Coleção Cadernos de Políticas Culturais. Volume 1. Direito Autoral

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1 Coleção Cadernos de Políticas Culturais Volume 1 Direito Autoral

2 Expediente Luiz Inácio Lula da Silva Presidente da República Gilberto Gil Ministro da Cultura Juca Ferreira Secretário Executivo Alfredo Manevy Secretário de Políticas Culturais Célio Turino Secretário de Programas e Projetos Culturais Sérgio Mamberti Secretário da Identidade e Diversidade Cultural Márcio Meira Secretário de Articulação Institucional Orlando Senna Secretário do Audiovisual Marco Acco Secretário de Fomento e Incentivo à Cultura Assessores especiais do Ministro da Cultura Adolpho Ribeiro Schindler Netto Chefe de Gabinete Nazaré Pedrosa Assessoria de Assuntos Internacionais Cyntia Campos Assessoria de Comunicação Jorge Vinhas Assessoria Parlamentar Paula Porta Assessora Econômica e de Projetos Especiais Letícia Schwarz Diretoria de Gestão Estratégica Elaine Santos Diretoria de Gestão Interna Instituições vinculadas Luiz Fernando de Almeida Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional IPHAN Gustavo Dahl Agência Nacional do Cinema ANCINE José Almino de Alencar e Silva Neto Fundação Casa de Rui Barbosa Ubiratan Castro Araújo Fundação Cultural Palmares FCP Antonio Carlos Grassi Fundação Nacional de Artes Funarte Muniz Sodré de Araújo Cabral Fundação Biblioteca Nacional FBN Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) B823d Brasil. Ministério da Cultura. Direito autoral. Brasília : Ministério da Cultura, p. (Coleção cadernos de políticas culturais ; v. 1) ISBN ISBN X 1. Direito autoral. I. Título. II. Série. CDU:

3 Representações Regionais José Roberto Aguilar Representação Regional de São Paulo Adair Leonardo Rocha Representação Regional do Rio de Janeiro Cesária Alice Macedo Representação Regional de Minas Gerais Tarciana Gomes Portella Representação Regional do Nordeste Rozane Maria Dalsasso Representação Regional do Rio Grande do Sul Ana Elizabeth de Almeida Representação Regional do Pará Secretaria de Políticas Culturais Elder Vieira Gerente de Formulação de Políticas Culturais Pablo Gonçalo Gerente de Planejamento, Estudos e Pesquisas Erlon José Paschoal Gerente de Desenvolvimento e Informação Otávio Afonso Coordenador Geral de Direito Autoral Marcos Alves de Souza Coordenador Geral de Direito Autoral Substituto Dulcinéia Miranda Coordenadora Geral do Gabinete do Secretário Cadernos de Políticas Culturais: Volume 1 Direito Autoral Esta publicação foi feita por meio da parceria entre o Ministério da Cultura e o Centro de Gestão e Estudos Estratégicos CGEE Alexandre Pilati Revisão Anderson Lopes de Moraes Identidade Visual e Design Editorial Ministério da Cultura - MinC Esplanada dos Ministérios, Bloco B , Brasília, DF Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) SCN Qd 2, Bl. A, Ed. Corporate Financial Center, sala , Brasília, DF Telefone: (61)

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5 República Federativa do Brasil Ministério da Cultura Coleção Cadernos de Políticas Culturais Volume 1 Direito Autoral Brasília, 2006

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7 Jurados Fábio Maria de Mattia José Carlos Costa Netto Antonio Murta Filho Manoel Joaquim Pereira dos Santos

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9 Cadernos de Políticas Culturais Direito Autoral Apresentação A carência de reflexões e debates aprofundados sobre alguns temas culturais estratégicos e a escassez de informações calcadas em apurações empíricas são constatações consensuais. Sem análises e dados consistentes, o Estado permanecerá impossibilitado de formular, acompanhar e avaliar, com a precisão requerida, as políticas públicas da cultura. A necessidade de ampliar o debate sobre temas contemporâneos e de elaborar uma série de publicações referentes ao campo cultural levou o Ministério da Cultura, através da sua Secretaria de Políticas Culturais, a lançar os Cadernos de Políticas Culturais, uma iniciativa que pretende preencher parte dessa lacuna. A Coleção divulgará os principais trabalhos da produção intelectual sobre cultura produzidas interna e externamente ao MinC. Órgãos que possuem publicações relevantes referentes à cultura, como os parceiros IPEA e IBGE, institutos de pesquisas nacionais, pesquisadores universitários e intelectuais do campo da cultura

10 Coleção Cadernos de Políticas Culturais colaborarão para a qualidade da circulação de informações culturais. Trata-se de uma oportunidade de tornar a discussão sobre políticas culturais mais consistente, madura metodologicamente e fundamentada em aspectos empíricos que julgamos de fundamental importância. Desse modo, os Cadernos de Políticas Culturais difundirão pesquisas, artigos, estudos, análises, informações e dados sobre o campo da cultura no Brasil. Os Cadernos têm como finalidade reunir também as principais produções intelectuais realizadas no decorrer da última gestão do Ministério da Cultura e visam, assim, ampliar o acesso do público aos debates e aos textos da cultura em diversos âmbitos e temas. O primeiro volume dos Cadernos de Políticas Culturais, cujo tema é Direito Autoral, apresenta as monografias premiadas do Concurso Nacional de Monografias sobre Direitos Autorais, realizado pelo Ministério da Cultura. É almejada também a publicação, nas próximas edições, das principais pesquisas sobre o setor cultural, sistema de indicadores culturais e estudos setoriais diversos, tratando de temas da maior relevância para o debate e, conseqüentemente, para a construção de políticas públicas da cultura inovadoras, coerentes com a realidade brasileira e capazes de contribuir verdadeiramente para o desenvolvimento do País. Gilberto Gil Ministro da Cultura 10

11 Direito Autoral Introdução O Ministério da Cultura deu início, na atual gestão, ao processo de construção do Plano Nacional de Cultura (PNC). Trata-se de um instrumento de planejamento que visa dar conta dos grandes desafios que estarão ligados às diversas áreas da cultura nos próximos anos. O PNC reunirá diagnósticos e diretrizes para os vários segmentos da cultura. Assim acontece com as questões referentes ao Direito Autoral, que ganharam, na atual gestão do MinC, um tratamento prioritário. Nesta etapa de elaboração do PNC, é, portanto, imprescindível a ampliação do debate sobre Direito Autoral. Nesse sentido, a Secretaria de Políticas Culturais decidiu publicar este caderno temático sobre Direito Autoral. A publicação é de significativa relevância, pois tem como objetivo divulgar e debater o tema à luz dos textos vencedores do Concurso Nacional de Monografias sobre Direito Autoral. O Concurso, instituído pela Portaria No. 95, de 5 de maio de 2004, foi gerido pela Coordenação-Geral de Direito Autoral do MinC. Foram premiadas três monografias, além da designação de Menção Honrosa pela Comissão Julgadora a uma das monografias submetidas. O Ministério da Cultura, reconhece a utilidade da propriedade intelectual no processo de fortalecimento da capacidade tecnológica. De outra parte, também reafirma a importância da flexibilidade necessária no âmbito do interesse público, prevista no próprio sistema de propriedade intelectual, assim como a 11

12 Coleção Cadernos de Políticas Culturais função que essa flexibilidade pode desempenhar no fomento de políticas orientadas para o desenvolvimento. Este foi o espírito do MinC quando lançou o Concurso Nacional de Monografias sobre Direito Autoral com o tema A Função Social dos Direitos Autorais. É do conhecimento de todos que o direito autoral está também sujeito às limitações constitucionalmente impostas em favor do bem comum a função social da propriedade, consignada no Art. 5º., XXIII da Carta de 1988, assim como preconiza o Art. 170, ao estabelecer a propriedade privada como princípio essencial da ordem econômica, sempre condicionada à função social. Esperamos que a publicação dos textos vencedores do Concurso Nacional de Monografias sobre Direitos Autorais, ao enfocar a função social, possa contribuir para as reflexões necessárias ao pleno aproveitamento dos recursos criativos e culturais nacionais. Essa contribuição amplia o exame crítico que o fortalecimento da proteção dos direitos de propriedade intelectual pode ter para os países em desenvolvimento, afastando interpretações vestidas de verdades absolutas, unicamente do ponto de vista unidimensional dos titulares de direitos e ignorando o interesse público geral. Assim, apresentamos, nesta publicação, os três textos vencedores do Concurso Nacional de Monografias sobre Direito Autoral, de autoria de Maurício Cozer Dias (1º. Lugar), Aline Vitalis (2º. Lugar), Rodrigo Moraes Ferreira (3º. Lugar), além da monografia de Fábio Barbosa Pereira, que recebeu Menção Honrosa. Inovando nos estudos da propriedade intelectual, A Proteção de Obras Musicais Caídas em Domínio Público, de Maurício Cozer Dias, destaca necessidade da proteção e da divulgação 12

13 Direito Autoral do acervo musical brasileiro composto por obras cujo prazo de proteção patrimonial autoral já expirou ou que, por outra hipótese legal, encontram-se em domínio público. O trabalho apresenta, primeiramente, os princípios do direito intelectual e a sua importância na sociedade de informação e tecnologia. O autor aborda a temática específica do domínio público em todos os ramos do direito intelectual e autoral e apresenta um panorama da legislação brasileira, bem como das convenções internacionais para a proteção do patrimônio cultural e imaterial da humanidade. Segundo o autor, as obras musicais caídas em domínio público são parte importante do patrimônio artístico e cultural brasileiro e precisam ser sistematizadas e protegidas tanto pelo Estado como pela sociedade. Aline Vitalis, em A Função Social dos Direitos Autorais: uma perspectiva constitucional e os novos desafios da sociedade da informação, apresenta um panorama da problemática que envolve os Direito Autoral na sociedade atual e destaca o conceito de Direito de Propriedade, um dos principais institutos do Direito Civil. O trabalho aborda, inicialmente, a constitucionalização da propriedade intelectual, destacando o multiculturalismo brasileiro e a importância da cultura na formação do Estado, além dos conflitos entre o desenvolvimento da educação e da cultura e a margem de proteção concedida às criações intelectuais. A autora também realizou uma análise comparativa e histórica sobre a função social dos direitos autorais e as interpretações do conceito de propriedade. A busca pelo equilíbrio entre os espaços privados e públicos das obras culturais é a principal preocupação da monografia 13

14 Coleção Cadernos de Políticas Culturais A Função Social da Propriedade Intelectual na Era das novas Tecnologias, de Rodrigo Moraes. O autor analisa como os novos desafios impostos pela era digital impelem a mudanças na lei de direito autoral (LDA 1998) e podem, inclusive, buscar aperfeiçoamentos nos seus conceitos, na sua estrutura e na sua relação entre direitos e deveres de autores e empresas. O texto reconstrói o histórico dos direitos autorais. Enfocando o percurso de revolução da imprensa de Gutenberg, passando pela consolidação do copyright até a emergência da Internet, o autor mostra que os direitos autorais foram, primeiramente, uma conquista do mercado editorial. Os criadores e os autores, segundo Moraes, foram historicamente lesados nos seus possíveis direitos. Por isso, a tônica da monografia é a personalização do direito autoral, sendo investigadas as possibilidades de livre cooperação criativa e artística propiciadas pelas tecnologias digitais. Em A Eficácia do Direito Autoral Face à Sociedade da Informação: uma questão de instrumentalização na obra musical?, Fábio Barbosa Pereira apresenta os desafios das novas modalidades de utilização das obras com ênfase na função social da propriedade intelectual. O autor discorre sobre o Direito Autoral na era digital e da sociedade de informação, apresentando os adventos da modernidade, as inovações tecnológicas no campo da música e as necessidades de mudanças e adequação da legislação autoral para divulgação da criatividade humana com respeito à proteção da propriedade intelectual. A preocupação primordial do autor desta monografia é a divulgação eletrônica das obras musicais diante do surgimento e da expansão das novas mídias e dos novos formatos de gravação e de reprodução. Eis então uma 14

15 Direito Autoral inquietude: é possível a coexistência do Direito Autoral com a Sociedade da Informação, mais precisamente com a Internet?, indaga Fábio Barbosa. Ao buscar uma resposta, o autor analisa os instrumentos e princípios da sociedade de informação, apresenta os avanços da Internet, o surgimento e difusão do MP3 como formato para distribuição de obras musicais e a proteção ao Direito Autoral na legislação brasileira. Alfredo Manevy Secretário de Políticas Culturais 15

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17 Sumário A proteção de obras musicais caídas em domínio público Introdução ASPECTOS GERAIS DOMÍNIO PÚBLICO IMPLEMENTAÇÃO DO DOMÍNIO PÚBLICO CONSIDERAÇÕES FINAIS A função socialdos direitos autorais: uma perspectiva constitucional e os novos desafios da sociedade de informação INTRODUÇÃO A CONSTITUCIONALIZAÇÃO DO DIREITO DA PROPRIEDADE INTELECTUAL RETROSPECTIVA HISTÓRICA DO DIREITO DE PROPRIEDADE E A FUNÇÃO SOCIAL DO DIREITO AUTORAL OS DIREITOS AUTORAIS NA ATUALIDADE CONCLUSÃO REFERÊNCIAS A função social da propriedade intelectual na era das novas tecnologias INTRODUÇÃO EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO DIREITO AUTORAL A FUNÇÃO SOCIAL DA PROPRIEDADE INTELECTUAL REPERSONALIZAÇÃO DO DIREITO AUTORAL CONFLITOS EM RELAÇÃO AO DOMÍNIO PÚBLICO CONFLITOS ENTRE INTERESSES PÚBLICO E PRIVADO NA ERA DAS NOVAS TECNOLOGIAS PROJETO GENOMA HUMANO E A FUNÇÃO SOCIAL DAS PATENTES CONCLUSÕES REFERÊNCIAS A eficácia do direito autoral face à sociedade da informação: uma questão de instrumentalização na obra musical? AGRADECIMENTOS INTRODUÇÃO A SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO: SEUS INSTRUMENTOS, PRINCÍPIOS E SUA RELAÇÃO COM O DIREITO O DIREITO AUTORAL, PRINCÍPIOS E LEGISLAÇÕES VIGENTES TEORIA TRIDIMENSIONAL DO DIREITO E EFICÁCIA SOCIAL NA VISÃO REALEANA O PARADOXO DA INSTRUMENTALIZAÇÃO RECÍPROCA ENTRE SOCIEDADE DA INFORMAÇÃOE DIREITO AUTORAL Considerações finais Referências

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19 A proteção de obras musicais caídas em domínio público Maurício Cozer Dias

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21 Direito Autoral Introdução A música está presente no dia-a-dia da humanidade desde os tempos pré-históricos. Sua importância cultural e comercial é inquestionável. O cotidiano está muito ligado à música, desde o momento em que se acorda até quando se deita. Em casa, no trabalho, nos momentos de entretenimento, nos cultos religiosos, enfim, em todos os aspectos da vida humana a música se faz sentir. Com o advento do rádio, do cinema, da televisão, da Internet e de outras formas de comunicação, a difusão musical se tornou maciça, a música também se tornou um produto que movimenta cifras incalculáveis em todo o mundo numa gama infindável de atividades. Em função das novas tecnologias e do surgimento de novas formas de comunicação, o direito autoral vem enfrentando batalhas árduas para combater a pirataria. Tanto governos quanto entidades de titulares têm se esforçado para conscientizar o público das conseqüências das utilizações ilícitas, bem como para coibir essa prática. O foco deste trabalho, entretanto, não está voltado para o estudo de medidas de proteção de obras que estão protegidas patrimonialmente, pois a estrutura legislativa, corporativa e empresarial montada e em constante aperfeiçoamento é suficiente para enfrentar e dirimir as questões relativas às novas tecnologias e novas utilizações delas. 21

22 Coleção Cadernos de Políticas Culturais O objetivo deste trabalho foi abordar a situação da proteção conferida às obras cujo prazo de proteção já expirou ou, ainda, por outra hipótese legal, estão no domínio público, podendo e devendo ser disponibilizadas e utilizadas livremente. Assim, enquanto a grande maioria dos estudos da propriedade intelectual, mais especificamente do direito autoral, preocupa-se com a defesa daquilo que está protegido este trabalho se preocupa com todo o acervo musical brasileiro que não goza mais da proteção patrimonial autoral, embora goze da proteção autoral moral e constitucional sendo obras integrantes de nosso patrimônio artístico cultural. Além das obras musicais, serve este estudo para conscientizar os operadores do direito e profissionais da área autoral da importância das obras caídas em domínio público como integrantes do patrimônio artístico cultural, da memória artístico-cultural e da identidade artística brasileira. Nas demais áreas do direito autoral, como a literatura, o teatro, a fotografia, a pintura, entre tantas outras, também é aplicável mutatis mutandis o objeto desse trabalho, como forma de completar o ciclo da função social da proteção intelectual. A idéia da pesquisa adveio da constatação da inexistência de bancos de dados, de bibliotecas, de arquivos públicos ou associativos que disponibilizem as obras musicais brasileiras caídas em domínio público. Com certeza, esse acervo musical existe e deveria estar acessível aos cidadãos para que eles pudessem estudar a evolução da história musical brasileira, utilizar as obras, as partituras, as letras, conhecer seus autores, enfim, entrar em contato com esses bens, integrantes da memória musical e sociológica brasileiras. 22

23 Direito Autoral Para tanto, primeiro foram abordadas as questões do direito intelectual como um todo, bem como os reflexos da sociedade de informação crescente. Também foram abordados os princípios do direito intelectual, que devem ser analisados em conjunto, tratados como pilares do direito intelectual. As definições conceituais são trazidas ao leitor aliadas às novas formas de comunicação e aos novos suportes, concluindo um panorama inicial do tema proposto. Após os tópicos supra mencionados, é abordada toda a temática específica do domínio público em todos os ramos do direito intelectual e, principalmente, no direito autoral. Toda a legislação brasileira foi pesquisada, levantando cada sistemática de domínio público já existente no direito pátrio, possibilitando uma visão da evolução do instituto, bem como o seu regramento na legislação comparada de Portugal, da Bolívia e dos Estados Unidos da América do Norte. As convenções internacionais também foram objeto de estudo, incluindo os mecanismos internacionais para a proteção do patrimônio cultural e imaterial da humanidade. Além de toda a legislação nacional e supranacional, foram pesquisadas as organizações internacionais e toda a estrutura associativa nacional e internacional envolvidas na defesa dos direitos autorais. A questão do registro das obras e sua evolução na legislação brasileira não poderiam deixar de ser objeto do presente estudo por estar ligada à possibilidade de sistematização das obras musicais caídas em domínio público. 23

24 Coleção Cadernos de Políticas Culturais Traz ainda esta monografia referências sobre as principais instituições brasileiras que podem e devem contribuir para a criação de um banco de dados de obras musicais caídas em domínio público, tais como: a Biblioteca Nacional e a Escola de Música, caracterizando as obras em domínio público como integrantes do patrimônio artístico cultural brasileiro e ainda, os mecanismos processuais destinados à proteção desse inestimável acervo. Encerra-se o presente trabalho com uma análise das entidades de gestão coletiva existentes na área musical brasileira e do Ministério da Cultura e seus papéis na criação e disponibilização de um acervo desse gênero de obras musicais. O tema certamente é de relevância pública para a criação de uma política cultural de maciça difusão artística do acervo de obras em domínio público, difundindo a arte nacional no Brasil e no mundo. Tornando acessível esse imenso patrimônio serão perpetuadas as raízes culturais brasileiras e será ampliado o acesso dos cidadãos a toda produção artística nacional, completando o ciclo e objetivo da proteção da atividade intelectual. 24

25 Direito Autoral 1. ASPECTOS GERAIS 1.1 Objeto do Direito Intelectual O direito intelectual abrange todos os segmentos do direito ligados à atividade intelectual, às criações, às invenções do espírito humano. Tecnicamente, a invenção é diferente da criação, que é diferente da descoberta. O direito industrial tem um foco diferente do autoral, porém, os direitos e obrigações decorrentes dessa atividade intelectual possuem pontos comuns que devem ser estudados em conjunto. Atualmente, existem vários ramos dentro desse segmento que se destacam, tais como: o direito autoral relativo às criações do espírito humano, notadamente as atividades literárias e artísticas, que envolvem o tema desse trabalho. O direito industrial tem como objeto as marcas, as patentes, os modelos de utilidade e os desenhos industriais, mais voltados para a área empresarial. O direito de software regula os direitos sobre programas de computadores, algo muito relevante no estágio atual de nossa sociedade, que tem seu nível de desenvolvimento ligado ao domínio e à utilização da informática. Finalmente, há o biodireito, que tem como objeto o trabalho intelectual voltado às alterações ou criações de novos organismos animais ou vegetais: os transgênicos. Cada ramo do direito intelectual assumiu na sociedade contemporânea uma posição estratégica em face de sua importância 25

26 Coleção Cadernos de Políticas Culturais econômica, tecnológica, cultural. Toda uma gama de leis nacionais e acordos internacionais foram elaborados para regular esses novos ramos, que possuem pontos em comum, sendo um deles o domínio público. O conhecimento, o estudo, a pesquisa desse conjunto de normas é imprescindível, pois o direito intelectual vem assumindo posição de destaque nas negociações comerciais, ligadas à repressão da pirataria, cinema, televisão, transferência de tecnologia, Internet, alimentos geneticamente modificados e suas conseqüências. A doutrina atualmente classifica o direito industrial, que trata das marcas, patentes, desenhos industriais e modelos de utilidade, como ramo do direito comercial 1. O direito autoral trata das obras literárias, artísticas e científicas, como ramo do direito civil. O direito de software vem sendo estudado dentro da sistemática autoral, portanto, como direito civil. O biodireito, por possuir semelhanças com as patentes, vem sendo estudado dentro da sistemática industrial, ou seja, dentro do direito comercial. Pode-se afirmar que com a unificação do direito privado, ocorrida com o novo Código Civil, tanto direito autoral quanto direito industrial estariam unificados na nova sistemática, uma vez que se trata de direitos notadamente privados. Porém, cumpre observar que esses ramos específicos possuem características muito próprias e peculiares, necessitando de uma 1 Nesse sentido, cf. PAES, P. R. Tavares. Nova lei da propriedade industrial: lei nº 9279 de : anotações. São Paulo: Revista dos Tribunais, p

27 Direito Autoral sistematização particular para entendimento mais profundo de seus institutos. A sistematização do direito intelectual, reunindo esses novos ramos do direito que estão em franca expansão, é muito importante para sua exata compreensão e manuseio. 1.2 Importância do Direito Intelectual na Sociedade de Informação e Tecnologia Globalizada O direito intelectual formado pelo direito industrial, autoral, informático e de cultivares, enfrenta a transformação imposta pela informática e pela rede internacional que tornou instantânea a troca de arquivos de informação com os conteúdos mais variados. Ajustar as imposições legais do direito intelectual, que tem por missão proteger os autores e as empresas titulares desses direitos, é o grande desafio do novo milênio, sem contudo, descurar das obras não mais patrimonialmente protegidas. José Carlos Tinoco ao comentar o direito industrial tratando da importância desse segmento do direito afirma: Considerando que a riqueza de um País depende de sua produção agrícola, manufatureira ou industrial, chegaremos à conclusão que para o melhor aproveitamento e desenvolvimento é necessária a colaboração direta do homem. Se o homem continuasse a se utilizar das coisas da natureza tal como se encontram ou com pequenos melhoramentos, jamais sairíamos do estágio inicial, todavia, para o bem da própria humanidade o homem foi evoluindo e muito tem ainda a alcançar. Através desse desenvolvimento nota-se que o homem foi, a princípio, artesão, isto é, o trabalhador autônomo, por ser 27

28 Coleção Cadernos de Políticas Culturais patrão de si mesmo, mais tarde se transformou em manufatureiro, ou o precursor da grande indústria, e logo após, em industrial. Hoje, pode-se dizer, que o homem é tecnólogo. Sua indústria depende da pesquisa e do trabalho de equipe. Para a fabricação de um simples alfinete ou um complicadíssimo cérebro eletrônico necessita o homem do trabalho intelectual de uma equipe. Vale dizer, portanto, que não está mais sozinho sob o regime da produção. 2 A expansão da indústria, a produção de riquezas, o domínio comercial e cultural, estão diretamente ligados aos ramos do direito intelectual. Sua importância vem aumentando notadamente nos últimos anos, uma vez que o nível de incremento tecnológico aumenta na sociedade. Porém, necessário é compatibilizar o sistema legal intelectual com as novas realidades impostas pela sociedade informacional globalizada. Nesse sentido, afirma o autor italiano Luigi Carlo Ubertazzi: In questo quadro generale si inserisce il problema particolare della ricollocazione dei diritti d autore e connessi nel quadro della società dell informazione globale [...]. Quest evoluzione muta radicalmente gli scenari dell economia e del diritto 3. Porém, fato que não pode escapar à argúcia deste trabalho é que o direito intelectual está vinculado aos investimentos que 2 SOARES, José Carlos Tinoco. Comentários à lei de patentes, marcas e direitos conexos: lei n o São Paulo: Revista dos Tribunais, p UBERTAZZI, Luigi Carlo. I diritti d autore e connessi. 2.ed. Milão:G iuffré Editore, p

29 Direito Autoral um país, seja através da iniciativa privada, seja através da iniciativa pública, faz em educação e cultura. Sem educação, como falar em produção de cultura ou tecnologia? O Brasil possui um histórico de analfabetismo e consumo de cultura e tecnologias estrangeiras que vem sendo modificado nos últimos anos. O esforço das esferas administrativas em aprimorar o sistema educativo básico e universitário é visível. As leis de incentivo à cultura demonstram a iniciativa do Poder Executivo brasileiro em suas esferas federais, estaduais e municipais em reverter esse quadro, estimulando os autores e a produção cultural com incentivos fiscais. Relevante é a afirmação do Diretor Superintendente do Instituto Itaú Cultural sobre a produção de cultura no Brasil, abaixo transcrita. Trabalhar com cultura em um país como o Brasil é um desafio e tanto. Se, por um lado, é um país de rico patrimônio artísticocultural, marcado pela diversidade e criatividade de seu povo e de sua arte, por outro ainda possui profundas desigualdades sociais, o que faz com que nem sempre o acesso aos bens culturais seja amplo e democrático. 4 Desde o advento das leis de incentivo à cultura, 5 muitos projetos culturais se tornaram realidade, como filmes brasileiros que 4 RIBENBOIM, Ricardo. In: CESNIK, Fábio de Sá. Guia do incentivo à cultura. Barueri: Manole, p Lei Rouanet nº de 23 de Dezembro de 1991; Lei do Audiovisual nº de 20 de Julho de 1993; Lei Fazcultura, da Bahia nº de 09 de Dezembro de 1996; Lei Mendonça, do município de São Paulo nº de 30 de Dezembro de

30 Coleção Cadernos de Políticas Culturais conseguiram destaque internacional, verificando-se uma situação mais favorável à produção cultural no Brasil. A universidade brasileira granjeou vitórias no campo da pesquisa, com a produção de uma quantidade cada vez maior de cientistas. Todavia, considerando-se as dimensões do país, bem como de sua população, percebe-se que estamos muito aquém do que poderíamos produzir intelectualmente. O povo brasileiro possui uma cultura riquíssima, uma criatividade reconhecida em todo o mundo, mas, mesmo assim, consumimos mais cultura estrangeira do que nacional. Este pesquisador, em sua infância, estranhava as rádios tocarem predominantemente músicas americanas. Não conseguia entender por que as pessoas ouviam músicas de que não podiam entender as letras, pois não sabiam o que as músicas diziam. Esse comportamento era uma incógnita até se perceber que as pessoas gostavam do ritmo e do som das músicas americanas. Era o poder da influência cultural, que também se dissemina pelo vocabulário, pela vestimenta, pelo cinema, pela alimentação, enfim, toda uma dominação cultural, todo um aparato de consumo cultural. Cumpre constatar que a indústria cultural americana ocupa o terceiro lugar em número de produtos de exportação, gerando emprego e renda naquele país. 6 A realidade da sociedade de informação em sua íntima ligação com os direitos intelectuais é tão grande que o Parlamento da 6 Cf. CESNIK, Fábio de Sá. Guia do incentivo à cultura, p

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