4.3. Norte: Claustro da Sé do Porto



Documentos relacionados
4.4. Algarve: Edifícios da Correnteza, Fortaleza de Sagres 1

CONSOLIDAÇÃO ESTRUTURAL DO CORO ALTO DA IGREJA DO PÓPULO EM BRAGA

Caracterização de alterações cromáticas sobre substrato pétreo: medição de parâmetros de cor

Patologia em Revestimentos de Fachada

CAPÍTULO XX APLICAÇÃO DE TINTAS E VERNIZES SOBRE MADEIRAS

PROPOSTA DE REFORMULAÇÃO DA DISPOSIÇÃO DOS TÊXTEIS NA ESTRUTURA 1

Parede de Garrafa Pet

Dispositivos Médicos: Requisitos para a esterilização por óxido de etileno

Relógios de Ponto, Controle de Acessos e Gestão de Rondas. Tecnologia de Proximidade (sem contacto)

LISTA DE EXERCÍCIOS COMPLEMENTARES 2ª SÉRIE

TIPOS DE SUJIDADES O QUE É SUJIDADE?

Barómetro Regional da Qualidade Avaliação da Satisfação dos Utentes dos Serviços de Saúde

As forças atrativas entre duas moléculas são significativas até uma distância de separação d, que chamamos de alcance molecular.

Universidade de Aveiro Departamento de Física. Dinâmica do Clima. Humidade Específica

(a) (b) c) Fig.5: As fotos ilustram diferentes intensidades da coloração rosa presente nas paredes da Igreja.

A ALTERAÇÃO DAS ROCHAS QUE COMPÕEM OS MORROS E SERRAS DA REGIÃO OCEÂNICA ARTIGO 5. Pelo Geólogo Josué Barroso

4.2 Modelação da estrutura interna

NOTA DE APRESENTAÇÃO

I - Relógio de parede

Como proceder à renovação ou à confirmação de dados estimados

Problemas Comuns. Eflorescência

Decantação sólido - líquido

21/10/2011 V Congresso Florestal Latinoamericano

CONTROLO DE EROSÃO E AMBIENTE

Manuseamento e disposição das placas

Introdução: Mas, todas estas lentes podem ser na verdade convergentes ou divergentes, dependendo do que acontece com a luz quando esta passa por ela.

Guia Técnico de Pintura

Guia de Estudo Folha de Cálculo Microsoft Excel

Como é que a Poluição Luminosa Afeta as Estrelas

C5. Formação e evolução estelar

Avanço Autor: Dan Troyka, Rastros Autor: Bill Taylor, Material Um tabuleiro quadrado 7 por peças brancas e 14 peças negras.

Distribuição e Venda de Produtos Fitofarmacêuticos

Disciplina de Didáctica da Química I

APLICAÇÃO DE ELASTRON EM CONCRETO 1,5

CONSERVAÇÃO DE REVESTIMENTOS HISTÓRICOS

Descobertas do electromagnetismo e a comunicação

Iluminação do Espécimen

CONSERVAÇÃO DE REVESTIMENTOS HISTÓRICOS

Nosso objetivo será mostrar como obter informações qualitativas sobre a refração da luz em um sistema óptico cilíndrico.

8º Campeonato Nacional de Jogos Matemáticos

O que são os Ensaios Não Destrutivos

EXERCÍCIOS DE CIÊNCIAS (6 ANO)

Departamento de Engenharia Civil, Materiais de Construção I 3º Ano 1º Relatório INDÍCE

TEMA: Processo de multas Configurações, workflow e funcionalidades

Índice. Como aceder ao serviço de Certificação PME? Como efectuar uma operação de renovação da certificação?

VALOR DOS DIREITOS DE PROPRIEDADE INTELECTUAL NO SECTOR CULTURAL E CRIATIVO

FORTALECENDO SABERES CONTEÚDO E HABILIDADES APRENDER A APRENDER DINÂMICA LOCAL INTERATIVA CIÊNCIAS. Conteúdo: - Ótica

Comunicação documentos de transporte AT via Webservice Singest Sistema Integrado de Gestão Cambragest Serviços de Gestão e Software

Estrutura da Terra Contributos para o seu conhecimento

CENTRO DE VULCANOLOGIA E AVALIAÇÃO DE RISCOS GEOLÓGICOS

Medição da resistividade do solo

Astor João Schönell Júnior

Importação de Dados no Sphinx

Sistema Sol-Terra-Lua

EXERCÍCIOS EXTRAS LENTES

Reabilitação do Prédio Situado na Rua do Conde do Redondo. Reabilitação arquitectónica II_docente_José Aguiar

yarnmaster Classificação de fibras estranhas

Fotografia: conceitos e técnicas

metro Anemómetro Um dos instrumentos utilizados na medição da velocidade do vento à superfície são os anemómetros metros de conchas (um tipo

Levantamento do estado de conservação da pintura Retrato de Marcel Duchamp de Albuquerque Mendes

1) Como acessar a aplicação

Rastros Autor: Bill Taylor, 1992

INQUÉRITO ÀS ENTIDADES GESTORAS NORMA ISO OBJECTIVO DO INQUÉRITO 2 CONSTITUIÇÃO DO INQUÉRITO RELATÓRIO FINAL

Detectores de incêndio Apollo

Areias e Ambientes Sedimentares

FUNDAMENTOS DE ESCOLA NÁUTICA FABIO REIS METEOROLOGIA

CAPÍTULO 03 ARQUITETURA GÓTICA

Seno de 30 é um meio?

M V O I V M I E M N E T N O T O D E D E C A C R A G R A G A E E D E D E N A N V A I V O I S O

Características das Imagens obtidas com o Microscópio Óptico Composto (M.O.C.)

SÉRIE DE CORRER B055 (RPT) EXTRUSAL

Tânia observa um lápis com o auxílio de uma lente, como representado nesta figura:

São mais de 80 os serviços que garantem o correcto acondicionamento e encaminhamento do papel/cartão para os respectivos pontos de recolha.

O eclipse solar e as imagens do Sol observadas no chão ou numa parede

Conservação da Pedra

Manual de preenchimento do Formulário de Comunicação de Dados ao abrigo do Artigo 4.º do Decreto-Lei n.º 56/2011. Versão 3 ( )

Quadro 8 - Síntese das cerâmicas reconstituídas graficamente do Forte de São João Baptista, Santa Maria.

Dados e análise relativos à história da construção do Antigo Hotel Estoril

PROPRIEDADES FÍSICAS DOS SOLOS.

Guia para a declaração de despesas no Programa SUDOE

Teorema do Limite Central e Intervalo de Confiança

Capítulo 7 Medidas de dispersão

QUAL O NÚMERO DE VEÍCULOS QUE CIRCULA EM SÃO PAULO?

Erosão e Voçorocas. Curso: Arquitetura e Urbanismo Disciplina: Estudos Ambientais Professor: João Paulo Nardin Tavares

Dicas Qualyvinil PROCESSOS DE PINTURA

Prof. Eduardo Loureiro, DSc.

Utilização do SOLVER do EXCEL

GUIA PARA O PREENCHIMENTO DOS FORMULÁRIOS ENTIDADE GESTORA ERP PORTUGAL

PARA QUE SERVEM OS SULCOS DOS PNEUS?

Proc. IPHAN nº / Portaria IPHAN nº 15, de 05 de maio de 2011

MANUAL DE UTILIZAÇÃO, LIMPEZA E MANUTENÇÃO SISTEMAS

Plataforma de Benefícios Públicos Acesso externo

Procedimento de obra para recebimento de bloco cerâmico Estrutural

Exposição Exploratorium (piso 1)

A IMPORTÂNCIA DA VERIFICAÇÃO DAS SONDAS NA SECAGEM INDUSTRIAL DE MADEIRA

localizadas em ambientes agressivos Casos de estudo - Pontes localizadas em ambiente marítimo

NOVAS FUNCIONALIDADES DO SICONV ORIENTAÇÕES PARA O USUÁRIO

Transcrição:

4.3. Norte: Claustro da Sé do Porto A visita ao claustro da Sé do Porto realizou-se no passado dia 30 de Abril de 2004. O contexto histórico deste edifício não será aqui descrito dado que não se encontra no âmbito deste trabalho. As paredes exteriores do claustro são constituídas por blocos de pedra granítica (cuja proveniência não foi estudada) e as juntas são preenchidas com cimento 1. Constatou-se o que durante os primeiros contactos tinha sido apresentado pela Arq.ª Maria Ângela Melo: em termos de cor, o presente caso de estudo afasta-se da referência tida por Catarina Alarcão; de qualquer modo, foi inserido neste relatório com vista a encontrar outros pontos de contacto com o estudo da Igreja de S. João de Almedina (MNMC/Coimbra). A partir das informações obtidas junto da Arq.ª Maria Ângela Melo, a alteração cromática de tonalidade cor-de-laranja fez-se notar com as primeiras chuvas de Outono/Inverno do ano 2003, na fachada norte, sobre a terceira grande arcada ogival (a contar da esquerda para a direita), mais propriamente, do lado esquerdo, na área entre a abertura circular central e o topo do primeiro arco ogival menor; observou-se também sobre o capitel e a coluna centrais e entre esta última coluna e a mais exterior. (Figuras 15, 16 e 17) anexados ao contraforte. Figura 15. Aspecto geral da alteração cromática presente na fachada norte do Claustro da Sé do Porto. Observa-se parte da terceira grande arcada ogival, a área entre a abertura circular central e o topo do primeiro arco ogival menor e os capitéis e colunas

1 Em geral, este tipo de preenchimento de juntas remete-nos para um conjunto de intervenções realizadas na primeira metade do século XX. Figura 16. A alteração de tonalidade cor-de-laranja situada entre a abertura circular central e o topo do primeiro arco ogival menor. Figura 17. A alteração cromática presente na região

entre a coluna central e a mais exterior. Neste momento, já se verifica o aparecimento da coloração laranja, igualmente na fachada norte, sobre a segunda grande arcada ogival (a contar da esquerda para a direita), do lado direito, na área entre a abertura circular central e o topo do terceiro arco ogival menor, no cruzamento dos arcos e nas colunas mais exteriores. (Figuras 18 e 19) Figura 18. Na fachada norte, sobre a segunda grande arcada ogival, à direita, assiste-se ao surgimento da alteração cromática.

Figura 19. Pormenor da alteração, sobre o cruzamento dos arcos ogivais. Num dos blocos de pedra da fachada este observou-se uma mancha alaranjada, circular, cuja tonalidade não se assemelha às variações cromáticas características do granito, o que leva a colocar a hipótese de se tratar da alteração cromática observada na fachada norte. (Figura 20) Figura 20. A mancha circular que se encontra junto ao limite superior do bloco de pedra assemelha-se às observadas na fachada norte

Até ao momento, não tinham sido tomadas medidas de controlo ambiental (por exemplo, medições de HR e T), não foram recolhidas amostras representativas desta alteração, da pedra ou cimento (e consequente análise laboratorial) nem foi aplicada nenhuma substância com vista à sua remoção. 4.3.1. Formas de decaimento associadas A área da parede em análise apresenta depósitos superficiais (poeiras, sujidades, etc. aos quais poderão estar associados microorganismos), filmes negros, pequenas fissuras, concreções, juntas abertas, preenchimento de juntas com cimento, lacunas e vegetação de intensidade média. 4.3.2. Descrição da alteração cromática Trata-se de uma alteração que se está a desenvolver de forma simétrica em relação ao contraforte que separa a segunda e terceira grandes arcadas góticas; surge a partir dos 80 cm do chão até ao limite interior da terceira arcada. Observa-se uma modificação da cor original do substrato para cor-de-laranja sob a forma de uma mancha homogénea irregular, aparentemente constituída por pequenas partículas sólidas (tipo cristais de açúcar ), muito finas e coesas, que se encontram nas reentrâncias características da massa granítica (logo, não contribuem para o aumento de volume da pedra, não forma crosta). 4.3.3. Teste do cotonete Esta película apresenta adesão mediana ao substrato; quando em contacto com um cotonete, verifica-se que vêm agarradas partículas cor-de-laranja, mas não o suficiente para deixar ver a coloração original da pedra. 4.3.4. Parâmetros colorimétricos das áreas de amostragem

As medições dos parâmetros colorimétricos foram realizadas na área cor-de-laranja que se situa entre a coluna mais exterior e a interior imediatamente a seguir, a qual se designou por P.1. Escolheu-se a coluna mais exterior como a área em que não se observou alteração cromática, a olho nu, a qual se designou por P.0. (Figura 21) Figura 21. A área considerada alterada, P.1, entre as duas colunas; a coluna imediatamente a seguir, à esquerda considerada como a área não alterada, P.0.. No quadro 6 apresentam-se os valores da média, desvio padrão, máximo e mínimo dos parâmetros colorimétricos L*, a* e b* para as áreas de amostragem P.0., P.1. P.0. P.1. L* a* b* L* a* b* Média 58.57 0.71 7.24 58.69 10.42 15.04 D.Padrão 6.49 0.26 0.52 4.76 4.44 3.13 Mínimo 46.23 0.31 6.64 53.48 5.3 11.17 Máximo 65.52 0.98 8.13 64.32 17.25 18.57 Quadro 6. A Média, Desvio-Padrão (D.Padrão), Mínimo e Máximo dos parâmetros L*, a* e b* das áreas de amostragem P.0. e P.1.. No quadro 7 apresentam-se os valores de ΔL*, Δa* e Δb* calculados a partir dos valores médios indicados no quadro 6 que permitirão calcular o valor ΔE* P.1. - P.0. ΔL* 0.12

Δa* 9.71 Δb* 7.8 ΔE* 12.46 Quadro 7. Os valores de ΔL*, Δa*, Δb* e ΔE*. Independentemente deste caso especifico apresentar uma cor diferente dos outros, na observação dos quadros 6 e 7 verifica-se que as medições efectuadas vêm de encontro ao revelado pela inspecção visual: existe variação acentuada de cor em ambas as situações P.0. e P.1., em que ΔE* é aproximadamente 12,5. A alteração cromática promove um ligeiro aumento de luminosidade, isto é, a região alterada tornou-se mais luminosa (a tonalidade laranja é mais clara que a cinzenta característica do granito); assiste-se ao acentuado aumento de ambos os componentes vermelho-verde e amareloazul, relativamente ao obtido na área considerada não alterada, o que significa que há ganho de vermelho e amarelo na formação da cor de P.1.. Esta forma de decaimento do material pétreo apresenta duas particularidades em relação aos outros casos observados: a alteração cromática é cor-de-laranja e desenvolve-se acima dos 80 cm do solo. Esta última afasta a hipótese de se tratar de contaminações do solo que possam ascender por capilaridade. Sendo assim, será algo que ocorre por infiltração ou escorrência, o que leva a considerar tratar-se de alguma substância constituinte do enchimento do contraforte e/ou abobadas (por exemplo, tijolo) que se encontre em solução e migre para o exterior. Para que este fenómeno ocorresse, e considerando que se comportaria como os sais, teria de estar disponível o veiculo água no interior da pedra, elevada temperatura e baixa humidade relativa, no exterior (dado que é a elevada temperatura exterior que promove a migração da água do interior para o exterior da pedra e consequente arrasto de partículas e cristalização de sais). Mas esta alteração foi detectada num período de elevada humidade relativa e baixa temperatura com as agravantes de não ser removida pela água da chuva, da tonalidade laranja se intensificar quando em contacto com esta, se desvanecer em período seco e estar a alastrar pela superfície pétrea. (Figuras 22 e 23)

É possível que se trate de colonização biológica, facto que requer inspecções periódicas de modo a controlar o seu desenvolvimento, recolha de amostras e análise laboratorial. Figura 22. Aspecto geral da coloração laranja sobre a terceira grande arcada ogival, em período de chuva.

Figura 23. Pormenor da alteração cromática, em período de chuva. Nota: As Figuras 22 e 23 foram gentilmente cedidas pelo IPPAR Direcção Regional do Porto.