BOTULISMO EM CÃES - RELATO DE CASO

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Transcrição:

BOTULISMO EM CÃES - RELATO DE CASO SALVARANI, Renata de Sá ALVES, Maria Luiza SUZUKI, Érika Yuri Discentes da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia - FAMED - Garça - São Paulo ZAPPA, Vanessa Docente da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia - FAMED - Garça - São Paulo RESUMO O botulismo é uma doença rara em cães, que tem como causa a ingestão de comida deteriorizada contendo a toxina produzida pelo Clostridium botulinum, a toxina impede a liberação de acetilcolina causando uma disfunção parassimpática que leva a sinais clínicos como paralisia progressiva e ascendente do neurônio motor inferior acometendo nervos cranianos e espinhais, os cães ficam profundamente enfraquecidos, perdem o tônus muscular e não apresentam reflexos espinhais. Este trabalho teve como objetivo analisar a etiologia, as características clínicas, o diagnóstico, o tratamento e o prognóstico do botulismo. Palavras - Chaves: botulismo, cães, CIostridium botulinum, tônus muscular, toxina Tema Central: Medicina Veterinária ABSTRACT The botulismo is a rare illness in dogs, that have as cause the ingestion of deteriorizada food I contend the toxin produced for the Clostridium botulinum, the toxin hinders the acetilcolina release causing a parassimpática disfunção that takes the clinical signals as gradual and ascending paralysis of the inferior motor neuron acometendo cranianos and spinal nerves, the dogs is deeply weakened, loses tônus muscular and they do not present spinal consequences. This work had as objective to analyze the clinical etiology, characteristics, the diagnosis, the treatment and the prognostic of the botulismo. Keywords: botulismo, dogs, muscular CIostridium botulinum, tônus, toxin

1 - INTRODUÇÃO O botulismo é uma doença rara em cães, resulta da ingestão de comida deteriorada ou carcaças em decomposição contendo a toxina pré - formada produzida pela bactéria Clostridium botulinum (NELSON & COUTO, 2001); sendo esta uma bactéria gram positiva, anaeróbica, formadora de esporos, saprófita do solo (ETTINGER & FEELDMAN, 1997). O Clostridium botulinum bloqueia a liberação de acetilcolina na junção neuromuscular, resultando em paralisia completa do neurônio motor inferior. Os sinais clínicos ocorrem horas a dias após a ingestão da toxina (NELSON & COUTO, 2001). Assim que é ingerida, a toxina é absorvida pelo estômago e parte superior do intestino delgado, até os linfáticos. A toxina circula até a junção neuromuscular dos nervos colinérgicos onde exerce seus efeitos. A toxina botulinica impede a liberação pré - sinaptica de acetilcolina. O bloqueio da liberação de acetilcolina resulta em moléstia generalizada do neurônio motor e na disfunção parassimpática (ETTINGER & FEELDMAN, 1997). Os sinais clínicos observados são paralisia progressiva e ascendente do neurônio motor inferior acometendo nervos cranianos e espinhais. Os cães ficam profundamente enfraquecidos, perdem o tônus muscular e não apresentam reflexos espinhais, mas não há atrofia muscular. A propriocepção e a percepção da dor são normais, sem hiperestasia. É comum o acometimento extenso de nervos cranianos. Os cães acometidos podem ter sialorréia, tosse e dificuldade de apreender a comida. Pode ocorrer o aparecimento de megaesôfago, então é comum o animal apresentar regurgitação. Em cães gravemente acometidos pode - se observar midríase (NELSON & COUTO, 2001). A morte pode resultar da paralisia respiratória. A duração da enfermidade nos cães que se recuperam tem variado de uma a três semanas (ETTINGER & FEELDMAN,1997).

O diagnóstico baseia - se nos achados clínicos e/ou na história de ingestão de comida deteriorada. O período de incubação é inferior a seis dias. O botulismo é particularmente provável caso se observe um surto de paralisia neurônio motor inferior em um grupo de cães. A raiva deve ser considerada como diagnóstico diferencial em cães gravemente acometidos. A fraqueza dos músculos da face, da mandíbula e da faringe é muito pronunciada no botulismo (NELSON & COUTO, 2001). Os parâmetros hematolágicos e bioquímicos não são afetados. O diagnóstico de botulismo é confirmado pelo achado da toxina no soro, fezes, vômito ou amostra de alimento ingerido (ETTINGER & FEELDMAN, 1997). Não existe tratamento específico para o botulismo (NELSON & COUTO, 2001). O tratamento auxiliar é extremamente importante, visto que ocorrerá recuperação espontânea nos animais moderadamente afetados, se puderem ser evitadas as infecções respiratórias e do trato urinário. Os animais devem ser protegidos, ou seja, acolchoados, quando na posição de decúbito, e ajudados as refeições, alimentos sólidos e líquidos (ETTINGER & FEELDMAN, 1997). A administração de laxantes e enemas pode ajudar a remover a toxina que ainda não tiver sido absorvida no trato gastrointestinal (NELSON & COUTO, 2001). Para tratamento especifico, a antitoxina não é de fácil obtenção, e seu uso é controverso. A despeito da ingestão da toxina pré - formada, foi recomendada a administração de penicilina 10.000-30.000 UI, VO, BIO, ou Metronidazol 5 mg/kg VO, TID, para redução da população intestinal potencial de Clostridium (ETTINGER & FEELDMAN, 1997). A maioria dos cães recupera -se em uma a três semanas com cuidados de suporte (NELSON & COUTO, 2001). 2 CONTEÚDO O presente trabalho descreve o caso de um cão, macho, com 9 meses de idade, pesando 23,3 kg, sem raça definida, que foi atendido no Hospital Veterinário da

FAMEO - Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia de Garça - São Paulo, no dia 13/07/2007 com queixa principal de não estar andando desde o dia anterior, e estar em decúbito lateral até a presente data. Na anamnese o proprietário relatou que o animal havia ingerido uma carcaça em decomposição. No exame clínico no dia 13/07/2007 o animal apresentava as seguintes características: apático, em. decúbito lateral, estado de hidratação normal, linfonodos normais, mucosas normocoradas, TPC menor que dois segundos, freqüência cardíaca e respiratória normais e temperatura normal. Foi feito os seguintes exames laboratoriais: Hemograma e Urinálise onde não se encontrou nenhuma alteração. A suspeita foi Botulismo, e para confirmar o diagnóstico foi realizado teste de inoculação em camundongos, denominado teste de cintura de vespa, o que confirmou o diagnóstico para Botulismo. O animal foi tratado com terapia de suporte e antibioticoterapia, utilizando -se Cefalexina 500 mg, BIO, durante 10 dias. No retorno previsto o animal apresentava melhora do quadro clínico. 3- CONCLUSÃO O diagnóstico de botulismo em cães deve ser considerado em relação aos diagnósticos diferenciais, quando apresentarem sintomatologia clínica condiscente; apesar de sua ocorrência ser menor que em grandes animais. Os médicos veterinários devem estar atentos a gravidade desta doença que se não for diagnosticada e tratada a tempo poderá levar o animal a óbito.

4 - REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ETINGER, S. J.; FEELDMAN, E. C.; Tratado de Medicina Interna Veterinária, 4ª ed., vol. 2, São Paulo: Manole, 1997. NELSON, R. W.; COUTO, C. G. Medicina Interna de Pequenos Animais, 2ª ed., Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2001.