Análise de Algoritmos

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Transcrição:

Análise de Algoritmos Técnicas de Prova Profa. Sheila Morais de Almeida DAINF-UTFPR-PG julho - 2015

Técnicas de Prova Definição Uma prova é um argumento válido que mostra a veracidade de um enunciado matemático. Para provar algo, pode-se assumir como verdade: a hipótese do teorema, axiomas, outros teoremas que tenham sido provados anteriormente. Com esses fatos e regras de inferência, o passo final da prova é mostrar a veracidade do que está sendo provado.

Técnicas de Prova Os métodos de prova que veremos são importantes não somente porque provam teoremas matemáticos, mas também por terem muitas aplicações na Ciência da Computação. Essas aplicações incluem: verificação de que algoritmos estão corretos, verificação de que sistemas operacionais e protocolos de rede são seguros, construção de inferências na inteligência artificial, verificação de que especificações de software são consistentes, etc.

Terminologia Teoremas são enunciados matemáticos que podem ser provados. Geralmente os teoremas são os resultados mais importantes de um estudo. Outros enunciados menos importantes que podem ser provados e que podem ser utilizados na prova de um teorema são chamados de Proposição ou Lema.

Terminologia Para mostrar que um Teorema, um Lema ou uma Proposição são verdadeiros, nós precisamos apresentar uma prova. A prova é um argumento válido que garante a veracidade do Teorema em todos os casos que o mesmo abrange.

Terminologia Axiomas são verdades absolutas, não precisam ser provados. Corolários são consequências diretas de teoremas que já foram provados. Conjecturas são hipóteses que ainda não foram provadas, mas que acredita-se que sejam verdadeiras devido a algumas evidências parciais ou intuição de algum especialista no assunto.

Terminologia Sobre conjecturas: Quando uma conjectura é provada, ela se torna um teorema. Se um contraexemplo para uma conjectura for apresentado, a conjectura é falsa e não é um teorema.

Terminologia Exemplo: Teorema Se x > y, onde x e y são números reais positivos, então x 2 > y 2. Para provar esse teorema, podemos assumir que são verdades as premissas (também chamadas hipóteses) do teorema: x é um número real positivo; y é um número real positivo; x > y.

Terminologia Além das premissas, podemos usar propriedades dos números reais: 1 Se x > y, então xx > xy. 2 Da mesma forma, se x > y, então xy > yy. 3 De (1) e (2), pode-se concluir que xx > xy > yy. 4 Portanto, xx > yy.

Terminologia Partindo das premissas e de propriedades conhecidas (que são axiomas, ou lemas, proposições e teoremas já provados), devemos criar regras de inferência que nos levem à conclusão do Teorema. (Nesse caso, que nos levem a concluir que x 2 > y 2.) Ao chegar nessa conclusão, desde que as regras de inferência estejam corretas e tenham se baseado em fatos verdadeiros, o Teorema está provado.

Terminologia Observe que o Teorema precisa ser provado para todo o universo que seu enunciado abrange. (Nesse caso, para qualquer que seja o par de números reais positivos x e y). Como a prova deve considerar todos os pares de números reais positivos, apresentar algumas evidências (exemplos que satisfazem o teorema) não é uma prova, pois não cobre todos os casos.

Técnicas de Prova Para provar a proposição x : P(x) Q(x). Deve-se provar que P(c) Q(c) é verdade, para um elemento c qualquer do domínio.

Técnicas de Prova Lembre-se das aulas de Lógica: P(c) Q(c) é verdade, a menos que P(c) seja verdade e Q(c) seja falso. A B A B V V V V F F F V V F F V Então para provar que P(c) Q(c) é verade, só precisamos provar que Q(c) é verdade quando P(c) é verdade.

Prova Direta Para construir uma prova direta para uma afirmação do tipo A B: suponha que A é verdade; os passos seguintes são construídos utilizando-se regras de inferência; a última delas deve implicar que B também é verdade.

Prova Direta Uma prova direta mostra que uma afirmação A B é verdade apresentando argumentos de que se A é verdade, então B tem que ser verdade também. Assim, a combinação A verdade e B falso nunca ocorre. Em uma prova direta, nós consideramos que A é verdade e usamos axiomas, definições, e resultados provados anteriormente, junto com regras de inferência, para mostrar que B também é verdade.

Prova Direta Definição Um número inteiro n é par se existe um inteiro k tal que n = 2k, e n é ímpar se existe um inteiro k tal que n = 2k + 1. Note que um inteiro ou é par ou é ímpar, e nenhum inteiro é par e ímpar.

Prova Direta Exemplo 1 Provar: Se n é um inteiro ímpar, então n 2 é ímpar. Note que esse teorema é uma proposição n : P(n) Q(n), onde: P(n) é n é um inteiro ímpar e Q(n) é n 2 é ímpar. Vamos seguir a convenção usual das provas matemáticas, vamos mostrar que P(n) ser verdade implica que Q(n) tem que ser verdade, sem usar exemplos para tentar provar.

Prova Direta Exemplo 1 Provar: Se n é um inteiro ímpar, então n 2 é ímpar. Demonstração: Suponha que a hipótese é verdadeira, ou seja, n é ímpar. Pela definição de um inteiro ímpar, tem-se n = 2k + 1, onde k é algum inteiro. Nós queremos mostrar que n 2 também é ímpar. Podemos elevar os dois lados da equação n = 2k + 1 ao quadrado para obter uma nova equação que expressa n 2.

Prova Direta Então, n 2 = (2k + 1) 2 = 4k 2 + 4k + 1 = 2(2k 2 + 2k) + 1. Por definição de número ímpar, podemos concluir que n 2 é ímpar (n 2 é duas vezes um inteiro mais 1). Portanto, se n é um inteiro ímpar, então n 2 é ímpar.

Prova Direta Definição Um inteiro n é um quadrado perfeito se existe um número b tal que n = b 2.

Prova Direta Exemplo 2 Provar: Se m e n são quadrados perfeitos, então nm também é um quadrado perfeito. Demonstração: Para produzir uma prova direta desse teorema, suponha que a hipótese é verdadeira, ou seja, considere que n e m são quadrados perfeitos. Pela definição de quadrado perfeito, sabemos que existem dois números inteiros s e t tais que m = s 2 e n = t 2. O objetivo dessa prova é mostrar que mn é um quadrado perfeito quando m e n são quadrados perfeitos.

Prova Direta Para conseguir uma equação com mn, vamos multiplicar as duas equações m = s 2 e n = t 2. Com essa multiplicação, obtemos mn = s 2 t 2, o que implica que mn = sstt = stst = (st) 2. Pela definição de quadrado perfeito, isso implica que mn também é um quadrado perfeito, pois é o quadrado de st, que é um número inteiro. Portanto, se m e n são quadrados perfeitos, então mn também é um quadrado perfeito.

Provas Indiretas Provas diretas assumem que a hipótese é verdadeira e usam regras de inferência para mostrar que a conclusão do teorema é verdadeira. Às vezes, não é possível fazer a prova direta de um teorema. Provas Indiretas Provas de teoremas que não são diretas, ou seja, que não começam assumindo que a hipótese é verdadeira e terminam mostrando que a conclusão do teorema é verdadeira, são chamadas provas indiretas.

Prova por Contraposição Um tipo extremamente útil de prova indireta é a prova por contraposição. Provas por contraposição fazem uso do fato de que a proposição A B é equivalente à sua contrapositiva B A. A B A B B A B A V V V F F V V F F V F F F V V F V V F F V V V V

Prova por Contraposição Observação Pela equivalência entre essas proposições, A B pode ser provada mostrando-se que sua contrapositiva, B A, é verdadeira. Em uma prova por contraposição de A B, deve-se: 1 considerar que B é verdadeira, 2 usar axiomas, definições e teoremas já provados, junto com regras de inferência, e 3 concluir que A é verdadeira.

Prova por Contraposição Exemplo 3 Provar: Se n é um inteiro e 3n + 2 é ímpar, então n é ímpar. 1 a tentativa: Prova direta. Suponha que a hipótese é verdadeira, ou seja, 3n + 2 é um inteiro ímpar. Isso significa que 3n + 2 = 2k + 1, para algum inteiro k. Como esse fato pode ajudar a mostrar que n é ímpar? Vemos que 3n = 2k 1, ou seja, 3n é ímpar, mas não parece haver nenhuma forma direta de concluir que n é ímpar.

Prova por Contraposição Já que a tentativa de prova direta falhou, nossa próxima tentativa é a prova por contraposição. 1 considerar que B é verdadeira, 2 usar axiomas, definições e teoremas já provados, junto com regras de inferência, e 3 concluir que A é verdadeira.

Prova por Contraposição Exemplo 3 Provar: Se n é um inteiro e 3n + 2 é ímpar, então n é ímpar. 2 a tentativa: Prova por contraposição. Considere que a tese da afirmação Se 3n + 2 é ímpar, então n é ímpar é falsa, ou seja, assuma que n é par. Então, por definição de número par, n = 2k para algum inteiro k. Substituindo 2k por n, tem-se 3n + 2 = 3(2k) + 2 = 6k + 2 = 2(3k + 1). Portanto, 3n + 2 é par (pois é um múltiplo de dois), e então não é ímpar.

Prova por Contraposição Portanto, 3n + 2 é par (pois é um múltiplo de dois), e então não é ímpar. Isso é uma negação da hipótese do teorema! Então concluímos que A é verdadeira. Portanto, se n é par, então 3n + 2 é par. Pela equivalência da contraposição, concluí-se que se 3n + 2 é ímpar, então n é ímpar.

Exemplos de Provas Definição O número real r é racional se existem inteiros p e q com q 0 tais que r = p q. Um número real que não é racional é chamado de irracional.

Exemplos de Provas Exemplo 4 Provar: A soma de dois números racionais é racional. (Note que nós queremos provar que Para todo número real r e todo número real s, se r e s são racionais, então r + s é racional. ) 1 a tentativa: Prova Direta. Considere que r e s são números racionais. Pela definição de números racionais, isso implica que: existe um números inteiros p e q com q 0, tais que r = p q, existem inteiros t e u, com u 0, tais que s = t u. Podemos usar essa informação para mostrar que r + s é racional?

Exemplos de Provas O passo óbvio é somar r = p q com s = t u, para obter r + s = p q + t u pu + qt =. qu Como q 0 e u 0, isso implica que qu 0. Consequentemente, pode-se expressar r + s como uma fração de dois inteiros, pu + qt e qu, onde qu 0. Então, pela definição de números racionais, r + s é racional. Portanto, a soma de dois números racionais é racional.

Kenneth ROSEN.Discrete Mathematics and Its Applications. McGraw-Hill Education, 6th edition (July 26, 2006).