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Transcrição:

Tales de Mileto (c. 624-546 a.c.) Tales foi considerado por Aristóteles como o primeiro filósofo, por ter sido o primeiro a buscar uma explicação racional de mundo. Com esse pensador, ele foi o fundador da escola de Mileto, que defendia o monismo, ou seja, partia do princípio de que tudo no universo poderia ser reduzido a uma única substância. Ao pensar em qual a única substância que poderia dar origem a tudo, Tales considerou que ela deveria ser, ao mesmo tempo, essencial à vida e capaz de movimento, ou seja, ser capaz de mudar. Diante de todas as possíveis substâncias, o filósofo considerou que apenas a água satisfazia a ambos os requisitos, assim, definiu que a água era o princípio substancial de tudo o que existia. Isso significa dizer que toda a matéria possui a manifestação de algum estado da água em sua constante transformação: líquida, sólida ou vaporosa. A água é também o princípio vital de todos os seres, pois os penetra e anima. Isso quer dizer que tudo teria alma (isto é, anima ou psyché) e, ao mesmo tempo, tudo seria também divino (ou cheio de deuses ), pois não haveria separação entre o sagrado e o mundano. O universo seria uno e homogêneo (COTRIM, 2013, p. 207). Mesmo a terra, segundo sua concepção, tinha sua origem na água: (...) toda massa de terra parece chegar ao fim à beira da água. A partir disso, [Tales] deduziu que todo o conjunto da terra devia flutuar sobre uma base de água, da qual ele emergiu. Quando ocorre algo que causa ondulações ou tremores nessa água, propôs Tales, nós os sentimos como terremotos (BUCKINGHAM et al., 2011, p. 23). 1

Anaximandro de Mileto (c. 610-547 a.c.) Discípulo de Tales e pertencente à Escola de Mileto, Anaximandro também era um monista. Por mais que tenha observado, estudado e analisado todos os diversos elementos naturais, Anaximandro não conseguiu identificar um deles como o princípio de todas as coisas. Ele concluiu, portanto, que a arché deveria ser uma substância diferente, que transcende os limites do observável: o ápeiron (termo grego que significa o indeterminado, o infinito no tempo). O ápeiron seria a massa geradora dos seres e do cosmo, contendo em si todos os elementos opostos. Segundo sua explicação, por diversos processos naturais de diferenciação entre contrários (por exemplo, frio e calor) e de evaporação teriam surgido o céu e a Terra, bem como os animais, em uma sucessão evolutiva que faz lembrar a bem posterior teoria da evolução das espécies (do século XIX) (COTRIM, 2013, p. 208). Anaximandro vê o cosmo como algo dinâmico, mas limitado no tempo: o cosmo se manteria pelas compensações dos contrários, até que fosse reabsorvido pelo ápeiron, onde encontra sua origem e seu fim. Anaxímenes de Mileto (c. 588-524 a.c.) Discípulo de Anaximandro e o último grande nome da escola de Mileto, Anaxímenes também defendia uma visão monista de mundo. Ele concordava com seu mestre na medida em que este afirmava que a origem de todas as coisas era o ápeiron, mas não aceitava atribuir a característica de arché para essa indeterminação, pois acreditava que o princípio substancial, aquilo que permitia com que todas as coisas existissem deveria ser observável. Em concordância com Tales, Anaxímenes também defendia que a arché deveria também ser o elemento que nos anima, bem como deveria ser um princípio ativo, gerador de movimento. 2

Assim, Anaxímenes atribuiu ao ar a característica de arché: Como nossa alma, que é ar, soberanamente nos mantém unidos, assim também todo o cosmo sopro e ar o mantêm (ANAXÍMENES apud COTRIM, 2013, p. 208). Podemos perceber o ar nos animando através de nossa respiração, bem como sabemos que o ar é gerador de movimento por conta do vento. Pitágoras de Samos (c. 570-495 a.c.) Atribui-se a Pitágoras a origem do termo filósofo: ao ter sido chamado de sábio, ele corrigiu seu interlocutor, dizendo ser apenas um philo-sophos, ou seja, um amigo da sabedoria. Diante da busca pela arché, Pitágoras defendeu que todo o cosmo era governado por regras matemáticas e que todas as coisas poderiam ser reduzíveis a números (há suspeitas de que o filósofo teria chegado a essa conclusão analisando a harmonia dos acordes musicais e unindo à sua análise, seus conhecimentos de astronomia). Além disso, sua concepção de cosmo é, pela primeira vez, mais formal, pois é fundada na ordem e na medida. Quanto à sua concepção de arché, dizemos que é possível perceber em Pitágoras um monismo, na medida em que ele diz que tudo é número, mas também podemos perceber uma concepção dualista da realidade, na medida em que ele afirma que o mundo surgiu de algo indeterminado, apesar de ter uma unidade e ordem universal determinadas pelo limite, que operaria como um deus. 3

Heráclito de Éfeso (c. 535-475 a.c.) Heráclito instaurou uma mudança na busca pela arché conforme vimos até agora: ao passo em que os pensadores de Mileto e Pitágoras buscavam aquilo que permanece em todas as coisas, apesar de suas mudanças, Heráclito optou por concentrar sua reflexão naquilo que muda. Essa é uma das principais características de seu pensamento: a ideia de que tudo flui, ou seja, de que o ser não é mais do que o vir a ser, o devir. Daí aquela famosa frase Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio, porque o rio não é o mesmo, nem você é o mesmo. Dessa ideia, o filósofo concluiu que mundo é formado por uma luta de opostos, e por conta dessa luta tudo está em um constante estado de mudança, por exemplo, o dia muda para a noite, que depois volta a se tornar dia e assim por diante. Como é pela luta de forças opostas que o mundo se modifica e evolui, o único elemento possível como o primordial da natureza (arché) é o fogo: Este mundo, que é o mesmo para todos, nenhum dos deuses ou dos homens o fez; mas foi sempre, é e será um fogo eternamente vivo, que se acende com medida e se apaga com medida (HERÁCLITO apud COTRIM, 2013, p. 210). Parmênides de Eleia (c. 515-445 a.c.) Outra vez, temos uma mudança na forma de reflexão sobre a realidade, que se questionava acerca da preponderância fisicista da escola de Mileto e do mobilismo de Heráclito. Ele atribuía o erro das escolas anteriores à importância que atribuíam aos sentidos. Além disso, discordava completamente de Heráclito na questão de procurar a arché das coisas naquilo que muda: Parmênides retoma a necessidade de se investigar o que de constante há nas coisas, pois essa seria a única possibilidade encontrar o princípio primordial do mundo. Por não acreditar nos sentidos, o filósofo ouviu sua razão para encontrar aquilo que existe de essencial em todas as coisas, concluindo que: O ser é e o não ser não é, 4

ou seja: 1) o ser existe e não é concebível sua não existência, ele é imutável e imóvel, o único que existe. Ele é a substância permanente de todas as coisas, porque é uno, pleno, contínuo e absoluto, assim, o ser é a arché, na visão de Parmênides; 2) o não ser, negação do ser, não possui substância ou essência, portanto é nada e não existe. Por conta de seus pensamentos, foi o primeiro a expor os princípios de identidade e da não-contradição, tão caros à lógica, sendo desenvolvidos posteriormente por Aristóteles. Demócrito de Abdera (c. 460-370 a.c.) O último filósofo que se destacou pela busca da arché foi Demócrito, discípulo de Leucipo. Este último criou a escola atomista, desenvolvida pelo filósofo em questão. Demócrito foi contemporâneo de Sócrates (que nasceu em cerca de 469 a.c.) e, mesmo assim, é classificado como um pré-socrático, justamente porque ainda está preocupado com a busca pela arché. Em suas considerações, Demócrito sugeriu que tudo era composto de partículas minúsculas, invisíveis e indivisíveis, que deveriam ser unos, plenos e eternos, os átomos (termo grego que significa não divisível ), identificando nestes sua arché. Porém, de acordo com a sua concepção, a realidade também é composta pelo vazio, que representa a ausência do ser, ou seja, a ausência dos átomos. Sua existência é necessária, pois sem espaços vazios, diz o filósofo, não teria como haver movimento. Todos os átomos teriam a mesma natureza, porém em sua infinitude (de número), os átomos se diferenciam entre si de três maneiras: figura (A B), ordem (AB BA) e posição (A Ɐ). Referências BUCKINGHAM, Will et al. O livro da filosofia. São Paulo: Globo, 2011. COTRIM, Gilberto. Fundamentos de filosofia. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2013. 5