RECURSO EXTRAORDINÁRIO 769.059 SANTA CATARINA RELATORA RECTE.(S) ADV.(A/S) RECDO.(A/S) PROC.(A/S)(ES) : MIN. CÁRMEN LÚCIA :SUPERMERCADOS XANDE LTDA : JULIANO GOMES GARCIA E OUTRO(A/S) :UNIÃO :PROCURADOR-GERAL DA FAZENDA NACIONAL DECISÃO RECURSO EXTRAORDINÁRIO. DIREITO CIVIL. EXIGÊNCIA DE APRESENTAÇÃO DE CERTIDÕES NEGATIVAS DE DÉBITO PARA AVERBAÇÃO NO REGISTRO IMOBILIÁRIO. MATÉRIA INFRACONSTITUCIONAL. OFENSA CONSTITUCIONAL INDIRETA. PRECEDENTES. RECURSO AO QUAL SE NEGA SEGUIMENTO. Relatório 1. Recurso extraordinário interposto com base no art. 102, inc. III, alínea a, da Constituição da República contra o seguinte julgado do Tribunal Regional Federal da 4ª Região: TRIBUTÁRIO. CERTIDÃO NEGATIVA DE DÉBITOS. ARTIGO 47, II, DA LEI N. 8.212/91. AVERBAÇÃO NO REGISTRO IMOBILIÁRIO. EXIGÊNCIA. CONSTITUCIONALIDADE. A Egrégia Corte Especial deste Tribunal Regional rejeitou, por maioria, a Arguição de Inconstitucionalidade n. 0001351-51.2009.404.7208/SC, D.E. de 16/01/2013, relator para o acórdão Des. Federal Carlos Eduardo Thompson Flores. Ementa: CONSTITUCIONAL. ART.47, I, B, DA LEI N. 8.212/91. CONSTITUCIONALIDADE. 1. Com efeito, a decisão proferida pelo STF na ADI 394, ao declarar inconstitucionais alguns dos dispositivos da Lei n. 7.711/88, não se aplica ao presente
caso, pois exigia quitação dos créditos tributários, enquanto a Lei 8.212 exige apenas a regularidade fiscal. Ademais, a exigência pelo legislador da regularidade fiscal não viola o devido processo legal, eis que a empresa devedora da Previdência Social pode, a todo momento, suspender a exigibilidade do crédito, ao discutir administrativa ou judicialmente, parcelar e, se for o caso, oferecer caução (doc. 21). 2. O Recorrente alega que o Tribunal de origem teria contrariado os arts. 1º, inc. IV, 5º, incs. XIII, XXXV e LIV, 102, 2º, e 170 da Constituição da República. Sustenta que a prova de regularidade fiscal para fins de lavratura e registro de escrituras públicas de imóveis é exigência que fere princípios constitucionais como o acesso ao Poder Judiciário (art. 5º, XXXV) e o devido processo legal (art. 5º, LIV) os quais se encontram entre os direitos fundamentais da CRFB/1988 uma vez que cria a figura da submissão de todos os fatos sociais à vontade fiscal (fl. 17, doc. 28). Requer seja declarada a inexigibilidade da CND/Conjunta e da CND/Previdenciária para fins de registro dos imóveis matriculados sob os ns. 80264, 1014, 48738, 48739, 32087, 22363, 47978, 80980, 8482, 8481 e 80263, todos de Balneário Camboriú-SC, e matrícula 28.300 do Registro de Imóveis de Porto Belo-SC (fl. 32, doc. 28). Analisados os elementos havidos nos autos, DECIDO. 3. Razão jurídica não assiste ao Recorrente. 4. O Tribunal de origem assentou: O artigo 47, I, b, da Lei 8.212, da mesma forma, não viola o livre exercício da atividade econômica, pois a alienação do ativo imobilizado é operação extraordinária da empresa e há exceção prevista no art. 257, 8º, do Decreto 3.048/99, para as empresas cujo objeto 2
social é a alienação de imóveis. A norma em comento visa, apenas, a garantir a segurança jurídica do adquirente de boa-fé, já que, na forma do artigo 185 do CTN, presume-se fraudulenta a alienação de imóvel por devedor com débito inscrito em dívida ativa (fl. 3, doc. 20). Concluir de forma diversa do que decidido pelas instâncias originárias demandaria a análise prévia de legislação infraconstitucional aplicável à espécie (Código Tributário Nacional, Lei n. 8.212/1991 e Decreto n. 3.048/99). Assim, a alegada contrariedade à Constituição da República, se tivesse ocorrido, seria indireta, o que não viabiliza o processamento do recurso extraordinário. Em caso idêntico aos dos autos: AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO DE INSTRUMENTO. TRIBUTÁRIO. ART. 47, II, 1º, DA LEI N. 8.212/91. AVERBAÇÃO DE OBRA DE CONSTRUÇÃO CIVIL NO REGISTRO DE IMÓVEIS. EXIGÊNCIA DE CERTIDÃO NEGATIVA DE DÉBITO CND. PROTEÇÃO AO DIREITO DO FUTURO ADQUIRENTE. OFENSA INDIRETA. MATÉRIA INFRACONSTITUCIONAL. 1. A violação reflexa e oblíqua da Constituição Federal decorrente da necessidade de análise de malferimento de dispositivo infraconstitucional torna inadmissível o recurso extraordinário. Precedentes: AI n. 738.145 - AgR, Rel. Min. CELSO DE MELLO, 2ª Turma, DJ 25.02.11; AI n. 482.317-AgR, Rel. Min. ELLEN GRACIE, 2ª Turma DJ 15.03.11; AI n. 646.103- AgR, Rel. Ministra CÁRMEN LÚCIA, 1ª Turma, DJ 18.03.11). 2. Os princípios da legalidade, do devido processo legal, da ampla defesa e do contraditório, da motivação das decisões judiciais, bem como os limites da coisa julgada, quando a verificação de sua ofensa dependa do reexame prévio de normas infraconstitucionais, revelam ofensa indireta ou reflexa à Constituição Federal, o que, por si só, não desafia a abertura da instância extraordinária. Precedentes. 3. O princípio da legalidade e sua eventual ofensa não desafiam o recurso extraordinário quando sua verificação demanda a análise de normas de natureza infraconstitucional 4. O enunciado n. 636 da Súmula do STF dispõe, 3
verbis: Não cabe recurso extraordinário por contrariedade ao princípio constitucional da legalidade, quando a verificação pressuponha rever a interpretação dada a normas infraconstitucionais pela decisão recorrida. 5. Agravo regimental a que se nega provimento (AI 802.877-AgR, Relator o Ministro Luiz Fux, Primeira Turma, DJe 21.9.2011). E: Recurso extraordinário: descabimento: controvérsia relativa à obtenção de certidão negativa de débito, restrita ao âmbito da legislação ordinária pertinente, insuscetível de reapreciação pela via extraordinária (AI 250.708-AgR, Relator o Ministro Sepúlveda Pertence, Primeira Turma, DJ 12.11.2004). O acórdão recorrido decidiu conflito entre normas infraconstitucionais, referente a expedição de Certidão Negativa de Débitos, o que inviabiliza a admissão do recurso extraordinário. Agravo regimental desprovido (RE 274.362-AgR, Relatora a Ministra Ellen Gracie, Primeira Turma, DJ 8.11.2002). 5. Ademais, o Supremo Tribunal assentou que as alegações de afronta aos princípios do devido processo legal, da ampla defesa, do contraditório e da prestação jurisdicional, quando dependentes de exame de legislação infraconstitucional, podem configurar, se for o caso, ofensa reflexa à Constituição da República, o que não viabiliza a utilização do recurso extraordinário. Assim, por exemplo: A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal firmou-se no sentido de que as alegações de afronta aos princípios do devido processo legal, da motivação dos atos decisórios, do contraditório, dos limites da coisa julgada e da prestação jurisdicional, se dependentes de reexame de normas infraconstitucionais, configurariam ofensa constitucional indireta. 3. Imposição de multa de 5% do valor corrigido da causa. Aplicação do art. 557, 2º, c/c arts. 14, inc. II e 4
III, e 17, inc. VII, do Código de Processo Civil (AI 643.746-AgR, de minha relatoria, Primeira Turma, DJe 8.5.2009). E ainda o Agravo de Instrumento n. 508.047-AgR, Relator o Ministro Cezar Peluso, Segunda Turma, DJe 21.11.2008. Nada há, pois, a prover quanto às alegações do Recorrente. 6. Pelo exposto, nego seguimento ao recurso extraordinário (art. 557, caput, do Código de Processo Civil e art. 21, 1º, do Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal). Publique-se. Brasília, 2 de outubro de 2013. Ministra CÁRMEN LÚCIA Relatora 5