PRODUTOR QUINTA DO ESTANHO Ao visitar a Quinta do Estanho, ficamos sem saber se a sua presença, confirmada pela lonquínqua extracção, poderia ter reflexos nas características dos vinhos. Mas conhecemos um pouco melhor o trabalho meritório que desenvolvem os seus proprietários, na esteira dos que faziam os seus avós e bisavós. REPORTAGEM MARC BARROS 18 REVISTA NECTAR A Quinta do Estanho espreita sobre encostas agrestes que terminam no rio Pinhão
PRODUTOR Da Quinta dos Corvos espreitamos magníficas paisagens; A adega original, ainda em funcionamento TUDO TERÁ COMEÇADO EM 1757, quando as primeiras demarcações pombalinas incluem os vinhos oriundos das quintas do Estanho e dos Corvos no rol de Vinhos de Feitoria. Aliás, conta-se mesmo (que nestas coisas a tradição oral ainda é importante, à falta de documentação rigorosa que o comprove), que a Quinta dos Corvos era uma das quatro quintas do Douro que tinha o mérito de exportar vinhos sem que estes fossem sujeitos a fiscalização no Entreposto de Gaia, dada a qualidade reconhecida dos seus vinhos. Foi assim que tudo principiou na Quinta do Estanho. Ou seja, começou para os vinhos, pois já em tempos se fazia ali a extracção de estanho, de onde surgiu o nome da quinta e designação sob a qual são conhecidos os vinhos de Jaime Queiroz Cardoso, cujo bisavô, José Maria Queróz, ocupou o importante cargo JAIME QUEIROZ CARDOSO, ANTES DE SE TORNAR O SEGUNDO PRODUTOR/ENGARRAFADOR DO DOURO, EM 1986, juntamente com a Quinta do Infantado, vendia os seus vinhos a granel para a casa Taylor s, tendo mesmo seleccionado os vinhos da Quinta do Estanho para os enviar ao Vaticano, em 1981. de «Pagador», ou tesoureiro, da Real Companhia Velha. Vem desse tempo a propriedade da quinta, que esteve durante um curto período em mãos alheias mas cuja posse o actual proprietário recuperou. Com esta, e ao longo dos anos, foram-se juntando outras propriedades, como a referida Quinta dos Corvos, em 1990, com 25 hectares, ficando a empresa detentora de 42 hectares de terreno, dos quais 26 plantados com vinha. E que vinhas, situadas nas proximidades do rio Pinhão, em Cheires, e quase todas letras A e B para atribuição de benefício e produção de vinho do Porto. Por essa razão Jaime Queiroz Cardoso, antes de se tornar o segundo produtor/engarrafador do Douro, em 1986, juntamente com a Quinta do Infantado, vendia os seus vinhos a granel para a casa Taylor s, tendo mesmo seleccionado os vinhos da Quinta do Estanho para os enviar ao Vaticano, em 1981. Podem afirmar-se, com toda a propriedade, produtores de néctares divinos. NOVIDADES NA A produção de vinhos da Quinta do Estanho ronda as 300 a 350 pipas anuais de vinho (sendo que no Douro a medida da vasilha é de REVISTA NECTAR 19
PRODUTOR Uma dupla de sucesso por trás da Quinta do Estanho - Sara Cardoso e Fernando Cardoso 550 litros), ou seja, entre 165 a 190 mil litros, dos quais cerca de 70% referentes a vinho do Porto. As castas plantadas são, em cerca de 90%, tintas, destacando-se a Tinta Roriz, Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Barroca, Tinto Cão e Sousão, para além de algumas parcelas de castas tradicionais já plantadas pelo bisavô de Jaime Queiroz Cardoso, como revelou o seu filho, Fernando Cardoso, A ENÓLOGA SANDRA SOUSA, (na foto) que pertence à equipa de Anselmo Mendes e está em permanência na Quinta do Estanho, assume essa renovada forma de trabalhar. director de marketing desta empresa de cariz familiar. Por sua vez, entre as castas brancas, que "produzem vinhos de grande fama" - uma vez que a altitude média de Cheires é elevada, acima dos 300 metros, atribuindo frescura aos vinhos -, pontificam o Gouveio (ou Verdelho), Malvazia Fina, Rabigato e Arinto. Já em 2007, uma parte da vinha sofreu já um processo de reconversão, no âmbito do programa Vitis, encontrando-se actualmente a totalidade da vinha mecanizada. Com a entrada de uma nova equipa de enologia, liderada por Anselmo Mendes em Março de 2007, foram introduzidas algumas alterações, que Fernando Cardoso nos confidenciou. Para além do "reputado" nome do enólogo, Fernando Cardoso assume que "é um prazer trabalhar com o eng.º Anselmo Mendes e tem sido muito gratificante para nós". Desde "o tratamento das uvas até ao modo de vinificação foram feitas algumas mu- 20 REVISTA NECTAR
A Quinta dos Corvos é uma recente aquisição da empresa danças" uma delas reside no facto de, pela primeira vez, as uvas não terem ido aos tradicionais lagares de granito, tendo sido todo o trabalho feito em inox. Contudo, refere Fernando Cardoso, "só mais tarde é que se conhecerão os primeiros resultados, com o fruto da vindima de 2007". A enóloga Sandra Sousa, que pertence à equipa de Anselmo Mendes e está em permanência na Quinta do Estanho, assume essa renovada forma de trabalhar. Esta jovem enóloga, galardoada com o prémio Edmundo Sá pelo seu percurso académico, afirmou ser importante a capacidade de produzir "vinhos elegantes e com estrutura". A aposta nos vinhos brancos não foi esquecida, uma vez que a zona é capaz de produzir "boas uvas que confirmam a sua reputação", disse. Por essa razão, será lançado em breve um vinho branco de 2007, que Sandra Sousa estima ser "um pequeno presente para a quinta", tratando-se de um vinho "mais novo, fresco e actual". Quanto aos vinhos do Porto, aquela enóloga afirmou que a equipa que integra e a própria quinta pretende "manter os padrões actuais de qualidade e eventualmente proceder a algumas novidades". Fernando Cardoso remata: "Estou convicto que foi uma grande aposta e que os nossos vinhos crescerão em termos de qualidade". A Quinta do Estanho produz todas as categorias de Vinho do Porto: Portos com indicação de idade
PRODUTOR As cubas de inox são uma aposta da nova equipa de enologia, liderada por Anselmo Mendes A nova adega começa já a ganhar forma A produção de azeite é um complemento da actividade - o depósito das azeitonas em água diminui a produtividade mas aumenta a pureza do azeite 10, 20, 30 e mais de 40 anos, Vintage, LBV, Vintage Character, Ruby Reserve, Tawny, Old White Special e Porto Branco, para além dos vinhos DOC. Neste portefólio só faltam mesmo os Colheita, cujo lançamento no mercado não deverá tardar, assegurou Fernando Cardoso. Para além da vinha, a Quinta do Estanho possui uma área de olival de 5 hectares, capaz de produzir entre 2000 a 3000 litros anuais de azeite de elevado grau de pureza, com teor de acidez inferior a 0,5 graus, o qual acompanha e "complementa da melhor forma os diversos cabazes e ofertas de empresas e clientes habituais", um nicho de mercado importante para a Quinta do Estanho e que representa bons negócios, assegura o director de marketing. NOVA ADEGA CONCLUÍDA EM 2009 Actualmente presente em 22 países, as exportações da Quinta do Estanho representam já cerca de 30% do seu volume de vendas, perspectivando-se, num futuro próximo, que possam ascender aos 50%. Segundo Sara Cardoso, responsável pelo departamento de comércio externo, "queremos e podemos estar presentes em mais países mas, Da nova adega contemplamos a vila de Cheires PARA ALÉM DA VINHA, A QUINTA DO ESTANHO POSSUI UMA ÁREA DE OLIVAL DE 5 HECTARES, capaz de produzir entre 2000 a 3000 litros anuais de azeite de elevado grau de pureza, com teor de acidez inferior a 0,5 graus como empresa familiar que somos, temos sobretudo que cimentar os mercados actuais" mercados como a Sérvia, onde entrou recentemente e onde "é difícil entrar. Não apenas pela concorrência que enfrentamos, sobretudo por parte dos países do Novo Mundo, com bons vinhos e com agressividade comercial, mas também pela necessidade de «educar» esses mercados". Por outro lado, referiu, "avançamos sós para esses países, sem ficar à espera de apoios de ninguém, desbravando o nosso caminho. Mas, eventualmente, participamos em algumas iniciativas e eventos com o IVDP, mas não é isso que nos abre novas portas". O comportamento desses mercados é muito variável, mas uma coisa é certa: "As categorias especiais continuam a ter melhor aceitação no exterior, não só por uma questão de preço, cada vez menos importante, mas por uma questão de cultura e conhecimento". Porém, em Portugal "as pessoas começam a interessarse pelos vinhos e, numa faixa etária entre os 35 e 45 anos, procuram estar informados e conhecer novos vinhos". Ou seja, trata-se de um segmento que bebe menos vinho mas consome vinhos de melhor qualidade. Quanto aos vinhos DOC Douro, a Quinta do Estanho assume ter muito potencial de crescimento, "na ordem dos 10 a 20%". Segundo Sara Cardoso, "temos os nossos vinhos quase esgotados, pelo que existe capacidade para crescer mas sempre mantendo a qualidade não estamos interessados em crescer a qualquer custo". 22 REVISTA NECTAR
PRODUTOR Um aspecto que os responsáveis da Quinta do Estanho apontam é o facto de os seus vinhos, nas mais diversas categorias, já terem arrecadado 105 prémios nacionais e internacionais desde o primeiro concurso em 1998. "A qualidade dos nossos vinhos nunca esteve em causa", adianta Fernando Cardoso, "mas estes prémios são importantes no sentido de conferir maior visibilidade à Quinta do Estanho nas prateleiras das garrafeiras". Para além de ser uma demonstração da qualidade dos vinhos, é inegavelmente um importante argumento comercial. O crescimento da empresa faz-se não apenas pelo lado da produção, pela renovada equipa técnica e pela procura da melhoria na qualidade dos seus vinhos, mas também pela vertente física. A Quinta do Estanho tem vindo a desenvolver um importante esforço financeiro na construção de uma nova adega, cuja necessidade era imperiosa. "Estamos no mercado desde 1986, fizémos desde então 10 vintages e temos em stock oito deles; em 2003 verificámos termos chegado a um ponto limite, não só no armazenamento mas também na própria vinificação", explicou Fernando Cardoso. Desta forma, a Quinta do Estanho arrancou para este projecto, estando já concluídas as zonas de vinificação e laboratório e adoptado uma nova linha de engarrafamento. São mais de 1000 metros quadrados de área nova, num custo total de 750 mil euros, "com capacidade para estagiar mais de 1000 pipas, para além das cubas de inox". Por concluir estão os acabamentos exteriores e a parte administrativa, mantendo-se os actuais escritórios em funcionamento. Porém, já é pos- UM ASPECTO QUE OS RESPONSÁVEIS DA APONTAM é o facto de os seus vinhos, nas mais diversas categorias, já terem arrecadado 105 prémios nacionais e internacionais desde o primeiro concurso em 1998. sível espreitar as belíssimas vistas sobre Cheires e o vale do Rio Pinhão. Concluída em 2009, foinos prometida, por ocasião da inaguração oficial da adega, uma prova vertical dos vinhos da Quinta do Estanho. Assim nos permitam os caminhos do IP4, a que os jornalistas errantes estão sujeitos. Vocês sabem do que estou a falar... Um verdeiro néctar dos deuses - um vinho generoso de 1911 demonstra a longevidade dos bons Vinhos do Porto O ESTRANHO CASO DO SELO DA REPÚBLICA DE S. MARINO A 24 DE AGOSTO DE 2007, "recebemos felicitações do IVDP por o nosso Vintage 1996 ter sido escolhido para representar Portugal" numa colecção filatélica de oito selos da República de S. Marino, dedicada aos melhores vinhos da Europa, onde marca presença ao lado de vinhos oriundos de outros países e regiões como Tokaj ou Champagne. Mas como se terá passado tudo isto? Sara Cardoso não sabe, para já explicar. É um mistério intrincado, digno de um romance policial. "Como não participamos em qualquer concurso, não sabemos como aconteceu". Uma coisa é certa: "Foi através da nossa participação na Vinitaly que foi feita esta selecção, já que somos presença assídua no certame e os nossos vinhos são fáceis de encontrar naquele país". Os reflexos já se fizeram sentir, sobretudo em termos comerciais. Mas mais novidades estão prometidas para Março próximo, quando for oficialmente apresentado o resultado deste concurso. E então finalmente conhecermos o desenlace do estranho caso do selo de S. Marino.
PRODUTOR O CRESCIMENTO DA EMPRESA faz-se não apenas pelo lado da produção, pela renovada equipa técnica e pela procura da melhoria na qualidade dos seus vinhos, mas também pela vertente física. A Quinta do Estanho tem vindo a desenvolver um importante esforço financeiro na construção de uma nova adega, cuja necessidade era imperiosa. 92 VINHO DO PORTO TINTO 20 ANOS ALOIRADO DOCE PORTO DOC Cor topázio, tonalidades alaranjadas, nariz franco, concentrado e generoso, frutado, exprime aromas de frutos secos, passas, figos, boca ampla, volumosa, enche a boca, macio, aveludado, boa reunião entre o álcool/açúcar/matéria, o final de boca prolonga-se com frescura e juventude. PORTO 35,10 92 VINHO DO PORTO TINTO VINTAGE 1996 PORTO DOC Grande riqueza de cor, granada intensa, tonalidades violáceas em evolução, nariz franco e elegante, frutado com aromas de frutos maduros, boca ampla, encorpado, assente em taninos firmes, final de boca com carácter, macio, frutado, saboroso e persistente. PORTO 46,00 VINHO TINTO 1999 TINTA RORIZ DOURO DOC Vinho monovarietal da casta Tinta Roriz, com 14,0% vol. álcool, apresenta-se com cor granada, laivos violáceos acastanhados, brilhante, aromas frutados, com notas de evolução, boca ampla, estruturado, taninos integrados, a evolução encontra-se na boca, persistente. Fatigado, a beber. VINHO DO PORTO TINTO + 40 ANOS ALOIRADO DOCE PORTO DOC Cor âmbar/topázio, reflexos alaranjados, brilhante, nariz expressivo, aromas frutados, com boa expressão aromática, notas de sobrematuração, passas, figos secos, rico na boca, macio, aveludado, equilibrado, final de boca personalizado, harmonioso, frutado, saboroso e persisitente. 86 DOURO 12,00 94 PORTO 130,00 VINHO DO PORTO TINTO VINTAGE 2000 PORTO DOC Rico de cor, retinto, reflexos violáceos em evolução, nariz franco, frutado, generoso com notas de fruta bem madura, boca ampla, encorpado, com volume, taninos bem integrados, final de boca frutado, harmonioso, com carácter e persistente. VINHO DO PORTO BRANCO DOCE SPECIAL WHITE RESERVE PORTO DOC Complexo na cor, cor dourada com tonalidades alaranjadas/âmbar, aspecto limpído e brilhante, nariz franco, aromas frutados, concentrados, sobrematuração, fruta bem madura, passas, na boca é encorpado, robusto, cheio, harmonioso, doce, macio, persistente e longo. 92 BEBER OU PONTOS GUARDAR PORTO 27,00 87 PORTO 12,00 CLASSIFICAÇÕES 75-81 CORRECTO 82-87 BOM 88-94 MUITO BOM 95-100 EXCELENTE 89-100 SELECCIONADO MELHORES DO ANO BEBER BEBER OU GUARDAR 24 REVISTA NECTAR