Moacyr Bernardino Dias-Filho Embrapa Amazônia Oriental www.diasfilho.com.br
Importância das pastagens na pecuária brasileira A maioria (> 90%) do rebanho é criado a pasto Pastagem é a forma mais econômica e prática de produzir e oferecer alimentos para os bovinos Onde o confinamento é a base da produção de carne, a colheita (e a oferta) da forragem e o manejo de dejetos requer o uso intensivo de mão de obra, máquinas, equipamentos e combustível fóssil (aumento de custos e impactos ambientais) Na criação a pasto a colheita da forragem é feita pelo próprio animal, por meio do pastejo A criação a pasto reduz custos e impactos ambientais, eleva o bem-estar estar animal e gera um produto tido como mais saudável, com qualidade nutricional elevada o boi verde ou boi de capim ( grass-fed beef )
O estigma da pecuária desenvolvida a pasto Na pecuária é possível produzir (embora com baixa eficiência) extensivamente Áreas marginais, de difícil acesso, com baixo potencial agrícola são preferencialmente destinadas para a formação de pastagens Erros de manejo e problemas climáticos são mais facilmente contornados na atividade pecuária a pasto Outras atividades agrícolas normalmente exigem preparo mais cuidadoso de área e o uso mais intensivo de insumos e de mão de obra para poderem ser implantadas com um mínimo de sucesso mais onerosas Historicamente, considerada a atividade agrícola menos onerosa e mais eficiente para ocupar áreas e assegurar a posse da terra
Capacidade de se autotransportar Bovino adapta-se a regiões onde a infraestrutura de estradas e os meios de transporte são deficientes
O estigma da pecuária desenvolvida a pasto Em decorrência da aparente facilidade de condução da pecuária a pasto, criou-se uma tradição de baixo investimento no uso de insumos e tecnologia na formação e manejo de pastagens no Brasil A cultura do boi criando o produtor, típica da pecuária desenvolvida sob pastagens naturais, foi transferida para a pecuária desenvolvida sob pastagens plantadas A principal consequência danosa dessa cultura tem sido a alta incidência de pastagens degradadas no Brasil Outra consequência nociva dessa cultura foi estigmatizar a pecuária desenvolvida a pasto como atividade improdutiva e danosa ao meio ambiente
Necessidade da modernização da pecuária Pressões ambientais e de mercado têm conduzido ao gradativo aumento da eficiência da atividade pecuária no Brasil Número crescente de produtores vem buscando mais eficiência (produzir mais em menor área) por meio do uso de tecnologias de manejo mais intensivo da pastagem Produzir mais em menor área de pastagem tornou-se uma necessidade de sobrevivência para a pecuária nacional
Dinâmica das áreas de pastagens no Brasil Evolução (%) das áreas de pastagens - 1975-2006 Norte Fonte: IBGE Nordeste Sudeste O crescimento relativamente baixo (4%) das áreas de pastagens foi causado: Expansão da áreas de lavoura, reflorestamento e urbanas sobre as pastagens Sul Brasil 517,9 6,6-32,2-14,3-7,3 4 Só foi possível em decorrência do aumento de produtividade da pecuária em geral e das pastagens em particular Evolução (%) da capacidade de suporte estimada (bovinos) - 1975-2006 Norte Nordeste Sudeste Sul Centro- Oeste Centro- Oeste Brasil 215 41,7 62,7 50 210 92 Fonte:Adaptado de IBGE
Dinâmica das áreas de pastagens no Brasil Substituição das pastagens naturais por pastagens plantadas 140 120 Pastagens naturais Pastagens plantadas Área (milhões de ha) 100 80 60 40 Fonte: IBGE 20 1970 1975 1980 1985 1996 2006 Cerca de 40% das áreas de pastagem no Brasil são pastagens naturais Ano
Degradação de pastagens Um dos principais problemas para a sustentabilidade da atividade pecuária no Brasil
Fonte: Dias-Filho (2003, 2005, 2007, 2011)
Indicadores de degradação Produtividade animal (produção de carne ou leite) Parâmetro universal p/ definir produtividade da pastagem (i.e., degradação) Indicador primário Capacidade de suporte (U.A. U.A./ha /ha) Indicador mais flexível para quantificar estádio de degradação Indicadores secundários % ou biomassa de plantas daninhas % de solo descoberto Indicadores dependentes do tipo de ecossistema ou tipo de degradação % OU BIOMASSA DE FORRAGEM
Pastagem degradada Área com acentuada diminuição na produtividade agrícola ideal (diminuição na capacidade de suporte ideal), podendo ou não ter perdido a capacidade de manter produtividade biológica (acumular biomassa) expressiva Fonte: Dias-Filho (1998, 2003, 2005, 2007, 2011)
Estádios de degradação (ED) ED Parâmetro limitante QCS (%) Nível 1 Vigor e solo descoberto Até 20% Leve 2 Estádio 1 agravado + plantas invasoras 21-50 Moderado 3 4 Estádio 2 agravado ou morte das forrageiras (degradação agrícola) Solo descoberto + erosão (degradação biológica) 51-80 Forte >80 Muito forte QCS = queda na capacidade de suporte Fonte: Dias-Filho (2011)
Estádios de degradação (ED) ED1 eed2 Pastagens em degradação ED3 eed4 Pastagens degradadas ED3 Degradação agrícola ED4 Degradação biológica
Degradação de pastagens Está presente em todas as regiões do Brasil O problema tende a ser maior nos locais aonde a pecuária vem apresentado as maiores taxas de expansão nas áreas de fronteira agrícola
Modelo de desenvolvimento da pecuária em áreas de fronteira agrícola - Fase 1 Crescimento horizontal : Fluxo migratório inicial intenso e rápida taxa de expansão da atividade Ext Ext Int Ext Ext Ext Pecuária predominantemente extensiva (pouco tecnificada) - terras abundantes e baratas Visão mais pioneira do que empresarial Busca de lucro via compra e venda de terra e madeira Postura mais especulativa da atividade pecuária
Pecuária na fronteira agrícola Fase 1 A escassez de áreas naturais para a expansão da atividade é um pré-requisito requisito básico para a adoção de tecnologias de intensificação agrícola A abundância de terra, de certa forma, contribui para a diminuição na demanda tecnológica na atividade pecuária em muitas locais de fronteira agrícola do Brasil Na pecuária de baixa tecnologia (extensiva) a produtividade real pode ficar muito abaixo da produtividade potencial Real Potencial Produtividade 0 20 40 60 80 100 Aumento da produção alcançado por meio da expansão das áreas de pastagem Crescimento horizontal
Modelo de desenvolvimento da pecuária em áreas de fronteira agrícola - Fase 2 Crescimento vertical : Abandono ou a intensificação (refinamento) da atividade pecuária Ext Int Ext Int Int Agricultura Reserva ambiental Expansão urbana Gradativa escassez na disponibilidade de terra (> preço), pressões ambientais e de mercado Visão mais empresarial do que pioneira Busca de lucro via comercialização da produção Postura mais profissional sobre a atividade pecuária
Pecuária na fronteira agrícola Fase 2 Valorização da terra e maior pressão para a diminuição do desmatamento Mais tecnologias para o aumento da produtividade das pastagens Novas cultivares de plantas forrageiras Tecnologias para a recuperação de pastagens degradadas Menor distância entre a produtividade real e a produtividade potencial Real Potencial Produtividade 0 20 40 60 80 100 Aumento da produção alcançado por meio da intensificação Crescimento vertical
Distribuição (%) das pastagens brasileiras segundo a capacidade de suporte Brasil e Grandes Regiões Até 0,4 UA 0,4 a 0,8 UA 0,8 a 1,5 UAs > 1,5 UAs Norte 69,6 20,3 8,2 1,9 Nordeste 73,6 17,8 6,6 2,0 Sudeste 41,7 29,6 23,4 5,3 Sul 14,8 25,6 47,4 12,2 Centro-Oeste 47,4 30,2 19,3 3,1 Brasil 52,5 25,1 18,3 4,0 Fonte: DIEESE (2011) - Estatísticas do Meio Rural 2010-20112011 Considerando a capacidade de suporte como indicador de degradação, cerca de 70% das pastagens brasileiras (em torno de 100 milhões de ha) estariam degradadas ou em degradação
Montante das áreas de pastagem degradadas no Brasil Dado preocupante, mas também animador Preocupante Indica baixa eficiência no uso das pastagens Animador Nessas pastagens reside um enorme potencial para o aumento da produtividade da pecuária nacional
Aumento de produtividade da pecuária já é uma realidade Nos últimos anos o ritmo de crescimento do rebanho bovino brasileiro vem superando o aumento das áreas de pastagem Variação (%) 1975-2006 Norte Nordeste Sudeste Sul Centro- Oeste O que tem possibilitado esse aumento de produtividade? Maior disponibilidade de tecnologia (cultivares mais produtivas de capins, técnicas de manejo e recuperação de pastagens, genética do rebanho etc.) Pressões ambientais e de mercado estimulando o uso de tecnologia Brasil Rebanho 1.845,9 52 10,2 25,5 183,4 100,8 Pastagem 517,9 6,6-32,2-14,3-7,3 4 Fonte: IBGE
38,8 23,8 3,7 1,6 10,8 Fonte: IBGE/Pesquisa Pecuária Municipal Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-Oeste
Norte (20,1%) Centro-Oeste (34,6%) Nordeste (13,7%) Sul (13,3%) Sudeste (18,3%) Fonte: IBGE/Pesquisa Pecuária Municipal, 2011
Mudança no modelo de produção animal a pasto no Brasil Produção de bovinos no Brasil deverá se concentrar nas regiões Norte, Centro-Oeste e Nordeste A lógica para a expansão da pecuária nessas regiões reside no imenso potencial de aumento de produtividade das pastagens locais (produtividade real ainda muito abaixo da potencial) Produzir mais dependerá, basicamente, do aumento da produtividade e NÃO da abertura de novas áreas
Considerações finais As pastagens (principalmente as plantadas) têm papel fundamental na pecuária brasileira, garantindo baixos custos de produção Historicamente, a pecuária desenvolvida a pasto tem sido vista como atividade pouco exigente em insumos e tecnologia O estigma de atividade não demandante em insumos e tecnologia é uma das principais causas do montante das pastagens degradadas no Brasil A alta incidência de pastagens degradadas no país pode ser traduzida em um imenso potencial para o aumento de produtividade da pecuária nacional pela simples recuperação dessas áreas Atualmente, já se percebe uma clara tendência na busca de maior eficiência na pecuária nacional via melhoramento das pastagens
Contato Moacyr Bernardino Dias-Filho Embrapa Amazônia Oriental, Belém, PA moacyr@diasfilho.com.br www.diasfilho.com.br http://twitter.com/moacyrdiasfilho