Portabilidade Numérica Este tutorial trata da Portabilidade Numérica, definida como a faculdade do usuário em manter o seu número ao trocar de prestadora de serviços. José Barbosa Mello José Barbosa Mello é sócio e diretor do Teleco, o mais visitado site de informações e uma referência do mercado de telecomunicações do Brasil. É ainda presidente do Conselho de Administração da Pointer Networks (Vex) e conselheiro de outras empresas do setor de telecom. É Presidente do Comitê de TIC - Tecnologia da Informação e Comunicação da Amcham - SP, Câmara Americana de Comércio de São Paulo. Barbosa iniciou o projeto (1998), foi presidente e posteriormente vice-presidente de operações, parcerias e planejamento estratégico da Pegasus Telecom. A empresa construiu uma rede urbana e interurbana de 6.500 km de fibras ópticas na região Centro-Sul e atualmente oferece soluções de comunicação corporativa em mais de 20 cidades da região. Em dezembro de 2002, desligou-se da Pegasus, após a venda da empresa. Anteriormente, trabalhou na Odebrecht onde foi o responsável geral pelo consórcio Avantel, concorrente da Banda B da telefonia celular, formado também pela Airtouch (hoje Vodaphone), Camargo Corrêa, Unibanco e grupo Folha da Manhã. Foi ainda Diretor Superintendente da empresa Soluções Integradas Prolan, que atua no segmento de redes corporativas. Sua experiência profissional anterior inclui vários cargos de direção na área financeira e de engenharia, entre eles de fundador e diretor do Banco Goldmine, diretor financeiro do Grupo Veplan-Residência e diretor financeiro da EBE - Empresa Brasileira de Engenharia. É formado em engenharia pela PUC-RJ e Mestre em Ciências pela Stanford University, USA. Tem boa experiência como palestrante em seminários no Brasil e nos Estados Unidos. E-mail: barbosa@teleco.com.br Duração: 15 minutos Publicado em: 02/05/2005 www.teleco.com.br 1
Portabilidade: Introdução Este tutorial trata da Portabilidade Numérica, definida como a faculdade do usuário em manter o seu número ao trocar de prestadora de serviços. Com mais precisão, a Anatel a define como facilidade de rede que possibilita ao assinante de serviço de telecomunicações manter o código de acesso a ele designado, independentemente da prestadora de serviço de telecomunicações ou da área de prestação do serviço. A portabilidade numérica desconecta o número do telefone de seu endereço original na rede e do operador que originalmente detinha aquele número. Os usuários são os maiores beneficiários da portabilidade numérica, já que, para os operadores, nem sempre o aumento de custos decorrente da implementação é compensado com a receita advinda da aquisição de novos clientes. Para o ambiente competitivo, a portabilidade numérica também é muito positiva, pois elimina uma das barreiras de entrada que os novos entrantes enfrentam, particularmente no caso de clientes empresariais. Para as operadoras fixas, a introdução da portabilidade numérica representa muito mais custos do que a possibilidade de novas receitas. Já para as operadoras móveis, o quadro é diverso. A possibilidade de capturar clientes relutantes em trocar de número e de buscar clientes de maior valor aqueles que geram grandes contas, sejam eles pessoas físicas ou contas empresariais, é um forte incentivo num segmento onde a competição prevalece. Existem três tipos de portabilidade numérica, a saber: 1. Portabilidade entre Prestadoras de Serviço Local ou Móvel, quando os clientes têm o direito de manter o número telefônico ao trocar de provedor de serviço local, móvel ou fixo; 2. Portabilidade Geográfica, quando os clientes têm o direito de manter o número telefônico, como no caso de mudança de endereço; 3. Portabilidade de Serviço, quando os clientes têm o direito de manter o número telefônico, inclusive na troca de serviços (Ex. celular para fixo). O Brasil optou por tornar obrigatória a Portabilidade do tipo 1 Portabilidade de Provedor de Serviço Local ou Móvel, e a portabilidade dos números não geográficos. São números não geográficos aqueles que não permitem identificar o local do número como, por exemplo, os números de serviços de utilidade pública e o serviço 0 800. O Regulamento do STFC diz especificamente no artigo 115: Ao assinante é assegurado o direito de manter o seu código de acesso na mudança do endereço de instalação do seu terminal, quando este contar com a facilidade de portabilidade do código de acesso na forma da regulamentação ou, ainda, se o novo endereço puder ser atendido pela mesma central de comutação. Já o Regulamento do Serviço Móvel Pessoal diz no seu artigo 95: A prestadora deve assegurar o direito do Usuário, de forma onerosa, à portabilidade de Código de Acesso, no prazo e condições definidos na regulamentação. www.teleco.com.br 2
Portabilidade: A Experiência no Mercado Mundial Na União Européia, A diretiva de Serviço Universal e Direitos dos Usuários, de Julho de 2003, estabelece, em seu artigo 30, que os países membros devem assegurar que os assinantes de serviços de telefonia oferecidos ao público, inclusive serviços móveis, poderão manter o seu número, independentemente do provedor de serviços, dentro da seguinte regra: No caso de números geográficos, num local determinado; No caso de números não-geográficos, em qualquer lugar. A diretiva não estabelece a obrigatoriedade da portabilidade numérica entre serviço local e móvel. No entanto, alguns países implantaram a portabilidade entre fixo e móvel como pode ser visto na Tabela abaixo: Telefonia Fixa Fixa e Móvel Telefonia Móvel Canadá Japão República Checa Singapura União Européia Alemanha Austrália Coréia Estado Unidos Holanda Hong Kong Hungria Irlanda Lituânia Reino Unido Suécia Áuatroa Bélgica Dinamarca Eslováquia Espanha Finlândia França Grécia Noruega Portugal Singapura Suíça Fonte: Yankee Group Seminário Telcomp 15/04/2005 Em alguns países da Europa e mesmo nos Estados Unidos onde a portabilidade foi estabelecida na Lei de Telecomunicações de 1996, a implementação foi adiada diversas vezes por dificuldades técnicas e também pela falta de interesse das operadoras. Na Europa, os índices de uso não são elevados, geralmente abaixo de 1% em 12 meses. Nos EUA, onde se esperava que a introdução da portabilidade na telefonia móvel iria causar um grande aumento do churn, isto não ocorreu. Já em Hong Kong, a implantação que ocorreu em 1999, pode ser considerada um sucesso, quando medida pelo número de usuários que se utilizaram da portabilidade numérica. Uma fonte cita 30% no primeiro ano para as operadoras móveis. Segundo outra fonte, o churn, que estava em torno de 3% ao mês Hong Kong tem 6 operadoras móveis, subiu para 5% e hoje se estabilizou abaixo de 5%. Alguns analistas vinculam o sucesso da implantação à maturidade do mercado, o que explicaria o caso de Hong Kong. www.teleco.com.br 3
Portabilidade: Alternativas de Soluções Técnicas e Aspectos Comerciais A implementação da portabilidade numérica implica em mudanças significativas nas redes, como por exemplo, na administração dos números, na sinalização dos elementos de rede, no roteamento e processamento das chamadas, na cobrança ( billing ), etc. Soluções Técnicas Existem quatro alternativas de encaminhamento para um número que mudou de operadora: a) All Call Query (ACQ) A operadora que origina da chamada consulta em todos os casos uma base de dados centralizada (que pode ser própria ou de uma entidade independente) e obtém o roteamento para encaminhamento da chamada. b) Query on Release (QoR) A operadora que origina a chamada consulta primeiramente a operadora que designou o número pela primeira vez, chamada de doadora. Esta libera a chamada e informa que aquele número não pertence mais àquela central. A operadora de origem consulta então a base de dados e procede como no caso anterior. c) Call Dropback (ou Return to Pivot RtR) A operadora que origina a chamada consulta primeiramente a operadora doadora. Esta consulta uma base de dados própria e fornece o novo roteamento. A operadora de origem usa este roteamento para encaminhar a chamada. Não há uma consulta a uma base de dados centralizada. d) Onward Routing (OR) A operadora que origina a chamada consulta a operadora doadora. Esta consulta sua base de dados própria e obtém o novo roteamento. A operadora que designou o número encaminha, ela própria, a chamada para a nova operadora. Este modelo é chamado de encaminhamento indireto. Apenas o ACR evita a consulta à operadora que designou o número pela primeira vez. Existem duas alternativas para o ACR. A primeira consulta a base de dados centralizada em todos os casos. Na segunda, as operadoras mantém uma lista dos blocos de números que foram (ou poderiam ter sido) objeto de mudança e somente consultam a base de dados central, caso o número esteja em alguns dos blocos. Por exemplo, no Brasil, de acordo com a proposta em discussão na Anatel, somente para localidades com população acima de um determinado número de habitantes será obrigatória a portabilidade numérica. Esta seria a lista de blocos. Pelos casos descritos acima, fica claro que um aspecto importante da portabilidade numérica é a decisão, que é mais relativa ao negócio do que à questão técnica, se deverá existir uma base de dados independente caso das alternativas ACQ e CoR, ou as bases de dados serão das operadoras que poderão ser as operadoras doadoras ou todas. Os dois modelos são chamados de Modelo Centralizado que exige uma padronização dos protocolos de sinalização e Modelo Pier-to-Pier ou Bi-lateral, que implica em acordos as operadoras, sem padronização dos protocolos de sinalização. Existe atualmente no mundo uma clara tendência para o modelo centralizado. Modelos de Pagamento Existem algumas alternativas de pagamento pela facilidade da portabilidade numérica. Quanto ao usuário, o pagamento poderá ser feito: www.teleco.com.br 4
a) Pelo assinante que utilizou a portabilidade: Uma única vez na obtenção da facilidade Valor mensal Em cada chamada b) Pelo assinante que originou a chamada: Em cada chamada c) Pelos assinantes do serviço: Valor mensal Na Europa, o valor pago uma única vez pelos usuários varia de zero a 30 Euros, dependendo do país e da operadora. Com relação aos pagamentos entre operadoras ou entre operadoras e a empresa independente no caso do modelo centralizado, existem as seguintes alternativas: Modelo Bi-lateral Modelo Centralizado a empresa que recebe o número paga à empresa cedente um valor a cada transação. modelo igual ao anterior, modelo de custo fixo mensal (ou anual) ou um misto das duas alternativas. www.teleco.com.br 5
Portabilidade: A Situação no Brasil No Brasil, o decreto 4.733 de 10/06/2003 estabelece no seu Artigo 7º que: Art.7º A implementação das políticas de que trata este Decreto, quando da regulação dos serviços de telefonia fixa comutada, do estabelecimento das metas de qualidade e da definição das cláusulas dos contratos de concessão, a vigorarem a partir de 1o de janeiro de 2006, deverá garantir, ainda, a aplicação, nos limites da lei, das seguintes diretrizes: (...) VIII - a possibilidade de ser assegurada aos assinantes de serviço de telecomunicações, residenciais e não residenciais, a portabilidade do número local; (...) IX - a possibilidade de ser assegurada, em todo o território nacional, a portabilidade dos códigos nãogeográficos; Por outro lado, a Portabilidade Numérica está estabelecida como um direito do usuário no Regulamento de Numeração do STFC (art. 12, inciso XVI) e no Regulamento de Numeração do SMP, art. 6º, inciso XVI. Optou-se, como já foi dito, pela portabilidade entre operadoras fixas ou móveis no âmbito local e pela portabilidade entre números não geográficos. A Anatel ainda está avaliando diversas questões tais como o tipo de modelo, se centralizado ou bi-lateral, direitos e deveres de usuários, atribuições das prestadoras doadoras e receptoras, procedimentos operacionais, quanto custa, quem paga, quando implantar, etc. Atualmente, a agência considera a seguinte ordem de implantação: 1. Código Não Geográfico (CNG), 2. SMP Pós pago, 3. STFC em capitais e municípios com mais de um determinado número de acessos instalados (valor ainda não definido), 4. SMP Pré pago e; 5. Demais municípios com mais de uma prestadora de STFC www.teleco.com.br 6
Portabilidade: Considerações Finais A portabilidade numérica já é uma realidade em vários países, aplicando se mais à telefonia móvel do que à telefonia fixa. No Brasil, está em processo de implantação e virá beneficiar os usuários. No entanto, seu custo ainda não foi avaliado e, dependendo do modelo de cobrança adotado, isto pode resultar em maiores custos para todos os usuários. O processo que a Anatel está adotando pretende esclarecer este e outros pontos da implantação. Referências Palestra do Conselheiro Pedro Jaime Ziller em 15/04/2005 Palestra de Gilberto Alves em 15/04/2005 Site: http://www.faqs.org/rfcs/rfc3482.html Documento RFC 3482 - Number Portability in the Global Switched Telephone Network (GSTN): An Overview www.teleco.com.br 7
Portabilidade: Teste seu entendimento 1) Marque a resposta certa A portabilidade numérica significa que o usuário pode levar o seu número local quando troca de operadora de serviço local. A portabilidade numérica significa que o usuário pode trocar o seu número móvel pelo fixo. A portabilidade numérica significa que o usuário pode manter o seu número quando troca de endereço. Todas as respostas estão certas. 2) Marque a resposta certa: Os modelos de encaminhamento de chamadas exigem uma base de dados que contenha todos os números alterados. Os modelos de encaminhamento de chamadas exigem sempre uma consulta à operadora doadora Os modelos de encaminhamento de chamadas podem ser diretos ou indiretos. 3) Marque a resposta certa: Em alguns países, os usuários de portabilidade numérica pagam uma taxa diretamente para a empresa que mantém um cadastro centralizado para ter seu número registrado. Em alguns países, os usuários de portabilidade numérica pagam uma taxa única ao utilizar o serviço. No modelo bi-lateral, as operadoras pagam uma taxa mensal independente no número de transações. www.teleco.com.br 8