UNIVERSIDADE DO CONTESTADO UnC PROGRAMA DE MESTRADO EM DESENVOLVIMENTO REGIONAL GETULIO PEREIRA

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1 UNIVERSIDADE DO CONTESTADO UnC PROGRAMA DE MESTRADO EM DESENVOLVIMENTO REGIONAL GETULIO PEREIRA AS POLÍTICAS PÚBLICAS E O ATENDIMENTO AO ADOLESCENTE EM CONFLITO COM A LEI NOS MUNICÍPIOS DE PORTO UNIÃO-SC E UNIÃO DA VITÓRIA-PR CANOINHAS 2014

2 2 GETULIO PEREIRA AS POLÍTICAS PÚBLICAS E O ATENDIMENTO AO ADOLESCENTE EM CONFLITO COM A LEI NOS MUNICÍPIOS DE PORTO UNIÃO-SC E UNIÃO DA VITÓRIA-PR Dissertação apresentada como exigência para a obtenção do título de Mestre em Desenvolvimento Regional no Programa de Desenvolvimento Regional da Universidade do Contestado, sob orientação da Professora Dra. Maria Luiza Milani. CANOINHAS 2014

3 3 AS POLÍTICAS PÚBLICAS E O ATENDIMENTO AO ADOLESCENTE EM CONFLITO COM A LEI NOS MUNICÍPIOS DE PORTO UNIÃO-SC E UNIÃO DA VITÓRIA-PR GETULIO PEREIRA Esta dissertação foi submetida ao processo de avaliação pela Banca Examinadora para a obtenção do Título de: Mestre em Desenvolvimento Regional Ênfase em Políticas Públicas E aprovada na sua versão final em 30 de agosto de 2013, atendendo às normas da legislação vigente da Universidade do Contestado e Coordenação do Curso de Mestrado em Desenvolvimento Regional ênfase em Políticas Públicas. Profª. Dr. Maria Luiza Milani Coordenadora do Curso BANCA EXAMINADORA: Profª. Dra. Dr. Maria Luiza Milani - Presidente Prof. Dra. Marilucia Flenik - Membro Prof. Dr. Argos Gumbowsky - Membro

4 4 LISTA DE SIGLAS E ABREVIATURAS ACAUVA Associação da Criança e Adolescentes de União da Vitória CF Constituição Federal CNJ Conselho Nacional de Justiça CONANDA Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente CMDCA Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente CP Código Penal CPI Comissão Parlamentar de Inquérito CRAS Centro de Referência da Assistência Social CREAS Centro de Referência Especializado da Assistência Social CRFB Constituição da República Federativa do Brasil DCA Departamento da Criança e do Adolescente ECA Estatuto da Criança e do Adolescente FUNABEM Fundação Nacional do Bem Estar do Menor IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística LA Liberdade Assistida LBA Legião Brasileira de Assistência LDBEN Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional LOAS Lei Orgânica da Assistência Social LOS Lei Orgânica da Saúde LOSAN Lei Orgânica de Segurança Alimentar ONU Organização das Nações Unidas PAIF Programa de Atenção Integral às Famílias PIA Plano Individual de Acompanhamento PIB Produto Interno Bruto PNAS Política Nacional de Assistência Social PROJOVEM Programa Nacional de Inclusão de Jovens PRONATEC Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego PROUNI Programa Universidade para Todos PSC Prestação de Serviços à Comunidade RFFSA Rede Ferroviária Federal Sociedade Anônima RT Revista dos Tribunais

5 5 SDHE Secretaria Especial dos Direitos Humanos SPDCA Subsecretaria de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente SUAS Sistema Único de Assistência Social

6 6 RESUMO O presente estudo identifica as políticas públicas sociais existentes nos Municípios de Porto União-SC e de União da Vitória-PR, para o atendimento ao adolescente em conflito com a lei, bem como estão sendo aplicadas nos municípios estudados e, para tanto, foram entrevistados todos os atores sociais encarregados da aplicação das medidas socioeducativos para o segmento, dentre eles o Poder Judiciário, representado pelo juízo da Vara da Infância e da Juventude dos dois municípios, o Ministério Público, das mesmas Varas da Infância e da Juventude, os Secretários da Assistência Social, os Coordenadores dos CREAS, dos CRAS e os Presidentes dos CMDCA. Primeiramente levantou-se o número de adolescentes em conflito com a lei nos dois municípios, os tipos de infrações cometidas e as medidas socioeducativas aplicadas, através de coleta de dados feita junto aos Poderes Judiciários, que anualmente encaminha tais dados ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ) para fins estatísticos. Em suma, os dados coletados buscaram identificar se com a aplicação das políticas públicas existentes nos dois municípios, ocorreu a reinserção social dos adolescentes em conflito com a lei. Palavras-chave: Ato Infracional; Adolescente em Conflito com a Lei; Medida Socioeducativa.

7 7 ABSTRACT This study identifies the social policies existing in the cities of Porto União-SC and União da Vitória-PR, to meet adolescents in conflict with the law, and are being applied in the cities studied and, therefore, were interviewed all social actors responsible for the implementation of socio-educational measures for the segment, including the judiciary, represented by the judgment of the Childhood and Youth of the two counties, the prosecutor, the same sticks Childhood and Youth, the Secretaries of Social Assistance Coordinators of CREAS, CRAS and the Presidents of CMDCA. First up is the number of children in conflict with the law in the two counties, the types of offenses committed and educational measures applied through data collection carried out among judicial branches, which annually sends such data to the National Council of Justice (CNJ) for statistical purposes. In short, the data collected sought to identify themselves with the application of existing public policies in the two counties, was the social reintegration of children in conflict with the law. Keywords: Offense; Adolescents in Conflict with the Law; Measur.

8 8 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO REFERENCIAL TEÓRICO A ADOLESCÊNCIA Adolescência-família-contexto social Adolescente em conflito com a lei O ATO INFRACIONAL POLÍTICAS PÚBLICAS DE PROTEÇÃO AO ADOLESCENTE BRASILEIRO MEDIDAS DE PROTEÇÃO E SOCIOEDUCATIVAS Advertência Obrigação de reparar o dano Prestação de serviços á comunidade Liberdade assistida Regime de semi-liberdade Internação em estabelecimento educacional INSTITUIÇÕES DO ATENDIMENTO SOCIOEDUCATIVO A ADOLESCÊNCIA E AS MEDIDAS SOCIOEDUCATIVAS MATERIAL E MÉTODOS CARACTERIZAÇÃO DOS MUNICÍPIOS DE PORTO UNIÃO-SC E UNIÃO DA VITÓRIA-PR APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS INSTITUIÇÕES E SERVIÇOS OS ENTREVISTADOS ANÁLISE DE DADOS CONSIDERAÇÕES FINAIS REFERÊNCIAS APÊNDICE I QUESTIONÁRIO APÊNDICE II QUESTIONÁRIO (GESTORES) APÊNDICE III QUESTIONÁRIO (EXECUTORES) APÊNDICE IV QUESTIONÁRIO (PRESIDENTES DO CMDCA)... 78

9 9 1 INTRODUÇÃO O presente estudo tem como tema investigar a aplicação das políticas públicas para atendimento ao adolescente em conflito com a lei nos municípios de Porto União-SC e União da Vitória-PR. Nestes municípios, assim como ocorre com os demais municípios da Federação, onde a sociedade, na presença de atos infracionais praticados pelos adolescentes, insuflada pela mídia de massa, cultiva a idéia de que o adolescente em conflito com a lei é um problema da segurança pública e da justiça, quando na realidade é um problema social que deve ser tratado. Ao analisar-se a realidade brasileira, verifica-se que um dos graves problemas do país que se avoluma estão relacionados aos adolescentes, de todas as camadas sociais, que se encontram em conflito com a lei. Até recentemente, ao se fazer essa leitura, constatava-se que o adolescente em conflito com a lei só era relacionado com as realidades sociais empobrecidas e vulnerabilizadas economicamente. Hoje, se observa que esse padrão não é mais predominante, pois, adolescentes de todas as camadas sociais praticam os mais variados tipos de infrações. Esta realidade de cometimento de infrações de todo o tipo praticada por adolescentes, está presente em todas as classes da sociedade brasileira. Homicídios, furtos, roubos, porte de armas, estupros, tráfico e uso de drogas, são fatos corriqueiros no Brasil. Não são praticados apenas por jovens social e economicamente carentes. Mas a mídia faz disso seu produto de vendas dando ênfase a qualquer fato dessa natureza, contribuindo para aumentar o medo e a insegurança da população, em relação aos adolescentes infratores, em especial aqueles advindos dos grupos populacionais de regiões periféricas, de favelas, de bairros longínquos. O pertencimento a estes territórios por si só já são referencias estigmatizantes, quando relacionados a ato infracional, potencializam o preconceito e a discriminação. Os adolescentes, por sua vez se portam como rejeitados pela sociedade. Em consequência foram criados mais mecanismos de repressão e controle, do que propriamente de proteção social, com a intenção de diminuir vulnerabilidade e assim também coibir a prática dessas infrações. Com estes tópicos preliminares sobre o que representa o ato infracional cometido por adolescentes e a polêmica gerada em seu entorno que surgem as políticas públicas de proteção aos adolescentes, como uma orientação clara para um sistema de proteção social em especial ao adolescente em conflito com a lei.

10 10 Embora o compromisso político e as conquistas na promoção dos direitos humanos no Brasil, principalmente nos últimos 20 anos, ainda há que se lutar para a materialização destes direitos das crianças e adolescentes privados do acesso de patamares mínimos de desenvolvimento, bem estar, cidadania e políticas públicas que possam garantir estes direitos. Tais situações ainda os tornam socialmente vulneráveis. A implementação ou implantação de políticas públicas sociais e programas de atendimento preceituados pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) em 1990, constituem-se em abrangente lista de possibilidades, envolvidos, responsáveis e perspectivas de resultados efetivos no campo da proteção social integral ao segmento. Como a lei só se torna eficaz se for cumprida, a sua promulgação não garante a transformação imediata da realidade social. Há que se modificar os paradigmas pré-existentes, no campo da criança e do adolescente para se alterar o modo de pensar em relação a este segmento, na vigência do antigo Código de Menores (1979). Assim, para haver quebra desse pensamento, será necessário reconhecer as limitações que as instituições ajudam a manter referentes a este segmento, bem como o reconhecimento das políticas públicas a ele destinadas, que visam modificar essas concepções e fortalecer as ações sobre os adolescentes. No município de Porto União-SC a população de adolescentes é de adolescentes e no município de União da Vitória-PR é de adolescentes (IBGE 2010). Por outro lado, a problemática dos adolescentes em conflito com a lei, sob a visão dos paradigmas antigos, nada mais é do que um problema de segurança pública e de justiça, ou seja, caso de polícia. Na realidade este é um problema que transcende aquelas instituições, pois a discussão deve ocorrer a respeito das especificidades de desenvolvimento da adolescência e dos processos de exclusão social deste segmento, o que os faz mais vulneráveis à violência e aos atos infracionais, nem todos, mas por questões de distintas origens, crescem os números que indicam que os adolescentes estão envolvidos neles. Portanto, a presente pesquisa desenvolvida nos Municípios de Porto União- SC e de União da Vitória-PR, considera somente os atos infracionais praticados por adolescentes, que deram origem a processos de investigação de menor, no período entre julho de 2008 a julho de 2010.

11 11 Com estes indicativos a pesquisa tem a seguinte problematização: como as políticas públicas sociais existentes estão atendendo os adolescentes em conflito com a lei, nos Municípios de Porto União-SC e União da Vitória-PR? Para o desenvolvimento da pesquisa, têm-se as questões norteadoras: 1- Qual é o cenário do ato infracional cometido por adolescentes em Porto União e União da Vitória? 2- Quais são as políticas públicas e sociais existentes, para o atendimento dos adolescentes em conflito com a lei? 3- Quais são as ações do ECA mais utilizadas para operacionalização das políticas públicas sociais visando o atendimento dos adolescentes em conflito com a lei, em Porto União e União da Vitória? Com estas questões delineadas, definiu-se como objetivo geral: estudar a realidade institucional preconizada pelas políticas públicas para o atendimento ao adolescente em conflito com a lei, nos municípios de Porto União e União da Vitória. Com base nesse objetivo, estabeleceu-se os objetivos específicos: 1- Identificar os adolescentes em conflito com a lei e quais os atos infracionais por eles praticados, nos municípios de Porto União-SC e União da Vitória-PR. 2- Pesquisar as políticas públicas sociais e respectivos programa destinados ao segmento do adolescente em conflito com a lei. 3- Relatar as políticas públicas sociais em andamento nos municípios que se dedicam ao atendimento ao adolescente em conflito com a lei. No tocante à importância acadêmica, a pesquisa se justifica ao preencher uma lacuna de referência para o território estudado, uma vez que os estudos existentes a respeito dos adolescentes em conflito com a lei, nos municípios em foco, restringem-se a uma amostragem do funcionamento das entidades envolvidas no cumprimento das medidas sócio educativas, os tipos de crimes cometidos, sem identificar se houve a operacionalização das políticas públicas preconizadas pelo ECA e se houve a preocupação do Estado na implantação ou implementação de políticas públicas sociais capazes de evitar a reincidência. Diante disso, não existem informações a respeito do número de adolescentes infratores nos municípios estudados e se ocorreu reincidência por parte deles, assim como se foram reinseridos no contexto social, questão que pretende evidenciar neste estudo.

12 12 Além disso, o presente estudo contribui, na medida em que, além do cenário do ato infracional abrange os segmentos sociais, envolvidos na execução das políticas públicas. As concepções e as ações destes atores podem estar relacionadas ao contexto eficaz ou não destas políticas públicas, o que justifica a relevância prática desta pesquisa. A dissertação está estruturada em partes. Na primeira parte apresenta o referencial teórico, com os estudos sobre a adolescência, o adolescente e sua família, seu contexto social, o adolescente em conflito com a lei, o ato infracional, as políticas públicas de proteção social existentes ao adolescente brasileiro, as medidas de proteção e socioeducativas destinadas ao adolescente em conflito com a lei, bem como a descrição de cada uma dessas medidas e em quais tipos de atos infracionais são aplicadas. Na segunda parte, apresenta-se o referencial metodológico, os resultados da pesquisa de campo bem como, reflexões sobre as ações presentes ou não na atuação institucional nos dois municípios para atender aos adolescentes em conflito com a lei. E, no final as considerações possíveis sobre o tema das políticas públicas e os adolescentes infratores. Este estudo foi elaborado segundo as orientações da normalização da UnC.

13 13 2 REFERENCIAL TEÓRICO Com a consolidação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), ocorreu uma mudança de paradigma, ampliando o compromisso e a responsabilidade do Estado e da Sociedade Civil por soluções eficientes, eficazes e efetivas para o sistema socioeducativo, assegurar aos adolescentes em conflito com a lei oportunidade de desenvolvimento e uma autêntica experiência de reconstrução de seu projeto de vida. Assim, esses direitos estabelecidos no ECA, devem repercutir diretamente na materialização de políticas públicas e sociais que incluam o adolescente em conflito com a lei. 2.1 A ADOLESCÊNCIA O adolescente é tido como um filho rebelde, que não quer estudar, e é esta fase que se caracteriza, além das mudanças do corpo humano, pela indefinição de identidades, na fixação do caráter e da afirmação da personalidade do indivíduo, como explica Lima (2002) apud Copani (2003). Adolescente é o indivíduo na adolescência, que se entende como o período que sucede à infância. Inicia-se com a puberdade e acaba com a maioridade. Deriva do latim adolescer, que significa crescer (PEREIRA, 1996). Estas mudanças biológicas que começam na puberdade são universais e visíveis e modificam as crianças, aumentando-lhes a estatura, e dando-lhes a forma e sexualidade de adultos. Assim, à primeira vista, a adolescência apresenta-se vinculada à idade, portanto, referindo-se à biologia ao estado e à capacidade do corpo (SANTOS, 2005). No entanto, somente essas mudanças não transformam, por si só, a pessoa em adulto. Ao mesmo tempo em que é proposta a universalidade do estágio da adolescência, observa-se que ela depende de uma inserção histórica e cultural, que determina, portanto, variadas formas de viver a adolescência, de acordo com o gênero, o grupo social e a geração (MARTINS, et al., 2003). A escola, apesar de ser obrigatória para todos os adolescentes até os 14 anos de idade, proporciona recursos pessoais e sociais, como hábitos de saúde, interações sociais, descoberta de oportunidades, que são aproveitados.

14 14 Além disso, é uma fase de utopias, que geralmente tendem a dificultar a relação do adolescente com o meio social em que vivem, pois seus valores aliados a sua visão crítica da realidade acabam indo de encontro com a moral, os bons costumes e o ordenamento jurídico. A sociedade contemporânea ocidental não apenas estendeu o período de adolescência, como também os elementos constitutivos da experiência juvenil e seus conteúdos A adolescência, hoje não é mais encarada apenas como uma preparação para a vida adulta, mas passou a adquirir sentido em si mesma Adolescência-família-contexto social A adolescência é uma fase da vida em que este é facilmente influenciado devido a essa sua inconstância e perturbação frente às transformações. Nestas circunstâncias, qualquer pessoa pode aproveitar-se desta instabilidade emocional para mudar conceitos, valores e ideologias. Neste processo de desenvolvimento, o adolescente busca apoio em todos os sentidos, com quem se relaciona: na família, amigos, escola, comunidade. Assim, o relacionamento familiar sadio é fundamental para o adolescente, pois a afetividade e as orientações serão a base para superar os conflitos com os quais se defrontam nesta fase de desenvolvimento e transformações. Por outro lado, o vocábulo família pode possuir vários significados para as diversas áreas das ciências humanas, como a sociologia, a antropologia ou o direito. No entanto, para os fins deste estudo, limitar-se-á aos conceitos trazidos pela ciência jurídica. A legislação brasileira não apresenta um conceito definido de família. Assim, toma-se para efeitos didáticos as três acepções do vocábulo família elencados por Diniz (2008), que são o sentido amplíssimo, o sentido lato e a acepção restrita. No entendimento de Diniz (2008) família no sentido amplíssimo seria aquela em que indivíduos estão ligados pelo vínculo da consangüinidade ou da afinidade. Já a acepção lato sensu do vocábulo refere-se aquela formada além dos cônjuges ou companheiros, e de seus filhos, abrange os parentes da linha reta ou colateral, bem como os afins (os parentes do outro cônjuge ou companheiro (DINIZ, p.10). Por fim, o sentido restrito restringe a família à comunidade formada pelos pais (matrimônio ou união estável) e a da filiação.

15 15 No tocante a legislação, esta abrange as três acepções trazidas pela autora, aplicáveis, cada uma em diferentes aspectos das relações familiares, graduando os direitos e obrigações de acordo com a proximidade do círculo familiar. Quem melhor sintetiza o sentido de família constante no ordenamento jurídico brasileiro é Gomes (1998 p. 33), o qual considera família como o grupo fechado de pessoas, composto dos genitores e filhos, e para limitados efeitos, outros parentes, unificados pela convivência e comunhão de afetos, em uma só e mesma economia, sob a mesma direção. Depreende-se desses conceitos, que a família não pode ser apenas enquanto a instituição jurídica, mas sua importância social, em suas várias formas e variações. Sob o ponto de vista do direito, a família é feita de duas estruturas associadas: os vínculos e os grupos. Há três sortes de vínculos, que podem coexistir ou existir separadamente: vínculos de sangue, vínculos de direito e vínculos de afetividade. A partir dos vínculos de família é que se compõem os diversos grupos que a integram: grupo conjugal, grupo parental (pais e filhos), grupos secundários (outros parentes e afins) (LOBO, 2009, p. 2). Assim, para o Direito, família consiste na organização social formada a partir de laços sangüíneos, jurídicos ou afetivos. Entretanto, o Direito não é imutável e não tem qualquer valor se não se espelhar nas alterações da sociedade, nos costumes do povo, que é igualmente a origem e o destino das normas jurídicas. Após séculos de uma legislação baseada em preceitos católicos, em que o casamento, enquanto única instituição familiar era de todas as formas, resguardado pelo ordenamento jurídico brasileiro, a Constituição Federal do Brasil de 1988 introduziu uma nova realidade ao Direito de Família, reconhecendo como entidade familiar, além do casamento, as famílias monoparentais e as uniões estáveis. Ainda que a palavra afeto não esteja presente no texto constitucional, esse foi objeto de proteção pelo Poder Constituinte Originário. [...] ao serem reconhecidas como entidade familiar merecedora da tutela jurídica as uniões estáveis, que se constituem sem o selo do casamento, tal significa que o afeto, que une e enlaça duas pessoas, adquiriu reconhecimento e inserção no sistema jurídico. Houve a constitucionalização de um modelo de família eudemonista e igualitário, com maior espaço para o afeto e a realização individual (DIAS, 2009, p. 69).

16 16 No mesmo sentido é a lição de Pereira (2002, p. 230), para quem relativizar o casamento, permitindo sua dissolução, bem como o equiparar às uniões estáveis, que não se exigem qualquer formalidade. Nesse sentido, é importante complementar que: [...] significa, em última análise, a compreensão de que o verdadeiro casamento se sustenta no afeto, não nas reminiscências cartoriais. O Direito deve proteger a essência, muito mais do que a forma ou a formalidade (PEREIRA, 2002, p. 230) Ao mesmo tempo, a Constituição Federal de 1988 também inovou a discussão de família, ao garantir aos filhos havidos por adoção, instituição jurídica que pressupõe afetividade, o mesmo tratamento e direitos garantidos àqueles havidos por consanguinidade. O afeto é elevado pela CRFB a valor jurídico, com conseqüências equivalentes ao vínculo oriundo dos laços sangüíneos. Para Barros (2002), o afeto, enquanto característica inata dos seres humanos, mais do que uma garantia constitucional, é um direito natural do homem. O direito ao afeto é a liberdade de afeiçoar-se um indivíduo a outro. O afeto ou afeição constitui, pois, um direito individual: uma liberdade, que o Estado deve assegurar a cada indivíduo, sem discriminações, senão as mínimas necessárias ao bem comum de todos. O afeto transcende a própria família. Não é um laço que une apenas os integrantes de um núcleo familiar, não é apenas um valor jurídico, mas um sentimento que nutre relações de amizade, companheirismo, humanidade, solidariedade. Não é fruto da biologia, do sangue. É um motor social, componente de todas as relações humanas, principalmente daquela que é base da sociedade brasileira: a família. Na transformação da família e de seu Direito, o transcurso apanha uma comunidade de sangue e celebra, ao final deste século, a possibilidade de uma comunidade de afeto. Novos modos de definir o próprio Direito de Família. Direito esse não imune à família como refúgio afetivo, centro de intercâmbio pessoal e emanador da felicidade possível. Comunhão que valoriza o afeto, afeição que recoloca novo sangue para correr nas veias do renovado parentesco, informado pela substância de sua própria razão de ser e não apenas pelos vínculos formais ou consanguíneos. Tolerância que compreende o convívio de identidades, espectro

17 17 cultural, sem supremacia desmedida, sem diferenças discriminatórias, sem aniquilamentos. Tolerância que supõe possibilidade e limites. Um tripé que, feito desenho, pode-se mostrar apto a abrir portas e escancarar novas questões. Eis, então, o direito ao refúgio afetivo (CUNHA, 2009). Conforme se acentuam os sentimentos, conforme muda o afeto, as relações familiares também mudam. Os laços de parentalidade, de fraternidade e as relações conjugais são criadas e dissolvidas, de acordo com o afeto existente entre os indivíduos e o Direito, enquanto ciência humana e instrumento do povo, não se pode ignorá-lo ou diminuir sua importância. A família identifica-se pela comunhão de vida, de amor, de afeto no plano da igualdade, da liberdade, da solidariedade e da responsabilidade recíproca. No momento em que o formato hierárquico da família cedeu à sua democratização, em que as relações são muito mais de igualdade e de respeito mútuo, e o traço fundamental é a lealdade, não mais existem razões morais, religiosas, políticas, físicas ou naturais que justifiquem a excessiva e indevida ingerência do Estado na vida das pessoas (DIAS, 2009, p. 55). O afeto, enquanto valor fundamental das relações familiares, ainda que não esteja expresso no texto constitucional, ganha aplicação nas letras dos juristas, Maria Berenice Dias e Rodrigo da Cunha Pereira, bem como Álvaro Villaça Azevedo, Luiz Edson Fachin, Sérgio Resende de Barros, e nas decisões que tratam da união entre pessoas do mesmo gênero e da parentalidade socioafetiva. Mais recentemente, Dias (2009) têm defendido a chamada adoção à brasileira, que tem origem no elo afetivo e levam ao reconhecimento do vínculo jurídico da filiação. Nas palavras da jurista, é de tal ordem a relevância que se empresta ao afeto que se pode dizer agora que a filiação se define não pela verdade biológica, nem a verdade legal ou a verdade jurídica, mas pela verdade do coração. (DIAS, 2009, p. 56). Ademais, a parentalidade socioafetiva está ganhando destaque nos tribunais pátrios, tanto que foi objeto de dois enunciados na I Jornada de Direito Civil, promovida pelo Conselho da Justiça Federal, sob a chancela do Superior Tribunal de Justiça, que não apenas reconheceram a instituição da parentalidade socioafetiva, como demonstraram o valor do afeto no ordenamento jurídico brasileiro, como se verifica a seguir:

18 18 Enunciado nº 103 O Código Civil (2002) reconhece, no art , outras espécies de parentesco civil além daquele decorrente da adoção, acolhendo, assim, a noção de que há também parentesco civil no vínculo parental proveniente quer das técnicas de reprodução assistida heteróloga relativamente ao pai (ou mãe) que não contribuiu com seu material fecundante, quer da paternidade socioafetiva, fundada na posse do estado de filho. Enunciado nº 108 No fato jurídico do nascimento, mencionado no art , compreende-se à luz do disposto no art , a filiação consangüínea e também a socioafetiva. A família pode ser definida como célula geradora da sociedade, pois constitui uma instituição básica mantida e reproduzida por laços de amor e solidariedade muito específicos entre as pessoas que a compõem. É a primeira instituição que o sujeito entra em contato quando nasce e que lhe repassa ideologias, fornece-lhe valores e comportamentos, que o acompanham, direta ou indiretamente, até o fim de sua vida. Para a Sociologia, as primeiras funções da família são de: manutenção, colocação e socialização dos indivíduos que compõem o grupo familiar. Nesse sentido, uma família pode ser definida em termos sociológicos, como um grupo de pessoas diretamente ligadas por nexos de parentesco, cujos membros adultos assumem a responsabilidade de cuidar dos filhos (MEDEIROS, 1986). Segundo Medeiros (1986), a família desorganizada caracteriza-se pela falta de pai ou mãe, por falecimento, abandono, separação do casal, convivência com padrasto ou madrasta ou pela falta de alimentos, habitação, educação, saúde, socialização, afetividade e lazer. Para tal, ainda segundo esse mesmo autor, são problemas de ordem socioeconômica, que surgem outros inúmeros, como prostituição, mendicância, alcoolismo, doenças variadas, rejeição, tóxicos e criminalidade (MEDEIROS, 1986, p. 68). A família que se localiza neste cenário, fica caracterizada como não ideal. Assim, de acordo com a época e as perspectivas de desenvolvimento e ideologias das classes dominantes, a família também recebe influências sociais que refletem nos seus membros, modificando seus valores e, muitas vezes acabam por se dissolverem. A família não é um simples fenômeno natural. É uma instituição social variando através da história e apresentando formas e finalidades diversas numa época e lugar conforme o grupo social que esteja sendo observado (PRADO, 1982, p. 12). Em famílias desorganizadas, com condições de exclusão e vulnerabilidade, na maioria das vezes, os membros não possuem qualificação profissional, pois

19 19 muitos são oriundos do êxodo rural e vêm para os centros urbanos com esperanças de melhores condições de vida, mas como não estão preparados o suficiente, defrontam-se com o desemprego. Diante dessa afirmativa, Feijó e Assis (2004) apontam que as famílias do adolescente em conflito com a lei, diante de suas vulnerabilidades, têm sido pouco estudadas. Diante de uma concepção de família surge, ao olhar-se para apenas anos recentes, quando se constata uma série de avanços relacionados às questões familiares. Conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) o Brasil possuía até 2004, 25 milhões de adolescentes entre 12 e 18 anos de idade, representando, aproximadamente, 15% da população. É um país repleto de contradições e marcado por uma intensa desigualdade social, reflexo da concentração de renda, tendo em vista que 1% da população rica detinha 13,5% da renda nacional, contra os 50% mais pobres, que detêm 14,4% desta (IBGE, 2004). E é essa desigualdade social que traz consequências diretas nas condições de vida da população infanto-juvenil. Fazendo-se um recorte racial da população brasileira, verifica-se que as disparidades são ainda maiores, pois se constata que há desigualdade de acesso aos direitos fundamentais. A população pertencente à raça negra é a mais desfavorecida, pois faz parte de um contexto socioeconômico e educacional mais carente do que a população branca. Do total de pessoas que vivem em domicílios com renda per capita inferior a meio salário mínimo, somente 20,5% representam os brancos, contra 44,1% dos negros (IPEA, 2004). A pobreza maior encontra-se nas famílias dos adolescentes negros, pois nas famílias dos adolescentes brancos, em 20% delas o rendimento mensal é de até 2 salários mínimos, enquanto a proporção correspondente de adolescentes negros é de 39,8%. Nas áreas urbanas, a taxa de analfabetismo entre os negros é de 12,9%, contra 5,7% entre os brancos. Analisando-se as razões de equidade no Brasil, constata-se que os adolescentes entre 12 e 17 anos da raça e etnia negra possuem 3,23 vezes mais possibilidades de não serem alfabetizados do que os brancos (UNICEF, 2004). Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2004), 60% dos adolescentes brasileiros da raça e etnia branca já haviam concluído o Ensino

20 20 Médio, contra apenas 36,3% de afro-descendente (negros e pardos). Existem também diferenças superiores entre a raça e etnia negra na relação entre a média de anos de estudo e o rendimento mensal em salário mínimo. Mas, conforme o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA, 2004), a raça e a etnia branca possuem média de estudo de oito anos e renda média diante do salário mínimo de 4,50 contra a média de 5,7 anos de estudo com renda média em salário mínimo de 2,20 da raça e etnia negra. No tocante a escolarização dos adolescentes e jovens brasileiros, a realidade apresenta dados relevantes. Muito embora 92% da população de 12 a 17 anos se encontra matriculada, 5,4% ainda são analfabetos. Já na população de 15 a 17 anos, 80% dos adolescentes frequentam a escola, mas somente 40% frequentam o nível adequado para sua faixa etária, e somente 11% dos adolescentes entre 14 e 15 anos, concluíram o Ensino Fundamental (IBGE, 2004). Por outro lado, dos jovens de 15 a 19 anos, ao contrário dos da faixa etária de 7 a 14 anos, a escolarização diminui, conforme aumenta a idade. Nesse contexto de desigualdade social, a mortalidade juvenil também é aspecto relevante, pois a proporção de mortes por homicídio na população jovem, é muito superior à da população de mais idade. Segundo Waiselfisz (2004), a morte por causas externas na população jovem é de 72% e destas, 39,9% referem-se a homicídios praticados contra essa população. Em relação à população dos adultos, a taxa de mortandade é de 9,8% e desta os homicídios atingem somente 3,3%. Passados quase uma década, este cenário pode ter sido alterado, dependendo da eficácia das políticas públicas que foram ou não aplicadas no contexto brasileiro. Crianças e adolescentes na faixa de 0 a 18 anos de idade constituem um contingente de exatas pessoas, segundo o Censo Demográfico de Representam 31,3 % da população do país. São, pelas definições da lei, de crianças de 0 a 11 anos de idade - 18,7% do total do país- e de adolescentes na faixa dos 12 aos 18 anos de idade; 12,6% da população total. Mas, como resulta problemático desagregar os dados de população - imprescindível para elaborar as taxas - para esses cortes etários, como explicado no capítulo 1, deveremos trabalhar com o agregado de < 1 a 19 anos de idade. Nesse caso, crianças e adolescentes representam 62,9 milhões do total de 190,6 milhões registrados pelo censo de 2010 (33% do total do país) (WAISELFISZ, 2012, p.12).

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