater isso não basta a democracia liberal representativa que está aí. Precisamos avançar para uma democracia social participativa. Realmente a democracia social participativa é um proposta política para superar os problemas que a democracia liberal consegue. Esta democracia é social porque, além de garantir as liberdades individuais tem como objetivo promover a toda a população o acesso aos bens sociais, econômicos e culturais, por meio de profundas reformas nas estruturas sociais na economia e na política. É participativa porque além da participação na escolha do representante político (de vereador a presidente) pelo voto ela incentiva e promove a participação dos movimentos sociais na vida política do país, por meio de outras formas como conselhos, assembleias, conferências etc. Agora, uma pergunta para estimular nossa conversa após esta exposição. De que maneira os estudantes de hoje podem começar a participar da vida política do país e contribuir para o fortalecimento da convivência democrática na vida cotidiana e para a construção de uma democracia social participativa no Brasil? A tarefa começa em casa, na escola. É preciso estudar, conhecer e praticar valores ético-políticos como: convivência na diversidade, valorização das ações coletivas democráticas, solidariedade em especial com os mais fracos dentre outras. É o que chamamos de educação em direitos humanos. É preciso participar da vida escolar nas assembleias, no Grêmio Estudantil e no Conselho Escolar. É preciso se interessar pelos problemas de seu bairro, de sua cidade e do Brasil. Cada um vai descobrir na vida o seu caminho de participação

8 política nestas esferas mais amplas e assim praticar o que hoje se chama cidadania ativa. É a participação de alguma forma nos problemas coletivos de uma comunidade, que vai além de seus problemas pessoais. A cidadania ativa vai além daquela cidadania de que tanto ouvimos falar: ser um bom cidadão é ser alguém honesto, trabalhador e cumpridor das obrigações sociais. E assim ter direito de usufruir dos bens sociais. É uma cidadania passiva, individualista e que não muda nada. A democracia social participativa necessita de pessoa com de cidadania ativa. Assim estaremos continuando a luta daqueles jovens que morreram, na ditadura, lutando pela liberdade e pela igualdade. Estaremos dizendo a eles que a morte deles não foi em vão, pois hoje há jovens continuando essa luta. Cultivar as memórias das lutas passadas fortalece nosso ânimo nas lutas presentes. Conhecer as verdades históricas nos orienta as escolhas dos caminhos para o futuro. É a memória, a história e a cidadania hoje. Quando vejo jovens como vocês, participar de um encontro para debater problemas sociais e não individuais... Quando vejo jovens, como vocês, preocupado com a felicidade coletiva além de sua felicidade pessoal, acredito que o futuro poderá ser bem melhor principalmente para os mais explorados e excluídos. Quando eu vejo vocês, acredito que um outro Brasil é possível.

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