MARXISMO E LITERATURA A RECEPÇÃO DO PENSAMENTO DE GYÖRGY LUKÁCS EM LEANDRO KONDER E CARLOS NELSON COUTINHO RAFAEL DA ROCHA MASSUIA

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Transcrição:

MARXISMO E LITERATURA A RECEPÇÃO DO PENSAMENTO DE GYÖRGY LUKÁCS EM LEANDRO KONDER E CARLOS NELSON COUTINHO RAFAEL DA ROCHA MASSUIA

Marxismo e literatura

CONSELHO EDITORIAL ACADÊMICO Responsável pela publicação desta obra Ana Lúcia de Castro Maria Orlanda Pinassi Carla Gandini Giani Martelli Maria Teresa Miceli Kerbauy

RAFAEL DA ROCHA MASSUIA Marxismo e literatura A recepção do pensamento de György Lukács em Leandro Konder e Carlos Nelson Coutinho

2013 Editora Unesp Cultura Acadêmica Praça da Sé, 108 01001-900 São Paulo SP Tel.: (0xx11) 3242-7171 Fax: (0xx11) 3242-7172 www.culturaacademica.com.br feu@editora.unesp.br CIP BRASIL. Catalogação na publicação Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ M372m Massuia, Rafael da Rocha Marxismo e literatura [recurso eletrônico]: a recepção do pensamento de György Lukács em Leandro Konder; Carlos Nelson Coutinho/ Rafael da Rocha Massuia. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2013. recurso digital Formato: epdf Requisitos do sistema: Adobe Acrobat Reader Modo de acesso: World Wide Web ISBN 978-85-7983-479-0 (recurso eletrônico) 1. Lukács, Gyorgy, 1885-1971 2. Ontologia. 3. Comunismo. 4. Ciência política. 5. Socialismo. 6. Livros eletrônicos. I. Título. 14-08302 CDD: 111 CDU: 111.1 Este livro é publicado pelo Programa de Publicações Digitais da Pró-Reitoria de Pós-Graduação da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) Editora afiliada:

Aos meus avós paternos, Argemiro (in memoriam) e Maria, a minha companheira, Carolina, e ao meu orientador, José Antonio Segatto, com os quais tanto aprendi e aprendo e sem os quais o presente estudo jamais teria ganhado vida.

Enquanto não realizares esta indicação: Morre e renasce, serás apenas um triste hóspede na obscura terra. Johann Wolfgang von Goethe

Sumário Introdução 11 1 A recepção de György Lukács no Brasil 15 2 Leandro Konder 41 3 Carlos Nelson Coutinho 115 Considerações finais 277 Referências 291

Introdução O presente livro é resultado de uma pesquisa de mestrado realizada junto ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, da Faculdade de Ciências e Letras, pertencente a Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), campus Araraquara, sob orientação do Prof. Dr. José Antonio Segatto, intitulada A recepção das ideias estético-literárias de Lukács em Leandro Konder e Carlos Nelson Coutinho: análise de suas produções teóricos-críticas, ainda que se apresente de forma ligeiramente modificada da versão definitiva, que foi depositada na biblioteca da mesma instituição. Essas alterações, ainda que pontuais, se justificam pela tentativa de encontrar uma forma mais fluída, buscando facilitar a leitura da pesquisa com a supressão de citações excessivas e outras questões técnicas que, se numa dissertação acadêmica fazem-se necessárias, num livro mostram-se inoportunas. A ideia inicial da pesquisa remete ao período em que cursei a graduação em Ciências Sociais na Universidade Estadual de Maringá (UEM), entre 2007 e 2010, onde tive o primeiro contato com as ideias e concepções do filósofo húngaro György Lukács, que levariam, num segundo momento, a uma pesquisa de Iniciação Científica sobre suas concepções estéticas, mais especificamente no que dizem respeito ao fenômeno artístico-literário.

12 MARXISMO E LITERATURA Uma vez no mestrado, resolvi seguir, também em função das linhas de pesquisas existentes, os desdobramentos locais das ideias lukacsianas, mais especificamente na obra e no pensamento de dois importantes autores marxistas no Brasil: Leandro Konder e Carlos Nelson Coutinho. A escolha não foi aleatória, pois tratam-se de dois pensadores de peso, que se valem intensamente das formulações do pensador húngaro. O enfoque respeitou o interesse inicial, também devido à limitação temporal imposta ao mestrado na instituição (24 meses, realizado entre 2011 e 2013), a dimensão estético- -literária, que avulta como parte ainda que bastante expressiva, que de maneira alguma pretende esgotar a amplitude temática pela qual o pensamento de Lukács se move com grande facilidade. De forma geral e sucinta, o presente trabalho busca realizar uma discussão sobre o significado da recepção das ideias estético-literárias no interior do pensamento de dois dos pensadores mais expressivos que se valeram das formulações de Lukács nesse campo, mas que não se limitaram à mera reprodução local das concepções de um autor estrangeiro (o que, infelizmente, como numa insistente distopia pós-colonial, acontece com relativa frequência), mas buscaram testar os seus limites e mesmo buscar enriquecê-la a partir de reflexões próprias, como, se fui bem-sucedido no meu intento, mostrarei ao longo da exposição que se seguirá. O primeiro capítulo retoma o contexto de renovação do marxismo no país, em função sobretudo do quadro de crise do socialismo real, da denúncia dos crimes do regime stanilista e da necessidade de uma renovação do pensamento marxista. Dentro desse quadro, são destacadas a importância da atuação teórica de Antonio Gramsci e György Lukács, bem como a importância dada a esses pensadores (mais pelo segundo, mas de maneira alguma negligenciada pelo primeiro) ao fenômeno artístico que futuramente ocuparia privilegiado espaço também entre os teóricos da Escola de Frankfurt. Nos segundo e terceiro capítulos são discutidas mais detidamente as obras e concepções dos dois autores analisados centralmente pela pesquisa, buscando demarcar as suas especificidades. No caso de Leandro Konder, fica patente sua inclinação enciclo-

RAFAEL DA ROCHA MASSUIA 13 pédica, apresentando ao público brasileiro o então desconhecido teórico marxista György Lukács, o que não o impediu de realizar críticas a pontos que julga problemáticos. Carlos Nelson Coutinho, por sua vez, demonstra um trato diferente em relação à obra lukacsiana, já desde seus primeiros escritos buscando aplicá-la à realidade e aos autores brasileiros; sua contribuição vai desde esse inédito movimento ao questionamento do juízo negativo emitido por Lukács a autores como Franz Kafka e Marcel Proust (questionamento também levantado por Konder, com o acréscimo de James Joyce, ainda que de forma menos detida e sistemática). Finalmente, no quarto e último capítulo, aponto o significado da recepção do pensamento lukacsiano em Konder e Coutinho, buscando ainda indicar uma curiosa relação de complementaridade presente nas atividades teóricas dos dois pensadores estudados. Não posso deixar de agradecer meu orientador, o Prof. Dr. José Antonio Segatto, pelo inestimável apoio, pela paciência e pela incalculável contribuição à minha formação intelectual. Aos professores que gentilmente aceitaram o convite de participarem da banca de qualificação, o Prof. Dr. Newton Duarte e a Prof. Dra. Maria Célia de Moraes Leonel, que souberam relevar meus muitos erros, fornecendo-me outras tantas dicas e soluções também ao professor Prof. Dr. Wilton Marques, que tão solicitamente (e mesmo em cima da hora) aceitou o convite para participar da banca da defesa. À minha companheira, Carolina Góis Ferreira, pela leitura, críticas e sugestões, sem a qual a existência deste trabalho literalmente não seria possível. Também agradeço a Capes, que forneceu as bases materiais necessárias a realização da pesquisa. Da realização da pesquisa, gosto de pensar com o Goethe de Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister, que redige as magníficas linhas que se seguem: É tão agradável podermos recordar, se contentes estamos com nós mesmos, os diferentes obstáculos que, com um sentimento doloroso, acreditávamos por vezes insuperáveis, e comparar o quanto evoluídos somos agora com o quão pouco evoluídos éramos então (Goethe, p.34).

14 MARXISMO E LITERATURA Ao leitor, desejo que a leitura deste livro provoque a mesma reação que experimentei ao realizá-lo, a de morrer e renascer, da sugestão goethiana, tão cara também a Lukács, que é a evocação da busca progressiva pelo conhecimento, da expressão de seu movimento dialético.

1 A recepção de György Lukács no Brasil De meados do século XX em diante, sobretudo após a denúncia dos crimes do regime stalinista no XX Congresso do PCUS em 1956, a situação geral do socialismo global é de crise. 1 No Brasil, os movimentos de esquerda veem-se, na maioria das vezes (com algumas, porém notáveis, exceções), sujeitos às inflexões globais, ou seja, orientações teórico-práticas de cunho altamente problemático. No entanto, após a referida denúncia, ocorre uma relativa abertura do PCB, que propicia o surgimento de novos quadros, ligados a pensadores marxistas heterodoxos, antes vistos com desconfiança. Esse movimento é bastante positivo e sinaliza a possibilidade de uma profunda reformulação das bases da esquerda nacional. Nas palavras de José Antonio Segatto (2005, p.205): Com as mudanças políticas e de concepções, o PCB a partir de 1958, não só atrairá, como formará uma nova safra de intelec- 1 Três anos após o falecimento de Stálin, em 1956, N. Kruschev leu, na abertura do XX Congresso do PCUS, um relatório secreto denunciando o culto à personalidade e fazendo diversas acusações (autoritarismo, rompimento da legalidade socialista, crimes e outras) do período stalinista (Segatto, 2003, p.126).

16 MARXISMO E LITERATURA tuais, que teriam significativa incidência na vida cultural e política. [ ] [Esse movimento é] fruto do processo de renovação do pensamento marxista no Brasil, que ocorre em função do impacto do XX Congresso do PCUS e das mudanças levadas a cabo pelo PCB, além de outras transformações político-culturais que se processavam no país e no mundo naquele momento. Aí ocorre, no PCB, uma inserção mais intensa e extensa de ideias desses pensadores, fato extremamente favorável ao aparecimento de possibilidades teóricas mais abertas que, anteriormente, eram tidas como demasiadamente heterodoxas (contrastando com a ortodoxia stalinista). Cabe acrescentar que, nesse período, o PCB passa a contar com amplo prestígio, inclusive entre as camadas sociais medianas. Renovação do marxismo É nesse contexto específico, com marcada inserção no movimento renovador, que há a divulgação da obra de autores marxistas, com centralidade para Antonio Gramsci e György Lukács (na época com a grafia usual da tradição editorial germânica, Georg ). 2 Destaca-se que a recepção da obra de György Lukács, pensador húngaro, ocorreu nesse contexto geral, mas atendendo a demandas locais específicas, inserindo-se nesse movimento que propunha renovação sem nele encerrar-se (cabe lembrar que, fora os pensadores europeus que estavam aqui radicados, data de fins dos anos 1950 e início dos anos 1960 as primeiras menções à obra 2 Esse turbulento período que atravessava o movimento comunista, e em especial o PCB, forçou um repensar das dinâmicas políticas e teóricas do movimento, tornando possível a incorporação de pensadores que se empenhavam por uma renovação do marxismo; como é o caso de Lukács e Gramsci (Segatto, 1998). Fora esses dois autores que, inegavelmente, ocupam o primeiro plano em nível de importância, poderiam ainda ser citados Jean-Paul Sartre, Karel Kosik, Lucien Goldmann, entre outros.

RAFAEL DA ROCHA MASSUIA 17 lukacsiana por uma série de outros pensadores, inseridos nos mais diversos grupos intelectuais). 3 É somente após o XX Congresso do PCUS (Partido Comunista da União Soviética), em 1956, quando se inicia, ainda que parcialmente, com o rompimento com a ortodoxia stalinista, que Lukács começa a ser conhecido pelo movimento comunista e, consequentemente, pela esquerda brasileira (Frederico, 1995, p.188). A denúncia dos crimes do regime stalinista alastrou no cenário socialista global uma séria de incertezas. No Brasil, esse movimento foi parcialmente revertido pela Declaração de Março de 1958, que sinalizou um movimento de ruptura e afastamento das posições stalinistas. 4 Na prática, no entanto, um movimento de renovação estava em andamento, mesmo no período anterior ao XX Congresso de 1956. As obras de autores como Luiz de Aguiar Costa Pinto, Nelson Werneck Sodré e, sobretudo, Caio Prado Jr. atestam o perigo da realização de uma tabula rasa entre o pré e o pós-movimento renovador (ainda que algumas fragilidades de suas obras possam ser destacadas). Contudo, no contexto no qual se in- 3 A descoberta de György Lukács no Brasil, simultaneamente com a de Ernst Bloch, começou por Guerreiro Ramos em 1955 no Instituto Superior de Estudos Brasileiros [ISEB] no Rio de Janeiro, em conferência intitulada A Problemática da Realidade Brasileira, reunida, com outros textos de Guerreiro Ramos, no livro O Problema Nacional do Brasil. [ ] A obra lukácseana (sic) ali citada é a tradução italiana Il marxismo e la critica letteraria pela editora Einaudi de Turim, 1953. [ ] [Portanto,] a recepção de Lukács no Brasil principiou através da Itália (Chacon, 1992, p.416). 4 Em 1956, o PCB é abalado de cima a baixo pelo XX Congresso do PCUS, que dá início à desestalinização. A isto juntam-se os problemas internos acumulados durante vários anos e vindos à tona nesse momento. Depois de uma certa perplexidade, abre-se um debate intenso, cujos desdobramentos terão como frutos uma mudança na política do partido, que já se manifestam na Declaração de março de 1958 e num texto de Luís Carlos Prestes, onde o PCB faz sua autocrítica e começa a esboçar a definição de uma política diferente daquela seguida anteriormente (Segatto, 1989, p.129).

18 MARXISMO E LITERATURA seriu, a Declaração possuía inegáveis méritos, sendo o maior deles a recolocação da centralidade da questão democrática. Como afirma Celso Frederico: No plano internacional, iniciava-se um debate nos partidos comunistas ainda perplexos com o processo de desestalinização. Internamente, os grupos renovadores já haviam obtido uma importante vitória política com a Declaração de Março de 1958, documento aprovado pela direção do PCB, que acena pela primeira vez para a centralidade da questão democrática na construção do socialismo, rompendo assim, com a estratégia insurrecionista e com o dogmatismo fomentado pela importação de modelos teóricos (no caso: o modelo de revolução para os países coloniais, elaborado pela Internacional Comunista de 1928 e, desde então, seguido pelo PCB) (Frederico, 1995, p.190). 5 A intensificação desse processo de acumulação cultural e a constituição de um ambiente de efervescência cultural sem precedentes no Brasil caracterizaram o período que antecedeu o golpe militar de 1964. As condições econômicas favoráveis proporcionaram uma ampliação da classe média, o que impulsionou a criação de uma indústria cultural local como aponta Frederico e promoveu o fortalecimento de movimentos editoriais mais à esquerda, chegando mesmo a garantir uma relativa hegemonia cultural que, inclusive, sobreviveria ao golpe. 6 Outras formas de protesto também surgiram, como a bossa nova, o CPC, o Cinema Novo etc., configurando 5 Coutinho, de acordo com essa visão, escreve que: Na esteira do XX Congresso e da consequente renovação do PCB, teve lugar entre nós uma abertura do marxismo, uma quebra do monopólio quase exclusivo dos manuais soviéticos de marxismo-leninismo (Coutinho, 2009, p.12). 6 Em 1964 instalou-se no Brasil o regime militar, a fim de garantir o capital e o continente contra o socialismo. [ ] Entretanto, para a surpresa de todos, a presença cultural da esquerda não foi liquidada naquela data, e mais, de lá para cá não parou de crescer. A sua produção é de qualidade notável nalguns campos, e é dominante. Apesar da ditadura da direita, há relativa hegemonia cultural da esquerda no país (Schwarz, 2008, p.71).

RAFAEL DA ROCHA MASSUIA 19 um momento único na história brasileira mais recente. Segundo Frederico (1995, p.193), esse era o cenário em que ocorreu a publicação das primeiras traduções de Lukács. Com a deflagração do golpe militar, contraditoriamente mas não sem uma explicação razoável, o interesse pela obra de Lukács aumentaria gradativamente. Ao fechar as portas da participação política institucional, o golpe militar de 1964 fez da resistência cultural um polo de aglutinação dos opositores do regime (Frederico, 1995, p.192). Em decorrência, o engajamento crescia com a expansão do nível cultural geral, o que culminou na formação de um verdadeiro front antiditatorial. Como nos resume José Paulo Netto (2009, p.13-14): O golpe de 1 o de abril de 1964 não interrompeu o acúmulo ideo- -cultural que vinha dos anos precedentes, anos de precipitação democrática; ao contrário, dinamizou-o, aglutinando o melhor da intelectualidade brasileira no campo da democracia e dos projetos revolucionários sabe-se que raros foram os intelectuais de peso que aderiram de forma aberta à ditadura. Realmente, na segunda metade dos anos 1960 condensou-se um caldo de cultura progressista que, entre os segmentos intelectuais mais jovens, tinha um claro sentido revolucionário. A tese defendida por Netto ganha eco nas posições de Frederico (2007, p.344), pois esse defende que, no imediato pós-1964, os artistas e intelectuais ligados ao PCB deram inicialmente o tom na produção artística. Isso, naturalmente, em função do conturbado contexto político que o país atravessava, era um convite para o estabelecimento de uma resistência cultural,uma vez que havia um sentimento de necessidade do estabelecimento de uma [ ] política de unidade no front cultural, tendo em vista a necessidade de lutar pela democratização do país. Assinalando a contraditória manutenção dos influxos pré-1964 no cenário cultural brasileiro o qual promoveu uma contraditória intensificação pelo interesse em Lukács, está o fato de que as ideias do pensador passaram a atender a interesses

20 MARXISMO E LITERATURA estratégicos de oposição à ditadura, sem que isso implicasse a sua apropriação crítica mais duradoura pelo marxismo, em um âmbito mais geral, como veremos. Marxismo e estética A referência central do marxismo no campo da cultura, do final do século XIX ao início do XX, foi Georgi Plekhanov, autor de A arte e a vida social. A posição teórica do pensador russo era típica de um marxismo vulgar, que não permite a exploração da rica dialética entre base e estrutura; o que significa um empobrecimento em suas análises sobre a arte e a literatura. Outro autor que procurou se inserir nessa problemática teórica, também sem alcançar grandes resultados, foi o alemão Franz Mehring. Ambos os pensadores possuem em comum um marxismo simplificador, que os impossibilitava objetivamente de procederem com pesquisas férteis no campo artístico. Dois dos mais importantes intelectuais lukacsianos hoje, Guido Oldrini 7 e Nicolas Tertulian, 8 concordam que tanto Plekhanov quanto 7 Plekhanov, os pseudomarxistas em geral da Segunda Internacional recaem, segundo Lukács, num ecletismo incoerente. Céticos acerca da capacidade do marxismo de resolver, no seu bojo os problemas da imanência estética da obra de arte, pretendem de fora completá-lo em estética, com Kant, como faz Mehring, ou com o positivismo (Oldrini, 1999, p.76). 8 Podemos fazer as mesmas considerações, mutatis mutandis, a propósito de seus escritos estéticos e de crítica literária. Ele criticava, por exemplo, a Mehing e sobretudo a Plékhanov, uma aproximação demasiadamente retilínea das relações entre a base econômica e a ideológica, e por consequência entre as concepções filosóficas dos escritores e a estrutura de suas obras. Mesmo demonstrando uma grande estima pelo marxista alemão Mehring por sua corajosa atividade, Lukács achava que na análise das obras de Lessing, Hebbel ou Nietzsche, ele estabelecia correlações muito diretas. [Escapam] a ele as mediações mais sutis da expressão ideológica: a dialética interna das obras não era suficientemente posta em relevo, sua especificidade estética ou filosófica negligenciada em favor da expressão ideológica direta, a complexidade das relações entre posição sócio-histórica e sublimação literária ou filosófica, por vezes sacrificada (no caso de Hebbel, por exemplo) (Tertulian, 2007, p.19).

RAFAEL DA ROCHA MASSUIA 21 Mehring não viam a possibilidade da edificação de uma teoria da arte marxista e, em função disso, recorriam a outras correntes teóricas visando suprir essa falha teórica que julgavam encontrar. Enquanto Mehring teria proposto uma incorporação das concepções estéticas kantianas (via, sobretudo, a Crítica do julgamento), Plekhanov teria insistido na referida simplificação da teoria de Marx, cujo escopo teórico posteriormente ficaria conhecido, de forma depreciativa, como sociologismo, ao buscar adequar mecanicamente o fenômeno literário às manifestações econômico-políticas. Lukács, em texto autobiográfico, tratando dessa questão, faz as seguintes considerações: Plekhanov e Mehring achavam que era necessário completar Marx quando eram debatidas questões diversas das econômico- -sociais. [Como consequência] [ ] Mehring insere a estética kantiana na teoria de Marx, e Plekhanov, uma estética em substância positivista. [ ] Logo, devia haver uma estética marxiana própria, que o marxismo não tomava nem de Kant, nem de nenhum outro. Essas ideias foram elaboradas por Lifschitz e por mim. Naquele tempo eu trabalhava com ele no Instituto Marx-Engels. Com a elaboração dessas ideias teve início todo o nosso desenvolvimento subsequente. A constatação não é comum hoje na história da filosofia, no entanto o fato é que fomos os primeiros a falar de uma estética marxiana específica, e não desta ou daquela estética que completasse o sistema de Marx (Lukács, 1999, p.87-88). De acordo com a originalidade e a importância da obra de Lukács, o pensador português Adolfo Casais Monteiro (1963), no texto A crítica sociológica da literatura, realiza uma breve síntese das posições teóricas anteriores ao período de atuação teórica do pensador húngaro. Para Monteiro, Lukács é o primeiro teórico interessado pela dimensão sócio-histórica (em oposição aos esteticistas) que, efetivamente, consegue conceber, no plano da teoria, o fenômeno literário em sua especificidade, conjugando harmonicamente as dimensões estética e sócio-histórica (sem cair em um determinismo de tipo plekhanoviano).

22 MARXISMO E LITERATURA Em um contexto de hegemonia de um marxismo empobrecido e empobrecedor, seja por Mehring ou Plekhanov, a obra de Lukács significou um grande avanço no sentido da apreensão da literatura por uma posição teórica calcada no marxismo. Contudo, tendo em vista as dificuldades políticas encetadas pelo esforço do regime stalinista de sob a égide cultural de Jdanov estabelecer uma orientação artístico-cultural oficial, os problemas encontrados por pensadores que ousassem desafiar os fundamentos do realismo socialista, por vezes, os submetiam a situações indesejadas. Como afirma Monteiro (1963, p.45): Por isso mesmo um Lukács nem sempre teve a possibilidade de exprimir as duas ideias, e o exprimi- -las valeu-lhe séries riscos, por mais que uma vez. E prossegue, referindo-se à obra lukacsiana: Desde 1930, ou seja: desde que Lukács iniciou uma obra a todos os títulos notável, tendo em vista formular uma interpretação realmente marxista da literatura... Porque este é, na verdade, o único testemunho válido duma teoria e duma crítica, não só de inspiração marxista, mas que atende à básica exigência de não se confundir literatura e fatores sociais ou antes, de não se afirmar a dependência daquele em relação a estes, mas sim a interdependência respectiva, num plano que até então tinham evitado quantos manifestarem idênticas ambições. [ ] A surpresa de quem aborda os trabalhos de Lukács de teoria e crítica literárias é encontrar uma linguagem inteiramente diversa de que exemplificamos com os textos de Plekhanov. Pela primeira vez em toda a história do marxismo, Lukács aborda a literatura como literatura (Monteiro, 1963, p.44-45, grifo nosso). Se no plano teórico havia a predominância de uma certa corrente marxista de extração positivista, no que diz respeito à política cultural a situação era ainda mais problemática. Seguindo as determinações gerais jdavonistas, os partidos comunistas de todo o mundo encabeçavam uma campanha que tinha como consequência o empobrecimento das correntes artísticas em nome de uma suposta

RAFAEL DA ROCHA MASSUIA 23 defesa da cultura proletária ; aqueles que não se adequassem às exigências eram imediatamente tidos como traidores de classe. Como esperado, o Partido Comunista Brasileiro não conseguiria ficar imune a essa política cultural oficial. Porém, como aponta Antônio Rubim (2007, p.378), a aplicação de tal projeto no país, felizmente, não pode ser plenamente realizada, pois, apesar das tentativas de imposição generalizada das concepções jdanovistas (amplamente referendadas por Stalin), houve espaços de reação, de modo que só [ ] marginalmente essa rota foi trilhada. No período posterior, em função dos desdobramentos ocorridos nos anos 1950 quando finalmente começam a aparecer espaços para o surgimento de correntes interessadas em refletir seriamente sobre as questões artísticas e literárias, essas tendências são gradativamente abandonadas e os movimentos emergentes passam a desempenhar funções de relativa hegemonia no campo da esquerda brasileira (e não é exagero dizer que passaram a exercer relevância no cenário cultural mais geral). Se, no que diz respeito ao campo da teoria da arte, o quadro era de empobrecimento teórico, não é possível afirmar que havia uma situação tão catastrófica quanto no político. Até o início dos anos 1960, a influência estética era predominantemente a de Plekhanov, o que significou o mencionado empobrecimento teórico, mas que produziu alguns pensadores que têm como principal mérito a observação de reflexões inovadoras no campo artístico-cultural brasileiro. Importantes pensadores do período, como Astrojildo Pereira 9 e Nelson Werneck Sodré 10 tinham como principal referência, no 9 Parece-me essencialmente correto o juízo de Konder [ ] sobre os fundamentos teóricos da crítica literária de Astrojildo. Segundo esse analista, Astrojildo tendia a pensar a crítica conforme os parâmetros de uma sociologia da literatura [ ]. Com efeito, o quadro teórico de Astrojildo era pobre: basicamente, ele não ultrapassou nunca as colocações típicas de Plekhanov (Netto, 2004b, p.173). 10 Ainda que, em um momento posterior, Sodré passe a incorporar Lukács, como afirma Otsuka (2009, p.109): Não obstante as declarações de princípio apoiadas em Lukács, as quais sinalizam o desejo de ultrapassar o marxismo vulgar, o trabalho de Sodré permanece limitado ao estudo paralelístico ou ao ângulo externo da sociologia da literatura, tanto na História quanto no livro sobre O Naturalismo no Brasil, editado em 1965.

24 MARXISMO E LITERATURA campo estético-literário, o pensador russo. Mas o trabalho crítico de Astrojildo sobre Machado de Assis e a vasta obra de história e crítica literárias de Sodré não podem ser desprezados (ainda que devam ser compreendidas em seus contextos específicos). É claro que, concomitantemente, surgia no âmbito universitário, sobretudo ao redor da figura de Antonio Candido, uma corrente de interpretação literária crítica de grande relevo. Entretanto, a incorporação das ideias de Lukács nessa esfera permaneceriam periféricas em virtude de Candido [ ] já [ter] desenvolvido uma teoria sobre as relações entre literatura e sociedade a partir da sociologia funcionalista, do new criticism etc. (Frederico, 1995, p.218); apesar de uma clara inclinação marxista do autor e da existência de um diálogo com as concepções do pensador húngaro na obra do crítico e historiador da literatura o que se constata por menções em [ ] salas de aula e em algumas breves referências em textos e palestras do final da década de 1950 e início do período seguinte. Essa influência, referida pelo autor, seria mais perceptível na obra dos discípulos de Candido, mas é Roberto Schwarz, talvez, aquele que melhor soube se valer dos avanços teóricos realizados por Candido. A partir da interpretação do desenvolvimento da literatura brasileira formulada originalmente por Candido em Formação da literatura brasileira (1959), Schwarz põe à prova a tese de que a literatura nacional só experimentaria um acabamento efetivo na obra literária de Machado de Assis, noção proposta e defendida em seu estudo dedicado ao grande escritor: Ao vencedor as batatas (1977) e Um mestre na periferia do capitalismo: Machado de Assis (1990). Com a leitura da obra schwarziana, fica claro que a referência a Lukács se faz presente, mesmo que as referências no campo teórico sejam, em grande medida, a outros teóricos marxistas como Theodor W. Adorno e Walter Benjamin. 11 Cabe ainda mencionar os esforços de Alfredo Bosi de pensar a literatura brasileira valendo-se de algumas 11 A discussão sobre a importante obra de Roberto Schwarz será matéria de um outro estudo que pretendemos realizar (que se encontra ainda em estágio inicial).

RAFAEL DA ROCHA MASSUIA 25 ideias de Lukács e do discípulo francês desse, Lucien Goldmann, como se atesta em História concisa da literatura brasileira. No entanto, é inegável que a inserção posterior das concepções estético-literárias de Lukács significou um grande avanço, tanto para as discussões locais quanto para o cenário mais geral. 12 O quadro de referências teóricas do debate internacional era basicamente o mesmo, de modo que a recepção de Lukács fez surtir grande impacto nas discussões sobre a cultura e a arte. Porém, assim como em outros países, a recepção das ideias de Lukács esteve imediatamente inserida em amplas discussões, de cunho mais político do que teórico, tendo por vezes descido ao nível de acusações pessoais. 13 É nesse contexto que surgem as ideias de Lukács no Brasil, que serviram de base para a fundamentação, por parte de um grupo de jovens pensadores, de uma política cultural socialista plural: A recepção das ideias de Lukács foi também marcada pelas inúmeras polêmicas em que se envolveu durante sua produtiva vida intelectual. Sob este ponto de vista, não há muita novidade: sua recepção no Brasil reproduz em linhas gerais a diversidade de posições existentes na Europa frente a sua obra. O que há de específico na recepção brasileira é o contexto histórico-político em que se deu, bem como as utilizações de suas ideias para a formação de um projeto de política cultural desenvolvido por um grupo de intelectuais ligados ao Partido Comunista Brasileiro (Frederico, 1995, p.197). 12 Não é, portanto, por acaso que Candido afirme que, [ ] com Lukács ela [a análise literária] assume matizes novos, que abrem para outras perspectivas, sobretudo porque ele se interessava não apenas pela transposição do fato em tema, mas pela função deste processo na estruturação da obra. Neste caso, o elemento social se torna fator de constituição da estrutura, não modelo do conteúdo, e o paralelismo se atenua até eventualmente desaparecer (Candido, 2002, p.53). 13 O tom dogmático das críticas de pensadores como Lichtheim (1970), não chega a chocar o leitor. É, no entanto, lastimável que um teórico do quilate de Adorno (2002) tenha se envolvido em uma discussão de tal nível, que constantemente abandona completamente a análise da obra lukacsiana para simplesmente realizar ataques de ordem pessoal.

26 MARXISMO E LITERATURA Lukács no Brasil A função da apropriação do referencial teórico lukasciano pelos comunistas era bastante clara: a proposta de criação de uma política cultural democrática com vista ao rompimento, de uma vez por todas, com o sectarismo jdanovista. 14 A ligação entre marxismo e estreitamento artístico era inevitável, principalmente em função da intensidade policialesca com que se dava a política cultural oficial. Seria uma das principais tarefas do grupo liquidar com esse passado recente, desanimador para aqueles que se inseriam no campo da cultura e da arte e buscavam refletir essas questões a partir da ótica de um marxismo não empobrecedor. A peculiaridade e a importância da obra de Lukács foram acentuadas não só pelo sectarismo dos seus predecessores, mas também pelo caráter revolucionário e polemista que ela assumiu naquele contexto. No cenário internacional, Lukács apareceu como um dos principais representantes de uma tentativa de renovação do marxismo, propondo um retorno aos escritos de Marx e Engels. Com isso não queremos dizer que não haja elementos novos na obra do pensador húngaro muito pelo contrário, tendo em vista que seus predecessores afirmavam a impossibilidade de erigir uma teoria da arte a partir dos escritos marx-engelsianos, mas somente sublinhar que a sua proposta de retomar os escritos originais dos pensadores alemães, naquele momento, coincidiu perfeitamente com a tentativa de apagar as influências stalinistas do pensamento marxista, sinalizando um recomeço. Em Lukács, como nos teóricos influenciados por uma abordagem marxista não vulgar da literatura, a análise teórica não se 14 Frederico, ilustrando essa faceta da abordagem lukasciana, fornece o seguinte exemplo: A polêmica de Lênin contra a proletkult, retomada e desenvolvida por Lukács na década de 1930, em seus comentários aos romances proletários de E. Ottwualt e W. Bredel, forneceu uma sólida referência teórica para os comunistas contrastarem sua inspiração a uma literatura verdadeiramente realista com o velho naturalismo travestido com roupagens operárias (Frederico, 2007, p.358-359).

RAFAEL DA ROCHA MASSUIA 27 esgota nos aspectos sócio-históricos da obra de arte; buscando uma compreensão mais ampla da literatura, a investigação estética também se faz necessária. A novidade da posição lukacsiana, porém, reside na proposta de uma necessária vinculação entre os dois polos, 15 não como uma exigência de caráter externo, mas como proveniente da natureza específica da obra de arte, que por si demanda uma correta análise levar em conta esses dois fatores concomitantemente. Na esteira dos pensadores alemães, Lukács tenta fundamentar, em bases materialistas, uma teoria estética marxista autônoma. Já em 1931, Lukács escreve o texto O debate sobre o Sickingen de Lassalle, publicado somente em 1933 (Lukács, 1979), no qual o filósofo húngaro indica a existência de uma estética in nuce nos escritos de Marx e Engels. Nesse artigo, Lukács reconstrói a discussão sobre a tragédia Franz von Sickingen de Ferdinand Lassalle, sublinhando as críticas marx-engelsianas à obra lassalleana, sempre ancoradas em uma perspectiva histórico-estética, preocupada com a dimensão sócio-histórica dos indivíduos figurados e, simultaneamente, com as características artísticas da própria figuração. Na arte, é sabido que determinadas épocas de florescimento não guardam nenhuma relação com o desenvolvimento geral da sociedade, nem, portanto, com o da base material, que é, por assim dizer, a ossatura de sua organização. [ ] Se esse é o caso na relação dos diferentes gêneros artísticos no domínio da arte, não surpreende que seja também o caso na relação do domínio da arte como um todo com o desenvolvimento geral da sociedade. A dificuldade consiste simplesmente na compreensão geral dessas contradições. Tão logo são especificadas, são explicadas (Marx, 2011, p.62). 15 Nesse sentido que Costa Lima afirma: [ ] [O] ideal será conjugar a informação sociológica sobre o contexto histórico com um conhecimento preciso do estatuto do discurso analisado, para que assim se escape quer da tendência de ver a obra como ilustração de certa força social, quer da tendência estetizante oposta, na qual vigora um hiato hierarquizante entre o contexto, elemento de ambiência da obra, e o texto, a ser imanentemente indagado (Lima, 2002, p.662).

28 MARXISMO E LITERATURA Dito isso, Marx constrói uma importante questão que norteará toda formulação lukacsiana sobre a arte. O pensador alemão elabora uma falsa questão ao sugerir que a resposta para o enigma artístico está na compreensão da formação social sob a qual surgem as expressões artísticas correspondentes; se encerrasse aqui, a busca pelo equivalente sociológico de cada obra de arte coincidiria com sua análise artística ou crítica, mas Marx vai além, indagando-nos sobre a causa da perdurabilidade do deleite e da fruição que as grandes obras nos suscitam: Mas a dificuldade não está em compreender que a arte e o epos gregos estão ligados a certas formas de desenvolvimento social. A dificuldade é que ainda nos proporcionam prazer artístico e, em certo sentido, valem como norma e modelo inalcançável (Marx, 2011, p.64). Esses importantes escritos de Marx um dos mais expressivos dentre aqueles que tratam diretamente sobre arte e literatura defendem que a abordagem histórica não deve escamotear os aspectos estéticos, o que endossou em Lukács a compreensão da autonomia relativa da arte em relação à sociedade. A partir das indicações de Marx, torna-se fundamentada, por um lado, a crítica às concepções da arte como produto mecânico da sociedade, por outro, das concepções idealistas da arte que a veem como produto de uma dialética própria, sem relação com as demais esferas. 16 Outras indicações de extremo valor foram as deixadas por Engels, sobretudo em sua correspondência, sobre a questão do realismo usando o exemplo de Honoré de Balzac, que Marx confessaria 16 Como Lukács formulou posteriormente: É imprescindível determinar o lugar do comportamento estética na totalidade das atividades humanas, das relações humanas ao mundo externo, assim como a relação entre as formações estéticas que daí surgem, sua estrutura categorial (forma etc.) e outros modos de reação à realidade objetiva (Lukács, 1982, p.11).

RAFAEL DA ROCHA MASSUIA 29 ser o seu romancista favorito. Em carta endereçada à miss Harkness, diz Engels sobre o escritor francês: O fato de Balzac ter sido forçado a ir contra as próprias simpatias de classe e contra seus preconceitos políticos, o fato de ter visto o fim inelutável de seus tão estimados aristocratas e de os ter descrito como não merecendo melhor sorte, o fato de ter visto os verdadeiros homens do futuro no único local onde, na época, podiam ser encontrados tudo isso eu considero como um dos maiores triunfos do realismo e uma das características mais notáveis do velho Balzac (Engels apud Lukács, 2009, p.119). A evolução da concepção do fenômeno literário e a dialética entre o literário e suas implicações histórico-sociais iniciam-se nos textos lukacsianos de juventude. Passando pela modificação de perspectiva, resultantes da adoção do marxismo como fonte teórica, elas começam nos anos de 1930 e têm um de seus pontos mais elevados na redação do livro O romance histórico, em 1937. A obra tardia do pensador húngaro terá como maior marco a publicação de A especificidade do estético, 17 em 1963 ainda que outros textos importantes, como os dedicados ao escritor russo Alexander Soljenítsin, tenham sido escritos posteriormente. Em relação a O romance histórico, Tertulian (2008, p.178) chega a afirmar, para situar-nos em relação ao trato lukacsiano da estética, que na época de sua redação: [...] seus conhecimentos literários e suas experiências estética já eram imensos. O que o marxismo traz de novo em sua concepção se manifesta pelo rigor que preside à elucidação das relações entre a gênese sócio-histórica das obras literárias e sua substância estética. 17 Um excelente texto, em que se realiza um resumo ao mesmo tempo didático e rigoroso da Estética de Lukács, que possui tradução para o português, é aquele escrito por sua ex-discípula Agnes Heller (1986).

30 MARXISMO E LITERATURA O julgamento do valor estético e o julgamento da existência sócio- -histórica se comunicam de modo orgânico. No prólogo da sua magnum opus estética, podemos observar um forte traço de continuidade em relação à obra de 1937. Lukács resume como deve ser realizada a análise estética: Se trata, antes de mais nada, de estudar o problema do desenvolvimento desigual na gênese, no ser estético, nas obras e no seu efeito nas artes. Mas isso significa, ao mesmo tempo, uma ruptura com toda vulgarização sociológica acerca da origem e da ação das artes [ ], uma análise sócio-histórica que não simplifique as coisas é impossível se ela não se valer dos resultados das investigações sobre a construção categorial, a estrutura e a natureza específica de cada obra de arte; resultados que devem ser aplicados constantemente para se conhecer o caráter histórico das obras (Lukács, 1982, p.14). 18 O caráter social da obra de arte, como já se pode afirmar a essa altura, provém da necessidade de ela ser entendida como reflexo da sociedade na qual está inserida. 19 Nesse sentido, Lukács retoma o conceito aristotélico de mimesis [μίμησις] e retoma, igualmente, a repulsa do filósofo grego à identificação do procedimento mimético com a noção de cópia mecânica do real. Aristóteles deu ao desenvolvimento da estética um impulso duradouramente salutar, na medida em que, por um lado, colocou 18 Nesse sentido, segundo Nicolas Tertulian (2008, p.229), Lukács recusa [...] as tendências genetistas do gênero da teoria de Plekhanov: a missão do crítico é descobrir o equivalente sociológico na obra literária. Estigmatiza essas tendências desde os anos 1930-1940 como pertencentes à sociologia vulgar. 19 O imenso poder social da literatura consiste precisamente em que nela o homem surge sem mediação, em toda riqueza de sua vida interior e exterior; e isto num nível de concretude que não pode ser encontrado em nenhuma outra modalidade do reflexo da realidade objetiva (Lukács, 2010, p.80). É nesse sentido que Edward Said afirmaria: Em outras palavras, Lukács foi capaz de sistematizar os processos pelos quais a realidade entra na arte e é refletida por ela (Said, 2003, p.17).

RAFAEL DA ROCHA MASSUIA 31 no centro da estética o reflexo da realidade objetiva e não o reflexo das ideias, como no neoplatonismo; por outro lado, porém, e ao mesmo tempo, este reflexo foi por ele energicamente diferenciado da cópia puramente mecânica da realidade (Lukács, 1968, p.127). Outro pensador que ganha centralidade na sistematização lukacsiana é Hegel. Lukács vale-se de alguns dos importantes avanços teóricos obtidos pelo esforço intelectual do filósofo alemão. O pensador húngaro sublinha repetidas vezes a importância da descoberta hegeliana do caráter histórico-concreto da obra literária, utilizado em suas análises das obras individuais, possibilitando-o a compreensão da literatura em sua especificidade, um notável avanço em relação aos seus predecessores. Lukács resume a influência hegeliana da seguinte forma: Contudo, para Hegel, a concreção histórica do conteúdo não equivale nunca a um relativismo histórico. Ao contrário: de acordo com a estética hegeliana, somente uma tal concreção do conteúdo pode dar lugar a uma determinação dos critérios estéticos. Isto se aplica, antes de mais nada, à avaliação estética das obras de arte, à definição do critério da grande obra, na medida em que esta expressa com amplitude, profundidade e de modo intuitivo [ ] toda a inesgotável riqueza de cada conteúdo particular. É o conteúdo, ademais, que oferece o critério para avaliar em que medida o artista se expressa em uma forma viva ou morta (ou seja, neste caso, de modo formalista, como epígono) em cada gênero artístico: isto é, o critério para avaliar a correção da escolha do gênero é também o conteúdo histórico de cada caso. As formas dos gêneros artísticos não são arbitrárias. Surgem, ao contrário, da concreta determinação de cada estado social e histórico (estado do mundo). Seu caráter e peculiaridade são determinados pela sua capacidade de expressar os traços essenciais da fase histórico-social dada (Lukács, 2009, p.55). Hegel não só consegue romper com a falsa dicotomia entre historicismo e esteticismo, como oferece um referencial que dá conta

32 MARXISMO E LITERATURA de precisar a natureza específica do fenômeno artístico. Avança, ainda, no sentido de estabelecer as peculiaridades de cada gênero e obra singular, sempre vinculando-as ao processo histórico mais geral. Processando em suas análises a dialética entre conteúdo social e forma estética, Hegel possibilita uma compreensão do processo dialético existente também no interior da obra literária. Em sua estética, Hegel progride mais do que nas determinações abstratas da lógica; com frequência, vê claramente que, em todo fenômeno estético, o conteúdo concreto determina a forma estética concreta e aplica esta visão em suas análises. Na história da estética, esta é uma conquista cuja importância é ainda maior na medida em que Hegel concebe o conteúdo sempre de modo histórico, ou seja, como conteúdo necessário de um determinado período histórico ou de uma determinada fase de desenvolvimento. Aliás, Hegel oferece mais de uma exposição na qual o caráter social dessa historicidade aparece mais ou menos nitidamente, de modo que, em numerosas análises da sua estética, podemos encontrar a dialética concreta entre conteúdo social e forma estética (Lukács, 2009, p.60). Lukács retoma esses avanços teóricos realizados por Hegel, sobretudo a questão do conteúdo histórico-social, que as obras de arte necessariamente expressam (quando realmente grandiosas), vinculando-o às constelações estéticas que emergem do solo social ainda que essa questão não possa ser resumida de maneira simplista e esquemática, tratando-se de complicado processo analítico. A obra de arte, agora pensada em uma dimensão mais ampla, encerra em si uma substância humana latente, conformada historicamente. Para Lukács (2010, p.16) [ ] o que há de humano na base de uma obra de arte, a atitude que ela plasma como possível, como típica ou exemplar, é o que decide em última instância se bem que somente em última instância sobre como se apresentam o conteúdo e a forma da obra em questão, sobre o que ela representa na história da arte e na história da humanidade. No método da crítica, isto tem como consequência

RAFAEL DA ROCHA MASSUIA 33 o seguinte dilema: esta questão última do conteúdo do conteúdo humano e, secundariamente, portanto, do conteúdo histórico- -social e estético constitui o elemento preponderante da análise e do julgamento, ou, pelo contrário, esta preponderância cabe à inovação técnica em questão? Somente por uma harmoniosa relação entre conteúdo e forma que se torna possível ao artista atingir a essência universal da processualidade histórica do seu tempo, figurada por meio de indivíduos concretos interagindo concretamente entre si e o meio, plasmados na e através da particularidade, que é a zona de domínio da arte. 20 Na literatura esse recurso se expressa através do típico (Lukács, 1968, p.235). 21 A realidade mesma é histórica em função de sua essência objetiva; das determinações históricas, conteudísticas e formais, que 20 Um importante livro de Lukács (1968), escrito e publicado nos anos 1950, foi traduzido para o português sob o título Introdução a uma estética marxista, que segue a lógica da edição italiana, cujo título saiu como Prolegomini a un estetica marxista. Na verdade, o título original Über die Besonderheit als Kategorie der Ästhetik, traduz-se mais proximamente a Sobre a particularidade como categoria estética, assinalando a importância desse conceito no edifício teórico lukacsiano. Diz-nos Lukács (1968, p.161) na referida obra: [ ] [O] reflexo estético quer compreender, descobrir e reproduzir, com seus meios específicos, a totalidade da realidade em sua explicitada riqueza de conteúdos e formas. Modificando decisivamente [ ] o processo subjetivo, ele provoca modificações qualitativas na imagem reflexa do mundo. A particularidade é sob tal forma fixada que não pode mais ser superada: sobre ela se funda o mundo formal da obra de arte. 21 O que não exclui, em nenhum momento, a questão da objetividade da forma artística: A estética marxista não pode partir senão do conceito da objetividade dialética da forma artística em sua concreção histórica. Isso significa que tem que rechaçar toda tentativa de se relativizar sociologicamente as formas artísticas, de transformar a dialética em sofisma [ ] No entanto, com a mesma resolução deve-se rechaçar a tentativa de dar às formas artística uma pseudo-objetividade abstrata, construindo a forma artística, a diferença das configurações formais, de um modo abstrato, independente do processo histórico (Lukács, 1977, p.225).

34 MARXISMO E LITERATURA aparecem nos diferentes reflexos são, como que, aproximações mais ou menos adequadas a esse aspecto da realidade objetiva. Mas uma autêntica historicidade não pode consistir em uma mera alteração de conteúdos em formas imutáveis [ ] Justamente o devir dos conteúdos tem que influir, necessariamente, nas formas, modificando-as [ ] (Lukács,1982, p.23). Com isso, o filósofo húngaro equaciona a relação entre literatura e sociedade em um nível superior e mais complexo. Reforçando a sua relativa autonomia, Lukács lembra-nos que nem [ ] a ciência, nem os seus diversos ramos, nem a arte, possuem uma história autônoma, imanente, que resulte exclusivamente de sua dialética interior. (Lukács, 2009, p.88). Portanto, ainda que não reduzindo a arte ao solo social no qual insere-se, estipula-o como condicionante ineliminável, integrando dialeticamente, fundindo os elementos artísticos aos sociais, o que nos traz novamente à afirmação do caráter social da literatura. 22 Nas palavras de Lukács: Portanto, a existência e a essência, a gênese e a eficácia da literatura só podem ser compreendidas e explicadas no quadro histórico geral de todo o sistema. A gênese e o desenvolvimento da literatura são parte do processo histórico geral da sociedade. A essência e o valor estético das obras litrárias, bem como a influência exercida por elas, constituem parte daquele processo social geral e unitário mediante o qual o homem se apropria do mundo por meio de sua consciência (Lukács, 2009, p.89). 23 22 Ideia que é reforçada na afirmação de Roberto Schwarz: No âmbito do marxismo, a ligação entre literatura e sociedade não é uma audácia, é uma obrigação (Schwarz, 2006, p.146). 23 Nessa mesma direção, afirma Ianni: Em razão da relação evidente ou implícita, real ou imaginária, transparente ou esquizofrênica, com a realidade, a sociologia e a literatura revelam-se formas de autoconsciência (Ianni, 1999, p.39). E prossegue: Nesse sentido é que algumas obras de literatura, assim como de sociologia, podem ser e têm sido tomadas como síntese de visões do mundo prevalecentes na época (ibidem, p.41).