LITERATURA AFRICANA: EM BUSCA DE CAMINHOS PARA A DESCONSTRUÇÃO DO RACISMO

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1 1 LITERATURA AFRICANA: EM BUSCA DE CAMINHOS PARA A DESCONSTRUÇÃO DO RACISMO Vanuza Oliveira do Carmo (UFS) 1- INTRODUÇÃO Presenciamos atualmente muitas discussões acerca da Lei aprovada em janeiro de No centro dessas discussões está a obrigatoriedade de se trabalhar a História e a Cultura da África e dos afro-brasileiros nas escolas públicas e particulares do ensino básico. Tendo em vista essas discussões, somos daqueles que acreditam que uma abordagem positiva da África e dos africanos seja um dos caminhos (senão o primeiro) bastante produtivo para desconstruirmos os mitos que apontam a suposta inferioridade dos africanos e de seus descendentes, de modo que tenhamos como resultado a superação do racismo e a construção de uma sociedade verdadeiramente justa e orgulhosa da sua diversidade étnica. É importante ressaltar que combater o racismo, trabalhar pelo fim da desigualdade social e racial, empreender reeducação das relações étnico-raciais não são tarefas exclusivas da escola (BRASIL, 2004, p. 14). Por outro lado, não temos como perder de vista que essa instituição tem um importante papel na transmissão de conhecimentos e valores que, consequentemente, refletirão na formação de cada indivíduo, desempenhando, assim, um papel fundamental na formação de futuros cidadãos. Desse modo, a escola se constitui como um espaço privilegiado na promoção e transmissão de valores e conhecimentos. Ao mesmo tempo em que defendemos a escola como um lugar propício para a desconstrução do racismo, percebemos que essa instituição ainda privilegia e transmite valores centrados numa visão predominantemente eurocêntrica,

2 2 prevalecendo, assim, a supervalorização da cultura europeia em detrimento de outras culturas; servindo-se, portanto, como meio reprodutor de estereótipos racistas, provocando graves consequências nas estruturas psíquicas, tanto no aluno negro como no aluno branco; inferioridade e superioridade. estimulando, respectivamente, complexos de Levando em conta essa realidade vivenciada pelas instituições de ensino e as propostas da lei /03, julgamos que seja importante pensarmos e refletirmos sobre as possíveis alternativas que façam da escola um lugar onde prevaleça a valorização da diversidade etnicorracial, onde também haja a conscientização acerca da importância de (re)conhecer a cultura africana como uma das matrizes que contribuíram para a formação de nossa identidade nacional. Assim, por meio do reconhecimento e valorização da África e dos africanos, o aluno afrodescendente terá a oportunidade de (re)construir sua auto -estima e, consequentemente, poderá assumir sua identidade com orgulho. Sendo assim, quais meios podem ser utilizados para atingirmos tais objetivos? É bem verdade que o aprendizado da leitura se constitui como uma das maiores e mais importantes experiências do ser humano, tanto no ambiente escolar quanto no meio social. Isso se dá pelo fato de a leitura possibilitar, a partir de seu domínio, a aquisição de conhecimentos, o desenvolvimento do raciocínio, podendo assim, proporcionar ao indivíduo a participação de forma mais ativa e consciente na sociedade. Dessa forma, acreditamos que a inserção de textos literários que abordem de forma positiva a temática relativa aos negros poderá ser um caminho para a desconstrução de imagens negativas que têm afetado a população negra. Em consonância com o plano de trabalho Lei /03: o texto literário em sala de aula, vinculado ao projeto de pesquisa Lei /03: Escola, Literatura e Identidade foi pensada e concebida, em março de 2012, uma experiência com alunos do 8º ano de uma escola municipal de Itabaiana/SE, com o propósito de promovermos, no contexto escolar, a valorização da diferença e da diversidade. Nesse contato com a

3 3 escola, foi apresentado aos alunos o conto angolano A menina Vitória, do autor Arnaldo Santos. Destacamos, desde já, que esse corresponde o primeiro momento de nossa experiência, significa dizer que retornaremos num segundo momento para apresentarmos outros textos literários, também africanos. No primeiro contato com a turma, nossa intenção foi de apresentar discussões referentes ao preconceito racial; motivo pelo qual optamos pelo conto A menina Vitória. Partindo desse contexto, objetivamos no presente trabalho, apresentar a recepção desse conto pelos alunos envolvidos nessa experiência. Para uma melhor compreensão das questões discutidas nesse trabalho, buscamos respaldo teórico nos escritos de diversos escritores que abordam os temas em questão. Partiremos, então, para o nosso referencial teórico. 2 - Referencial Teórico Os problemas educacionais que afligem a população afro-brasileira têm origens no Brasil colônia que, durante séculos, adotou estratégias para impedir o acesso dos negros à escola, resultando, assim, num sistema educacional excludente onde predomina a desigualdade racial. Refletir acerca desses problemas enfrentados pela população afrodescendente ao longo da história, nos faz entender a importância e a necessidade da implementação da lei /03. Para o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana, o Parecer 003/2004, do Conselho Nacional de Educação determina que se devam evitar distorções. Para tanto, esse ensino precisa envolver: (...) articulação entre passado, presente e futuro no âmbito de experiências, construções e pensamentos produzidos em diferentes circunstâncias e realidade do povo negro. É um meio privilegiado para a educação das relações étnico-raciais e tem por objetivos o reconhecimento e valorização da identidade, história e cultura dos afro-brasileiros, garantia de seus direitos de cidadãos,

4 4 reconhecimento e igual valorização das raízes africanas da nação brasileira, ao lado das indígenas, européias, asiáticas. (BRASIL, 2004, p. 20) A citação acima deixa claro, ao contrário daquilo que muitos comentam, que a intenção não é rejeitar as raízes europeias em favor, exclusivamente, do elemento africano. Trata-se, entretanto, de reconhecermos todas as matrizes culturais para fazermos do Brasil um país onde as diversidades culturais e étnicas sejam devidamente valorizadas, sejam estas europeias, africanas, indígenas ou asiáticas. Na apreciação do tema referente à leitura literária na escola, Paulo Bragatto Filho (1995) defende a leitura de textos literários a partir das séries inic iais. O autor atribui ao livro literário o poder de seduzir o leitor e assim, no contato com a literatura desde as séries iniciais do ensino fundamental, o aluno tomará gosto por outras leituras e não somente pela leitura literária. Assim, o autor defende que a leitura de obras literárias no ensino fundamental é de suma importância, pois: Os alunos gostarão de ler literatura porque descobrirão um sentido em ler obras literárias: elas os farão diferentes, melhores, mais crescidos e amadurecidos; eles perceberão os livros, o mundo, as coisas, as pessoas e a si próprios com olhos, mente e sensibilidade mais críticos e criativos! (FILHO, 1995, p. 06). Compartilhamos dessa concepção de Filho, assim, acreditamos que a literatura se constitui como um caminho produtivo que poderá ajudar crianças e jovens a discutir e entender questões como o preconceito e discriminação raciais, diversidade cultural, e o mais importante: reconhecer e valorizar as diferenças. Retornando ao assunto acerca da importância da Lei /03 e os impactos positivos que esta poderá provocar, Nilma Lino Gomes (2008) reitera: Maior conhecimento das nossas raízes africanas e da participação do povo negro na construção da sociedade brasileira haverá de nos ajudar na superação de mitos que discursam sobre a suposta

5 5 indolência do africano escravizado e a visão desse como selvagem e incivilizado (GOMES, 2008, p. 72). No âmbito dessa discussão, é importante reconhecermos a necessidade de desconstruirmos os preconceitos sobre a África. É nesse sentido que convidamos todos para uma reflexão sobre os seguintes questionamentos: O que sabemos sobre a África corresponde à realidade desse continente tão vasto e complexo? Essas informações contribuem para a valorização dos africanos e de seus descendentes? Devido a algumas experiências já vivenciadas e o contato com textos que abordam essa questão, percebemos que no imaginário de muitas pessoas, a África é apenas um lugar de fome, secas, resumida apenas a aldeias onde vivem pessoas miseráveis e desprovidas de saberes e conhecimentos, além disso, está sempre vinculada ao exótico. Esse fato contribui para a desvalorização dos negros que, por sua vez, não encontram um referencial positivo para se reconhecerem, assim, o processo de construção da identidade fica comprometido. Partindo para as questões referentes à representação dos negros na literatura, o autor Manuel Ferreira (1987) faz uma breve incu rsão no passado das Grandes Navegações Portuguesas, retomando fatos longínquos que foram determinantes para os acontecimentos que surgiram a partir dos grandes feitos portugueses. Devido às grandes navegações, surgiu a chamada Literatura das Descobertas e Expansão; sendo esta responsável por glorificar o espírito português pela expansão do seu império e da fé cristã, além disso, também foi responsável por difundir ideias que até hoje aprisionam os africanos e seus descendes aos estereótipos inferiorizantes, posteriormente, também presentes na Literatura Colonial. Na chamada Literatura Colonial o sujeito enunciador era o europeu que, numa perspectiva eurocêntrica representava os povos africanos de forma marginalizada e coisificada, outras vezes, de forma paternalista. Desse modo, o europeu era enxergado na literatura e nos olhos de quem a escrevia como um herói mítico, desbravador de terras inóspitas, portador de uma cultura superior

6 6 (FERREIRA, 1987, p. 11). Portanto, ainda de acordo com esse autor, o único que tinha direito à posse das terras era o europeu que, por sua vez, não era o opressor e sim o redentor, o grande sacrificado. Na contramão dessa Literatura Colonial, surge a Literatura Africana abordando, por sua vez, temas representativos da especificidade africana. Nessa literatura, há a negação da legitimidade do colonialismo, desse modo, privilegia o negro dando a este um tratamento literário. Ainda com base nos escritos de Ferreira (1987), é possível notar que o homem branco não foi totalmente excluído, este era representado de forma negativa e, às vezes, de forma positiva. Esse fato demonstra que, ao contrário do que fizeram os europeus, os africanos eram justos em sua maneira de representação dos brancos. Tendo em vista as informações já apresentadas, apresentaremos a seguir, de acordo com o que foi anunciada no início desse trabalho, a descrição da experiência com alunos do 8º ano da Escola Municipal Profª. Nivalda Lima Figueiredo, onde observamos a recepção do conto A menina Vitória pelos alunos envolvidos nessa experiência. 3- Descrição da experiência A Menina Vitória é um conto que compõe a coleção intitulada Kinaxixe, publicada em 1965, do autor angolano Arnaldo Santos. Nesses contos, a exemplo d A menina Vitória, o autor apresenta a Angola dos anos 50 e 60 do período colonial. Assim, esses contos versam sobre os temas do preconceito racial, da consciência de cor e da sociedade multirracial sujeita às tensões provocadas pelo colonialismo... (HAMILTON, 1975, P. 136). A narrativa gira em torno do personagem Gigi, um menino angolano, mulato e de classe média que foi transferido, por decisão dos pais, para um colégio que

7 ostenta certo Anais Eletrônicos do IV Seminário Nacional Literatura e Cultura 7 status, visto que incorporava os valores europeus; tidos como superiores, sendo, portanto, garantia para um futuro promissor do personagem Gigi. A partir do momento em que Gigi é transferido para o novo colégio, se encontra cada vez mais obrigado a rejeitar suas vivências para se enquadrar no padrão europeizado e aos poucos vai cedendo às pressões da professora Vitória. De acordo com Maria Aparecida Santilli, a professora Vitória representa: (...) o projeto que incorpora o objetivo metropolitano de preservação das normas da linguagem, neutralizando a angolanidade de pronúncia ou da sintaxe do aluno, ou excluindo do modelo o universo angolano, cuja criatividade fica fadada ao grau zero de identificação pessoal e nacional. (SANTILLI, 1985, p. 20) Tendo feito uma breve abordagem sobre o conto A menina Vitória, passemos, então, para a descrição da experiência que ocorreu no início de março de No contato com a turma, fizemos uma apresentação do texto a ser lido, explicitando que se tratava de um texto literário africano, precisamente angolano, além disso, chamamos a atenção para o fato de ser um texto grafado em português e, assim, procuramos esclarecer o motivo pelo qual os angolanos, assim como os brasileiros falam o português. Atentamos também para a necessidade de se fazer uma abordagem acerca do racismo no Brasil e os problemas enfrentados pelos negros como o preconceito e a discriminação raciais em todas as esferas da nossa sociedade, inclusive na escola. Nesse sentido, enfatizamos a importância da lei /03 e o que esta lei determina. Feita essa abordagem, distribuímos um exemplar do conto para cada dois alunos no intuito de fazermos com que todos tivessem contato com o texto para, assim, acompanharem a leitura feita por nós em voz alta. Finalizada a leitura, buscamos saber dos discentes sobre suas primeiras impressões do conto; esse foi o momento em que todos foram convidados a dar suas opiniões. A maioria afirmou ter gostado da história, já uma única aluna, no entanto, foi enfática ao afirmar que não gostou, justificando que o texto era chato por conta do

8 8 tema que estava sendo abordado. Quando foi questionada pela professora acerca da recusa pelo tema, esta aluna simplesmente respondeu que era chato e que aquele assunto não interessava a ela porque ela não era racista. Essa alegação feita pela aluna serve como um exemplo da complexidade e dos desafios que envolvem a reeducação das relações etnicorraciais aqui no Brasil, pois, ao mesmo tempo em que se discute a necessidade de combater atitudes racistas, existem pessoas que negam tais atitudes, justificando que o racismo é coisa dos ignorantes. Sendo assim, percebemos que quando existe essa negação, obstáculos são gerados, pois, na medida em que é negada a existência do racismo no Brasil também são negadas as necessidades de políticas específicas para atender as demandas da população afrodescendente. Retornando para a descrição da experiência, tivemos a oportunidade de interpretar e compreender o conto juntamente com os discentes. Esse momento foi bastante produtivo, algumas questões foram discutidas, entre elas, o fato de a professora Vitória, mesmo não sendo branca, em suas distinções entre brancos e negros, valorizava os brancos e desprezava os negros. Foi possível perceber que os alunos recorreram às nossas explicações iniciais e constataram que a professora Vitória representava a figura do assimilado, uma vez que valorizava os costumes e valores europeus em detrimento dos africanos. Nesse sentido, as atitudes empreendidas pela professora Vitória em sala de aula, representam o projeto português de eliminação dos valores e da cultura dos africanos em favor da preservação da cultura e valores europeus. De modo geral, consideramos que os alunos envolvidos nessa experiência compreenderam bem as discussões apresentadas que, por sua vez, foram reforçadas na interpretação e compreensão do conto. Consideramos, portanto, que nossa experiência foi bastante produtiva, uma vez que grande parte dos alunos se envolveu nas discussões, ao passo que se sentiram à vontade para relatar alguns acontecimentos. Assim sucedeu quando um aluno negro relatou uma situação na

9 9 qual foi vítima de preconceito racial. Aproveitamos essa oportunidade para reiterarmos a importância de reconhecermos as diversidades como um elemento enriquecedor, bem como acerca da importância do negro se reconhecer como tal e assumir sua identidade com orgulho. 4- Considerações Finais Tendo em vista o que foi exposto ao longo desse trabalho, entendemos que existe um longo caminho a ser trilhado no intuito de alcançarmos um resultado positivo no que se refere à desconstrução da discriminação racial no Brasil, para assim, podermos afirmar que somos, de fato, uma sociedade justa. Reconhecemos que os séculos de escravidão e a consequente discriminação e exclusão dos afrodescendentes não serão apagadas de uma hora para outra, todavia, acreditamos que o caminho para alcançarmos esse objetivo já está sendo trilhado. Para isso contamos com o respaldo da Lei /03, que por sua vez, tem impulsionado algumas ações positivas referentes às relações etnicorraciais no Brasil. Diante do que foi exposto no decorrer desse trabalho, reiteramos que a literatura se constitui como um caminho produtivo, capaz de ajudar crianças e jovens a discutir e entender questões como o preconceito e discriminação raciais. Desse modo, poderemos ter como resultado um país verdadeiramente democrático. REFERÊNCIAS BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Conselho Pleno. Parecer CNE/CP003/2004. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana. Brasília-DF; Ministério da Educação; FERREIRA, Manuel. Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa. São Paulo: Ática, 1987.

10 10 FILHO, Paulo Bragatto. Pela Leitura Literária na Escola da 1º grau. Editora Ática. São Paulo, GOMES, Nilma Lino. A Questão Racial na Escola: desafios colocados pela implementação da Lei /03. In: Multiculturalismo: diferenças culturais e práticas pedagógicas. Org. Antônio Flávio Moreira e Vera Maria Candau. Rio de Janeiro: Vozes, HAMILTON, Russel G. Literatura africana: literatura necessária - Vol.1: Angola 247 p. Lisboa: Edições 70, SANTILLI, Maria Aparecida. Estórias africanas: história e antologia. São Paulo: Ática, SANTOS, Arnaldo. A menina Vitória. In: Kinaxixe e outras prosas. São Paulo: Ática, 1981.

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