O LENHADOR E OS CAJUEIROS Eduardo B. Córdula e Rafael T. Guerra Uma família de retirantes vinda de uma região castigada pela seca no alto sertão paraibano, onde nada nascia e a água era pouca e ruim, procurava um lugar para morar. Estavam chegando com o pouco que havia sobrado do seu sítio, algumas galinhas, um porco e um cavalo que puxava a carroça com o que puderam carregar de mais importante da antiga casa de taipa. - Finalmente, após semanas de viagem, encontrei um bom lugar para morar e reconstruir minha vida com minha família, dizia com muita felicidade seu Joaquim, um lenhador ao chegar ao lugar tão sonhado.
- Praia, rio, cajueiros, um sonho perfeito para meu marido. Aqui seremos felizes, pensou Donana. Madeira para levantar sua casa tinha à vontade. Apesar de haver muitos cajueiros, as outras árvores eram poucas e pequenas. O lenhador pensou que era devido à pouca chuva, mas perto do rio tinha muitas árvores grandes e de madeira boa. Em poucos dias com a ajuda de seus filhos e de sua mulher, levantou sua casa, com madeira de cajueiro mesmo. O chão da casa era de terra batida, e os móveis improvisados com a madeira que sobrou do cajueiro. Na cozinha um fogão improvisado, panelas, potes para água e pratos, tudo feito pela esposa do lenhador com barro tirado perto do rio. Uma casa simples, mas perfeita para quem não tinha nada. Podia-se dizer que os cajueiros eram tudo para o lenhador, pois lhe davam casa, comida, e carvão para seu fogão.
Depois de todo aquele trabalhão para deixarem a casa em ordem, veio um período de descanso que eles bem mereciam. Tempos depois, seu Joaquim o lenhador, resolveu ensinar seus filhos a pescar, pois caçar eles já sabiam. - Não é fácil a vida de pescador. Trançar rede de pesca, construir uma jangada, preparar os anzóis. Mas é divertido não é meu irmão? - É sim. Só brincar e pescar, respondeu o outro. Para eles tudo era alegria, pois não tinham com quem brincar e um dependia do outro. Coisa de irmãos. Donana, trabalhadora e esforçada, cuidava da casa e das roças de milho, feijão, cana e macaxeira. Quando sobrava um tempinho, ia catar frutas na mata. Sabendo cozinhar bem, o que aprendera com sua mãe e com sua avó, a mulher do lenhador fazia doces fantásticos. Seu Joaquim, como fazia muito carvão, trocava o que sobrava com o vizinho que vivia a 5 quilômetros de sua casa. Lá ia ele, uma vez por mês, montado no seu cavalinho levando consigo um saco de carvão. Após alguns anos, usando e abusando dos cajueiros, do barro e das árvores do rio, o lenhador descobriu que estava cercado pelo nada. Os cajueiros grandes que lhes davam cajus em grande quantidade não existiam mais, pois haviam virado carvão. O barro do rio acabou de tanto a mulher do lenhador fazer panelas e pratos, e depois de ter derrubado as árvores que estavam na beira do rio, o restinho de barro que ainda existia, acabou ficando duro demais para ser aproveitado. A caça foi diminuindo e os bandos de marrecos deliciosos sumiram. Diante dessa situação, seu Joaquim um belo dia se sentou na soleira de sua casa, e lembrou do dia em que chegou com sua família ali, naquele lugar onde havia de tudo. Mas como nunca se preocupou em pensar no futuro ele usou e abusou de tudo. E o resultado estava ali diante de seus olhos.
Agora, para conseguir lenha, tinha que andar mais de um quilômetro, e caju que era bom nada. O rio estava secando, pois não tinha mais as árvores que o protegiam e faziam sombra sobre a água não deixando o sol secar tudo. Depois de muito pensar, decidiu fazer algo para desfazer o prejuízo que tinha causado ao seu paraíso. O lenhador resolveu plantar mudas de cajueiros e de outras árvores para repor a sombra, voltar a ter frutos e madeira. Decidiu que só iria cortar o necessário para sua sobrevivência. A sua mulher fez o mesmo com o barro da beira do rio. Seus filhos deixaram de caçar todos os dias. Passaram a caçar apenas quando precisavam de comida. O tempo se passou e muito depois de aprendida a lição, lá estavam ainda Donana e seu Joaquim, velhinhos, felizes e cercados pelos netos e bisnetos que brincavam em volta dos cajueiros plantados pelo velho lenhador.
CHRISTIANE R. C. GUSMÃO Desenhos EDGARD RUIZ SIBRÃO Pintura RAFAEL TORQUEMADA GUERRA Supervisão Geral