quando a fé se torna social
Coleção Temas de Atualidade Caminhos de existência, João Batista Libanio Cisma silencioso (O): da casta clerical à profecia da fé, Piero Cappelli Comunicação ambiental: reflexões e práticas em educação e comunicação ambiental, Vilmar Sidnei Demamam Berna Concílio da primavera na Igreja, Angélico Sândalo Bernardino Cristãos rumo ao século XXI, José Comblin Darwinismo moral: como nos tornamos hedonistas, Benjamin Wiker Desafios aos cristãos do século XXI, José Comblin Desafios da cidade no século XXI (Os), José Comblin Desenvolvimento da Amazônia: como construir uma civilização da vida e a serviço dos seres vivos nessa região, Raimundo Caramuru Barros Ética responsável e criativa, Juvenal Arduini Exclusão social e a nova desigualdade, José de Souza Martins Fim do cristianismo pré-moderno: desafios para um novo horizonte, Andrés Torres Queiruga Gênero (O): uma norma política e cultural, Marguerite A. Peeters Homossexualidade: orientações formativas e pastorais, Ademildo Gomes; José Trasferetti Impacto da sociedade em rede sobre a Igreja católica (O), Darlei Zanon Nossa espiritualidade, Pedro Casaldáliga Povo de Deus (O), José Comblin Qual o futuro do cristianismo?, João Batista Libanio Quando a fé se torna social: o cristianismo no tempo das novas mídias, Antonio Spadaro Religião na sociedade urbana e pluralista (A), Manfredo Araújo de Oliveira Um Deus para hoje, Andrés Torres Queiruga Um rosto para Deus?, Maria Clara Bingemer Vícios capitais e os novos vícios (Os), Umberto Galimberti Vida (A): em busca da liberdade, José Comblin Vocação para a liberdade, José Comblin
Antonio Spadaro quando a fé se torna social O cristianismo no tempo das novas mídias
Título original: Quando la fede si fa social: il cristianesimo ai tempi dei new media 2015, Editrice Missionaria Italiana ISBN 978-88-307-2311-5 Tradução: Renato Ambrosio Direção editorial: Claudiano Avelino dos Santos Assistente editorial: Jacqueline Mendes Fontes Coordenação de revisão: Tiago José Risi Leme Revisão: Caio Pereira Jennifer Almeida Thais dos Santos Domingues Diagramação: Dirlene França Nobre da Silva Capa: Marcelo Campanhã Impressão e acabamento: PAULUS Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Spadaro, Antonio Quando a fé se torna social: o cristianismo no tempo das novas mídias / Antonio Spadaro; [tradução Renato Ambrosio]. São Paulo: Paulus, 2016. Coleção Temas de atualidade. Título original: Quando la fede si fa social. Bibliografia ISBN 978-85-349-4286-7 1. Cristianismo 2. Igreja e o mundo 3. Redes sociais - Ponto de vista cristão 4. Religião - Aspectos culturais 5. Religião - Aspectos sociais 6. Religião e sociedade I. Título. II. Série. 16-01202 CDD-262.8 Índices para catálogo sistemático: 1. Religião na sociedade: Cristianismo 262.8 1ª edição, 2016 PAULUS 2016 Rua Francisco Cruz, 229 04117-091 São Paulo (Brasil) Tel.: (11) 5087-3700 Fax: (11) 5579-3627 paulus.com.br editorial@paulus.com.br ISBN 978-85-349-4286-7
Sumário Quando a fé se torna social... 7 Tecnologia espiritual... 9 A web e as relações... 13 A rede é um lugar real... 17 A inteligência da fé no tempo da rede... 21 Não somente conexão, mas comunhão... 25 O lugar do dom... 29 Quem é o próximo na rede?... 35 Encarnação e testemunho... 41 Igreja conectiva ou corpo místico?... 45
Quando a fé se torna social Havia outrora uma bússola. Um instrumento genial para nos orientarmos na geografia, inventado antigamente pelos chineses e introduzido na Europa no século XII. Naquele tempo, o homem possuía também a sua bússola interior; ele era atraído pelo mundo religioso como se fosse atraído por uma fonte de sentido fundamental. Como a agulha de uma bússola, ele sabia que era radicalmente atraído a uma direção precisa, única e natural. Se uma bússola não indica o norte é porque não funciona, e não porque não existe o norte. Deus era o norte. Depois o homem, sobretudo a partir da Segunda Guerra Mundial, começou a usar o radar, que serve para identificar e determinar a posição de objetos físicos e móveis. O radar vai à procura de seu alvo e implica uma abertura indiscriminada também para o mais leve sinal; ele não oferece indicação de uma direção precisa. E ao mesmo tempo surgiu uma nova metáfora cultural na forma de uma pergunta: Deus, onde estás?. O homem era geralmente entendido como um buscador de Deus, de uma mensagem da qual sentia uma profunda necessidade, daqui nasce a espera de Godot e tantas páginas da literatura do século XX. O homem tinha se tornado um ouvinte da palavra para usarmos uma célebre expressão do teólogo Karl Rahner, que implicitamente deu forma teológica à metáfora tecnológica do radar em busca de uma mensagem. 7
Antonio Spadaro E hoje? Essas imagens ainda valem? Na realidade, ainda que continuem vivas e verdadeiras, a imagem da bússola e a do radar se sustentam menos. Hoje é mais presente a imagem do homem que se sente perdido se o celular fica sem sinal ou se o tablet ou smartphone não pode acessar alguma forma de conexão com a rede sem fio. O homem hoje, mais do que à procura de um sinal, está habituado a ficar sempre na possibilidade de recebê-lo. Em outras palavras, vivemos sem fazer muitas perguntas sobre Deus: se ele existe, aparecerá de algum modo. Desde a bússola até o radar, o homem está se transformando num decoder, isto é, um sistema de acesso e decodificação de perguntas com sentido a partir das múltiplas respostas que o atingem sem que ele se preocupe em procurá-las. Vivemos bombardeados por mensagens. Nosso problema não é achar uma mensagem com sentido, mas decodificá-la, isto é, reconhecê-la, importante e significativa para mim, a partir das múltiplas respostas que recebo. Consequentemente, hoje a coisa mais importante não é tanto dar respostas. Todos dão respostas! É importante, ao contrário, reconhecer as perguntas significativas, aquelas fundamentais. E assim fazer com que em nossa vida reste uma abertura, que Deus ainda possa falar conosco. 8
Tecnologia espiritual O homem do século XX é o homem da rede, sempre conectado e sempre em comunicação. E ele como sempre na história modelou a tecnologia à sua imagem e semelhança. De certo modo, a tornou espiritual. A Igreja sabe muito bem disso, e não é de hoje. Um momento crucial dessa compreensão espiritual das novas tecnologias foi a promulgação do decreto do Concílio Vaticano II Inter mirifica, em 4 de dezembro de 1963, que começa assim: Entre as maravilhosas invenções técnicas que, sobretudo nos nossos dias, o engenho humano, com a ajuda de Deus, tratou de criar, a Madre Igreja acolhe e segue com especial cuidado aquelas que mais diretamente dizem respeito ao espírito do homem e que abriram novos caminhos para comunicar, com a máxima facilidade, notícias, ideias e ensinamentos de todo gênero. Poucos meses depois, em 1964, Paulo VI, dirigindo-se ao Centro automazione dell Aloisianum di Gallarate, usou de palavras a meu ver proféticas e de uma beleza desconcertante. Num momento em que já existiam os primeiros grandes computadores, mas o PC, o smartphone e, sobretudo, a internet estavam ainda além de qualquer imaginação, aquele Centro estava elaborando, no computador, a análise eletrônica da Summa Theologiae, de São Tomás de Aquino, e do texto bíblico. Àqueles padres cientistas o papa Montini dizia: 9