OS DIREITOS E OBRIGAÇÕES DOS SÓCIOS O contrato social é o regulador das relações obrigacionais entre os sócios, alicerçada na Constituição Federal, nas leis e nos princípios gerais do Direito, sendo os direitos e obrigações vigentes a partir da assinatura do contrato, independente da inscrição no Registro Civil de Pessoas Jurídicas (art. 1.001 do CC). No entanto, o art. 1.001 do Código Civil permite às partes estipular data diversa à sua assinatura para que o contrato social e suas cláusulas comecem a produzir seus efeitos. Sobre o assunto alguns doutrinadores entendem que esta data não pode ser posterior ao registro da sociedade. O primeiro ponto importante a se destacar sobre o tema, é que constituída a sociedade, o sócio somente poderá ser substituído no exercício das suas funções, com o consentimento expresso dos demais sócios, mediante a modificação do contrato social, segundo o Art. 1.102 do nosso Código Civil. Nesse passo importa esclarecer que o art. 1.102 do Código Civil exige o consentimento dos demais sócios tão somente nos casos de substituição do exercício das funções sociais e não do exercício dos direitos sociais. A respeito, Gladston Mamede 1 explica que as funções sociais são aquelas desempenhadas na vida da pessoa jurídica, na sua atuação cotidiana, onde se faz necessário o trabalho humano e traz o exemplo de uma sociedade de dentistas ou de advogados, onde cada qual trabalha em seu escritório, não sendo lícito 1 Mamede, Gladston. Direito empresarial brasileiro: direito societário: sociedades simples e empresárias, volume 2. 5ª Ed. São Paulo: Editora Atlas, 2011, pág. 66
transferir essa atuação a outrem, fazendo-o conviver no meio social, sem anuência dos demais sócios. Já no que tange aos direitos sociais, explica o doutrinador, que estes dizem respeito ao universo das relações interna corporis, como assembléias e votações, não havendo desempenho de função social, em sentido estrito, e, portanto, permitese, a outorga de procuração para fazer-se representar por outrem. Com essa mesma idéia de pessoalidade que impera na vida da sociedade, o art. 1.003 do Código Civil dispõe que a cessão total ou parcial de quota, sem a correspondente modificação do contrato social, não terá eficácia quanto aos sócios e à sociedade. Assim, é imprescindível que se leve a registro a modificação do contrato social, para que este tenha validade perante terceiros. Contudo, com o objetivo de se evitar fraudes, a lei determina que até dois anos depois de averbada a modificação do contrato, responde, ainda, o sócio cedente solidariamente com o sócio cessionário, perante a sociedade e terceiros, pelas obrigações que tinha como sócio (parágrafo único do art. 1.003, CC). Disso decorre que a saída da sociedade ou a cessão parcial de quota não dispensa o sócio cedente das obrigações sociais contraídas pela sociedade, respondendo solidariamente com o cessionário, perante a sociedade e terceiros, de acordo com as obrigações que tinha como sócio, tudo em consonância com os princípios da função social dos contratos, boa-fé objetiva e probidade. Dentre as obrigações dos sócios, está também a de integralizar as quotas que subscreveu, nos moldes acordados e dispostos no contrato social, segundo o que prevê o art. 1004 do CC,
primeira parte: Os sócios são obrigados, na forma e prazo previstos, às contribuições estabelecidas no contrato social, (...). Diz ainda, o art. 1004 do CC, parte final, que aquele que deixar de fazê-lo, nos trinta dias seguintes ao da notificação pela sociedade, responderá perante esta pelo dano emergente da mora. Gladston Mamede 2 entende que essa notificação somente se faz necessária em três hipóteses: 1) para dar clareza à obrigação, quando não se tem certeza da sua forma, objeto e prazo, constituindo o devedor em mora, tornando-a líquida, certa e exigível; 2) quando se pretende a exclusão do sócio, após a deliberação da maioria dos demais sócios e por fim, 3) quando a maioria dos demais sócios decidir pela redução da participação do capital social. Entretanto, caso os sócios optem pela execução do contrato social não é necessária a notificação premonitória, prevista no artigo 1.004 do CC, uma vez que o contrato social constitui titulo executivo extrajudicial. Quando a integralização de quota do capital social for por meio de serviços, no caso das sociedades simples comum, em nome coletivo e em comandita simples, exige-se do sócio exclusividade na prestação desses serviços, salvo estipulação em contrário, sob pena de privação dos seus lucros e até mesmo de exclusão da sociedade (art. 1006, CC). Vale destacar, que a exclusividade prevista no art. 1.006 do Código Civil não afronta a garantia de liberdade do exercício profissional, prevista no inciso XIII, do art. 5º de nossa Carta Política, que diz ser livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, 2 Mamede, Gladston. Direito empresarial brasileiro: direito societário: sociedades simples e empresárias, volume 2. 5ª Ed. São Paulo: Editora Atlas, 2011, pág. 68
atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer, isto porque o art. 1006 do Código Civil não está considerando a exclusividade na prestação ou realização de qualquer serviço ou trabalho, mas apenas naquele em que o sócio comprometeu-se em realizar, para integralizar sua participação no capital social, conforme determina o contrato da sociedade. O sócio também possui o direito de participar dos lucros gerados pela sociedade, e o dever de assumir as suas perdas, na proporção da sua quota, se de outra forma não for estipulado no contrato social, sendo nula a estipulação contratual que exclua qualquer sócio de participar dos lucros e das perdas, nos termos dos art. 1.008 do Código Civil, isto porque todos devem contribuir para o desenvolvimento da atividade econômica. Assim, exemplificando, se um sócio possui 20% (vinte por cento) das quotas sociais, participará nos lucros auferidos ou nos prejuízos em idêntico percentual, se o contrato social não estabeleceu de maneira diversa. Importa consignar que, até mesmo o sócio admitido após a constituição da sociedade responde pelas dívidas sociais anteriores à sua admissão, conforme estabelece o art. 1025 do CC: O sócio, admitido em sociedade já constituída, não se exime das dívidas sociais anteriores à admissão. Cumpre referir, por fim, que a distribuição dos lucros deve ocorrer atentando-se a legislação, sendo apurados através de balanço feito conforme as normas contábeis, pois a distribuição de lucros ilícitos ou fictícios acarreta a responsabilidade solidária dos administradores responsáveis e dos sócios que receberam os dividendos (art. 1.009 do CC).
Releva atentar que a distribuição e o recebimento de lucros, em desacordo com a lei, geram além do dever de restituir os valores recebidos indevidamente, o de indenizar os prejuízos que a sociedade e/ou terceiros experimentaram, vez que constitui a prática de um ato ilícito (artigos 186, 187 e 927 do CC). Ante o exposto, seja na constituição de uma nova sociedade ou no ingresso em uma já existente, o sócio adquiri direitos e assume obrigações, decorrente da lei ou do contrato social, o qual vincula as partes e rege a vida da sociedade. Assim, para melhor compreensão e informação sobre o assunto abordado, dentre outros assuntos ligados à área Empresarial, busque profissionais de sua confiança e com a competência técnica necessária para dirimir suas dúvidas. RS ADVOCACIA Rosana Frogel dos Santos OAB/SC 29.135