PROGRAMA DE MESTRADO E DOUTORADO EM DIREITO Disciplina - Função Socioambiental da Propriedade Pública e Privada - 2016 Professor: Doutor Wallace Paiva Martins Júnior Seminário 25/08/2016 Usucapião individual e coletivo, concessão de uso especial para fins de moradia à vista da regularização fundiária e proteção ambiental Discentes: Antônio Pacheco Silva Júnior Marcos Sousa e Silva
REGULARIZAÇÃO FUNDIÁRIA Conceito (art. 46 Lei Minha Casa, Minha Vida) conjunto de medidas jurídicas, urbanísticas, ambientais e sociais que visam à regularização de assentamentos irregulares e à titulação de seus ocupantes, de modo a garantir o direito social à moradia, o pleno desenvolvimento das funções sociais da propriedade urbana e o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado.
PRINCÍPIOS E DIREITOS CONSAGRADOS NA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA QUE SE RELACIONAM COM A REGULARIZAÇÃO FUNDIÁRIA: a) Em relação ao direito de Propriedade: Adoção do Princípio da Função Social da Propriedade como Princípio Norteador da Política Urbana, do Meio Ambiente e das Políticas Agrícola, Fundiária e da ReformaAgrária: Título II Dos Direitos e Garantias Fundamentais Art. 5 - XXII é garantido o direito de propriedade XXIII - a propriedade atenderá a sua função social.
b) Em relação ao Meio Ambiente Art. 225 CF: Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondose ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações; c) Em relação à política urbanística: Art. 182 da C. F. Objetivos - ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e garantir o bem estar de seus habitantes, notadamente por meio do Plano Diretor - Principal Instrumento da política de desenvolvimento e de expansão urbana.
d) Em relação ao direito difuso de moradia: Direito à Moradia como um Direito Fundamental (direito social) Artigo 6 da CF. e) Em relação à qualidade de vida: art. 225 (meio ambiente ecologicamente equilibrado); bem-estar dos habitantes (art. 182) e melhores condições habitacionais art. 23, IX.
Constituição Federal BASE LEGAL Função social da propriedade, direito à moradia, meio ambiente ecologicamente equilibrado. Capítulo da Política Urbana Art. 183: Usucapião especial urbano e concessão de uso Estatuto da Cidade Lei 10.257/2001: Art. 4º, inciso V: Instrumentos jurídicos e políticos (regularização fundiária, em si, é um dos instrumentos do Estatuto da Cidade)
BASE LEGAL Lei Federal nº 6.766, de 1979 Estabelece regras para o parcelamento do solo urbano, nas modalidades loteamento. Medida Provisória nº 2.220, de 2001 Disciplina o instituto da Concessão de Uso Especial para fins de Moradia vetado no Estatuto da Cidade Decreto-Lei nº 271, de 1967 Disciplina o instituto da Concessão de Direito Real de Uso Lei Federal nº 11.977, de 2009 Dispõe sobre a regularização fundiária de assentamentos urbanos
REGULARIZAÇÃO FUNDIÁRIA NA LEI Nº 11.977/09 Tipos de regularização fundiária Regularização fundiária de interesse social: Tratamento especial na regularização de ocupações de população de baixa renda, que apresentam múltiplas vulnerabilidades, nos aspectos urbanísticos, ambientais, sociais e jurídicos Regularização fundiária de interesse específico: Assentamentos irregulares não enquadrados como de interesse social
REGULARIZAÇÃO FUNDIÁRIA DE INTERESSE ESPECÍFICO ART. 61 E 62 Regras específicas Regularização fundiária de assentamentos irregulares que não se caracterizam como de interesse social Depende da análise e da aprovação do projeto de regularização pela autoridade licenciadora Depende da emissão de licenças urbanística e ambiental Deverá observar as restrições à ocupação de APPs Contrapartidas/compensações urbanísticas e ambientais Medidas de mitigação e compensação integrar termo de compromisso com força de título executivo extrajudicial Registro do parcelamento nos termos da legislação em vigor- Lei 6.766 (Art. 64 da Lei 11977/09)
REGULARIZAÇÃO FUNDIÁRIA DE INTERESSE SOCIAL Caracterização (art. 47, VII) O assentamento irregular pode ser objeto de regularização fundiária de interesse social se for ocupado por população de baixa renda e Preencher os requisitos para usucapião ou concessão de uso especial para fins de moradia (MP 2220/01) Estiver demarcado como Zona Especial de Interesse Social no Plano Diretor ou Lei Municipal específica ou For declarado de interesse para a implantação de projetos de regularização fundiária de interesse social, no caso de áreas da União, dos Estados, Municípios ou Distrito Federal
ZONAS ESPECIAIS DE INTERESSE SOCIAL (ZEIS) ZEIS: áreas destinadas à recuperação urbanística, à regularização fundiária e à produção de habitações de interesse social As ZEIS permitem a adoção de parâmetros especiais de parcelamento, uso e ocupação do solo, adequados e específicos aos assentamentos informais objeto de intervenção Definição legal (Lei 11.977, de 2009, art. 47, V) parcela de área urbana instituída pelo Plano Diretor ou definida por outra lei municipal, destinada predominantemente à moradia de população de baixa renda e sujeita a regras específicas de parcelamento, uso e ocupação do solo
REGULARIZAÇÃO FUNDIÁRIA DE INTERESSE SOCIAL Regras específicas A aprovação do projeto de regularização fundiária pelo Município corresponde ao licenciamento urbanístico e ambiental, se O Município tiver conselho de meio ambiente e Órgão ambiental capacitado No projeto de regularização fundiária, são admitidos parâmetros urbanísticos e ambientais específicos, de acordo com as características da ocupação A implantação da infraestrutura básica deve ser feita pelo Poder Público, de forma direta ou por meio das concessionárias ou permissionárias de serviços públicos A implantação da infraestrutura básica e de equipamentos comunitários pelo Poder Público pode ser feita antes de concluída a regularização jurídica do assentamento irregular
REGULARIZAÇÃO FUNDIÁRIA E PROTEÇÃO AMBIENTAL NA LEI Nº 11.977/09 A regularização fundiária observará as seguintes diretrizes: ampliação do acesso à terra urbanizada pela população de baixa renda, assegurados o nível adequado de habitabilidade e a melhoria das condições de sustentabilidade urbanística, social e ambiental; articulação com as políticas setoriais de habitação, de meio ambiente, de saneamento básico e de mobilidade urbana, nos diferentes níveis de governo e com as iniciativas públicas e privadas; Obrigatoriedade de elaboração de projeto de regularização fundiária (art. 51), contendo medidas de contenção de riscos, de adequação da infraestrutura básica, de compensação urbanística e ambiental e que garantam a sustentabilidade da intervenção.
REGULARIZAÇÃO FUNDIÁRIA DE INTERESSE SOCIAL APP Regras específicas O Município pode admitir a regularização fundiária de interesse social em Áreas de Preservação Permanente:( Art. 54 1º) Ocupadas até 31 de dezembro de 2007 Inseridas em área urbana consolidada Que sejam objeto de estudo técnico, elaborado por profissional legalmente habilitado, que comprove que a intervenção implica melhoria das condições ambientais em relação à situação irregular anterior.
REGULARIZAÇÃO FUNDIÁRIA DE INTERESSE SOCIAL Instrumentos específicos Demarcação Urbanística Procedimento administrativo pelo qual o poder público, no âmbito da regularização fundiária de interesse social, demarca imóvel de domínio público ou privado, definindo seus limites, área, localização e confrontantes, com a finalidade de identificar seus ocupantes e qualificar a natureza e o tempo das respectivas posses Legitimação de posse Ato do poder público destinado a conferir título de reconhecimento de posse de imóvel objeto de demarcação urbanística, com a identificação do ocupante e do tempo e natureza da posse
Aplica-se na regularização de ocupações consolidadas em que não haja conflito com os proprietários da área Pode abranger parte ou a totalidade de imóveis privados de mais de um proprietário ou imóveis públicos DEMARCAÇÃO URBANÍSTICA ART. 56 A 58 Envolve procedimento de notificação pessoal dos proprietários da área e de notificação por edital de confrontantes e eventuais interessados para eventual impugnação no prazo de quinze dias É averbada nas matrículas dos imóveis atingidos Somente pode ser feita pelo Poder Público
Decorre do procedimento de demarcação urbanística Depende da elaboração do projeto de regularização fundiária e do registro do parcelamento, com abertura de matrícula dos lotes Deve ser concedida pelo Poder Público aos moradores de área demarcada que: Ocupem lote ou possuam fração ideal de lote inferior a 250m² Não sejam proprietários, foreiros ou concessionários de outro imóvel urbano ou rural LEGITIMAÇÃO DE POSSE ART. 59 E 60 Não sejam beneficiários de legitimação de posse anterior Deve ser registrada na matrícula do lote correspondente Quando concedida sobre áreas privadas, pode ser convertida em propriedade após cinco anos de seu registro, mediante requerimento do morador legitimado dirigido ao Cartório de Registro de Imóveis (usucapião especial urbana administrativa)
INSTRUMENTOS DO ESTATUTO DA CIDADE PARA A REGULARIZAÇÃO FUNDIÁRIA usucapião especial de imóvel urbano (CF) concessão de uso especial para fins de moradia (disciplinado na MP nº 2.220/01) concessão de direito real de uso zonas especiais de interesse social demarcação urbanística para fins de regularização fundiária (incluído pela Lei nº 11.977, de 2009) legitimação de posse (incluído pela Lei nº 11.977, de 2009) direito de superfície transferência do direito de construir assistência técnica e jurídica gratuita para as comunidades e grupos sociais menos favorecidos
USUCAPIÃO CONCEITO E REQUISITOS CONCEITO: resumidamente, é o modo de aquisição originária de propriedade, pelo uso, desde que cumpridos os requisitos exigidos pela Constituição da República ou pela legislação ordinária. REQUISITOS MÍNIMOS: a) posse mansa; b) pacífica; c) contínua. A exceção dos bens públicos, todos os outros são passíveis de usucapião.
USUCAPIÃO ORDINÁRIA/COMUM Bem imóvel: CC 1242 Requisitos: Além de posse mansa, pacífica e contínua pelo prazo de dez anos. a) Boa-fé; b) Justo Título; O justo título em todos os casos de usucapião ocorre com a apresentação de qualquer documento demonstrativo da legitimidade da posse. Ex: contrato de compra e venda. O prazo cai para 5 anos, se tiver finalidade habitacional. Não há limite de área. (artigo 1242, parágrafo único estabelecimento de moradia ou investimento de caráter social ou econômico. USUCAPÍÃO ORDINÁRIO HABITACIONAL SOLO URBANO OU USUCAPÍÃO ORDINÁRIO PRO LABORE SOLO RURAL)
CC art. 1238 parágrafo único: Mesmos requisitos com acréscimo do uso do imóvel para fins de moradia, para solo urbano, ou para fins de exploração econômica (extrativista, pecuária, agrícola) para solo rural. O prazo da posse cai para 10 anos. Obs: não existe qualquer tipo de especificação sobre limite de área. USUCAPIÃO EXTRAORDINÁRIA Bem imóvel: CC art. 1238 Requisitos: É necessária a posse mansa, continua e pacífica, contudo, não se exige boa-fé ou justo título. Prazo de posse contínua: 15 anos; USUCAPIÃO EXTRAORDINÁRIA HABITACIONAL ou PRO LABORE
USUCAPIÃO CONSTITUCIONAL OU ESPECIAL HABITACIONAL (pro morare ou pro misero) CF art. 183 e CC art. 1240 Requisitos a) Não se exige boa-fé ou justo título; b) O imóvel URBANO não pode ultrapassar 250 m²; c) O possuidor não pode ser titular de outro imóvel seja ele rural ou urbano. d) Utilização para moradia própria e da família. Prazo de posse contínua por 5 anos. USUCAPIÃO CONSTITUCIONAL OU ESPECIAL PRO LABORE CF art. 191 e CC art. 1239 Requisitos: a) Não se exige boa-fé ou justo título; b) O imóvel RURAL não pode ultrapassar 50 hectares; c) O possuidor não pode ser titular de outro imóvel seja ele rural ou urbano. d) Tornar produtiva pelo trabalho do possuidor ou de sua família. Prazo de posse contínua de 5 anos.
USUCAPIÃO ESPECIAL DE IMÓVEL URBANO É direito subjetivo previsto no art. 183 da CRFB O Estatuto da Cidade disciplinou a aplicação do instituto na modalidade coletiva Forma originária de aquisição de propriedade Instituto aplicável apenas em áreas particulares: aquisição de imóveis públicos por meio de usucapião é vedada constitucionalmente Requisitos: possuir como seu, ininterruptamente e sem oposição, pelo prazo mínimo de cinco (5) anos, área urbana com metragem máxima de 250m², para fins de moradia sua ou de sua família, desde que não seja proprietário de outro imóvel urbano ou rural Pode ser requerida na forma individual ou coletiva
USUCAPIÃO ESPECIAL DE IMÓVEL URBANO Só pode ser concedida uma vez; o direito é transmitido inter vivos ou causa mortis; pode ser invocada como matéria de defesa. Modalidade coletiva admitida em áreas urbanas superiores a 250 m², ocupadas em regime de composse por população de baixa renda. Na modalidade coletiva, admite soma de posses Constitui condomínio especial indivisível, extinto apenas mediante deliberação de 2/3 dos condôminos, no caso de urbanização posterior à sua constituição Acordo escrito entre condôminos poderá definir frações diferenciadas, sendo a regra a outorga de frações ideais A sentença declaratória vale como título hábil para o registro no cartório de registro de imóveis. Ação de usucapião especial urbano necessita da intervenção obrigatória do Ministério Público. Aplicáveis os benefícios da justiça e da assistência judiciária gratuita, inclusive perante o cartório de registro de imóveis.
CONCESSÃO DE USO ESPECIAL PARA FINS DE MORADIA (CUEM) Instituto aplicável em áreas públicas, análogo ao usucapião especial urbano, que, entretanto, não implica aquisição da propriedade. É direito subjetivo Requisitos: posse ininterrupta e sem oposição, anterior a 30 de junho de 1996, de área urbana com metragem máxima de 250m², utilizada para moradia do ocupante ou de sua família, desde que este não seja proprietário de outro imóvel urbano ou rural. Pode ser requerida na forma individual ou coletiva Constitui contrato por tempo indeterminado e resolúvel É direito real passível de hipoteca
CONCESSÃO DE USO ESPECIAL PARA FINS DE MORADIA (CUEM) Deve ser outorgada gratuitamente Só pode ser concedida uma vez É transferível por causa mortis ou inter vivos Na modalidade coletiva, admite soma de posses Título concedido pela via administrativa ou judicial O Poder Público tem um ano para decidir o pedido Em casos de risco à vida, o direito deve ser reconhecido em outro local É facultada a outorga em outro local nos casos de imóvel: a) de uso comum do povo; b) destinado a projeto de urbanização; c) de interesse da defesa nacional, da preservação ambiental e da proteção dos ecossistemas naturais; d) reservado à construção de represas e obras congêneres; e) situado em via de comunicação.
CONCLUSÃO REGULARIZAÇÃO FUNDIÁRIA Duas visões predominantes: Stricto Sensu: regularização jurídica dos assentamentos e titulação dos imóveis aos possuidores. Latu Sensu: regularização jurídica, ambiental, urbanística e social, que podemos chamar de regularização fundiária plena, que com a aplicação dos institutos da usucapião e da Concessão de Uso Especial para fins de Moradia (CUEM) pode ser um elemento multidisciplinar de larga proteção ambiental.