Workshop de Economia da Saúde



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Transcrição:

A Doença de Baumol Portugal e a Experiência dos Países da OCDE UNIVERSIDADE NOVA DE LISBOA João Tovar Jalles Fevereiro 2006

(1) Sector da Saúde com importância económica e social crescente na sociedade actual Sistemas de Saúde dos Países da OCDE têm crescido em tamanho e, apesar dos progressos positivos nos cuidados de saúde, os seus custos nunca foram tão elevados Sector da Saúde representa uma proporção crescente do Rendimento Nacional Problema de Sustentabilidade de Longo Prazo dos Orçamentos Nacionais Objectivo: Tentar perceber:» as causas deste fenómeno» a evolução temporal» as consequências económicas» que política adoptar Comparação Internacional constante com especial enfoque no caso Português 1-14

(2) Doença de Baumol: Tendência para os preços relativos de alguns serviços, como a saúde, crescerem vis-à-vis outros bens e serviços da economia, reflectindo o diferencial negativo de produtividade e a equalização de salários na economia como um todo. Justificação: Os sectores estagnados intensivos em trabalho são forçados a acompanhar a inflação verificada nos sectores progressivos - intensivos em capital -, levando à expansão dos custos dos primeiros sem efectivo aumento real do output. 2-14

Análise Microeconómica Estudo empírico de um problema sério sem soluções reais e efectivas à vista Perceber a evolução do problema da escalada das despesas nos últimos anos, utilizando dados históricos Inferência de previsões sobre o peso/fracção futura do Sector da Saúde como percentagem do PIB, como forma de modelizar o comportamento esperado, se nada for feito Análise Macroeconómica deixámos para outra oportunidade, não desprezando a sua extrema importância em termos de impacto no Crescimento Económico. Estudos existentes: WOLFL, A, Productivity Growth in Services Industries: Is there a Role for Measurment?, 2001 3-14

BAUMOL, William et al, Performing Arts: The Economic Dilemma, 1966 Problema de crescimento da produtividade nos chamados sectores estagnados saúde, educação, justiça e cultura BAUMOL, William, Social Wants and the Dismal Science: The Curious Case of the Climbing Costs of Health and Education, 1993 Problema de crescimento da produtividade e seu impacto no nível de preços e custos peso crescente no bolo económico da saúde e educação BARROS, Pedro P., et al, Financiamento do Sistema de Saúde em Portugal, 1995 Problema do financiamento aliado ao crescimento da despesa do sector e fraca relevância do fenómeno envelhecimento para explicar este fenómeno 4-14

Procurámos avaliar a importância do Sector da Saúde na Economia A Crise de Custos no Sector da Saúde Experiência dos Países da OCDE A Doença de Baumol em Portugal análise estatística Gastos em Saúde e Pressão sobre Orçamentos Públicos ( papel do envelhecimento) Cálculo de previsões até ao ano 2030 da tendência de crescimento do share da saúde no PIB (importância das hipóteses consideradas) 5-14

FONTES: OCDE Health Data 2004 Estudos do Ministério da Saúde Bibliografia existente VARIÁVEIS USADAS Inflação Geral e no Sector da Saúde Níveis e taxas de crescimento da produtividade Níveis e evolução dos pesos da saúde no PIB e na despesa pública 6-14

A Experiência dos Países da OCDE Duas fases distintas: Até 1973 expansão acelerada do sector Após 1973 dificuldades de financiamento e necessidade de conter custos Na maioria dos países a percentagem do PIB gasta em saúde tem vindo a crescer, juntamente com os preços relativos. Coeficiente de Correlação entre alterações nas percentagens do PIB e crescimento dos preços relativos é de 0,95. Coeficiente de Correlação entre emprego total em saúde e percentagem do PIB dispendida em saúde é de 0,97. Grande variabilidade entre países com média de despesas em 2003 de 8,8% do PIB. 7-14

Crise de Custos no Sector da Saúde Taxa anual de aumento do preço dos serviços médicos foi superior a 13% (1989-1997) Taxa anual de inflação igual a 6,9% (1989-1997) Índice de Preços 250 200 150 100 Figura 1: Tendência de Preços: Saúde VS Inflação, 1989-97 1987=100 50 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 Anos SAÚDE ECONOMIA Fonte: OCDE Health Data 2004 e cálculos dos autores 8-14

Baumol e Portugal Crescimento notório das despesas em saúde desde 1975 Aumento evidente do peso do sector público na saúde Queda da taxa de crescimento da produtividade em Portugal % 10,0 9,0 8,0 7,0 6,0 5,0 4,0 3,0 2,0 1,0 0,0 1975 1978 Figura 13: Despesa em Saúde: Portugal 1975-2002 1981 1984 1987 1990 Anos 1993 1996 1999 2002 Tot.current exp.on health - % gross domestic product Public expend. on health - % gross domestic product Private expend. on health - % gross domestic product Fonte: OCDE Health Data 2004 9-14

Exemplo: Portugal 2002 gastou 9,1% PIB em saúde Crescimento médio da produtividade = 2% e da saúde nulo Implica: preços dos cuidados médicos aumentam 49% em 20 anos (1,02^20) e despesa cerca de 13,5% do PIB (9,1*1,485) Fonte: OCDE Health Data 2004 10-14

Se a tendência actual de preços relativos e proporções no produto continuarem como estão hoje, entre 2030 e 2050 a saúde poderá absorver por si quase 1/5 do PIB Fonte: OCDE Health Data 2004 11-14

Principais Conclusões Entre hoje e 2050 as despesas públicas em saúde poderão duplicar, se não se tomarem medidas para inverter a tendência do passado As duas forças que impulsionam estes resultados são: Factores demográficos: envelhecimento e longevidade Factores não-demográficos: (força relevante) efeitos da tecnologia e movimentos dos preços relativos na oferta de cuidados de saúde doença de custos crescimento do rendimento efeito das elasticidades Health care is both an individual necessity and a national luxury Getzen, 2000 Problema: a discussão de políticas nacionais foca-se mais em problemas de pensões e reformas da segurança social e menos em despesas de saúde 12-14

Políticas que fracassaram (60 s e 70 s): Controlo de salários e preços Restrição de custos numa lógica top-down Lei de Baumol olha para o lado da oferta (bens fornecidos pelo Estado intensivos em trabalho e com pouca substituibilidade) Lei de Wagner olha para o lado da procura (bens fornecidos pelo Estado têm uma elasticidade procura-rendimento elevada) NÃO ESQUECER OS DOIS LADOS DO MERCADO No OE, olhar para as despesas e não para as receitas Solução: Provisão eficiente (sem sacrifício da qualidade) Transferência dos custos para outras áreas, long-term care Incrementar o financiamento e provisão pelo sector privado 13-14

A Doença de Baumol Portugal e a Experiência dos Países da OCDE UNIVERSIDADE NOVA DE LISBOA João Tovar Jalles Fevereiro 2006