1. Questionamento: 2. Fundamentos:



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Transcrição:

1. Questionamento: Preciso saber em qual dispositivo legal se encaixa o seguinte caso: Um senhor induziu um menor, com 12 anos de idade, a praticar ato sexual com animal (ovelha), porém não há indícios de que o ato foi para satisfazer sua lascívia, já que dos depoimentos colhidos nota-se que o senhor queria "ensinar" o menino a realizar o ato (ambos são moradores do interior da cidade). A mãe do garoto flagrou tal senhor segurando o pênis do menino para introduzir em uma ovelha. O investigado nega as acusações. Do mesmo modo, o acusado também fazia o menino assistir filmes pornográficos de pessoas tendo relações com animais e dava revistas pornôs para o garoto. No momento do flagra pela mãe do menino, ela relatou que o garoto se assustou porque a genitália da ovelha estava sangrando, de modo que se acredita que o garoto tenha consumado o ato com o animal. Promotoria de Justiça de São Lourenço do Sul 2. Fundamentos: Do ponto de vista da tipicidade formal, a conduta de auxiliar o adolescente na prática de coito com animal é apta a subsunção em dois artigos do Código Penal, a saber, 217-A (estupro de vulnerável) ou 233 (ato obsceno), a saber: Art. 217-A. Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14 (catorze) anos: Pena - reclusão, de 8 (oito) a 15 (quinze) anos. Art. 233 - Praticar ato obsceno em lugar público, ou aberto ou exposto ao público: Pena - detenção, de três meses a um ano, ou multa.

De outra parte, a exibição de material pornográfico ao adolescente tem correspondente típico na Lei nº 8.069/90 (Estatuto da Criança e do Adolescente), a saber: Art. 241-D. Aliciar, assediar, instigar ou constranger, por qualquer meio de comunicação, criança, com o fim de com ela praticar ato libidinoso: Pena reclusão, de 1 (um) a 3 (três) anos, e multa. Parágrafo único. Nas mesmas penas incorre quem: I facilita ou induz o acesso à criança de material contendo cena de sexo explícito ou pornográfica com o fim de com ela praticar ato libidinoso; II pratica as condutas descritas no caput deste artigo com o fim de induzir criança a se exibir de forma pornográfica ou sexualmente explícita. Primeiramente, impõe-se compreender o alcance da elementar outro ato libidinoso prevista no art. 217-A, mais grave dos crimes em questão. Do escólio de Nélson Hungria, ao comentar o crime de atentado violento ao pudor, hoje incorporado, pelo fenômeno da migração encetado pela Lei nº 12.015/2009, à figura do estupro, extrai-se o seguinte: Se o ato, embora materialmente indecoroso, não traduz, da parte do agente, uma expansão de luxúria, deixará de ter cunho libidinoso (Comentários ao Código Penal, volume VIII, Rio de Janeiro: Forense, p. 133). Conforme ensina Rogério Greco: Na expressão outro ato libidinoso estão contidos todos os atos de natureza sexual, que não a conjunção carnal, que tenham por finalidade satisfazer a libido do agente (Curso de Direito Penal, Parte Especial, volume III, 9. ed., Niterói: RJ, Impetus,, 2012, p. 461).

Assim, é essencial aferir se a conduta do agente teve por fim o desafogo da própria libido, mediante a satisfação pervertida de presenciar coito zoofílico, ou se não passou de peripécia destinada a auxiliar o adolescente no desafogo da lascívia própria dessa idade incipiente, em que a masturbação constitui prática comum. Pelo conteúdo da consulta, não transparece que a satisfação da libido do agente foi o alvo da conduta perpetrada, pois a finalidade aparente foi a satisfação da libido do próprio adolescente, já incipiente nessa idade e comumente desafogada por meio de atos masturbatórios. Com efeito, é bem de ver que a relação sexual com animal pode perfeitamente ser equiparada aos atos de masturbação que acompanham o desenvolvimento sexual dos adolescentes. No caso, o animal é o instrumento utilizado na masturbação, em substituição à mão ou outros objetos. Tal ato, eminentemente masturbatório pois animal é coisa no aspecto jurídico não pode ser equiparado ao estupro, ainda que haja intervenção de terceira pessoa, porquanto se tratam de condutas com distintas configurações típicas e que têm distinta reprovabilidade social. Nesse sentido: Ementa: Atentado violento ao pudor e ato obsceno. Masturbação em público: caracteriza crime de ato obsceno. Deram parcial provimento ao apelo da defesa e decretaram extinta a punibilidade (unânime). (Apelação Crime Nº 70029875101, Quinta Câmara Criminal, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Amilton Bueno de Carvalho, Julgado em 03/06/2009)

Diante disso, o tipo penal que melhor se ajusta ao caso em exame é o do art. 233 do CP, pois realizado, efetivamente, um ato masturbatório em local público, tanto que foi visualizado por terceira pessoa. A participação do adulto, no caso, foi no sentido de prestar auxílio ao adolescente, estando, ambos, incursos no mesmo tipo penal, em que pese o tratamento do menor ocorra na Justiça da Infância e Juventude. A propósito, nessa hipótese, a conduta de exibir revistas pornográficas ao adolescente revela-se atípica, porque ausente o fim de com ela praticar ato libidinoso exigido pelo art. 241-D do ECA. Ressalva-se, como dito, a comprovação de que o maior estava, de fato, dando azo à própria satisfação, caso em que a opção não poderá ser outra, senão o enquadramento no art. 217-A do referido diploma legal. Nesse caso, em que o agente pretendeu desafogar a própria libido, e não simplesmente auxiliar o adolescente na satisfação da sua, é possível a configuração, em concurso material, do crime previsto no art. 241-D, parágrafo único, I, do ECA. Descarta-se a contravenção do art. 64 da Lei das Contravenções Penais (crueldade contra animais), na espécie, porque absorvida pela infração mais grave, previsto no art. 233 do Código Penal, mormente porque discutível se houve padecimento do animal ou intenção de impor tratamento cruel à ovelha. 3. Conclusão: seguinte sentido: Diante do exposto, o entendimento deste Centro de Apoio Criminal é no

a) Pelo conteúdo da consulta, vislumbra-se que o agente está incurso no art. 233 do Código Penal, porquanto se limitou a auxiliar o adolescente no desafogo da própria libido; b) Caso fique comprovado que o agente, o agir, deu azo à própria satisfação, e não apenas do adolescente, estará incurso nos artigos 217-A do Código Penal e 241-D, parágrafo único, I, do Estatuto da Criança e do Adolescente, em concurso material de delitos. Permanecemos à disposição para o que mais se fizer necessário. Atenciosamente, Centro de Apoio Criminal