ENSAIO-RESENHA. Robert E.Verhine*

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Transcrição:

ENSAIO-RESENHA Robert E.Verhine* Kirk, J. & Miller, M. Reliability and Validity in Qualitative Research. Newberry Park: Sage. 1986. (Qualitative Research Methods Series, 1) Agar, M. H. Speakinq of Ethnographv. Methods Series. 2). Punch, M. The Politics and Ethics of Fieldwork. Methods Series. 3). Fielding, N. & Fielding, J. Linkinq Data. Methods Series, 4) Manning, P. K. Semiotics and Fieldwork. Newberry Park: Sage, 1987. (Qualitative Research Methods Series, 7) Noblit, G. W. & Hare, R. D. Meta- Ethnographv: Svnthesizing Qualitative Studies. Newberry Park: Sage, 1988. (Qualitative Research Methods Series, 11) Morgan, D. L. Focus Groups as Qualitative Research. Newberry Park: Sage, 1988. (Qualitative Research Methods Series, 16) Woteott, H. F. Writinq Up Qualitative Research. Newberry Park: Sage, 1990. (Qualitative Research Methods Series, 20) Os oito volumes citados acima foram doados, recentemente, à biblioteca da FACED pela professora visitante da Fulbright, Adeline Becker. Eles fazem parte de uma série de 25 livretes publicados nos Estados Unidos pela SAGE e focalizam a natureza e a aplicação dos métodos de pesquisa qualitativa. Como se sabe, a abordagem qualitativa é baseada epistemologicamente e operacionalmente, nas tradições da fenomenologia, antropologia e interação simbólica. Procura entender a realidade através de enfoques de significados e através da ênfase no contexto, representação, interpretação e proximidade entre o pesquisador e o objeto estudado. Assim, a perspectiva tem se tornado, muito popular, nos últimos anos, entre os pesquisadores na área de educação. A literatura que lida tanto com o método quanto com as técnicas, no entanto, é muito limitada. Este é um problema não só na língua portuguesa, mas em todas as línguas. Os livros disponíveis em português, tais como MÉTODOS QUALITATIVOS por Ludke & André, tratam somente de uma pequena porção deste modo tão complexo e multi-dimensional da pesquisa social. Desta maneira, a série SAGE de métodos qualitativos representa uma contribuição à literatura que é muito importante. Os livretos, com

cerca, de 80 a 100 páginas cada, são escritos por especialistas na área. Como textos introdutórios, os volumes lidam com assuntos teóricos e éticos assim como procedimentos práticos, e consideram não só os pontos fortes mas também os aspectos fracos da pesquisa qualitativa. Embora sendo escritas em inglês, as apresentações são claras e didáticas e utilizam exemplos concretos e fáceis de ser entendidos. Na discussão a seguir, cada um destes oito livretos será brevemente sumarizado para que os professores e estudantes interessados possam selecionar de maneira efetiva aqueles volumes que forem mais úteis. O volume I da série, por Kirk & Miller (1986), trata de questões de fidedignida-de e validade na pesquisa qualitativa. O argumento-chave deste livro é que a pesquisa qualitativa pode se desenvolver bem, dentro de padrões científicos convencionais, na medida em que os pesquisadores aceitem a meta da objetividade, reconheçam os pontos fortes e fracos da tradição etnográfica e se pre-ocupem não somente com a descrição, mas, também, com a verificação de hipóteses. Para Kirk & Miller, ser científico é relatar cuidadosamente seus procedimentos. Em minha opinião, a parte mais útil do livro cobre as páginas 51 a 59, nas quais os autores fornecem um guia para se redigir, de maneira apropriada, as anotações de campo. O volume II, por Agar (1986), difere do volume i na medida em que o autor aqui questiona a utilidade convencional dos procedimentos científicos como modelo apropriado para os estudos das relações humanas. O autor aproveita a tradição hermenêutica e fenomenológica, colocando o pesquisa-dor no centro do processo da pesquisa. Conseqüentemente, os volumes l e II oferecem perspectivas distintas e antagônicas de como o mundo social pode e deve ser estudado. O autor do volume II propõe uma linguagem etnográfica especializada, caracterizada por conceitos tais como coerência anticoerência, desdobramento, resolução, compreensão e inferência. Ele oferece dois exemplos concretos deste tipo de linguagem para ilustrar como ela capacita os etnógrafos a se comunicarem entre si de uma maneira que é significativa para o tipo de trabalho que eles realizam. O terceiro volume, por Punch (1986), focaliza a política e a ética da pesquisa de campo. O livro aborda a noção de negociação de confiança entre pesquisador e pesquisado, ilustrando-a com exemplos e anedotas interessantes. O autor nota que neutralidade e objetividade são uma questão de perspectiva e que a visão do investigador de tais questões é frequentemente rejeitada por aqueles que são investigados. Punch está contra o uso de códigos morais rígidos porque ele acha que a complexi-dade de assuntos abordados e o grande número de atores envolvidos determinam a não aplicabilidade de regras fixas. Ele acredita, no entanto, que os pesquisadores devem estar sempre atentos para a dimensão ética

de seu trabalho, devendo usar o senso comum e agindo de uma maneira responsável durante o processo de pesquisa. O volume IV, por Fielding & Fielding (1986), discute o processo de ligar méto-dos múltiplos de análise e coleta de dados. Os autores apresentam uma abordagem para integrar as técnicas qualitativas e para ligar os dados qualitativos aos quantitativos. Eles fornecem uma discussão detalhada da noção de triangulação, ilustrando quatro tipos distintos: (1) triangulação de dados, (2) triangulação de pesquisadores, (3) triangulação de teorias, e (4) triangulação de metodologias. O argumento-chave do texto é que ao se usar e ligar abordagens múltiplas, cria-se a possibilidade de desenvolver laços significativos entre a realidade e as teorias sociais. O volume VIl da série SAGE (Manning ) trata do complexo assunto da semiótica. O autor argumenta que o trabalho de campo requer uma teoria da descrição e um método de comparação e que a semiótica, a ciência dos símbolos, oferece aos pesquisadores um guia sistemático. O autor acredita que a abor-dagem semiótica faz com que o pesquisador formalize as relações latentes no mundo da mensagem do discurso do texto e do significado. Este livreto é útil porque ele descreve e explica os princípios da pesquisa da semiótica bem como suas técnicas de campo. O volume XI (Noblit & Hare, 1988) discute a maneira de sintetizar e integrar os estudos qualitativos através de um processo conhecido como meta-etnografia. O livro aborda esse processo, descrevendo como as meta-etnografias são construídas. A meta-etnografia apresentada nesse livro é baseada nas

tradições literárias do interpretativismo. Os termos chaves e os conceitos são vistos como metáforas e não como descrições literais. Essas metáforas são então reduzidas e transformadas em analogias. A síntese fica completa quando a tradução idiomática da analogia faz sentido para o leitor. O livro fornece indicações úteis para a análise textual comparativa de estudos de campo já publicados. Os autores explicam como ler os textos etnográficos cuidadosamente e sugerem caminhos para se conduzir mais efetivamente as revisões de literatura. O volume XVI da série (Morgan, 198S) discute o uso de grupos "focus" na pesquisa qualitativa. O grupo "focus" é uma forma de entrevista de grupo, e como tal, representa uma técnica para estudar idéias em um contexto coletivo. O livro analisa os pontos fracos e fortes dos grupos ''focus", mostra como eles podem ser ligados a outras técnicas de pesquisa (survey, experimento, obser-vaçãoparticipante e entrevista) e indica como podem ser planejados, conduzidos e avaliados. De acordo com o autor, a técnica do grupo "focus" serve como um instrumento importante para especificar a diversidade do significado O volume XX, por Wolcott (1988) focaliza o processo de redação do relatório de uma pesquisa qualitativa. O autor sugere que ao escrever, o pesquisador deve permanecer o mais próximo possível dos dados coletados no campo para que as interpretações sejam bem fundamentadas. O autor considera os problemas conceituais e práticos da redação e discute tipos de relatos, uso da linguagem e recursos de apresentação. Assim, o livro descreve como, quando e onde se começa a redigir, além de abor-dar os problemas referentes à organização de dados, à obtenção de feedback e de revisão de um determinado relatório. O livro conclui com uma série de indicações, demonstrando como publicar relatórios de pesquisa qualitativa na forma de artigos e/ou livros. Eu recomendo todos os oito livros

mencionados a qualquer pessoa interessada na pesquisa social e educacional. Espera-se que a biblioteca da FACED logo adquira os dezessete volumes restantes que fazem parte desta série tão valiosa.