AS IDÉIAS DE MENGER E MARX ACERCA DA TEORIA DO VALOR

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DOI: 10.4025/4CIH.PPHUEM.464 AS IDÉIAS DE MENGER E MARX ACERCA DA TEORIA DO VALOR INTRODUÇÃO Moacir José da Silva, Dr. Professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Maringá. Erimar Laurindo Ricato Acadêmico do curso de História da Universidade Estadual de Maringá. Integrante do PIC/PPG - UEM Este trabalho aborda a questão da teoria do valor e o modo como ela é concebida especialmente por Marx (1983) e Menger (1983). As concepções de valor estão relacionadas ao modo como se interpreta o funcionamento da economia e por isso mesmo ela permanece como questão crucial para o entendimento das relações de produção. O enfoque deste trabalho é a contraposição ente duas concepções opostas no campo da teoria do valor. De um lado, temos a concepção marxista salientando o trabalho como referencial quantitativo para o valor de uso e para o valor em geral. Este ponto é desenvolvido especialmente na primeira seção deste trabalho. A segunda parte deste trabalho enfatiza a teoria mengeriana e sua ênfase no aspecto subjetivo do valor. Aqui ganha força a idéia de que a determinação do valor é expressão de condições gerais todas relacionadas a interesses subjetivos individuais e circunstâncias específicas de mercado, oferta e demanda no tempo e no espaço. A NOÇÃO MARXISTA DE TEORIA DO VALOR A teoria da mais-valia se coloca como mais um capítulo do processo geral de recuperação que Marx (1983) fez da Economia política Clássica de Adam Smith (1983) e David Ricardo (1983). Um dos seus pontos básicos é a idéia de que o valor é determinado pela quantidade de trabalho necessário dentro de determinadas condições sociais. Para a realização de algum valor de uso no contexto dessa teoria não existe nenhum valor de uso que não seja ele concretização do trabalho humano. De acordo com isso o valor de troca seria uma forma de criar uma mensuração quantitativa do valor de uso; ele expressaria a utilidade da mercadoria ao mesmo tempo em que seria uma concretização de um quantum de trabalho. No

3752 entanto, para que esse quantum de trabalho seja trocado por outra mercadoria é importante que ele possa ser mensurado. Será, pois, precisamente para mensurá-la que existe então o valor de troca. O cerne da teoria marxista do valor é a noção de que o valor de troca é uma mensuração quantitativa do valor de uso. Como corolário da noção quantitativa do valor de uso, Marx (1983) afirmava que quando uma mercadoria fosse trocada seria necessário que houvesse um equivalente geral, o equivalente comum. Para trocar mercadorias seria preciso a existência de algo equivalente entre elas; deveria haver uma igualdade de forma a possibilitar a troca de todas as mercadorias. Neste contexto de argumentação, este equivalente seria justamente a quantidade de trabalho concretizada nessas mercadorias. Mercadorias contendo quantidades iguais de trabalho, ou que podem ser produzidas no mesmo tempo de trabalho teriam, segundo a teoria, o mesmo valor. A produção de um bem que requeira 4 dias para ser produzido, traz um quantum de horas que se expressa num valor em moeda que contem esse número de horas. Disso decorrem duas noções basilares: 1)A mais-valia pressupõe que a fonte de todo e qualquer valor seja o trabalho e; 2) Todo valor de troca é expressão do valor de uso e para que haja troca é importante um equivalente geral entre as mercadorias. Na discussão da mais-valia a força de trabalho é também ela definida como uma mercadoria que tem a capacidade de alterar valores, incluindo o de si própria. Ela é uma mercadoria que tem elasticidade e por isso possibilita a produção da mais-valia. Por conseguinte ela gera valor, é a verdadeira, a única e universal fonte do valor. A mais-valia é entendida aqui como uma expressão de relações sociais na medida em que envolve o trabalho humano e é em certa medida inseparável dele. MENGER, A ECONOMIA POLÍTICA CLÁSSICA E A TEORIA DO VALOR Smith (1983) admitiu a hipótese de que alguns tipos de trabalho geram algum valor que não pode ser calculado em quantidades de horas; ele retoma esta questão mostrando que existem casos em que o valor não se explica pela quantidade de trabalho. Um argumento que é tributado a ele na verdade não lhe pertence; na sua obra não existe a questão universal de que haja produtos cujo valor seja determinado pelas quantidades de horas de trabalho. Ele, assim como Ricardo, só admite isso em casos de exceção. Ele não utilizava a expressão value

3753 que seria o valor no sentido literal da palavra, ele utilizava a expressão worth que significa valor, num sentido amplo da palavra. Smith (1983) utilizava worth em inglês, se referindo a palavra em termos de uma acepção coloquial em inglês. Nessa língua esse conceito é muito preciso, já em português o valor, expressando quantidades e valor no sentido coloquial da palavra, não tem palavras distintas para ser expressado. Smith (1983) assumia que havia situações raras em que a quantidade de trabalho determinava o valor; principalmente nas que a tecnologia fosse menos desenvolvida, haveria casos apenas, mas não que isso fosse regra geral para se explicar o valor. Pode-se dizer que não se trata de uma análise que se fundamenta na idéia de valor como determinado pela quantidade de trabalho. Em Ricardo (1983) a noção de valor como quantidade de trabalho refere-se ao estado primitivo da sociedade e não a sociedade capitalista de seu tempo. Dessa forma esse conceito de valor não teve para ele o significado de um mecanismo universal de funcionamento da sociedade capitalista. Uma fonte de pesquisa interessante sobre essa parte é a primeira geração da Escola Austríaca de Economia. Especialmente Carl Menger (1983) e Böhm-Bawerk (1986). Aqui o valor apresenta uma série de determinantes subjetivos, endógenos ou exógenos. Menger (1983) enfatiza o papel das relações de comércio e de sua concorrência imanente sobre a anatomia dos valores de troca. Ele exemplificou isso com o caso das flutuações das Bolsas de valores em razão de boatos. O desenvolvimento tecnológico torna ainda mais complexo sistema de produção. Surgem infinitas classes de infoprodutos sem custos marginais e paulatinamente torna-se mais difícil determinar o valor com base na quantidade de trabalho socialmente necessário para a sua produção. Ao lado disso, vemos uma expansão relevante do setor de serviços, especialmente os de corretagens que vivem de oportunidades descobertas e que não são do conhecimento de todos. Também não pertence à Economia Política a idéia de que para trocar uma mercadoria é preciso haver uma igualdade entre elas, algum equivalente geral, como na interpretação marxista. Segundo a Economia Política na economia ocorre o contrário, os agentes que trocam as mercadorias, fazem isso não porque exista uma igualdade, uma equivalência geral, mas porque eles trocam os produtos justamente porque há uma desigualdade. Se existisse uma igualdade perfeita entre eles, a necessidade de trocar seria muito menor; no processo real da

3754 economia existe a desigualdade de vários modos: renda, segmento social, poder aquisitivo, gostos individuais, valor morais, etc. Com efeito, seria muito difícil admitir a igualdade entre as pessoas no atual estágio da economia onde a troca é de fato efetuada. Os membros da Escola Austríaca foram os que recuperaram inicialmente a Economia Política na Alemanha; de início temendo o avanço do nacionalismo e posteriormente o do nazismo. Ela também não foi a única teoria de pensamento econômico a desacreditar a idéia quantitativa do valor. Tal como Carl Menger (1983) e Böhm-Bawerk (1986), dentro da chamada teoria neoclássica, autores como Jevons (1983) e Marshall (1983) fizeram a chamada interpretação marginalista do valor. Segundo Marshall o aumento da quantidade de bens para um indivíduo faz decrescer a sua utilidade. Na microeconomia clássica de inspiração neoclássica também não foi assumido o pensamento de que o valor era uma mensuração quantitativa do valor de uso ou de satisfação do consumidor. O princípio da utilidade marginal que em parte foi utilizada pelos autores da Escola Austríaca de economia mostrava que a utilidade dos bens alterava os valores. Para Menger (1983) os ganhos gerados pela poupança ou originados pela renda do capital não lograriam explicação econômica plausível sob o ponto de vista da quantidade de trabalho. Existe uma oposição sistemática à idéia de que a sociedade e o lucro sejam baseados no trabalho não pago. Podem ocorrer situações em que o lucro do empresário seja oriundo do trabalho não pago, mas não seria razoável tomar como universal essa condição singular e que tem diminuído drasticamente com o desenvolvimento da tecnologia e das instituições jurídicas-políticas modernas. Existe uma teoria da subjetividade do valor formulada especialmente por Carl Menger (1983), ele enfatizou as relações de oferta e demanda em consonância com os interesses individuais. Em Menger, o valor está relacionado ao juízo de valor dos indivíduos acerca dos seus próprios interesses; é de acordo com eles que os indivíduos tomam as suas decisões de pagar um determinado preço por um produto. Em Menger (1983), os conceitos de valor de uso e de valor de troca são relevantes para a compreensão do valor na medida em que se afiguram como faces de uma mesma moeda. O valor de uso é aquilatado pela importância que os indivíduos atribuem ou presumem acerca de um bem em específico. O valor de troca guarda nexo forte com as condições de mercado tanto do lado da oferta quanto do lado da demanda do bem ou serviço.

3755 De acordo com a concepção mengeriana, o valor precisa ser entendido no contexto das trocas subjetivas. O valor dos bens está intimamente relacionado às trocas dos produtos excedentes em relação às necessidades dos indivíduos. Nessa relação de troca são indivíduos reais num processo de mercado que obtém parcialmente as informações de mercado com as quais emitirão o seu juízo que comporá o valor em face de circunstâncias específicas de região, tempo e espaço. CONSIDERAÇÕES FINAIS Este trabalho contrapôs dois conceitos diametralmente opostos acerca do valor. Por um lado vimos como a teoria marxista coloca o trabalho na fonte mesma do valor, concebendo-o especialmente como a sua fonte única de existência. De acordo com essa concepção, o valor seria expressão quantitativa do valor de uso. Por outro lado, foi visto neste artigo a explicação marginalista de Menger (1983). No caso do marginalismo mengeriano, o valor é um conceito subjetivo atribuído pelos indivíduos. A subjetividade desse conceito tem seu substrato na ação e nos julgamentos individuais. O valor está indissoluvelmente relacionado a indivíduos que valorizam os bens ou serviços de acordo com condições específicas de mercado, região, tempo e espaço. A teoria mengeriana repousa sobre o indivíduo e seus julgamentos. Aqui o valor permanece como atributo humano, essencialmente subjetivo, como algo que jamais poderia ter uma objetividade independente do ser humano e dos interesses individuais. Neste sentido, foi que essa concepção se contrapôs às teorias que se basearam em alguma forma de quantificação do valor. REFERÊNCIAS BÖHM-BAWERK, Eugen Von. Teoria Positiva do Capital. São Paulo: Nova Cultural, 1986, (vol. I e II). (Coleção Os Economistas) HAYEK, Friedrich August Von. Fundamentos da Liberdade. Brasília: Ed. Universidade de Brasília; São Paulo: Visão, 1983. (Coleção Pensamento Político) MARX, Karl. O Capital. São Paulo: Abril Cultural, 1983, (Vol. I). (Coleção Os Economistas)

3756 MENGER, Carl. Princípios de Economia Política. São Paulo: Abril Cultura, 1983. (Coleção Os Economistas) MISES, Ludwig Von. Ação Humana: um tratado de economia. 3 ed. Rio de Janeiro: Instituto Liberal, 1990. RICARDO, David. Princípios de Economia, Política e Tributação. São Paulo: Abril Cultural, 198. (Coleção Os Economistas) SMITH, Adam. A Riqueza das Nações: investigação sobre sua natureza e suas causas. São Paulo: Nova Cultural, 1983, (vol. I). (Coleção Os Economistas)