POBREZA INFANTIL E DISPARIDADES EM MOÇAMBIQUE 2010 Nações Unidas Moçambique
A reprodução de qualquer parte desta publicação não carece de autorização, excepto para fins comerciais. Exige-se, no entanto, a identicação da fonte. UNICEF, Maputo, Moçambique, 2011
AGRADECIMENTOS O estudo Pobreza Infantil e Disparidades em Moçambique 2010 é uma iniciativa conjunta das Nações Unidas em Moçambique. Longo foi o processo de pesquisa e redacção para a elaboração do relatório, e muitas foram as pessoas que nele participaram. Embora demasiadas para mencionarmos cada uma delas em particular, queremos manifestar a nossa gratidão pelo seu forte empenho e dedicação para com as crianças de Moçambique. À equipe da Secção de Política Social, Planificação, Informação e Monitoria (SPPIM) da Representação do UNICEF Moçambique coube a principal responsabilidade de coordenação e redacção do relatório. Realizou a pesquisa Brendan Kelly, em estreita colaboração com as secções da Representação do UNICEF Moçambique, que preparou os documentos preliminares de base para os capítulos temáticos. O relatório beneficiou enormemente das generosas contribuições e orientação intelectual de um Comité Director multissectorial composto pelo Governo (MPD, MISAU, MINED, MMAS, MINJUS, INE e CNCS), a Sociedade Civil (Fórum Mulher, FDC, Aliança Save the Children, Rede da Criança e Grupo 20); Organizações Bilaterais (DFID, Banco Mundial e Embaixada da Suíça) e as Nações Unidas (ONUSIDA e UNICEF). Pelos seus proveitosos comentários e contributos, agradecemos especialmente a Carlo Azzari (Banco Mundial), Gabriel Dava (PNUD), Baiba Gaile (PNUD), Isabel Kreisler (PNUD), Pierre Martel, Wim Ulens (UE), Bridget Walker (Ajuda Irlandesa), Karin Metell (Embaixada da Suécia), António Nucifora (Banco Mundial) e Zainul Sajan Virgi (Universidade McGill). Pela sua liderança e visão no desenvolvimento de todo o relatório, Leila Gharagozloo-Pakkala, que desempenhou a função de Representante do UNICEF Moçambique em fases cruciais da preparação deste estudo, merece também o nosso agradecimento especial.
Prefácio O estudo Pobreza Infantil e Disparidades em Moçambique 2010 constitui uma oportunidade para se inventariarem os progressos alcançados na materialização dos direitos dos dez milhões de crianças moçambicanas desde o estudo A Pobreza na Infância em Moçambique: Uma Análise da Situação e das Tendências e os imensos desafios que persistem para os próximos anos. O Governo de Moçambique demonstrou o seu empenho na realização dos direitos das crianças moçambicanas ao ratificar, em 1994, a Convenção sobre os Direitos da Criança. Os direitos e necessidades das crianças são distintos dos direitos e necessidades dos adultos uma vez que enfrentar pobreza e privação quando se é ainda uma criança afecta, ao longo de toda a vida, a saúde, a produtividade e a capacidade de criar uma família e viver uma vida feliz. Sendo assim, é preciso que se invista hoje para garantir uma próxima geração de moçambicanos produtiva, saudável e realizada. Nos últimos seis anos a pobreza estagnou em Moçambique. Mais de metade da população, o que inclui mais crianças do que adultos, continua a viver com menos de meio dólar americano por dia. Um surpreendente número de crianças têm baixa altura para a idade sofrem de desnutrição crónica, cujos efeitos são irreversíveis. O número de crianças com acesso a água potável tem vindo a diminuir, sendo ainda inferior o de crianças com acesso a saneamento básico. A não satisfação dessas necessidades básicas das crianças torna-as mais fáceis vítimas das quatro principais causas de mortalidade infantil: malária, problemas neonatais, infecções respiratórias agudas e SIDA. Dada a grande desigualdade com que deparam no acesso a serviços já de si escassos, as meninas, os órfãos, as crianças portadoras de deficiência e a viver em áreas rurais e as famílias mais pobres encontramse em situação de vulnerabilidade ainda maior. Não quer isto dizer que nos últimos anos não se tenham registado progressos. A pobreza absoluta, medida pela privação de necessidades e serviços básicos, diminuiu significativamente em Moçambique, com mais crianças tendo acesso a serviços básicos como a saúde e a educação, como resultado directo do empenho do Governo nesse domínio. Nunca é de mais referir a importância da educação, pois uma mãe instruída é um factor determinante na saúde e bem-estar dos seus filhos. Eliminar a disparidade geográfica é igualmente crucial, pois as crianças das províncias do centro e do norte, como a Zambézia, estão a ser deixadas para trás, com mais baixas dotações orçamentais e a correspondente inacessibilidade aos serviços de que tanto necessitam para se equipararem às suas congéneres do sul. Restam-nos apenas quatro anos para 2015, a meta dos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM). Não obstante ser cada vez mais evidente a improbabilidade de Moçambique alcançar todos esses objectivos, os próximos quatro anos são uma oportunidade para se ampliarem as intervenções visando reduzir o fardo resultante da pobreza, da fome, da mortalidade infantil, da desigualdade de género e das doenças que muitas crianças continuam a enfrentar. Cada meta dos ODM que vier a ser alcançada dever-se-á a esforços concertados e colaboração entre o Governo de Moçambique, a família das NU, a comunidade de doadores, a sociedade civil e o povo moçambicano. Os últimos anos têm demonstrado que se pode investir para melhorar a vida das crianças em Moçambique. Chegou a hora de se redobrarem esses esforços para que cada criança e cada moçambicano possam ansiar por uma vida longa, saudável, feliz e gratificante. Coordenadora Residente do Sistema das Nações Unidas, Jennifer Topping
Índice Lista de figuras... XVII Lista de Tabelas... XVII Siglas... XIX Mapa de Moçambique... XXII Sumário Executivo... XXIII CAPÍTULO 1: POBREZA EM MOÇAMBIQUE 1. Introdução... 3 2. Medindo a pobreza... 4 2.1. Pobreza baseada no consumo... 4 2.2. Medidas de pobreza baseada em privações... 9 2.3. Comparação entre a medida de pobreza baseada em privações e a medida baseada no consumo... 14 3. Análise por privação... 15 3.1. Privação severa de educação nas crianças... 15 3.2. Privação severa de nutrição nas crianças... 16 3.3. Privação severa de água nas crianças... 17 3.4. Privação severa de saneamento nas crianças... 18 3.5. Privação severa de saúde nas crianças... 19 3.6. Privação severa de abrigo nas crianças... 20 3.7. Privação severa de informação nas crianças... 20 4. Conclusões... 21 Referências... 23 CAPÍTULO 2: O CONTEXTO DE DESENVOLVIMENTO 1. Introdução... 27 2. Transição para a paz, democracia e economia de mercado... 28 2.1. Tendências demográficas... 29 2.2. Crescimento económico e estabilidade macroeconómica... 29 2.3. Objectivois de Desenvolvimento do Milénio... 30 2.4. O processo de descentralização em Moçambique... 33 3. Análise das políticas e institucional... 35 3.1. Políticas e mecanismos de planificação... 35 3.2. Monitorização e avaliação... 37 3.3. Quadro legal para apoiar a realização dos direitos da criança... 39 VII
4. Ajuda externa ao desenvolvimento... 40 4.1. Coordenação da assistência internacional ao desenvolvimento... 40 4.2. Análise das implicações para as crianças... 41 5. Conclusões... 43 Referências... 45 CAPÍTULO 3: SOBREVIVÊNCIA E DESENVOLVIMENTO INFANTIL 1. Introdução... 49 2. Saúde e nutrição... 51 2.1. Sobrevivência infantil... 51 2.2. Nutrição infantil... 55 2.3. Sobrevivência, saúde e nutrição materna... 67 2.4. Doenças da infância... 73 2.5. Malária... 73 2.6. Infecções respiratórias agudas... 76 2.7. Doenças diarreicas... 76 2.8. Cólera... 78 2.9. Doenças preveníveis por vacinação e imunização... 78 2.10. HIV e SIDA... 81 2.11. Financiamento e alocação orçamental ao sector da saúde... 81 3. Água e saneamento... 85 3.1. Quadro Institucional... 85 3.2. Programa Nacional de Abastecimento de Água e Saneamento Rural... 87 3.3. Abastecimento de água... 87 3.4. Saneamento... 91 3.5. Sustentabilidade das infra-estruturas de ASH... 93 3.6. Água e saneamento nas escolas... 93 3.7. Financiamento do sector e dotações orçamentais... 97 4. Conclusões... 99 Referências... 101 VIII
CAPÍTULO 4: A EDUCAÇÃO E O DIREITO DAS CRIANÇAS AO DESENVOLVIMENTO 1. Introdução... 109 2. A actual situação e recentes tendências no sector da educação... 110 2.1 O sistema de educação em Moçambique... 110 2.2. Crianças na escola... 111 2.3.Crianças fora da escola... 112 2.4. Atrasos no início da escolarização... 113 2.5. Conclusão do ensino primário e transição para o ensino secundário... 114 2.6. Progressão pelas classes... 115 2.7. Equidade na Educação... 116 2.8. Alfabetização... 118 2.9. Ensino superior... 118 3. Barreiras à participação na educação... 119 3.1. Custos directos com a educação... 119 3.2. Custos de oportunidade para as comunidades... 119 3.3. Impacto de tradições e da cultura no direito das crianças à educação... 119 3.4. Impacto da violência e do abuso nas escolas... 120 3.5. Qualidade de ensino... 120 3.6. Infra-estruturas escolares... 123 3.7. Disponibilidade de professores... 124 3.8. Formação pré-docência e formação contínua de professores... 125 3.9. Gestão escolar... 127 3.10. Falta de enfoque em saúde escolar... 127 3.11. Impacto da língua nos resultados educacionais... 128 4. Outras questões no sector da educação... 129 4.1. Estratégia de habilidades para a vida visando combater a SIDA... 129 4.2. Participação das crianças... 129 4.3. Educação para crianças com necessidades especiais... 130 4.4. Financiamento e alocação orçamental do sector da educação... 130 4.6. Programa Apoio Directo às Escolas... 132 5. Conclusões... 133 Referências... 135 IX
CAPÍTULO 5: PROTECÇÃO DA CRIANÇA 1. Introdução... 141 2. Reforma legislativa e das políticas... 143 3. Violência, abuso e exploração... 146 3.1. Violência e abuso sexual nas escolas... 146 3.2. A violência doméstica... 148 3.3. Exploração e abuso sexual comercial... 150 3.4. Tráfico de crianças e migração... 150 3.5. Trabalho infantil... 151 3.6. Casamento infantil... 154 4. As crianças e o sector da justiça... 156 4.1. Acesso das crianças a propriedade e herança... 157 4.2. Registo de nascimento... 158 4.3. Crianças portadoras de deficiência... 160 4.4. Mecanismos de cuidados alternativos... 160 4.5. Crianças órfãs e vulneráveis e outras crianças marginalizadas... 162 4.6. Protecção Social Básica... 164 4.7. Atestados de Pobreza... 166 4.8. Análise de capacidade... 166 4.9. Parcerias da sociedade civil... 169 4.10. Financiamento do sector e dotações orçamentais... 169 5. Conclusões... 171 Referências... 173 CAPÍTULO 6: QUESTÕES TRANSVERSAIS 1. Introdução... 179 2. Género... 180 2.1. Aspectos de género da pobreza em Moçambique... 181 2.2. Desenvolvimento ajustado ao género e empoderamento com base em género... 182 2.3. Disparidades de género... 184 2.4. Questões de género na educação... 184 2.5. Violência, abuso e exploração... 185 2.6. Sistemas de Linhagem... 186 2.7. HIV e género... 186 2.8. Conclusões... 188 X
3. Disparidades geográficas... 189 3.1. Disparidades nas dotações orçamentais... 191 3.2. Disparidades na saúde... 192 3.3. Disparidades no acesso à educação... 194 3.4. Disparidades na protecção da criança... 196 3.5. Conclusões... 197 4. HIV e SIDA... 199 4.1. Perfil da epidemia do HIV em Moçambique... 199 4.2. Acções prioritárias em prol das crianças no âmbito do HIV e da SIDA... 203 4.3. P1 Prevenção primária... 204 4.4. P2 Prevenção da transmissão vertical do HIV... 206 4.5. P3 SIDA Pediátrica... 212 4.6. P4 Proteger as crianças órfãs e vulneráveis afectadas pela SIDA... 215 4.7. Nutrição e HIV... 215 4.8. Conclusões... 216 5. Questões ambientais e mudança climática... 217 5.1. Questões ambientais em Moçambique... 217 5.2. O desenvolvimento sustentável em Moçambique... 218 5.3. O impacto da degradação ambiental e das situações de emergência nas crianças em Moçambique... 219 5.4. O contexto institucional... 225 5.5. Conclusões... 225 6. Comunicação para o Desenvolvimento... 227 6.1. Desenvolvimento dos órgãos de comunicação social em Moçambique... 227 6.2. O papel de mudança dos media: comunicação para o desenvolvimento e mobilização da comunidade... 229 6.3. Iniciativas promissoras nos media moçambicanos... 229 6.4. Redes e parcerias amigas da criança... 230 6.5. Privação de informação... 231 6.6. Conclusões... 231 Referências... 233 BIBLIOGRAFIA... 243 XI
Lista de Figuras Figura 1.1: Percentagem de crianças com duas ou mais privações severas, 2003 e 2008... 12 Figura 1.2: Percentagem de crianças que sofrem privações, 2003 e 2008... 13 Figura 1.3: Figura 1.4: Percentagem de crianças com duas ou mais privações severas por província, 2003 e 2008... 13 Pobreza baseada em privações comparada com pobreza baseada no consumo nas crianças, 2008, percentagem... 14 Figura 1.5: Níveis de privação severa de educação por província, 2003 e 2008... 15 Figura 1.6: Privação nutricional severa nas crianças, por província, 2003 e 2008... 16 Figura 1.7: Privação severa de água por quintil de riqueza, 2008... 18 Figura 1.8: Privação severa de saneamento nas crianças, por província, 2008... 19 Figura 1.9: Níveis de privação severa de saúde por província, 2003 e 2008... 19 Figura 1.10: Privação severa de abrigo por quintil de riqueza, 2008... 20 Figura 2.1: Instrumentos de Planificação em Moçambique... 37 Figura 3.1: Taxas de mortalidade em Moçambique por 1.000 nados vivos, de 2003 e 2008 (média dos cinco anos precedentes ao inquérito)... 51 Figura 3.2: Figura 3.3: Figura 3.4: Taxas de mortalidade infantil por 1.000 nados vivos em Moçambique, de 2003 e 2008 (média dos cinco anos que antecederam a pesquisa)... 52 Parcela de agregados familiares situados a menos de 45 minutos a pé de uma unidade de cuidados de saúde primários, 2002/03 e 2008/09 (percentagem)... 53 Probabilidade de sobrevivência das crianças (0-17 anos) nos últimos 12 meses, por nível de escolaridade do chefe de família, 2008... 54 Figura 3.5: Causas da mortalidade infantil em Moçambique, 2008... 54 Figura 3.6: Taxas de desnutrição crónica por país, 2009... 56 Figura 3.7: Figura 3.8: Figura 3.9: Taxas de desnutrição (moderada) em crianças menores de cinco anos, 2003 e 2008... 57 Percentagem de baixo peso para a altura em crianças menores de cinco anos por província, 2008... 57 Percentagem de baixo peso em crianças menores de cinco anos, por província, 2008... 58 Figura 3.10: Percentagem de desnutrição crónica (baixa altura para a idade) em crianças menores de cinco anos, por província, 2008... 59 Figura 3.11: O quadro conceptual da desnutrição Desnutrição infantil, morte e deficiência... 61 XIII
Figura 3.12: Percentagem de crianças com amamentação exclusiva: dados de diferentes grupos etários, 1997, 2003 e 2008... 62 Figure 3.13: Amamentação exclusiva em crianças com menos de 12 meses, 1997, 2003 e 2008... 62 Figura 3.14: Padrões alimentares de crianças menores de um ano de idade, 2008... 63 Figura 3.15: Crianças com 6-11 meses alimentadas com leite materno e alimentos complementares pelo menos três vezes por dia, por província, 2008... 63 Figura 3.16: Uso de sal iodado por província, 2008... 65 Figura 3.17: Uso de sal iodado por quintil de riqueza de 2008... 66 Figura 3.18: Cobertura da suplementação com vitamina A, 2003 e 2008... 66 Figura 3.19: Continuum de cuidados de saúde materna e neonatal... 68 Figura 3.20: Mulheres atendidas pelo menos uma vez por pessoal de saúde qualificado durante a gravidez, 1997, 2003 e 2008... 71 Figura 3.21: Percentagem de mulheres que beneficiaram de cuidados pré-natais e deram à luz em unidades sanitárias, por quintil de riqueza, 2008... 72 Figura 3.22: Percentagem de crianças que receberam tratamento adequado para malária, 2003 e 2008... 74 Figura 3.23: Prevalência de infecções respiratórias agudas, por província, em 2008... 77 Figura 3.24: Percentagem de crianças menores de cinco anos que recebem tratamento adequado para infecções respiratórias agudas por província, 2008... 77 Figura 3.25: Vacinação de crianças de 12-23 meses por antígeno, em 1997, 2003 e 2008... 80 Figura 3.26: Dotações per capita para a saúde por província (meticais), 2009... 82 Figura 3.27: Dotações para o sector da saúde, CFMP 2010-2012... 83 Figura 3.28: Percentagem de agregados familiares com acesso a água potável, 2004 e 2008... 87 Figura 3.29: Uso de fonte de água melhorada por província, 2008... 89 Figura 3.30: Tempo médio gasto para se chegar a uma fonte de água (em minutos), 2008... 90 Figura 3.31: Probabilidade de acesso a fonte de água melhorada, por classificação de riqueza 2008... 90 Figura 3.32: Acesso a saneamento seguro por localização geográfica, 2004 e 2008... 91 Figura 3.33: Acesso a instalações sanitárias melhoradas, 2008... 92 Figura 3.34: Probabilidade de acesso a fonte de saneamento melhorado... 92 XIV
Figura 4.1: Taxas líquidas de frequência, 2003 e 2008... 111 Figure 4.2: Probabilidade de não frequentar a escola primária, 2008... 112 Figura 4.3: Figura 4.4: Figura 4.6: Figura 4.8: Percentagem de crianças de 6-12 e 13-17 anos fora da escola, por sexo, local de residência e condições socioeconómicas, 2008... 113 Distribuição da população de acordo com a idade de entrada na escola, 2008... 114 Percentagem dos que entram na primeira classe que chegam à última classe do ensino primário, por características seleccionadas de riqueza, 2003 e 2008... 116 Rácios líquidos de frequência no ensino secundário por quintil de riqueza, 2003 e 2008... 117 Figura 4.9: Taxas de alfabetização em mulheres de 15-24 anos por quintil de riqueza, 2008... 118 Figura 4.10: Casamentos infantis e raparigas fora da escola secundária por província, 2008... 120 Figura 4.11: Resultados dos alunos em leitura, 2000 e 2007... 121 Figura 4.12: Resultados dos alunos em matemática, 2000 e 2007... 121 Figura 4.13: Rácio professor-aluno, 2004-2009... 125 Figura 4.14: Dotação orçamental para a educação em milhões de meticais, 2009 e 2010... 130 Figura 5.1: Figura 5.2: Figura 5.3: Figura 5.4: Figura 5.5 Percentagem de mulheres de 15-49 anos que acham que um marido pode bater na sua esposa, por motivo específico, 2008... 148 Percentagem de mulheres (15-49 anos) que acreditam que bater na esposa se justifica em determinadas circunstâncias, 2008... 149 Probabilidade de aceitação da violência doméstica pelas mulheres, 2008... 149 Percentagem de crianças de 5-14 anos que estão envolvidas em trabalho infantil, por província e sexo, 2008... 152 Prevalência de trabalho infantil por nível de escolaridade da mãe, 2008... 152 Figura 5.6: Trabalho infantil e frequência escolar, por área geográfica, 2008... 153 Figura 5.7: Mulheres de 20-24 anos que se casaram antes dos 15 e dos 18 anos, 2003 e 2008... 154 Figura 5.8: Razões para não registar os nascimentos, 2008... 159 Figura 5.9: Percentagem de crianças com menos de cinco anos com registo de nascimento, por província, 2008... 159 Figura 5.10: Percentagem de crianças (2-9 anos) com pelo menos uma deficiência relatada, 2008... 160 XV
Figura 5.11: Percentagem de crianças órfãs e vulneráveis devido à SIDA, 2008... 164 Figura 6.1: Figura 6.2: Figura 6.3: Percentagem de agregados familiares chefiados por homens por quintil de riqueza, 2002, 2005 e 2008... 182 IDG baseado em diferentes métodos de determinação da diferença salarial, 2009... 183 Despesa per capita combinada para saúde, educação e justiça, 2005, 2006 e 2008... 191 Figura 6.4: Despesa de saúde per capita, percentagem da média nacional, 2008... 192 Figura 6.5: Despesa per capita na saúde (2008) e sobrevivência da criança (1998-2008)... 193 Figura 6.6: Prevalência de HIV por província, 2009... 193 Figura 6.7: Percentagem de mulheres que receberam informação sobre o HIV e fizeram teste em consultas de cuidados pré-natais, 2008... 194 Figura 6.8: Despesa per capita na educação, percentagem da média nacional, 2008... 195 Figura 6.9: Despesa per capita na Educação e taxas de alfabetização, 2008... 195 Figura 6.10: Rácio líquido de escolarização no ensino primário (EP1 & EP2) por província, 2008... 196 Figura 6.11: Percentagem de mulheres com 15-49 anos casadas ou em união antes completarem os 15 anos, 2008... 196 Figura 6.12: Distribuição de novas infecções por modo de exposição em Moçambique, 2008... 201 Figura 6.13: Incidência e prevalência de HIV estimada por região em Moçambique, 1998 2010... 203 Figura 6.14: Identificação de concepções erróneas sobre o HIV, mulheres de 15-49 anos, 2008... 204 Figura 6.15: Probabilidade de não uso de preservativo em relação sexual, mulheres de 15-24 anos, 2008... 205 Figura 6.16: Tendências na cobertura de PTV entre 2002 e 2009... 207 Figura 6.17: Testagem e aconselhamento em consultas pré-natais, 2003 e 2008... 208 Figura 6.18: Testagem e aconselhamento de HIV em consultas pré-natais, por quintil de riqueza, 2008... 209 Figura 6.19: Partos assistidos, 1997, 2003 e 2008... 210 Figura 6.20: Cascata de PTV pré-natal e pós-natal, 2009... 211 Figura 6.21: Número estimado de crianças com menos de 15 anos vivendo com HIV, menores de 5 vivendo com HIV, número de novas infecções em menores de 15, e número de crianças com menos de 15 anos a necessitar de tratamento/terapia anti-retroviral, 2006 2010... 212 Figura 6.22: Custo da degradação ambiental por ano, 2009... 219 XVI
Lista de Tabelas Tabela 1.1: Privação em Moçambique, 2008... 9 Tabela 2.1: Indicadores Económicos, 2003-2009... 28 Tabela 2.2: Evolução rumo aos ODM... 31 Tabela 2.3: Financiamento interno e externo no Orçamento do Estado, 2009-2012 (pressupondo um crescimento do PIB de 6,1 por cento)... 41 Tabela 3.1: Regressão linear multivariável de todas as variáveis explicativas relevantes sobre o Z-score do indicador altura/idade (height-for-health Z-zcore) em crianças menores de cinco anos incluídas no MICS, excluindo a classificação da riqueza, 2008... 60 Tabela 3.2: Casos de cólera em Moçambique, 2007-2010... 78 Tabela 3.3: Análise comparativa das dotações para a saúde, 2007 e 2008... 81 Tabela 3.4: Número de alunos matriculados, por sexo, em cinco distritos de Escolas Amigas da Criança, 2006-2008... 97 Tabela 3.5: Financiamento do sector da água como percentagem do orçamento do estado, 2003-2010, anos seleccionados... 98 Tabela 4.1: Relação professor-aluno por província, 2008... 124 Tabela 5.1: Transferências de dinheiro projectadas para agregados familiares chefiados por idosos, portadores de deficiência e doentes crónicos, 2010-2014... 166 Tabela 5.2: Transferências de dinheiro para famílias com crianças órfãs e vulneráveis, 2010-2014... 166 Tabela 6.1: Scorecard para a resposta do Governo de Moçambique à SIDA numa perspectiva de género... 188 Tabela 6.2: Percentagem de crianças que enfrentam duas ou mais privações severas, 2003 e 2008... 190 Tabela 6.3: Metas relativas ao HIV pediátrico, 2009... 214 Tabela 6.4: Estratégias para fazer face a dificuldades usadas anualmente na época seca no Moçambique rural, 2009, percentagem... 221 XVII
Siglas ADE ADE-COV ADPP AIDI AIDNI AIM AMCOW APE ASH AZT C-AIDI C-AIDNI C-IMCI C-IMNCI C4D CEDAW CLTS CMC COV DNA DNRN DPI DPT EFA-FTI EP1 EP2 EPC EPE EPF ESG1 ESG2 FASE FORCOM FRELIMO Apoio Directo às Escolas Apoio Directo às Escolas - Crianças Órfãs e Vulneráveis Ajuda de Desenvolvimento de Povo para Povo Atenção Integrada às Doenças da Infância Atenção Integrada às Doenças Neonatais e da Infância Agência de Informação de Moçambique African Ministers Council on Water (Conselho de Ministros Africanos da Água) Agente Polivalente Elementar de Saúde Água, Saneamento e Higiene Zidovudine Atenção Comunitária Integrada às Doenças da Infância Atenção Comunitária Integrada às Doenças Neonatais e da InfânciaINCM Community-Integrated Management of Childhood Ilness (Atenção Comunitária Integrada às Doenças da Infância) Community-Integrated Management of Neonatal and Childhood Ilness (Atenção Comunitária Integrada às Doenças Neonatais e da Infância) Comunicação para o Desenvolvimento Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres Community Led Total Sanitation (Saneamento Total Liderado pela Comunidade) Centro Multimédia Comunitário Crianças Órfãs e Vulneráveis Direcção Nacional de Águas Direcção Nacional dos Registos e Notariado Desenvolvimento na Primeira Infância Difteria-Tosse convulsa-tétano Educação para Todos Fast Track Initiative Ensino Primário do Primeiro Grau Ensino Primário do Segundo Grau Ensino Primário Completo Escolas Primárias Expandidas Escola de Professores do Futuro Ensino Secundário Geral do Primeiro Grau Ensino Secundário Geral do Segundo Grau Fundo de Apoio ao Sector Educação Fórum Nacional de Rádios Comunitárias Frente de Libertação de Moçambique XIX
GABINFO HAART HIV IAF ICS IDG IDS IFP Gabinete de Informação Hihgly Active Antiretroviral Therapy (terapia antiretroviral altamente activa) Vírus de Imunodeficiência Humana Inquérito aos Agregados Familiares Instituto de Comunicação Social Índice de Desenvolvimento Ajustado ao Género Inquérito Demográfico e de Saúde Instituto de Formação dos Professores IFTRAB Inquérito Integrado à Força de Trabalho (2004/05) INGC INSIDA IOF IPAJ IPG IRA LOLE MICOA MICS MINED MMAS MPG NVP ODM OIM OMS PACOV PAP PARP Instituto Nacional de Gestão de Calamidades Inquérito Nacional de Prevalência. Riscos Comportamentais e Informação sobre o HIV e SIDA em Moçambique Instituto Nacional das Comunicações de Moçambique Inquérito sobre o Orçamento Familiar Instituto do Patrocínio e Assistência Jurídica Índice de Paridade de Género Infecção Respiratória Aguda Lei dos Órgãos Locais do Estado Ministério da Coordenação da Acção Ambiental Inquérito de Indicadores Múltiplos Ministério da Educação Ministério da Mulher e da Acção Social Medida de Participação segundo o Género Nevirapina Objectivos de Desenvolvimento do Milénio Organização Internacional para as Migrações Organização Mundial de Saúde Plano de Acção para Crianças Órfãs e Vulneráveis Parceiros de Apoio Programático Plano de Acção para a Redução da Pobreza PARPA I Plano de Acção para a Redução da Pobreza Absoluta (2002-2005) PARPA II Plano de Acção para a Redução da Pobreza Absoluta (2006-2009) PASD PES PESA-ASR PIB PIDOM PRONASAR Programa de Apoio Social Directo Plano Económico e Social Plano Estratégico de Abastecimento de Água e Saneamento Rural Produto Interno Bruto Pulverização Residual Intra-domiciliar Programa Nacional de Abastecimento de Água e Saneamento Rural XX
PSA PTV QFMP QUIBB RCP RED RENAMO RM RMM RMTILD SACMEQ SANTOLIC SETSAN SISTAFE TIC TVM UEM UP ZIP Programa de Subsídio de Alimentos Prevenção da Transmissão Vertical Quadro Fiscal de Médio Prazo Questionário de Indicadores Básicos de Bem-Estar Reacção em cadeia da polimerase Reaching Each District (Atingir Cada distrito) Resistência Nacional Moçambicana Rádio Moçambique Rácio de Mortalidade Materna Redes Mosquiteiras Tratadas com Insecticida de Longa Duração Southern and Eastern Africa Consortium for Monitoring Education Quality (Consórcio da África Austral e Oriental para a Monitorização da Qualidade Educacional) Saneamento Total Liderado pela Comunidade Secretariado Técnico de Segurança Alimentar e Nutricional Sistema de Administração Financeira do Estado Tecnologia de Informação e Comunicação Televisão de Moçambique Universidade Eduardo Mondlane Universidade Pedagógica Zona de Influência Pedagógica XXI
XXII Maputo Cidade Namaacha Boane Marracuene Magude Bilene Xai-Xai Chibabava Báruè Mutarara Tete Moma Mocimboa da praia Nipepe Metarica Cuamba Mecanhelas Mandimba Maua Muembe Mavago Mecula Marrupa Majune N gauma Lichinga Sanga Lago Quissanga Muidumbe Meluco Macomia Mueda Nangade Palma Pemba Ancuabe Montepuez Balama Namuno Chiure Mecuti Mossuril Ilha Monapo Nacala-a-Velha Nacaroa Memba Erati Muecate Mecuburi Lalaua Malema Ribaue Nampula Morrupula Mogovolas Mogincual Angoche Gile Alto Molocue Gurue Namarroi Ile Milange Lugela Pebane Morrumbala Mocuba Maganja da costa Namacurra Quelimane Cap Nicuadala Mopeia Inhassunge Chinde Moatize Tsangano Angonia Chiuta Chifunde Macanga Maravia Zumbu Magoe Cahora Bassa Changara Tambara Guro Macossa Manica Gondola Sussundenga Mossurize Machaze Chemba Caia Maringue Marromeu Cheringoma Gorongosa Muanza Nhamatanda Dondo Beira Buzi Machanga Govuro Inhassoro Mabote Vilankulo Massinga Funhalouro Morrumbene Maxixe Homoine Panda Jangamo Inharrime Zavala Massangena Chicualacuala Chigubo Mabalane Massingir Guijá Chibuto Chokwe Mandlakazi Xai-Xai Cap Manhiça Moamba Matutuíne Niassa Cabo Delgado Nampula Zambezia Canal de Moçambique Tete Manica ZIMBABWE ZÂMBIA MALAWI TANZÂNIA SWAZILÂNDIA ÁFRICA DO SUL Sofala Inhambane Maputo Gaza Mapa de Moçambique
SUMÁRIO EXECUTIVO Sumário Executivo A pobreza vivida na infância tem efeitos imediatos e de longo prazo nas crianças. Desnutrição crónica, por exemplo, nos dois primeiros anos de vida pode influenciar permanentemente o crescimento da criança, resultando em baixa altura para a idade e reduzido desenvolvimento mental. O impacto da pobreza intergeracional na infância e sua natureza cíclica também é evidenciado pelo comprovado papel da pobreza como obstáculo ao acesso a serviços sociais. As famílias pobres têm mais dificuldade em aceder a cuidados de saúde de qualidade, menor probabilidade de ter os seus filhos na escola e também menor probabilidade de aceder a água potável e instalações sanitárias adequadas. É elevado o risco que as crianças pobres correm de crescer para se tornarem adultos pobres e, por sua vez, terem filhos também pobres. Em 2008/2009, 12 milhões dos cerca de 21,5 milhões de pessoas em Moçambique, ou seja, 55 por cento da população, vivia abaixo da linha de pobreza de 18,4 meticais (cerca de meio dólar americano) por dia. Comparativamente a 2002/03, a taxa de pobreza estagnou. Outros indicadores baseados no consumo incluem a quantidade de calorias consumidas diariamente. Mais de metade das crianças moçambicanas consomem diariamente calorias abaixo do considerado adequado pela Organização Mundial de Saúde. No entanto, entre 2002 e 2008 as taxas de pobreza baseada no consumo estagnaram, principalmente devido a falta de progressos no sector agrícola. Moçambique tem registado, nos últimos anos, grandes progressos na redução da pobreza na infância baseada em privações e no aumento do acesso a serviços essenciais. O nível do rendimento familiar não nos dá uma imagem completa da saúde e bemestar da criança. A abordagem baseada em privações, centrada nas necessidades básicas e principais serviços públicos de que a criança está privada, permite uma compreensão mais multidimensional da pobreza. Recorrendo a esse indicador, 48 por cento das crianças moçambicanas vivem em situação de pobreza absoluta - medida por uma metodologia baseada em privações decaindo-se assim dos 59 por cento registados em 2008. A redução deveuse a significativas alterações nos sectores de saúde e educação. As crianças são particularmente vulneráveis a privações de água, saneamento e informação. Sobrevivência e Desenvolvimento Infantil A pobreza e a sobrevivência infantil estão intrinsecamente ligadas. Baixos níveis de sobrevivência infantil e estado de saúde deficiente são, simultaneamente, causa e sintoma de pobreza. O principal indicador utilizado para medir o nível de bem-estar da criança e sua taxa de mudança num país é a taxa de mortalidade de menores de cinco anos, que desceu de 153 mortes por 1.000 nascidos vivos em 2003 para 141 em 2008. A taxa de mortalidade de menores de cinco anos resulta de uma ampla gama de factores, nomeadamente estado nutricional e conhecimento das mães sobre a saúde, práticas relativas aos cuidados a dar, disponibilidade, uso e qualidade dos serviços de saúde materno-infantil, rendimento e disponibilidade de alimentos na família, disponibilidade de água limpa e saneamento seguro, e segurança global do ambiente da criança. Embora continue a haver disparidade, foram feitas melhorias na taxa de mortalidade de menores de cinco pelas áreas rurais. A malária, causas neonatais, infecções respiratórias agudas e a SIDA são as quatro principais causas imediatas de mortalidade nas crianças em Moçambique. A desnutrição é a principal causa subjacente. A baixa altura para a idade (ou desnutrição crónica) permanece muito elevada - 44 por cento XXIII
POBREZA INFANTIL E DISPARIDADES EM MOÇAMBIQUE 2010 das crianças menores de 5 anos têm baixa altura para a idade, um decréscimo de apenas 4 pontos percentuais desde 2003. A baixa altura para a idade afecta a criança, mas está também intimamente ligado ao desenvolvimento global do país, uma vez que a desnutrição afecta o desenvolvimento cognitivo e tem relação com os resultados educacionais futuros. A prevalência de malária (causa de um terço das mortes em crianças menores de cinco anos de idade) alterou-se muito pouco nos últimos anos. Em 2007, a prevalência global era de 51 por cento da população. Apesar das significativas melhorias, continuou a ser baixo o acesso a medicamentos antimaláricos; pouco mais de um terço das crianças com febre recebem tratamento, o que reflecte baixa consciência e procura de tratamento pelos encarregados de cuidar das crianças e baixo acesso a serviços de saúde. Infecções Respiratórias Agudas (IRA) são mais uma das principais causas de morbilidade e mortalidade nas crianças em Moçambique, sendo a pneumonia a infecção mais grave. Há uma grande disparidade entre a percentagem de crianças que recebem tratamento para IRA. As que vivem em áreas urbanas, as das famílias mais ricas e as crianças cujas mães são instruídas têm muito mais probabilidade de receber tratamento para sintomas de IRA. Água insalubre, saneamento precário e higiene inadequada também contribuem para a mortalidade e morbilidade infantil. Água, saneamento e higiene estão intimamente ligados a desnutrição infantil. O acesso a água potável tem também um efeito significativo sobre as taxas de pobreza por aumentar o tempo que as famílias (em particular as mulheres e meninas) podem despender em actividades mais produtivas. O acesso a água potável e saneamento básico continua a ser baixo, situando-se em 43 e 19 por cento dos agregados familiares, respectivamente. É elevado o nível de desigualdades geográficas no que respeita a acesso a água potável e saneamento. Educação Uma população instruída é um dos requisitos fundamentais para uma ampla redução da pobreza. Moçambique teve, ao longo da sua história, um sistema educativo extremamente limitado. Apesar das significativas melhorias alcançadas, continuam a ser enormes os desafios no sector. Estão agora a frequentar a escola primária cerca de 3,3 dos 4,1 milhões de crianças de Moçambique com idades compreendidas entre os 6 e os 12 anos. As taxas líquidas de escolarização no ensino primário têm aumentado drasticamente. Foram também registadas melhorias em termos de paridade de género, mas justificase um foco contínuo sobre esta área uma vez que continuam a ficar fora do sistema educativo mais meninas do que rapazes. Foram reduzidas disparidades de longa data no sector. Se bem que as crianças urbanas e mais ricas ainda tenham mais probabilidade de participar no sistema educativo do que as suas congéneres rurais e mais pobres, foi nos dois últimos grupos que se registou um melhoramento mais significativo. Estar acima da idade na escola é um fenómeno generalizado em Moçambique. Embora as crianças tendam a entrar para a escola mais cedo nos últimos anos, é mais provável que as de 13-17 anos de idade ainda se encontrem a frequentar o ensino primário do que o ensino secundário. O fenómeno acima da idade no ensino básico tem significativas implicações para os resultados de aprendizagem das crianças, uma vez que é ministrado o mesmo currículo a alunos de diferentes idades e níveis de desenvolvimento cognitivo. É generalizado o fenómeno do choque de acesso. O aumento maciço do número de alunos tem colocado enorme pressão sobre o sistema de ensino, com efeitos danosos na qualidade de ensino. Dados recentes indicam que nos últimos anos as competências de leitura e aritmética das crianças moçambicanas se têm deteriorado. É necessário que se registem melhorias no XXIV
SUMÁRIO EXECUTIVO número e na qualidade dos professores, nas infra-estruturas escolares e na protecção das crianças contra a violência física e sexual para se conseguir elevar o acesso e a qualidade, e para que o acesso se traduza em resultados de desenvolvimento. Protecção da criança Uma protecção efectiva da criança assegura que as mais vulneráveis sejam protegidas de práticas prejudiciais e não fiquem marginalizadas na redução da pobreza. Abuso e exploração sexual, tráfico, trabalho infantil, violência, deficiência, casamento infantil, entre outros, são questões a tratar no âmbito da protecção das crianças em Moçambique. Sistemas nacionais eficazes de protecção da criança têm como ponto de partida a existência de leis, políticas e regulamentos que visem defender os direitos da criança. Importantes progressos foram feitos nessas áreas nos últimos anos, mas continuam a existir muitos desafios. A violência contra as mulheres e crianças tem devastadoras consequências para a saúde física e mental a curto e longo prazo. A violência física e sexual é comum, chegando a 54 por cento as mulheres que foram espancadas e 23 por cento as submetidas a alguma forma de abuso sexual. É também muito comum nas escolas o abuso sexual cometido contra alunas. Um baixo nível de conhecimento, por parte das vítimas, dos seus direitos e, simultaneamente, uma cultura de silêncio e aceitação da violência são o principal obstáculo à resolução o problema. O trabalho infantil é outra forma comum e grave de abuso e exploração em Moçambique. As crianças trabalhadoras são muitas vezes acrescidamente exploradas com más condições de trabalho, incluindo abuso verbal e sexual, e salários pagos com atraso ou, inclusivamente, não pagos. Reduzir a carga de trabalho sobre as crianças depende tanto da aplicação de regulamentação laboral eficaz contra o trabalho infantil como de garantir às crianças e suas famílias, especialmente às mais pobres e mais vulneráveis, os benefícios resultantes da redução da pobreza. Os casamentos prematuros podem ter graves implicações para a saúde das meninas. Gravidez e parto na adolescência estão associados a problemas de saúde e fracos resultados nutricionais tanto da mãe como dos filhos. Mais de metade das raparigas moçambicanas casam-se antes dos 18 anos de idade. O casamento infantil é mais comum na região norte de Moçambique. O registo de nascimento tem impactos sobre a pobreza uma vez que possibilita às crianças um maior acesso a serviços sociais. Moçambique tem aumentado significativamente, em todo o país, o acesso a serviços de registo de nascimento, que, no entanto, continua baixo. A percentagem de crianças menores de cinco anos com registo de nascimento aumentou de 8 por cento em 2003 para 31 por cento em 2008. Estima-se existirem 1,8 milhões de órfãos em Moçambique, dos quais 510.000 devido à SIDA, número este que deverá crescer nos próximos anos. As crianças órfãs podem enfrentar uma ampla gama de ameaças à sua protecção. Têm maior probabilidade do que os não órfãos de ter uma iniciação sexual precoce, sendo também mais propensos que os não órfãos a casar jovens. Embora a capacidade dos sistemas de justiça na prevenção e combate às diferentes formas de violência, abuso e exploração tenha sido reforçada, a resposta global continua a ser fragmentada, reactiva, fraca e insuficientemente financiada. É também necessário que se aperfeiçoem os mecanismos de recolha de dados, monitoria e apresentação de relatórios a todos os níveis. Questões transversais Em Moçambique, as mulheres têm maior probabilidade que os homens de viver em situação de pobreza. Em 2007, Moçambique, classificou-se, entre 155 países, na 145a posição no índice de desenvolvimento XXV
POBREZA INFANTIL E DISPARIDADES EM MOÇAMBIQUE 2010 ajustado ao género baseado na esperança de vida, educação, alfabetização e PIB per capita, o que reflecte os desafios sociais, económicos e culturais enfrentados pelas mulheres. As mulheres são mais propensas que homens a participar na força de trabalho, mas têm menor acesso à educação, menos oportunidades de emprego formal, menor renda e menos oportunidade de diversificar os seus rendimentos. Estudantes do sexo feminino enfrentam barreiras de acesso à educação, incluindo abuso sexual nas escolas e casamento prematuro. Existem desigualdades entre as províncias em todas as áreas, tendo as crianças das províncias do norte e do centro menor acesso aos serviços de saúde, educação, água, saneamento e protecção. Províncias como a Zambézia têm mais baixas dotações orçamentais, menos serviços e menores resultados de desenvolvimento humano em termos de sobrevivência e mortalidade infantil. As províncias do sul têm maior prevalência de HIV/SIDA, bem como, de forma correspondente, mais elevados resultados nos serviços de saúde e tratamento. O HIV e a SIDA afectam a pobreza das famílias, incapacitando os que trabalham para as sustentar e elevando o nível de dependência na população. Através dos seus efeitos sobre o número de professores formados, profissionais de saúde e outros prestadores de serviços, a SIDA tem também impacto sobre a futura geração de capital humano. O Inquérito Nacional sobre o HIV/SIDA 2009 (INSIDA) mostra uma prevalência nacional de HIV no grupo etário de 15-49 anos de idade de 11,5 por cento. Os resultados desagregados por região confirmaram a maior prevalência no sul, seguindo-se a zona centro. A prevalência do HIV é significativamente mais elevada nas áreas urbanas do que nas áreas rurais em todas as regiões e entre as mulheres, especialmente entre as jovens. Há, contudo, alguma evidência de que a incidência do HIV tem vindo a diminuir. Os dados indicam também uma tendência global positiva no conhecimento e consciência da transmissão do HIV e sua prevenção. Situações de emergência como as secas e inundações, por exemplo, têm graves impactos sobre o bem-estar das crianças. A vulnerabilidade das crianças aumenta em situações de emergência, uma vez que elas ficam com menos acesso a serviços de saúde, ao mesmo tempo que aumentam as doenças transmitidas pela água, como a cólera. Há rotura na educação e na rotina, e as crianças têm menos protecção contra a exploração, por exemplo, contra o abuso sexual e sexo para sobrevivência. As emergências, paralelamente às vulnerabilidades que agravam, podem intensificar-se pois a mudança climática faz aumentar a ocorrência de ciclones no país. Há também factores ambientais relacionados com as principais causas de mortalidade infantil, como a malária e infecções respiratórias agudas. Degradação ambiental significa aumento de poluição, stress hídrico, desflorestação e degradação do solo, que se traduzem em pressão nas necessidades básicas de saúde e segurança alimentar das crianças. Comunicação e fortes órgãos de comunicação social são fundamentais para todos os cidadãos, inclusive crianças, terem uma palavra a dizer nas questões que afectam as suas vidas. São ainda uma forma de transmitir informações vitais para os pais em matéria de educação, saúde e questões de protecção, por exemplo, como proteger os seus filhos da malária ou quais os efeitos nocivos do abuso cometido contra crianças. Uma comunicação inovadora para estratégias de desenvolvimento, incluindo a Rádio Criança para Criança e Unidades Móveis Multimédia têm um enorme potencial para envolver mais pessoas, principalmente jovens, em actividades educativas, diálogo e debate públicos. XXVI