MELHORAMENTO EM MILHO (Noções Básicas) Eng.º Agr.º Sylmar Denucci 1 1. Introdução O milho é uma planta monóica (sexos separados na mesma planta) de característica alógama ( fecundação cruzada e ao acaso). Por isso, possui grande diversidade genética, possibilitando sua adaptação as mais diferentes condições de ambiente. É cultivado desde a latitude de 58º no hemisfério norte até 40º no hemisfério sul, em ambientes com precipitação de 250mm ou de até 10.000mm anuais e em altitudes que vão do nível do mar até 5.800 metros. Quando Cristóvão Colombo chegou à América, o milho já era cultivado desde o sul do Canadá até o centro-sul da América do Sul. Existem diversos tipos de milho cultivados, sendo os de grãos alaranjados, amarelos ou brancos os mais freqüentes. Esses grãos podem ser duros, dentados, farináceos ou cerosos, conforme o tipo e a disposição do amido existente no endosperma. O milho pipoca é um milho de grãos pequenos e duros e o milho doce tem menor conversão de açúcares em amido. Existem também os milhos de grãos coloridos (vermelhos, pretos, roxos, etc.) e, ainda, os de grãos recobertos individualmente (tunicados). Comprovadamente, o milho já era utilizado como alimento pelo homem desde 7.000 a.c. e sua origem provável é o México. Está presente na América do Sul desde, pelo menos, 3.000 a.c. É importante ressaltar que a intervenção humana (seleção) é responsável pela existência da espécie milho. O fato de as plantas serem colhidas individualmente, contribuiu para o alto grau de melhoramento da espécie. O milho é uma planta anual, robusta e ereta, explendidamente construída para a produção de grãos e que também não pode sobreviver sem a proteção do homem."(mangelsdorf, 1974) Para se fazer um bom trabalho de melhoramento em milho, ou em qualquer outra espécie cultivada, são necessários: 1º) conhecer muito bem a planta e o seu comportamento em relação ao ambiente 2º) conhecer a base genética dos caracteres da planta, permitindo, assim que se adote um método eficaz de seleção 3º) ter objetivos bem-definidos e ser persistente, prático e realista.
Esta publicação procura enfocar os dois primeiros quesitos. O terceiro dependerá da aptidão e da dedicação individual de cada um. 2. BOTÂNICA 2.1. Raízes - Seminais: surgem na base do primeiro internódio e são responsáveis pela fixação e nutrição inicial da planta. - Adventícias: surgem nos 6 a 10 primeiros nós que estão abaixo do solo e são muito próximos uns dos outros. As raízes adventícias que surgem nos nós acima da superfície (raízes suporte) ajudam a escorar a planta, fator importantíssimo para evitar o seu acamamento. O sistema radicular pode ter de 1,5 até 3 metros de comprimento de profundidade. No entanto, concentra-se superficialmente, quase sempre a menos de 30cm, isso faz com que o milho seja uma planta altamente intolerante à seca. A profundidade do sistema radicular depende do genótipo do milho, do ph, compactação e teor de umidade do solo. 2 2.2. Colmo É uma haste cilíndrica com nós compactos. Os nós abaixo do solo dão origem às raízes. Os nós ao nível do solo ou imediatamente acima podem dar origem a perfilhos e raízes adventícias de suporte. Os nós acima do solo originam as folhas e as ramificações que são as inflorescências femininas (bonecas ou espigas). O colmo termina no pendão, que é a inflorescência masculina. Essas características do colmo fazem com que o milho seja uma gramínea especial, diferenciada das demais. 2.3. Folhas No embrião do milho já existem 4 a 5 folhas diferenciadas, sendo que o número total de folhas da planta pode ser determinado quando a plântula tem ainda poucos dias. As folhas são dispostas alternadamente e são compostas de: - limbo foliar: é a parte mais exposta da folha, possui forte nervura central que lhe dá sustentação e também ajuda a determinar o ângulo do limbo foliar com o colmo. O limbo foliar é a parte mais importante da folha em termos de ocorrência de fotossíntese, respiração e transpiração; - lígula: é a área de junção do limbo foliar com a bainha, envolvendo o colmo, restringindo a entrada de água e solo, reduzindo também a transpiração que ocorre através da bainha; - aurícula: encontra-se acima da lígula e permite a mobilidade lateral do limbo foliar; - bainha: origina-se no nó, envolve o colmo e prende a folha à haste da planta.
2.4. Inflorescências Têm características monóicas, ou seja, as flores masculinas e femininas encontram-se em inflorescências separadas na mesma planta. Pendão: é a inflorescência masculina, com os órgãos femininos abortados. Espiga: é a inflorescência feminina, com os órgãos masculinos abortados. Espiga e pendão são estruturas homólogas, cujas espiguetas são especializadas para a produção do óvulo e dos grãos de pólen, respectivamente. 3 O pendão possui espiguetas pareadas, sendo uma séssil e uma pedicelada. É composto de um eixo central e, geralmente, possui várias ramificações. Essas ramificações laterais podem também dar origem a outras ramificações. Cada espigueta do pendão é composta de duas pequenas flores, sendo cada flor composta de três estames, duas lodículas e um pistilo abortado. Na antese as lodículas se intumescem permitindo a emergência das anteras. A posição e a forma do pendão favorecem a distribuição do pólen pelo vento. A espiga é um ramo lateral que termina em espiga (é um colmo com internódios mais condensados). As palhas são bainhas foliares bem superpostas. Nas axilas das palhas existem ramos potenciais que podem dar origem a outras espigas, principalmente quando por algum motivo a espiga terminal não se desenvolve total ou parcialmente. Os pares de espiguetas da espiga diferem daqueles do pendão. As glumas, pálea e lema são atrofiadas e os estames e as lodículas abortam. Possuem um pistilo com ovário basal único e um longo estilo (barba ou cabelo) que chega a ter 45cm de comprimento. O estilo expõe-se através das palhas para que a polinização possa ocorrer. Normalmente, só a flor superior dentro de cada espigueta é funcional. Florescimento, polinização e fertilização O florescimento ocorre 40 a 100 dias após a emergência, podendo em alguns casos demorar até 10 meses. Normalmente, o florescimento masculino inicia-se antes do florescimento feminino, ou seja, o pendão emerge antes das bonecas. A deiscência do pólen (antese) normalmente ocorre 2 a 3 dias antes da emergência dos estiloestigmas. É o fenômeno da protandria, que favorece a polinização cruzada. A liberação dos grãos de pólen geralmente ocorre desde o nascer do sol até ao meio dia, sendo que temperaturas muito elevadas e dias muito secos reduzem a viabilidade dos mesmos.
A dispersão do pólen pode durar de 2 a 14 dias, normalmente ocorrendo durante 5 a 8 dias. O clímax ocorre no terceiro dia. O pólen fica retido e é carregado pelo vento até distâncias superiores a 500 metros, fator este que favorece a polinização cruzada. Os estilos dos grãos da base da espiga emergem primeiro. As barbas continuam a emergir por 3 a 5 dias e são receptivas imediatamente após a emergência. Podem permanecer receptivas por até 14 dias quando existem condições favoráveis. O grão de pólen tem superfície espinhosa e em contato com o estilo, cuja superfície é viscosa, emerge quase que imediatamente. 4 A Fecundação ocorre 12 a 36 horas após a polinização, com média de crescimento do tubo polínico de 25cm até atingir o óvulo. A fecundação depende da temperatura, umidade e genótipos envolvidos. 2.5. Grão Desenvolve-se durante aproximadamente 50 dias após a fertilização. Do ovário fecundado até o grão completo, seu volume aumenta aproximadamente 1.400 vezes. O grão ou semente de milho, como costumeiramente chamamos, na verdade é uma cariopse, ou seja, fruto característico das gramíneas. Pericarpo é a camada mais externa do grão. Deriva-se da parede do ovário. Normalmente é incolor, mas pode ser também colorido. Na base do grão permite a rápida absorção de umidade que dará início ao processo de germinação do embrião. Endosperma é triplóide (3n), sendo formado por dois núcleos femininos mais um núcleo masculino. Constitui-se principalmente de amido. A camada mais externa do endosperma é composta por algumas camadas de células de aleurona, pode ser incolor ou colorida. O endosperma pode ser de cor branca, amarela ou alaranjada. Nos milhos duros, dentados e farináceos ocorrem diferentes arranjos de grãos de amido. Nos milhos cerosos quase todo o amido encontra-se na forma de amilopectina. Nos milhos doces ocorre menor conversão de açúcares em amido, ocasionando menores taxas de amido e maiores de açúcares e polissacarídeos solúveis, o que provoca o enrugamento do grão após sua maturação. Embrião é composto de uma haste central (haste embriônica e eixo radicular) e escutelo, que é um tipo de cotilédone. Sua extremidade é envolvida pelo coleóptilo e sua base pela coleorriza. O tempo de germinação depende da temperatura do solo, podendo ocorrer em 5 dias (30º C) ou em até 20 dias (8º C). O embrião de milho não possui dormência.
5 3. MELHORAMENTO Existem duas alternativas para a obtenção de um cultivar melhorado de milho: - melhoramento de populações, originando o milho variedade; - síntese de geração F1 com alta heterose ou vigor híbrido, originando o milho híbrido. O grande diferencial entre o milho variedade e o milho híbrido é que o primeiro se reproduz segundo o modo usual da espécie, sendo impossível ao híbrido manter suas características genéticas e fenotípicas através de polinização livre. Milho variedade: no caso do milho (planta alógama), uma população é melhorada porque apresenta uma frequência de genes favoráveis mais elevada do que nas populações originais ou não melhoradas (maior freqüência de alelos favoráveis e menor freqüência de alelos desfavoráveis). O aumento da freqüência dos genes favoráveis é conseguido por meio de diversos métodos de seleção, e acontece por um processo dinâmico, sendo o melhoramento contínuo e progressivo. Objetivo da seleção em populações de milho: conduzir a população para as máximas freqüências dos genes favoráveis (o que na prática nunca é conseguido). À medida que as freqüências gênicas aumentam, os progressos subseqüentes tendem a diminuir em magnitude. A taxa de elevação das freqüências gênicas depende principalmente: - da variabilidade genética da população original; - da intensidade de seleção; - da técnica e precisão da avaliação dos genótipos. O melhoramento sempre conduz a uma base genética mais estreita. No entanto, uma certa variabilidade sempre persiste. A população resultante é constituída por uma mistura de um grande número de genótipos e tem maior estabilidade fenotípica que em populações geneticamente mais uniformes, pois populações com certa variabilidade genética estão mais protegidas das variações ambientais do que populações constituídas por um único genótipo. Milho híbrido: representa a geração F1 de um cruzamento entre linhagens endogâmicas. É constituído por praticamente um só genótipo. A superioridade do híbrido deve-se à combinação dos genes, os quais estão em grande quantidade na condição heterozigótica. A freqüência de grande parte dos genes é 50%. Portanto, essa superioridade só se manifesta na geração F1. Na geração F2 haverá segregação gênica e muitos indivíduos (plantas) serão produzidos com genes desfavoráveis recessivos na condição homozigótica. Portanto, em média, a geração F2 será inferior à F1.
6 3.1. Milho Variedade X Milho Híbrido Melhores variedades podem contribuir para obtenção de melhores híbridos, pois a probabilidade de obtenção de linhagens superiores é função direta das freqüências gênicas da população. Como existe maior freqüência de genes favoráveis nas variedades melhoradas, haverá maior probabilidade de obtenção de linhagens superiores oriundas de autofecundações executadas nessas variedades. Melhores híbridos podem contribuir para a síntese de melhores variedades, pois as linhagens constituintes desses híbridos têm baixa frequência de genes desfavoráveis e a recombinação desses germoplasmas superiores pode dar origem a populações com alta freqüência de genes favoráveis. As principais diferenças entre um híbrido e uma variedade são: Híbrido Variedade - Genótipo bem-definido - Apresenta variabilidade genotípica - Altamente influenciado pelo ambiente - Maior estabilidade fenotípica - Impossível de ser reproduzido pela maneira natural da espécie - Pode ser reproduzida de maneira natural da espécie. - Potencial produtivo superior à variedade * - Potencial produtivo inferior ao híbrido * *O fato de um cultivar ser híbrido não é condição suficiente para ser considerado superior a uma variedade. Existem vários híbridos disponíveis no mercado que possuem potencial produtivo inferior a variedades também comerciais. As conseqüências mais diretas dessas diferenças são: 1) nos híbridos há um poder natural sobre a constituição do cultivar, enquanto nas variedades há livre possibilidade de reprodução do cultivar; 2) nas variedades o custo de produção de sementes é muito mais baixo que nos híbridos; 3) a vida útil de um cultivar tipo variedade é muito mais longa do que a de um cultivar tipo híbrido; 4) para condições de alta tecnologia e baixo risco ambiental os cultivares híbridos são preferenciais. Condições em que a tecnologia empregada ainda não é suficiente para explorar o potencial do cultivar e quando o risco ambiental é significativo a opção por cultivares tipo variedade é a mais indicada. Alguns conceitos importantes devem ser ressaltados, antes de ser enfocado o melhoramento propriamente dito. Germoplasma: material básico para melhoramento. Qualquer tipo de milho, comercial ou não pode ser considerado um germoplasma.
7 Herdabilidade (h 2 ): simplificando, é a taxa com que um caráter quantitativo é transmitido à geração seguinte: h 2 = 2 A 2 G + 2 E h 2 = Herdabilidade 2 A = Variância aditiva (porção da variância genética que importa para a seleção no processo de Seleção Massal) 2 G = Variância genética (variância dominante + variância aditiva) 2 E = Variância ambiental Exemplos de herdabilidade h 2 > 0,70 Porcentagem de óleo no grão 0,50 < h 2 < 0,70 Altura de planta e da espiga 0,30 < h 2 < 0,50 Prolificidade e comprimento de espigas h 2 < 0,30 Produção de grãos Quanto menor a herdabilidade, maior a interferência do ambiente e maior a necessidade de utilização de métodos de melhoramento mais apurados. Quanto maior o número de alelos relacionados ao carácter, maior chance de baixa herdabilidade. Intensidade de Seleção (IS): quanto maior a Intensidade de Seleção maior o diferencial de seleção e maior o ganho de seleção. A I.S. depende da estratégia da seleção. Programas de melhoramento a longo prazo devem ser conduzidos com baixa I.S. Programas de melhoramento a curto prazo devem ser conduzidos com alta I.S. Tamanho Efetivo (Ne): é a amostra da população original que dará origem à nova geração. Para se conseguir manter a variabilidade e continuar a obter progresso na seleção, deve-se tomar cuidado com o Ne. O Ne também dependerá do tamanho da população original. Ex: Ne de 1% - Amostras de 100 indivíduos numa população de 10.000 plantas - Amostras de 10 indivíduos numa população de 1.000 plantas Deriva ou erosão genética: perda de alelos devido à intensidade de seleção muito forte. Teste de Progênie: avaliação do genótipo do indivíduo através do fenótipo de seus descendentes. Área Experimental: local onde são feitas as avaliações dos genótipos. Exige homogeneidades física, química e topográfica. Exige também semelhança com as condições de produção comercial e cuidados que conduzam à máxima precisão experimental possível. Erro Experimental: diferença entre parcelas que recebem o mesmo tratamento. A principal causa de erro experimental é a heterogeneidade do solo. O índice mais utilizado para avaliar o erro experimental nos ensaios é o coeficiente de variação (CV).
8 Coeficiente de Variação (C.V.): mede a precisão do ensaio. Para produção de grãos o ideal é que fique abaixo de 10%, sendo tolerável até 20%. Tratamentos: no caso de melhoramento de milho são os genótipos que estão sendo testados. Parcelas: são os canteiros experimentais. Quanto menores as parcelas maior risco de ocorrência de erro experimental. Quanto menor a h 2 haverá necessidade de parcelas maiores. Seleção Recorrente: denominação genérica para todos os métodos que visam ao melhoramento de populações por meio de esquemas cíclicos de seleção. O melhoramento é contínuo, dinâmico e gradativo, promovendo o aumento da freqüência de genes (alelos) favoráveis. Sintético(variedade sintética): germoplasma resultante do intercruzamento de linhagens puras. Vantagem = conhecimento da origem dos materiais. Desvantagem = base genética muito estreita. Variedade de Polinização Aberta: germoplasma de ampla base genética com características agronômicas diferenciadas. Raça: variedade de polinização aberta originada de cruzamento natural ocorrido na natureza. Desvantagem = desconhecimento da origem dos materiais. - Composto: intercruzamento de variedades de polinização aberta e/ou gerações F1 e F2 de híbridos. Na obtenção de um composto, 3 a 4 gerações de recombinação são suficientes para se alcançar determinada homogeinização e caracterização do mesmo. Uma grande vantagem é que já se pode executar certa seleção branda durante o processo de recombinação. Família de Meio-irmãos: é o grupo de sementes oriundas de uma espiga polinizada livremente, ou seja, a parte feminina dos embriões é oriunda de uma só planta e a porção masculina de cada embrião é de origem desconhecida. Família de Irmãos Germanos: é o grupo de sementes oriundas de uma espiga polinizada manualmente, ou seja, onde os grãos de pólen de uma mesma planta fecundaram todos os óvulos da espiga. Linhagem Endógama: É o germoplasma de milho oriundo de múltiplas autofecundações, onde praticamente todos os alelos encontram-se na condição de homozigose.
9 Fases da Avaliação de Genótipos (Ensaios) 1.º) Melhoramento: durante a fase de melhoramento grande número de tratamentos têm que ser avaliados. É a fase de peneira grossa quando há menor necessidade de precisão experimental. Nessa fase pode-se utilizar parcelas menores e menor número de repetições. 2.º) Avaliação: nessa fase há necessidade de maior rigor estatístico (maiores parcelas, maior número de repetições e maior número de locais). Lembramos novamente que quanto menor a h 2 haverá necessidade de maior tamanho da parcela. Geralmente, em ensaios de competição, utilizam-se parcelas constituídas por duas linhas de 5 metros. a) Métodos Simples de Melhoramento de Populações b1) Seleção Massal ou Fenotípica - Simples: Vem sendo executada a milênios e deu origem a praticamente todas as raças de milho. Baseia-se na avaliação visual do fenótipo da planta. É pouco eficiente para caracteres de baixa h 2 devido à grande influência do ambiente. - Estratificada: Difere da seleção massal simples por um maior controle dos efeitos do ambiente. Vantagens da Seleção Massal: - pode-se trabalhar com grande número de plantas, permitindo manter o Ne alto; - é de custo bastante baixo; - podem-se obter até 2 ciclos de seleção/recombinação por ano (nas condições de São Paulo). Abaixo o método de seleção massal utilizado na unidade de Ataliba Leonel do DSMM/CATI que deu origem às variedades AL: MÉTODO ATALIBA LEONEL DE SELEÇÃO MASSAL PARA MILHO 1) Escolher germoplasmas superiores com destacadas características favoráveis (normalmente utiliza-se os melhores híbridos e variedades comerciais disponíveis). Utilizar pelo menos 10 materiais distintos, com o intuito de se obter ampla base genética. 2) Misturar amostras iguais de sementes desses materiais e plantar em uma área de aproximadamente 2.000m 2. Deixar cruzar ao acaso e colher amostra da base das espigas produzidas, misturando um mesmo número de sementes de cada espiga selecionada. Selecionar pelo menos 5% das espigas produzidas. Todas as linhas devem fornecer número semelhante de espigas selecionadas. Este será o primeiro ciclo de seleção e recombinação. Se possível plantar 2 a 3 lotes/ano espaçados de mais ou menos 20 a 30 dias um do outro.
3) Com uma amostra dessas sementes, instalar campos de aproximadamente 2.000m 2 utilizando espaçamento considerado ideal para a população a ser selecionada. Plantar 2 sementes por cova eliminando a plântula menos vigorosa até 15 dias após a emergência. Pouco antes do florescimento cortar, um pouco abaixo do pendão, as plantas consideradas indesejáveis, não exagerando nesta seleção. Não se deve eliminar a planta inteira a fim de que a mesma continue a competir com a planta vizinha. 4) Na colheita, selecionar um mínimo de 5% das espigas de cada linha, observando as características favoráveis da planta e da espiga. Selecionar esse mínimo em todas as linhas, inclusive naquelas que possam ter sido plantadas em mancha de solo menos fértil. Essa é uma maneira de estratificar a seleção. Não escolher espigas de plantas com espaçamento maior (vizinhas de falhas) e nem das plantas já descartadas anteriormente, antes do pendoamento. Este já será o segundo ciclo de seleção e recombinação. 5) Debulhar a base de cada espiga selecionada e misturar uniformemente as sementes, que serão utilizadas para a execução do próximo ciclo de recombinação e seleção. Utilizar sempre sementes da base de espiga para a geração seguinte. Procedendo-se assim obtém-se ganho adicional no melhoramento. Utilizar mesmo número de sementes de cada espiga selecionada escolhendo somente grãos totalmente sadios. 6) Nos demais ciclos de seleção e recombinação proceder de maneira semelhante à descrita nos itens 3 a 5. Procurar variar as condições de ambiente em cada ciclo visando à obtenção de diferentes pressões de seleção. 7) Executar pelo menos 2 ciclos por ano, aproveitando o ciclo da safrinha para selecionar, principalmente, para resistir a doenças e à seca. No ciclo de verão selecionar, principalmente, para produtividade e outros caracteres de interesse. Pode-se também selecionar uma população especificamente para a safra normal e outra para a safrinha. 8) Após o 3.º ou 4.º ciclo de seleção e recombinação iniciar ensaios de competição para a verificação do potencial do material que está sendo selecionado. 10 Esse método além de simples, econômico e rápido (em 2 anos pode-se obter material pré-comercial), permite selecionar para vários caracteres ao mesmo tempo. No entanto, exige a presença do melhorista em todas as fases de seleção, condição esta indispensável para o sucesso do método. b2) Seleção entre famílias de meios-irmãos É um aprimoramento da seleção massal. Seleciona-se o maior número possível de espigas de uma população já recombinada (25 a 200 famílias, por exemplo). Numeram-se estas espigas e debulham-se as mesmas, mantendo as sementes individualizadas e identificadas. Com uma determinada quantidade de sementes de cada espiga instala-se ensaio de avaliação que pode ser com
11 parcelas menores e poucas repetições (ensaio de fase de melhoramento). Após a realização da(s) avaliação(ões) misturar quantidades iguais das sementes remanescentes das famílias selecionadas e promover a recombinação. Após a recombinação efetuar ensaios de recomendação ( mais apurados) comparando-se com a população original e testemunhas comerciais A seleção entre famílias de meios-irmãos aumenta a possibilidade de conseguir avanços no melhoramento quando se trabalha com caracteres de baixa herdabilidade. Por meio da seleção massal simples tem-se pouca chance de alcançar esses avanços. b3) Seleção entre e dentro de famílias de meios irmãos Pode-se, ainda, acrescentar mais uma fase ao método anterior para possibilitar também uma seleção adicional dentro de cada família selecionada. Para isso, ao invés de executar simplesmente a recombinação das famílias selecionadas após avaliá-las, conforme descrito no ítem anterior, procede-se da seguinte forma: a) mistura-se uma quantidade determinada de sementes (25 a 50, dependendo da disponibilidade) de cada uma das famílias selecionadas, sendo que esta mistura de sementes será plantada em linhas separadas que irão funcionar como fornecedoras de pólen (linha de macho). b) as sementes remanescentes de cada família selecionada serão plantadas em linhas identificadas (cada família será uma linha fêmea). Para cada 3 ou 4 linhas de fêmeas plantar uma linha de macho. c) as linhas fêmeas serão despendoadas antes da emissão de pólen, sendo conseqüentemente polinizadas pelas linhas de macho (mistura das famílias selecionadas). d) na colheita faz-se seleção massal dentro de cada uma das linhas fêmeas. e) pode-se então efetuar a recombinação dessas espigas (famílias) selecionadas ou repetir o teste de progênie, iniciando-se novamente o processo. Mistura de famílias selecionadas Família 1 Família 2 Família Mistura de famí- 3 lias selecionadas Existem ainda diversos métodos de seleção de populações de milho que, basicamente, diferem entre si pelo maior ou menor grau de dificuldade. Praticamente, todos podem ser considerados como variações da seleção recorrente e que buscam maior controle ambiental e avanços mais rápidos e eficientes nos programas de melhoramento. Destacamos que, independentemente do
12 grau de sofisticação do método, o programa de melhoramento de milho só atingirá seu alvo se os melhoristas nele envolvidos forem bastante objetivos, conhecerem profundamente a cultura em questão e as reais necessidades de aprimoramento relativas aos cultivares já existentes no mercado de sementes. b) Milho Híbrido Diversos tipos de milho híbrido podem ser sintetizados, mas os mais utilizados são aqueles obtidos com o emprego de linhagens endogâmicas. Relação dos principais tipos de híbridos de milho possíveis de serem produzidos: - Híbrido Intervarietal: oriundo do cruzamento de duas variedades - Híbrido Top-cross: oriundo do cruzamento de uma linhagem com uma variedade. - Híbrido Simples: oriundo do cruzamento de duas linhagens endogâmicas. - Híbrido Triplo: oriundo do cruzamento de uma linhagem com um híbrido simples. - Híbrido Duplo: oriundo do cruzamento de dois híbridos simples. c1) Obtenção de Linhagens: A técnica da autofecundação é a mais comumente utilizada para obtenção de linhagens. Deve-se escolher germoplasmas superiores com alta frequência de genes favoráveis para o início desse trabalho. Durante o processo de autofecundação deve ocorrer simultaneamente um processo de seleção, elegendo-se sempre as plantas com características fenotípicas superiores para serem autofecundadas (seleção massal). A autofecundação inicia-se com a proteção da boneca com um saco plástico, antes da emissão dos estilos (barba), e, posteriormente, do pendão com um saco de papel, um dia antes da execução do serviço de autofecundação. No período da manhã, quando for intensa a emissão de pólen, agita-se o pendão protegido, retira-se o saco de papel com cuidado para que não haja entrada de pólen estranho, reveste-se a boneca com o saco de papel que protegia o pendão e, com cuidado, retira-se o saco plástico que protegia os estilos, agita-se novamente o saco de papel para favorecer o contato dos grãos de pólen com os estilos e prende-se o saco de papel à planta com um clips ou grampo. Esse saco de papel permanecerá protegendo a espiga até a sua colheita. Após 5 a 7 autofecundações já poderemos obter um alto grau de endogamia na linhagem. No entanto, pode-se iniciar teste de hibridação já a partir de linhagens S 3 e S 4 (3 a 4 autofecundações). O que se buscará é a melhor combinação possível que permita um máximo de heterose (vigor híbrido). Diversos métodos de avaliação de linhagens e híbridos são descritos na literatura e podem ser utilizados. O conhecimento da origem genética dos germoplasmas que estão sendo utilizados é muito importante também. Ao se eleger as linhagens elite, ou seja, aquelas que darão origem aos híbridos superiores, haverá necessidade de manutenção e multiplicação para o programa de produção de sementes. Essa multiplicação poderá ocorrer por meio de polinização livre em campos isolados por tempo
determinado ou à distância mínima de 500 metros de outro campo de milho, se possível com barreira de plantas altas entre as mesmas. O ideal é adotar-se 1.000 metros como isolamento. D) Conclusão A variabilidade genética do milho é tão ampla que nos permite afirmar que, durante muito tempo ainda, será possível obtermos avanços no melhoramento dessa espécie pelos métodos tradicionais de seleção. Isso não quer dizer que a engenharia genética não deva ser utilizada. Ela é mais uma ferramenta à disposição para a execução dos trabalhos de melhoramento e não exclui, de modo algum a necessidade e a possibilidade de o melhoramento em milho realizar-se de maneira não muito diferente da que vem sendo utilizada a milhares de anos. 13 Seleção e Recombinação Finalizando, ressaltamos novamente que populações melhoradas podem ser utilizadas como fonte para obtenção de linhagens elite nos trabalhos de melhoramento visando à obtenção de híbridos superiores de milho, e que estes também devem ser utilizados como germoplasmas para formação de novos compostos.
14 Literatura Consultada GOODMAN, M.M. & SMITH, J.S.C. 1987. Botânica. Pp. 41-78 in E. PATERNIANI & G.P. VIEGAS (eds.), Melhoramento e Produção de Milho. Vol. I. Fundação Cargill. MIRANDA FILHO, J.B. & VIEGAS, G.P. 1987. Milho Híbrido. Pp.277-340 in E.PATERNIANI & G.P. VIEGAS (eds.), Melhoramento e Produção de Milho. Vol I. Fundação Cargill. PATERNIANI, E. & MIRANDA FILHO, J.B. 1987. Melhoramento de Populações. Pp. 217-274 in E. PATERNIANI & G.P. VIEGAS (eds.), Melhoramento e Produção de Milho Vol I. Fundação Cargill. RUSSELL, W.A. 1975. Melhoramento de populações de milho como fontes de linhagens. Funda Ção Cargill. 53p. RUSSELL, W. A. 1975. Obtenção e avaliação de linhagens de milho. Fundação Cargill. 53p. SILVA, W.J. 1975. Genética e melhoramento do milho. Fundação Cargill. 66p.