PERICARDIOCENTESE NA URGÊNCIA

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Transcrição:

PERICARDIOCENTESE NA URGÊNCIA Stefano Boemler Busato Bernardo Chaves D Ávila Portal João Carlos Vieira da Costa Guaragna UNITERMOS TAMPONAMENTO CARDÍACO/etiologia; TAMPONAMENTO CARDÍACO/terapia; PERICARDIOCENTESE/métodos; PERICARDIOCENTESE/contraindicações. KEYWORDS CARDIAC TAMPONADE/etiology; CARDIAC TAMPONADE/therapy; PERICARDIOCENTESIS; PERICARDIOCENTESIS/methods; PERICARDIOCENTESIS/contraindications. SUMÁRIO A pericardiocentese é um procedimento diagnóstico e terapêutico que deve ser conhecido por todo clínico, pois a aspiração de pequeno volume de líquido é capaz de salvar a vida do paciente em casos de tamponamento cardíaco. Pode ser realizada com rapidez e com um mínimo de material, bastando pessoal treinado. SUMMARY Pericardiocentesis is a therapeutic and diagnostic procedure that should be known by every physician, because the aspiration of a small volume of liquid is able to save the patient's life in cases of cardiac tamponade. It can be performed quickly and with a minimum of material, simply by a trained doctor. INTRODUÇÃO A pericardiocentese é classificada tanto como um procedimento terapêutico de emergência, nos casos de tamponamento cardíaco, quanto como um procedimento diagnóstico na investigação de um derrame pericárdico. Muitas vezes a simples aspiração de pequena quantidade de líquido pericárdico pode restaurar a hemodinâmica do paciente e salvar sua vida. O acúmulo de líquido no pericárdio pode ocorrer de forma lenta, não causando repercussão hemodinâmica devido à distensibilidade do saco pericárdico. Acúmulos rápidos de uma pequena quantidade de líquido podem superar a distensibilidade pericárdica, causar um aumento agudo da pressão

intrapericárdica e, assim, causar comprometimento da hemodinâmica do paciente. 1 A apresentação clássica do tamponamento cardíaco ocorre através da tríade de Beck, composta por hipotensão arterial, abafamento de bulhas cardíacas e distensão venosa jugular devido a uma pressão venosa sistêmica aumentada (pulso venoso de Kussmaul turgencia jugular que persiste à inspiração). O pulso arterial de Kussmaul queda na pressão arterial sistólica acima de 20 mmhg à inspiração também é um sinal frequente e importante para o diagnóstico. A maioria dos pacientes apresenta pelo menos um sinal na apresentação. Apesar de não compor a clássica tríade do tamponamento, a dispnéia é o sintoma mais comum de apresentação, com uma sensibilidade de 88%. 2 O ECG é muito sensível quando mostra alternância elétrica do QRS ou da onda T. O diagnóstico do tamponamento é essencialmente clínico. No entanto, métodos de imagem complementares, como ecocardiografia, podem auxiliar na visualização de líquido no pericárdio associada com colapso atrial e/ou ventricular, demandando intervenção. Pelo risco de complicações, idealmente deve ser guiada por ecocardiografia transtorácica. 3 CAUSAS DE TAMPONAMENTO CARDÍACO Medicamentos (trombolíticos e anticoagulantes) Cirurgia cardíaca recente (sangramento ou Síndrome póspericardiotomia) Trauma torácico Neoplasias Uremia Doença autoimunes (colagenoses) Infecções Pericardite Infarto agudo do miocárdio (Síndrome de Dressler ou ruptura de parede do VE) Dissecção aórtica Pós-radioterapia INDICAÇÕES DE PERICARDIOCENTESE Coleta de líquido para pesquisa diagnóstica Punção de alívio em casos de tamponamento cardíaco Derrame pericárdico > 20 mm na diástole Drenagem prolongada em casos de derrame de repetição Injeção local de medicamentos como antibióticos e quimioterápicos Suspeita de pericardite purulenta ou tuberculosa

CONTRA-INDICAÇÕES RELATIVAS Dissecção aórtica aguda Hemopericárdio por trauma torácico Coagulopatia (plaquetas < 50.000; INR > 1,5x o controle) Derrame pericárdico loculado ou ausência de derrame em região anterior Observação: As duas primeiras condições citadas são indicações imediatas de toracotomia em bloco cirúrgico. No entanto, a pericardiocentese pode ser realizada como ponte para tentar melhorar a hemodinâmica do paciente enquanto é conduzido à sala de cirurgia. 4 MATERIAL NECESSÁRIO TÉCNICA Material de sutura Lâmina de bisturi Seringa de 20, 30 ou 60 ml Fio-guia Cateter monolúmen 6 ou 7, com preferência para pigtail Fio guia flexível Agulha longa n 16, 18 ou 20 Conector tipo jacaré Sistema de drenagem fechado Anestésico local (lidocaína 1 a 2%) Campos estéreis Clorexidina Gases Monitorização com ECG Ecocardiograma para guiar o procedimento (opcional) Kit de parada cardiorrespiratória Pode ser realizada à beira do leito, guiada por ecocardiograma, ou na sala de hemodinâmica, guiada por radioscopia. Caso esses métodos não estejam disponíveis, realize o procedimento guiado pelo eletrocardiograma. 5,6 Posição: decúbito dorsal com inclinação da cabeceira de 30 a 45 em relação ao leito Já possuir acesso venoso periférico Caso seja necessário, utilize um sedativo (midazolan) e analgésico (fentanil)

SUGESTÕES COMPLICAÇÕES Médico paramentado com equipamento estéril Antissepsia da região inferior do tórax com clorexidina Anestesia local da pele e subcutâneo com lidocaína 1 a 2% Com o cabo da derivação V1 do ECG acoplado ao jacaré, conecteo na extremidade distal da agulha já acoplada na seringa, para monitorização eletrocardiográfica. Introduza a agulha 0,5 cm à esquerda do apêndice xifoide, a 45 da pele, logo abaixo do esterno. Avançar lentamente a agulha em direção à fúrcula esternal (mantendo a aspiração da seringa) até que seja observado refluxo de líquido pericárdico. Caso não obtenha líquido pericárdico, dirigir a agulha para o ombro esquerdo. Se a agulha penetrar no epicárdio, o traçado no monitor de ECG pode revelar supradesnivelamento do segmento ST ou extrassístoles ventriculares. Tracione a agulha. Aspire o líquido com calma. Normalmente 50-100 ml são suficientes para melhorar a hemodinâmica do paciente. Caso haja indicação de drenagem contínua, retire a seringa, faça uma pequena incisão na pele junto à agulha, introduza o fio-guia através da agulha, retire a agulha, introduza o cateter pigtail até o pericárdio, retire o fio-guia, conecte o cateter ao sistema de drenagem fechado, suture o cateter na pele. Curativo estéril. Monitorize o paciente por 24h e solicite Rx de tórax. Envie o líquido aspirado para análise. No lugar do pigtail pode-se utilizar um cateter comum de acesso venoso central Caso tenha dificuldade de introduzir o cateter sobre o fio guia, utilize um dilatador O uso de ecocardiograma para guiar o procedimento reduz de forma drástica as complicações Em derrames volumosos, não retire todo líquido Caso não atinja o líquido pericárdico e o ventrículo direito, tracione a agulha e redirecione-a mais superficialmente. Caso não tenha sucesso, repita o procedimento direcionando a agulha mais medialmente. 6

Hemopericárdio Laceração de coronária Embolia gasosa Arritmias cardíacas Hemotórax Pneumotórax Derrame pleural Infecção Fistula Punção de outros órgãos Lesão diafragmática Parada cardiorrespiratória As arritmias cardíacas normalmente resolvem-se com a retirada do fio guia, cateter e agulha. Caso não, abordar conforme algoritmo específico de cada arritmia cardíaca. 6 REFERÊNCIAS 1. Fitch MT, Nicks BA, Pariyadath M, et al. Videos in clinical medicine. Emergency pericardiocentesis. N Engl J Med. 2012;366(12):e17. 2. Gandhi S, Schneider A, Mohiuddin S, et al. Has the clinical presentation and clinician s index of suspicion of cardiac tamponade changed over the past decade? Echocardiography. 2008;25(3):237-41. 3. Salem K, Mulji A, Lonn E. Echocardiographically guided pericardiocentesis: the gold standard for the management of pericardial effusion and cardiac tamponade. Can J Cardiol 1999;15(11):1251-5. 4. Borges JC, Dippo JC, Martins HS. Pericardites e tamponamento pericárdico. In: Martins HS, Brandão Neto RA, Scalabrini Neto A, et al. Emergências clínicas: abordagem prática. 7th.ed. Barueri: Manole; 2012. p. 671-9. 5. Harper RJ. Pericardiocentesis. In: Roberts JR, Hedges JR, editors. Clinical procedures in emergency medicine. 5thed. Philadelphia: Saunders Elsevier; 2010. p.287-307. 6. Lopes L, Bittencourt M. Pericardiocentese. In: Nicolau J, Tarasoutchi F, editors. Condutas práticas em cardiologia. Barueri: Manole; 2010. p.899-904.