INSPEÇÕES DO CONSELHO PENITENCIÁRIO Relatório Complementar I. HOSPITAL DE CUSTÓDIA E TRATAMENTO PSIQUIÁTRICO HCTP Data: 19 de janeiro de 2012. Hora Início: 11:45h. Conselheiros Participantes: Dr. Igor Nery Figueiredo, Dra. Elizabeth Maria Pereira Ferreira, Dr. Landoaldo Freitas de Mattos e Dra. Rosa Ângela Ramos Wenner. Localização: Complexo Penitenciário de Americano Os Conselheiros foram recebidos pela diretora do HCTP, Márcia Portugal, e pela vice-diretora, Aline Coutinho. Ambas acompanharam toda a inspeção. No dia da inspeção, o Hospital contava com 186 pacientes internos, entre internos provisórios e internos cumprindo medida de segurança, embora sua capacidade seja entre 69 e 79 pacientes. Logo no início da visita, o grupo conversou com a Defensora Pública Eliana Vasconcelos, que realiza os atendimentos jurídicos no Hospital. Verificou-se, nesse momento, que alguns internos já estavam no HCTP há muitos anos, a exemplo do paciente Gerson de Oliveira Antônio José, que ingressou em 09 de dezembro de 1996, o que suscitou a preocupação de pessoas submetidas, na prática, a verdadeiras internações perpétuas. Nesse momento, a Defensora expressou seu desapontamento com um fato preocupante: não há um único médico sequer no Hospital. Disse que já presenciara internos com crises intensas de epilepsia, que não receberam tratamento adequado porque não havia médicos no estabelecimento. Acrescentou que houvera suicídios e homicídios consumados entre internos, inclusive em 2011.
As diretoras do HCTP confirmaram que não há médicos lotados naquele Hospital e esclareceram que os atendimentos são feitos por um médico identificado como Dr. Walter, em uma clínica na Cidade Nova, em Belém (Clínica Edwirges), de segunda a quarta-feira, apenas para casos encaminhados pela enfermeira e situações de retornos. Além dele, disseram que uma clínica geral, Dra. Eliana Alves, vai ao Hospital todas as terças-feiras e, quinzenalmente, às sextas. A inspeção continuou com a verificação da sala onde trabalha a única enfermeira lotada no Hospital, Arlete Lanhellas, e onde ficam acondicionados os medicamentos. Nesse momento, vieram à tona situações de extrema gravidade, em se tratando de um hospital. Inicialmente, ao ser questionada pela Conselheira Dra. Elizabeth Maria Pereira Ferreira sobre a existência de prontuários diários para os pacientes internos (papeleta), elemento de primeira importância para doentes que recebem medicamentos controlados, a enfermeira esclareceu que não existem tais prontuários. Disse que as anotações são feitas em pedaços de papelão, recortados das caixas que acondicionam os medicamentos. Veja-se, nas fotografias seguintes, tiradas no momento da inspeção: Para o atendimento médico em todo o Hospital de Custódia, existe um técnico em enfermagem em plantão de 24 horas e outro técnico, diarista, que atende das 08h às 14h. Há também uma terapeuta ocupacional. Existe apenas uma enfermeira, que lá trabalha há 08 anos (Arlete Lanhellas). Arlete trabalha de 08h às 14h e acumula todas as atribuições de supervisão de enfermagem dos internos, em atividades como separação e previsão diária de remédios controlados,
atendimentos, levantamento dos pacientes que devem ser levados ao atendimento médico externo etc. A enfermeira relatou que, embora os pacientes façam uso constante de medicação controlada, não há controle de glicemia, função hepática, função tireoidiana etc., itens de aferição necessária para todos os pacientes dessa natureza. Foi escolhido um prontuário, aleatoriamente, para verificação do controle desses indicadores, e observou-se que o último controle data de 03 de novembro de 2005, ainda assim com apenas dois indicadores. Veja-se fotografia: Passou-se ao exame dos medicamentos administrados aos pacientes. De início, as diretoras informaram que uma estante lateral da sala era destinada apenas ao descarte de medicamentos vencidos. Por isso, os Conselheiros passaram a inspecionar apenas a estante com os medicamentos ditos válidos, que seriam administrados aos pacientes. E, nesse quesito, mais uma constatação causou grande preocupação: inúmeros medicamentos vistoriados encontravam-se vencidos. Vejam-se algumas fotos, indicando a validade expirada de vários medicamentos separados para entrega aos internos:
Após a vistoria da área médica, os Conselheiros visitaram as demais instalações do Hospital, incluindo as celas. Foram constatados alguns problemas estruturais no prédio,
como a presença de infiltrações e o alagamento de corredores em períodos de chuva, como se observa nas fotografias seguintes: Para os fins deste relatório complementar, pode-se dizer que o maior problema detectado no Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico (HCTP) está, paradoxalmente, na área médica e decorre de algo que parece inconcebível em um hospital: não há médicos. Tal realidade, que, nem de longe, é suprida por algum contrato com clínica psiquiátrica na distante Cidade Nova, em Belém/PA, torna absolutamente deficitário o atendimento aos pacientes. Seja em casos de crises (p. ex., crises epiléticas, tentativas de suicídios e homicídios), seja para o atendimento diário, a ausência de um médico no Hospital deixa flagrante que aquela casa de tratamento e custódia não vem atingindo suas finalidades. O panorama é agravado pela ausência de acompanhamento adequado dos internos, usuários de medicação controlada, mas que não realizam os necessários exames periódicos e, o que é pior, vêm consumindo medicamentos vencidos. Necessário atentar para um dado relevante: o precário atendimento de saúde pode transformar a internação em pena perpétua, pois a ausência de evolução clínica do interno logicamente diminuirá suas chances de avaliação positiva para fins de desinternação.
II. CENTRO DE REEDUCAÇÃO FEMININO CRF Data: 26 de janeiro de 2012. Conselheiros Participantes: Dr. Igor Nery Figueiredo, Dra. Elizabeth Maria Pereira Ferreira, Dr. Landoaldo Freitas de Mattos e Dra. Rosa Ângela Ramos Wenner. Localização: Ananindeua/PA O presente relatório apenas complementa um relatório mais amplo elaborado conforme modelo do. Os Conselheiros foram recebidos pela chefe de segurança em exercício, Kátia Alexandre, pois não se encontrava na casa penal a diretora Ligia Cipriano Barreto. fechado. O CRF destina-se a presas do sexo feminino, dos regimes aberto, semi-aberto e A realidade dos conteiners, antes presente naquela casa penal, passou a ser restrita a um centro de triagem (CTM 2), não mais recebendo internas do CRF. Inauguraram-se dois novos espaços para presas em regime fechado, chamados de Espaço Primavera. A casa contava com 586 internas, sendo de 600 sua capacidade. Destas, cerca de 200 estavam no regime fechado, segundo informado pela funcionária Katia Alexandre. Algumas internas apresentaram queixas quanto ao acompanhamento de gestantes, pela ausência de exames ao longo da gestação. Além disso, relataram que não há berçários na casa. Uma interna que acabara de dar à luz disse que só viu o filho no Hospital, no momento do nascimento, pois não havia condições de cuidar do mesmo na penitenciária e sua mãe não poderia levá-lo, por falta de condições financeiras. Além disso, disseram, o que foi confirmado pela agentes penitenciárias, que há seis meses não havia distribuição do chamado kit higiene, que contêm absorventes, pasta de dentes e sabão. A última entrega ocorrera em julho de 2011. Na área do atendimento à saúde, a situação mostrou-se preocupante.
Foi unânime, entre detentas e funcionárias ouvidas, que o médico responsável pelo atendimento na casa penal, Dr. Cleison Baeta, era conhecido por todas como Dr. Minuto ou Dr. Segundo, em referência aos atendimentos sem qualquer individualização com as queixas apresentadas e pelo diminuto tempo despendido. Disseram que este médico as atende sem qualquer análise concreta. Foi observado que uma interna portadora de hanseníase estava na cela de castigo, dormindo juntamente com outras 07 internas sem esta doença, em colchões justapostos no chão. O lixo e o esgoto da casa penal ficam a céu aberto, permitindo a proliferação de insetos e ratos, como se vê nas fotografias seguintes: O setor de saúde foi encontrado em situação precária. Logo que ingressaram na sala de atendimento das internas, os Conselheiros depararam-se com uma imagem inaceitável: o lixo hospitalar estava exposto, inclusive com restos de sangue, no interior da sala, ao lado da cadeira de atendimento. Segundo as técnicas, tal lixo não era recolhido desde o ano de 2011 e não havia local adequado para seu depósito. Estas as fotografias tiradas na inspeção:
domingos. Informaram as funcionárias que o médico Dr. Cleiton Baeta só atende aos Na sala da enfermaria, onde são feitos os atendimentos de saúde, fezes de pombos escoam pelas paredes quando chove, chegando a danificar materiais. Veja-se fotografia:
As técnicas em enfermagem informaram que a casa penal não distribui luvas ou material para curativos. As funcionárias é que vêm fazendo doações, para que as internas sejam atendidas. Preocupante, a inspeção nos medicamentos a serem administrados revelou que vários encontravam-se vencidos. Além de medicamentos, também estavam vencidos os prazos de validade de todas as agulhas e esparadrapos. Contudo, as funcionárias afirmaram que utilizavam os medicamentos mesmo quando vencidos, pois não havia outra alternativa. Vejamse as fotografias:
Há uma sala para atendimento odontológico. Nela, foram observados materiais de uso odontológico expostos em cima de uma mesa, com janelas abertas e sujeitos a contatos com insetos e pombos, fato confirmado por funcionárias que acompanhavam a inspeção. Vejase fotografia: